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‘A impressão que eu tenho é que (a Semana) era uma molecada se divertindo à beça’, diz Marilia de Andrade, filha de Oswald de Andrade

O seu nome é uma dedicatória de amor: Antonieta Marilia de Oswald de Andrade. O escritor Oswald de Andrade descobriu, quando a mulher, a normalista Maria Antonieta d´Alckmin estava grávida de seu terceiro filho (a) – primeiro dela – que um amigo estava de posse de uma raridade: o original do livro Marília de Dirceu, do escritor Tomás António Gonzaga. Tentou comprar, sem sucesso. Conseguiu então o exemplar ‘emprestado’ e o deu como presente à amada: ‘Para Maria Antonieta d´Alckmin, minha Marília realizada. Oswald.” A filha nasceria um pouco depois e ganhou o Marília no nome, já que a mãe, à exemplo da personagem árcade, era a musa do Andrade. 

O fato é que os dois – pai e filha – conviveram pouco. Quando Oswald morreu, Marilia estava com 9 anos de idade. O que não impediu dela guardar lembranças boas da convivência diária e outras nem tanto. A curadora de sua obra diz que ele ‘foi embora’ triste, chorava às vezes, estava totalmente marginalizado. E ver seu nome voltar à tona, principalmente com a proximidade do centenário da Semana de Arte Moderna, é a glória. 

“Sinto que meu pai explodiu nos últimos anos, como nome, como filósofo, como ideias, literato, poeta. Fico muito cansada (em fazer a curadoria), porque tenho a minha vida pessoal, a carreira artística e, ao mesmo tempo, tenho de reconhecer que fico muito feliz. Agora ele vai ser publicado por uma grande editora mexicana. Em espanhol. Que maravilha!”. Confira, a seguir, a entrevista exclusiva que ela deu à Agenda Tarsila:

Seu pai teve uma participação muito significativa no movimento que começou em 1922, ou teve ali seu marco principal. Você acredita que lá, quando ele começou isso, ele imaginaria que 100 anos depois estaríamos aqui falando disso?

Tenho certeza que não (risos). Primeira coisa: eu não participei da Semana de Arte Moderna, a não ser na genética. Então o que eu sei é através de leituras, estudos, entrevistas, conversas, congressos, essas coisas. Mas tudo é de terceira mão. Ele não chegou, nas memórias dele, infelizmente, ele morreu antes de escrever sobre a Semana. Se ele escrevesse a gente teria esse registro do que ele sentiu. Ele tinha alguns apontamentos sobre o evento, mas não era nada consistente, detalhado. O que eu tenho a impressão, e aí vou falar como Marília de Andrade, e não como historiadora, nem critica, quero deixar bem claro, sou coreógrafa, tenho a minha carreira… A impressão que eu tenho é que era uma molecada se divertindo à beça. Acho que Anita Malfatti e aquela exposição que ela trouxe da Alemanha e que foi um choque na cultura paulistana, de elite e intelectual, ela… Não digo nem que ela tenha liderado, mas impulsionou, trouxe um impulso a um grupo de artistas que já estavam se reunindo, pensando na questão do modernismo, meu pai tinha ido à Europa, tinha voltado com o Manifesto Futurista de Marinetti. Eles estavam já se reunindo, Mário, Oswald, todos, Guilherme de Almeida, Monteiro Lobato, discutindo isso, estava fermentando. Agora a ideia de fazer uma Semana no Theatro Municipal vem muito das reações que vieram da exposição da Anita. As ideias eram aquelas mesmas. Eles chamaram Graça Aranha que nem era do grupo, mas tinha uma respeitabilidade muito grande e gostava das ideias modernistas. Ele deu um status à Semana, (era) mais acadêmico, mais aceito. Agora, eles achavam a maior graça naquilo. Nas vaias, tudo que fizeram, e acho que eles não tinham a menor ideia do que aquilo ia gerar. Sempre tem um marco e a Semana foi uma pedra fundamental. Mas o que realmente aconteceu foi uns 10, 15 anos após a Semana. Quer dizer, a Semana apenas despertou a ideia de que eram modernistas, às vezes chamados de futuristas, que eram uns rapazes e algumas moças que eram de vanguarda, mas que não agradavam ao público. Não interessavam ao público culto, nem à elite, com raras exceções. Claro que teve a (Olívia) Lili Penteado, o Paulo Prado, que financiou muita coisa, mas eram intelectuais diferenciados. A maioria achou aquilo uma bobagem solene. Mesmo depois da Semana, esses artistas, literatos, compositores, tiveram muitas dificuldades para realmente colocar sua obra como algo importante artisticamente. Eu sei que o Mário pagou a impressão dos próprios livros, Oswald também, e assim todos eles. O que surgiu de 1922 a 1940 foi uma produção que, essa sim, revolucionou completamente as artes do Brasil. O que chamo de pedra fundamental que foi a Semana, foi se desenvolvendo em obras e ideias, manifestos e discussões, e brigas… Se desenvolveu artisticamente, amadureceu totalmente, nos anos seguintes. 

