‘A Semana veio para chacoalhar a arte brasileira, que estava na pasmaceira’, diz o ator intérprete de Oswald de Andrade, José Rubens Chachá

Oswald de Andrade era singular. E mergulhar no seu universo – literário, jornalístico, pessoal – é uma tarefa e tanto. Mas o ator José Rubens Chachá, 66 anos, topou o desafio. Tanto que há anos ‘encarna’ o escritor modernista, seja em peça de teatro, em série global ou em qualquer outro evento em que possa desfilar o personagem. Tanto que foi o convidado da Agenda Tarsila para Live Antropofágica, realizada no dia vinte e um de outubro.

Na ocasião, além de contar diversas curiosidades da vida de Oswald, disse que ele está entre os três maiores escritores brasileiros – ao lado de Machado de Assis e Guimarães Rosa – e analisou o que, de fato, foi o evento que está prestes a completar cem anos. “A Semana veio para chacoalhar um pouco a arte brasileira, que estava na pasmaceira. Aquele estilo meio careta. E o Oswald teve uma grande participação na Semana não só como autor mas também como agitador cultural”. Confira, a seguir, a conversa na íntegra.

Oswald de Andrade foi uma figura única na cultura brasileira. Atuou em jornais, nos livros e se arriscou no teatro, onde só depois foi reconhecido. De que maneira a sua trajetória se juntou à história dele?

Comecei a fazer teatro muito cedo, a princípio como músico, aos 14 anos. E de tanto dar palpite nas montagens, nos ensaios, um cara acabou me empurrando para cima do palco. Acabei virando ator. Durante muito tempo eu fiquei entre a música e o teatro. Mesmo depois que me profissionalizei, continuei cantando nos bares noturnos de São Paulo, boate, enfim. A música sempre foi minha segunda profissão no teatro. Quando comecei no final dos anos 1960, em Santos, não sei por que cargas d’água a gente estava procurando alguma coisa para fazer, montar, não tinha muita informação, de textos nem nada, e foi parar na casa de uma intelectual, uma senhora muito distinta, que nos falou dos modernistas, que até então eu nunca tinha ouvido falar. Ela nos sugeriu que fizesse alguma coisa com o Mário de Andrade. Imediatamente a gente começou a ler, acabei escrevendo uma coisa chamada O Poeta Come Amendoim, uma poesia dele e, de reboque, acabei me interessando também pelo Oswald. A gente não tinha estrutura nenhuma para montar nada e então acabou não saindo este espetáculo. Isso ficou na minha cabeça guardado e, depois de muito tempo, acabei sendo chamado para fazer uma participação como Oswald de Andrade em um filme de Luiz Adriano, em que o foco central era o Mário de Andrade. Eu tinha uma aparição. Fiquei um pouco frustrado porque nesta época eu já tinha começado a ler um pouco do Oswald e foi uma surpresa quando me chamaram para fazer Tarsila. Foram me assistir fazendo uma peça, que eu fazia uma coisa muito extrovertida, para cima, bem falante, e isso atraiu a visão dos produtores e do diretor e acabei sendo cooptado para fazer Tarsila, peça de Maria Adelaide Amaral. Aí sim, houve um mergulho maior na obra dele. 

Primeiro você participou desta peça, depois da minissérie Um Só Coração. Como foi o trabalho de imersão para interpretar essa personagem tão múltipla? A gente pode praticamente dizer que você é um especialista em Oswald…

Fiz realmente uma imersão. Porque quando você interpreta um personagem real, que existiu, nada melhor do que mergulhar na obra dele. Assim como fiz agora com Diego Rivera (pintor mexicano que foi casado com Frida Kahlo), mais recentemente, que fui a fundo na obra dele e descobri o Diego, através das pinturas dele, das declarações em entrevistas, e o Oswald me proporcionou isso. Um mergulho realmente profundo. Como os ensaios demoraram, foram três meses, então foi tempo suficiente para eu devorar praticamente 70% da obra dele. Fiquei realmente apaixonado pela sua literatura. Acho, hoje, ele um dos três maiores autores brasileiros, junto com Machado de Assis e Guimarães Rosa. O Machado pelas coisas que escreveu, sua densidade na literatura, e o Rosa e o Oswald pela inventividade, pela brincadeira que eles fazem com a palavra, com o jeito de escrever, a criação de novas palavras. Fiquei apaixonado por esta irreverência, por esta coragem de ousar. E vi que este personagem tinha coragem de se expor. Fui lendo muito da história dele, estive com Antonio Candido, que foi padrinho de casamento dele e me deu dicas fundamentais de como se portava, como era irreverente, como não respeitava nada e ninguém. Ele fez uma anticandidatura para Academia Brasileira de Letras, que é uma coisa hilária. Duas vezes ele se anti-candidatou e sempre foi um sarro em cima dos velhos que lá estavam, que não trabalhavam, não faziam nada. Ele sempre foi uma pessoa assim que, para arrumar uma briga na esquina, era com ele mesmo. Então isso me inspirou muito do jeito dele falar, se portar, que ele fala das verdades. Isso me influenciou até na minha vida, de falar: ‘por que a gente engole tanta coisa que achamos errado, que a gente não concorda, quando é mais fácil falar?’. E ele arrumou muita inimizade, muita confusão, por causa dessa sua irreverência e sua coragem.

