Chico Cerchiaro/Divulgação

‘A ideia da Semana de 22 foi de Di Cavalcanti’, diz o escritor e jornalista Ruy Castro

Que a Semana de Arte Moderna de 22 foi realizada em São Paulo não há dúvida. Mas há quem conteste que a ideia teve origem do grupo de intelectuais da cidade – capitaneados por Mário de Andrade e Oswald de Andrade. E essa pessoa tem nome e sobrenome: Ruy Castro, jornalista e escritor. Em conversa exclusiva com a Agenda Tarsila, o biógrafo diz que partiu de Di Cavalcanti, nascido e criado no Rio de Janeiro, o ensejo do evento.

“Paulo Prado (mecenas) achava São Paulo jeca, mas não tenho certeza se tinham um projeto como esse – pelo menos não naquela época. A ideia da Semana nem foi dele, mas do Di Cavalcanti. Ele só a aprovou e botou o René Thioller  (advogado e escritor) – uma espécie de Amaury Jr. da época – para aliciar os milionários amigos dele para bancar a Semana”, afirma o escritor. 

Fato defendido, inclusive, no seu livro Metrópole à Beira-Mar (Companhia das Letras), onde mostra que a capital do Brasil no início do século passado fervilhava em todos os aspectos, sobretudo do ponto de vista cultural. “Ninguém de fora de São Paulo tomou conhecimento dela (Semana) na época e, mesmo em São Paulo, foram muito poucos. Foi uma ação entre amigos, como se pode ver na própria revista Klaxon, em que eles escreviam uns sobre os outros e ainda tinham de distribuir a revista de graça, porque ninguém se interessava em comprar.” Confira, a seguir, a entrevista completa:

No  seu livro,  Metrópole à Beira-Mar, você mostra que o Rio era moderno muito antes de São Paulo. Isso não teria se dado por ser a Capital do país?

Não. Se ser capital bastasse, Brasília seria hoje a cidade mais cosmopolita do país, e não aquela roça que só funciona de terça a quinta. O Rio era moderno por ser a única cidade internacional do Brasil. E isso desde o século 17, quando se tornou a porta de entrada do país, numa época em que se entrava nos países pelo mar, e por ser o lugar onde todos chegavam, inclusive de todos os Estados, e se misturavam formando uma cultura única. O Rio nunca teve guetos tipo bairro italiano, bairro japonês, bairro nordestino. No Rio, todos os bairros eram – e são – cariocas.  

Você fala sobre a Semana de Arte Moderna, mas como um evento pontual, bairrista, nada que mudaria, como muitos dizem, os rumos da cultura brasileira. Ela não teve a relevância que pintam, na sua opinião?

Não. A Semana só foi importante para São Paulo, onde ainda imperava o  parnasianismo, não havia uma única galeria de arte e as pessoas iam dormir às 9 da noite. Ninguém de fora de São Paulo tomou conhecimento dela na época e, mesmo em São Paulo, foram muito poucos. Foi uma ação entre amigos, como se pode ver na própria revista Klaxon, em que eles escreviam uns sobre os outros e ainda tinham de distribuir a revista de graça, porque ninguém se interessava em comprar. Aliás, tente ler hoje a coleção da revista – há várias edições fac simile – e veja se mesmo na época (hoje nem pensar) dava para ler. Falando em klaxon, que significa buzina em francês e os modernistas viam como o símbolo do modernismo, o Rio já tinha desde 1907 a revista Fon-Fon

Há um trecho do livro Metrópole à beira-mar que fala do Villa-Lobos, que por ser conceituado teria recebido   cachê, o único, na verdade, para se apresentar na Semana. Por que queriam este   nome de peso na Semana?

Ninguém em São Paulo conhecia Villa-Lobos. Foram o Di Cavalcanti, o Graça  Aranha e o Ronald de Carvalho que os convenceram. No Rio, em 1922, Villa-Lobos fazia parte de uma turma que incluía o Di, o Jayme Ovalle, o Manuel Bandeira e outros, e frequentavam juntos os cabarés. Esse tipo de vivência não existia em São Paulo. Villa-Lobos tocava piano em puteiros e no Municipal, ao mesmo tempo.

No texto também senti que notou certo conservadorismo (religioso, social) em   Mário de Andrade, um traço nada moderno. É isso mesmo?

Certo conservadorismo? O homem era um carola de acompanhar procissão, de  vela na mão. Pedia permissão à Cúria para ler certos livros. Morava com a mãe e com as irmãs – aliás, fez isto a vida toda. Tudo isso numa época em que os futuros surrealistas, em Paris, esbofeteavam padres e davam corrida em freirinhas nas ruas. O Di Cavalcanti, que era ateu e comunista, escreveu nas memórias dele que não aguentava a carolice do Mário e o reacionarismo político do Oswald – que também era carola de fazer retiro espiritual e promessa. Confira na última página do Pauliceia Desvairada e do Caderno do Aluno de Poesia de Oswald de Andrade, as graças a Deus em latim (Laus Deo). Veja bem, nada demais em ser carola e reacionário político – o problema é conjugar isso com modernismo…

Você também fala bastante de Ronald de Carvalho, que não é lembrado no time modernista de 22, em um aspecto geral. Qual foi a importância dele para o modernismo?

Ele era um grande poeta e um grande intelectual, leitor em várias línguas e de   várias disciplinas – história, filosofia, diplomacia, militarismo, literatura. Morava na Europa antes da Grande Guerra, fora amigo do Fernando Pessoa, do Sá-Carneiro e do Almada Negreiros em Lisboa – nomes que nem passavam  pela cabeça dos modernistas em 22! – e depois entrou para o Itamaraty. Mário de Andrade foi à casa dele no Rio para ler para ele e para o Bandeira o  manuscrito do Paulicéia Desvairada em outubro de 1921 (encontro intermediado pelo Ribeiro Couto, outro esquecido), como se estivesse pedindo a bênção ao oráculo. 

Acha que a Semana valeu mais para as oligarquias, que queriam colocar São Paulo na mira dos eventos internacionais, do que para cultura brasileira de forma geral?

Paulo Prado (mecenas) achava São Paulo jeca, mas não tenho certeza se tinham um projeto como esse – pelo menos não naquela época. A ideia da Semana nem foi dele, mas do Di Cavalcanti. Ele só a aprovou e botou o René Thioller  (advogado e escritor) – uma espécie de Amaury Jr. da época – para aliciar os milionários amigos dele para bancar a Semana. Os mesmos burgueses que devem ter rido muito quando o Mário declamou a Ode ao Burguês. Queria ver se o Mário teria coragem de escrever uma ‘Ode ao arcebispo’…

Muitos personagens citados no seu livro não ganharam a proporção que mereciam na cultura brasileira, como Gilka Machado, João do Rio. O que acha que aconteceu para não se tornarem visíveis nacionalmente, principalmente do ponto de vista moderno?

Nas décadas seguintes, não tiveram a promoção que mereciam. Isso é típico do Rio – sempre teve tanta gente fazendo tanta coisa que não se preocupa em ficar enchendo a bola deles. Veja os nomes na quarta capa do Metrópole à  Beira-mar – não são nem metade dos nomes estudados no livro.

Dá para traçar um paralelo, dos momentos em que eram vividos há cem anos (gripe  espanhola, pós-primeira guerra), com o que vivemos hoje?

A gripe e o fim da guerra marcaram o começo de uma época extraordinária no mundo, os anos 1920. Vamos ver o que essa nossa década nos reserva – por enquanto começou mal!

(Miriam Gimenes/Agenda Tarsila)

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