E muito disso com os manifestos que seu pai fez, que foram importantíssimos para perpetuação do modernismo nestes 100 anos…

Hoje em dia sou curadora da obra dele e o Manifesto Antropófago virou um must (máximo). É uma celebridade (risos). E eu diria mais ainda, não é todo mundo que entende. Se você ler o manifesto ele é muito difícil de entender. Oswald tinha uma cultura geral tão imensa que ele faz citações uma atrás da outra de figuras, inclusive filósofos gregos, antropólogos, e ele cita como escrevia, telegraficamente. E aí, para você realmente entender, destrinchar o manifesto – o Pau-Brasil é um pouco mais fácil -, mas o Antropofágico precisa ter uma cultura muito grande ou então ter notas de rodapé. Agora, tem aquelas frases clássicas: ‘alegria é a prova dos nove’, ‘tupi or not tupi’…Aí as pessoas ficam repetindo e nem bem entendem o que é antropofagia. Teve uma celebridade que falou: ‘olha, quero ser antropófago. O outro é meu amigo e eu quero ser amigo do outro’ (risos). Mas também, para mim, sinceramente, não faz muita diferença, tudo bem. Acho tão bom que falem da obra do Oswald. Ele morreu tão marginalizado…

Uma vez você me falou que ele morreu muito triste por não ter sua obra reconhecida. Você acha que hoje Oswald tem o reconhecimento que deveria ter tido em vida?

Sim, claro. Eu fico ao mesmo tempo muito comovida com toda essa celebração em torno do nome dele, porque a minha vivência na infância foi nos nove últimos anos da vida dele. Foi um final de vida terrível. Sem ser reconhecido mesmo, marginalizado, atacado e além de tudo muito pobre. Com uma saúde muito debilitada. O pai que eu conheci nada tem a ver com Oswald-Tarsila, não é o mesmo. É um Oswald debilitado, frágil, sofrendo muito, chorando mesmo, porque não seria lido. Cheguei a ouvir isso, uma frase que me marcou na infância: ‘meus livros nunca serão lidos’. Então eu tinha um pai que estava sem recursos de saúde, econômicos, que tinha ainda uma inteligência ativa, porque ele criou muitas coisas nessa época. Fez dois concursos para USP, com tese de livre-docência. Escreveu as memórias, vários artigos para jornal. Intelectualmente ativo, mas sem recursos e sem reconhecimento nenhum. Antonio Candido era um que reconhecia. Mas fora isso…

Isso não impedia dele ser um pai amorosíssimo, como você me contou?

Muito, demais. Neste período da vida com a minha mãe foi a única família que ele teve. Ele, minha mãe, meu irmão e eu. Tinha também os irmãos mais velhos, Nonê e Rudá, mas o Oswald teve (com a gente) um núcleo familiar que nunca tinha tido. Pai, mãe, filhos. E o Boa Sorte teve um papel muito importante nisso. Ele escreveu muito sobre ela, como um refúgio, um lugar de paz. 

O Boa Sorte para quem não sabe foi um sítio em Ribeirão Pires que fomos visitar. Fala um pouco sobre esse sítio e a importância que ele teve para esta convivência familiar. 