Inclusive com os grandes amigos como Mário de Andrade…

O Mário foi a paixão da vida dele, um cara que ele descobriu. Como jornalista, Oswald foi acompanhar um discurso do Mário e ficou enlouquecido, tanto é que se agarrou com outros jornalistas, brigou de tapa, para conseguir a cópia do discurso do Mário de Andrade e falou que ele era o grande ‘poeta futurista’. O Mário ficou puto, nunca quis rótulo nenhum, nem de modernista, nem de futurista, mas o Oswald arrumou isso para ele. E se tornaram grandessíssimos amigos, responsáveis pelo lançamento do movimento modernista, coisa que o Mário nunca aceitou muito. A irreverência do Oswald fez com que eles rompessem. Até o fim da vida ele tentou se aproximar novamente, mas o Mário nunca perdoou ter sido chamado publicamente de Miss São Paulo versão masculina, de Miss Macunaíma. Ele dava a entender que Mário tinha um pezinho na pederastia, o que prejudicava muito porque ele era professor de piano das moças de família de São Paulo, e o Oswald não estava nem aí, brincava. Também porque ele não tinha também preconceito, achava que o Mário tinha de assumir. Isso levou ao rompimento dos dois.

E toda essa irreverência do Oswald, este perfil contestador que ele tinha, você acha que influenciava no entendimento que as pessoas tinham da obra dele? Que foi talvez um gênio incompreendido e só depois foi revisitado com o Teatro Oficina e o Tropicalismo?

Sem dúvida. Você tocou no ponto chave. Ele nunca amaciou para ninguém. Estava em uma situação que podia falar as verdades para as pessoas. Mesmo amigos dele, quando escrevia alguma coisa que não prestava, ele fazia críticas contundentes. Isso foi gerando um isolamento dele, tanto é que ele morreu, aos 60 anos, praticamente esquecido. Não na miséria, mas com problemas financeiros graves, e esquecido. Ele e a obra dele foram enterrados, literalmente. E quando o Zé Celso Martinez Corrêa descobriu O Rei da Vela, e resolveu montar, coincidentemente foi na época que o Lee Oswald tinha matado o Kennedy. Então o nosso Oswald de Andrade passou a ser chamado de ‘Ôswald’ de Andrade, coisa que ele nunca tinha sido chamado na vida dele. Durante muitos anos foi assim, mas é Oswald, aliás estou até admirado de você estar falando da maneira correta. Muita gente chama ele de Ôswald mesmo. Só depois de O Rei da Vela  que começou a se falar dele novamente, foi um ressurgimento. As obras dele, Serafim Ponte Grande, Memórias Sentimentais de João Miramar, Os Dentes do Dragão, tudo dele voltou a ser publicado e eu tive a honra de fazer uma performance do último lançamento da coleção dele, que a Marília (de Andrade, filha) me convidou e eu apareci lá todo de branco, como se fosse um fantasma, no meio da livraria, quase fui preso ao sair da livraria (risos). 

Ela contou essa história, disse que se emocionou na hora que você chegou lá, era o próprio pai dela presente. Me fala um pouco dessa troca com o personagem que interpreta, você acha que tem um quê espiritual, você ‘incorpora’ o Oswald?

Recebi muitas dicas do Antonio Candido, que infelizmente faleceu há pouco tempo. Ele foi o maior crítico de literatura brasileira, e padrinho de casamento de Oswald e de seus filhos. Depois de muito papo com ele, o velhinho começou a andar pela sala para mostrar como Oswald andava, se portava, e eu consegui, através do que ele escrevia, das entrevistas, ter uma certa ideia de que homem era aquele. Da irreverência dele e como conseguiria trazer aquilo para o palco. E foi um momento muito importante na minha vida o dia que estou tirando a maquiagem no camarim e me falaram: ‘Olha, a filha do Oswald está aí fora. Está te esperando’. Fui lá na plateia, do jeito que eu estava, com a maquiagem no rosto, e ela me abraçou chorando, dizendo que ela tinha, enfim, reencontrado o pai dela, que ela não via desde os oito anos de idade. E perguntou: ‘Como você sabe que ele entrava em casa daquele jeito, gritando? Você pegou o andar dele, a voz dele’. Falei: ‘Olha, Marília, o teatro tem disso, tem os seus deuses sagrados, seus fantasmas que ficam nas coxias, camarins e porões e alguma coisa me trouxe ele inteiro.’ Não sei, foi um encontro de personalidades. O Pascoal (da Conceição), que foi por muito tempo e até hoje ele faz o Mário de Andrade, ele fala e isso me deixa muito envaidecido: ‘se Oswald tivesse vivo hoje e se fosse ator, seria você’ (risos). 

A irreverência, essa ousadia dele, ao mesmo tempo que aproximava de muitas pessoas, afastava também. Tinha muitas dualidades. Deve ser muito rico interpretar uma personagem assim. Como você vê essa dualidade dele?

Se você pegar desde a infância, ele era cheio de contradições. Era um fanático pela Nossa Senhora, até o fim da vida ele rezava, fazia promessas e, no entanto, era um comunista de carteirinha. Então ele conseguia transitar por coisas contraditórias de uma forma tão sem problema e isso é muito gozado. Por exemplo, eles eram uma família de posses, Oswald estudava no Caetano de Campos, um colégio de elite em São Paulo, na Praça da República. E, um dia, um professor dele muito ‘prafrentex’ falou que Deus estava na natureza. Ele chegou e contou aquilo para a mãe dele. Ela tirou, imediatamente, Oswald do Colégio. ‘Como Deus está na natureza, esse cara é louco. Você vai estudar em um colégio católico!’ Ele foi para o Colégio São Bento e lá ele teve uma formação super católica. E começam suas contradições. Realmente foi um cara que, desde o começo, virou crítico teatral, de arte, de literatura, de pintura, com 18 anos. Não sei de onde tirou tanta informação para fazer crítica. Era um cara que tinha fé no seu taco, isso é bacana. 

Você falando tudo isso, me lembrou dos casos amorosos dele. Pelas minhas contas ele casou cinco vezes, era muito superlativo nos sentimentos. Você acha que o amor que ele sentia não só pelas mulheres, como também pela arte, guiou suas obras?

Não vejo nele um autor romântico, nem um poeta romântico. Ele deixou isso para sua vida. A sua escrita, a sua literatura, é muito voltada para uma coisa surpreendente de estilo, de querer impor umas vertentes que os seus manifestos, Antropofágico, Pau-Brasil, era o que guiava mais as suas ideias. E não a parte afetiva. Isso ele deixava para vida dele. Ele sim, era um verdadeiro galinha. Tanto é que em 1915 ele foi morar naquela casa na Augusta onde hoje é o Piolin (cantina), que dava de frente para um colégio, que ele passava a tarde vendo as menininhas no recreio. Ele tinha uma certa paixão pela mulher de uma forma geral. Casou muito cedo na França, trouxe a francesa para o Brasil. Logo depois, quando abriu a garçonnière, onde juntou Monteiro Lobato, Mário de Andrade, e todo mundo, frequentava também a Deise (Dolzani Castro), a Miss Cyclone. Era uma garota, de 18 anos de idade, porra-louca, mas ele se apaixonou por ela. Ela tinha mil casos com outros estudantes na época, mas ele não queria saber. Era louco por ela. Deise adoeceu, teve uma doença terminal, e ele casou com ela no leito de morte dela. Casou in extremis. Se tornou viúvo no dia seguinte. Depois encomendou um busto para o Brecheret, que usamos na peça. Contratamos um falsário, que fez toda obra da Tarsila, de todos os franceses que ela estudou, você jurava que eram quadros reais. E também fez um busto da Deise que tenho aqui em casa. Só não é de pedra como o do Brecheret. E para onde Oswald ia levava o busto – França, Rio de janeiro. A Deise foi uma paixão tórrida, e ele cultuou essa criatura para o resto da vida. Depois casou umas três, quatro vezes, com uma pianista carioca, depois com uma bailarina e finalmente com a Maria Antonieta D´Alckmin, que é a mãe dos dois últimos filhos dele e foi uma mulher que fez com que ele sossegasse. Já estava se aproximando dos 50, não tinha mais aquele vigor para correr atrás de saia e se firmou com ela. Com ela sim, ele teve uma coisa mais romântica. Escreveu várias poesias para ela, inclusive aquela que ele fala ‘Maria Antonieta D´Alckmin, cuida de mim’… 

Você está falando em casamento, a gente não pode deixar de citar a união dele com a Tarsila, que inaugurou um formato em que a literatura conversava com o visual. Você acha que o filho dos dois foi o Abaporu e o movimento Antropofágico?