Esse sítio era o refúgio do Oswald, onde conseguia melhor ler. Ele se sentia muito mal no apartamento de São Paulo, que era sufocante, segundo ele. Quando chegava no Boa Sorte respirava. Ele não tinha muitas condições de ir, porque tinha tantos negócios difíceis, enrolados em São Paulo, que era difícil tirar uns dias. Ele dizia: ‘ah, quero passar um mês no Boa Sorte!’, mas isso raramente acontecia porque tinha de resolver alguma coisa em São Paulo. Mas ele fala da Boa Sorte como paraíso.

Você herdou uma paixão dele que era a dança. Me conta como tomou essa arte para você e fez dela sua profissão.

Não sei se herdei dele a dança. Ele namorou quando jovem uma jovem dançarina por quem ele se apaixonou perdidamente. O nome dela era Landa. Tinha 20 anos e ela tinha 14. Ele conta nas memórias a história dos dois, que é rocambolesca, inacreditável, dá um romance. Durou anos. Quando eu era pequena sempre tive paixão por música e é engraçado que sempre gostei de música clássica e marchinha de carnaval. Ele tinha muitos discos e eu gostava de Tchaikovsky, Beethoven, tinha essa paixão pela música. E eu devia dançar, toda criança de quatro anos dança… Daí ele achou que eu deveria aprender a dançar e me levou para a melhor escola que tinha na época, de uma professora chamada Carmem Brandão. Surpresa: a Carmem Brandão é a Landa, a paixão dele quando era jovem. E aprendi dança clássica com ela. Vim saber que ela era a Landa quando eu tinha 40 anos. A pesquisadora Vera Chalmers, que pesquisa Oswald de Andrade, me encontrou na Unicamp um dia e falou assim: ‘já sabemos quem é a Landa. É a Carmem Brandão’. Eu disse: ‘não é possível, não acredito’. Meu pai quando conheceu a Landa ela era uma criança quase, na época se casava aos 14 anos, era comum. Mas ele queria se aproximar da família dela e, para tanto, ele era engenhoso. Ela era de uma família polonesa, de mãe judia, queria se converter ao catolicismo e ia estudar no Scala de Milão, eles se conheceram no navio. Meu pai se apaixonou, ela contou que queria ser batizada e aí ele se ofereceu para ser o padrinho dela, porque assim ficaria bem próximo da família, podia conviver com ela. A batizou no Duomo de Milão, porque ela estava lá estudando ballet. Quando eu já tinha uns 40 anos descobri isso (que ela era Carmem), mas ninguém sabia onde ela estava. Mas eu fui a um evento no Theatro Municipal, em uma celebração e alguém falou assim: ‘vamos chamar Carmem Brandão’. Quase desmaiei. Ela chegou bem idosa já, sentou e quando todo mundo saiu do palco, era uma festa do Ballet Stagium e ela foi professora da Marika do Stagium, também. Quando saiu todo mundo do palco, ajoelhei na frente dela e disse: ‘fui sua aluna’. Ela: ‘ah, é? Qual é seu nome?’ ‘Antonieta Marília de Oswald de Andrade’. Ela ficou muda. ‘Preciso saber uma coisa: a senhora é a Landa?’ Ela disse: ‘não sou a Landa, ela já morreu há muitos anos. Mas o seu pai me batizou no Duomo de Milão’ (risos). Ela rejeitava a identidade de Landa e tinha ido para um convento. Depois ela se casou, mudou de nome e foi ser professora de ballet. 

E seu pai tinha essa personalidade engraçada, irreverente. Em uma das entrevistas me falaram que ele gostava de ‘cutucar a onça com vara curta’. Isso também fez ele criar inimizades, até com o próprio Mário. Eles morreram sem fazer as pazes. Você acha que em algum momento ele se arrependeu de ser assim ou isso era mais forte do que ele, Oswald tinha de ser assim?

Ele tinha de ser assim. Em relação ao Mário ele se arrependeu muito e tentou de várias maneiras e eu soube disso porque tive depoimentos pessoais. Fui casada com o filho do Clóvis Graciano (pintor), que conheceu muito meu pai, e ele me falou que inclusive Oswald pediu a ele para interceder junto ao Mário para ‘por favor’ voltar a falar com ele. O Mário nunca aceitou as desculpas e meu pai sofreu demais com a morte dele. E escreveu muito bem dele. Era muito impulsivo e não tinha noção de limites. Se lhe vinha uma ideia ele falava. Por tudo que sei de Oswald não é que ele queria perder o amigo, ele falava porque achava mesmo. ‘Olha, o que você escreveu é uma besteira! Isso aí é um horror’. Ele usava adjetivos mais fortes, mas achava que o cara ia continuar amigo dele. Não era ‘vou brigar com’, não tinha a intenção de brigar. A pessoa ficava inimiga dele toda vida, falava mal dele, punha os jornais contra ele. Mas Oswald era muito da paz, não era briguento, não era uma pessoa agressiva. No entanto, o que ele falava era agressivo. Acho que talvez ele não tivesse a medida da força agressiva, que o que ele estava dizendo ia romper a amizade. Muitas vezes era incoerente. Falava maravilhas do escritor, como do Monteiro. Primeiro contradiz o Monteiro no famoso artigo que ele escreveu contra Anita, mas continuava amigo dele e achava Lobato um grande escritor, até que, de repente, ele vê um outro texto e diz ‘nossa, o que ele escreve é uma besteira’. Entende? Não é uma linha coerente. É claro, ele lia Nietzsche, o filósofo, e gostava. Mas os autores contemporâneos dele… Uma conferência que o Mário fez, ele foi lá e rasgou com o escritor. 

E me fala sobre aquela história de que ele era supersticioso? Oswald em casa, no dia a dia.

Existe um ditado que diz assim: ‘eu tenho todas as superstições que existem e outras que eu invento’. Ele tinha tudo: gato preto que passa na frente, não pode passar em frente da escada, não pode deixar o chapéu em cima da cama, o sapato virado para baixo, tudo isso. A questão do sal: na mesa você nunca passa o sal diretamente na mão de uma pessoa, senão você vai brigar com ela. Põe o sal na mesa e a pessoa pega. Até hoje eu faço isso. E a outra era sempre que tivesse uma comemoração, um momento mais feliz, era comemorar com champagne e antes de tomar jogar no chão, o francês. A outra: se o vinho tinto cai na mesa você pega e passa atrás da orelha, para dar sorte. Eu aprendi com ele. Mesmo se estiver em uma festa formal, se cair um pouquinho de vinho na mesa eu dou um jeitinho de passar na orelha (risos). 

Você é curadora de uma obra grandiosa. Como é para você ter essa responsabilidade e como é rever este legado que seu pai deixou 100 anos depois?

Um trabalho enorme, de curadoria, muito esforço. Felizmente tenho uma agente literária, que cuida do dia a dia. Porque ele é muito requisitado, principalmente, em obras didáticas. De apostilas, livros, e querem usar Oswald. Isso a agência faz. Coisas mais complexas eu entro também para discutir. Recentemente houve uma exposição na África do Sul, em Joanesburgo, sobre as mulheres pintoras da América Latina. E evidentemente o Abaporu estava lá. Eles me pediram o Manifesto Antropófago em inglês. Isso deu um trabalhão danado. Descobri que existe a tradução, mas custei para achar. E fiquei muito orgulhosa de, de repente, meu pai ser reconhecido na África do Sul, em uma exposição muito importante. Sinto que meu pai explodiu nos últimos anos, como nome, como filósofo, como ideias, literato, poeta. Fico muito cansada, porque tenho a minha vida pessoal e de carreira artística e, ao mesmo tempo, tenho de reconhecer que fico muito feliz. Agora ele vai ser publicado por uma grande editora mexicana, em espanhol. Que maravilha! Torço muito para que a obra dele seja conhecida em espanhol, francês e inglês. Porque português é muito difícil, as pessoas não lêem. E nós somos o submundo do hemisfério sul. Somos ‘latins’. Existe um preconceito grande. Acho que se a obra dele fosse divulgada seria um estrondo, na França, na Alemanha, nos Estados Unidos. Espero que agora vá para a América Latina inteira. Estou nessa luta e ele está sendo editado pela Companhia das Letras, que é uma excelente editora. É bastante trabalho, felizmente. 

Se você pudesse encontrar seu pai hoje, o que diria para ele?

Agora você me emocionou (chora). Eu diria para ele o que acabaram de me dizer ainda hoje: ‘Você era um gênio, pai’. 

(Miriam Gimenes/Agenda Tarsila)

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