Sem dúvida. Antes disso, ele influenciou a pintura dela com o Movimento Pau-Brasil, que lançou na França. Quando ela veio para o Brasil com ele entendeu melhor o que seria esse movimento e isso influenciou diretamente a pintura dela. Começou a pintar as paisagens de Minas, os casebres, a coisa mais brasileira, as cores, o assunto dela virou a brasilidade, que a poesia Pau-Brasil buscava. A simplicidade e a brasilidade autêntica, não a folclórica. Esse foi o primeiro casamento, a primeira influência entre os dois, isso em 1924. Em 1928, quando ele ganhou de presente de aniversário o Abaporu, que ela fez para ele, houve, aí sim, esse casamento de ideias, em que ela começou a pintar uma coisa mais mítica, brasileira, sem ser folclórica. Ela começou a viajar para um misticismo brasileiro, mas muito próprio, influenciado pela coisa antropofágica, que consistia mais em pegar os valores e a estética estrangeira, principalmente a francesa, deglutir e transformar aquilo em uma coisa brasileira. Isso que começou a aparecer nas pinturas de Tarsila com este caráter, que o Abaporu, sem dúvida nenhuma, é seu grande quadro. 

Pegando como gancho essa brasilidade da Tarsila, e todo o movimento, uma entrevistada me falou uma coisa que acho real: ‘o modernismo inaugurou a autoestima do brasileiro’. A Semana de Arte Moderna recobrou isso ou inaugurou. Gostaria que você dissesse como vê o movimento passados cem anos de sua realização.

O movimento modernista nasceu em São Paulo e não poderia nascer em nenhum outro lugar do Brasil pelo simples motivo que aqui estava a grana. A indústria brasileira estava nascendo aqui. Os industriais brasileiros, os magnatas, eles frequentavam a Europa, sabiam o que tocava lá, pintava lá, escrevia lá. Ao contrário de hoje, eles eram ricos super esclarecidos, inclusive o Oswald. Ele era muito rico nesta época. A Semana nasceu graças ao incentivo dos industriais paulistas. E só aqui poderia nascer, porque aqui estava esse trânsito de ideias, porque chegavam aqui os catálogos, revistas, coisas trazidas por essa gente de fora e se começou a discutir. A Semana veio para chacoalhar um pouco a arte brasileira, que estava na pasmaceira. Aquele estilo meio careta. Eles vieram para dar uma sacudida nesta pasmaceira das artes brasileiras. O Oswald teve uma grande participação na Semana, não só como autor, mas também como agitador cultural. Na época, não existia esse termo. Mas ele sacou que eles (modernistas) não estavam agradando muito, rolaram umas vaias, não entendiam muito bem a música do Villa-Lobos, a poesia do Raul Bopp, as poesias que o Oswald lia, o Mário, os quadros da Anita Malfatti. Aliás, a coisa começou por causa dela, que fez uma exposição que foi atacada pelo Monteiro Lobato e eles tomaram as dores dela e resolveram criar um movimento, que virou a Semana, financiada por Paulo Prado e todo pessoal da elite. Eu estava dizendo da agitação cultural. Ele pegou as vaias, o descontentamento, temos de transformar isso em um escândalo, porque o escândalo é bom para o movimento. Então ele contratou um pessoal, isso é uma coisa que estou falando porque me garantiram que é verdade, os estudantes de Direito do Largo São Francisco e mandou levarem batatas para que atirassem no palco, fizessem um protesto veemente. E aquilo foi para os jornais no dia seguinte, ele conseguiu o que queria. Que o movimento e a Semana tivessem um lugar de destaque na imprensa e também no Brasil todo. O movimento modernista veio para ficar. Ele deu frutos, o movimento concretista dos irmãos Campos, a própria Tropicália de Gil e Caetano, tudo é fruto dessa brasilidade que a gente começou a assumir e a gostar muito do Brasil a partir disso. Hoje a gente não gosta tanto (risos), mas naquela época ele fez a gente gostar do Brasil. 

Hoje você vê este espírito vanguardista na cultura brasileira? Poderia citar alguém que faz um papel, não igual, mas parecido com o dos modernistas lá no século passado?

Deve ter muita gente praticando e criando coisas do outro mundo, com caráter futurista, moderno, mas como hoje em dia a mídia dissolve um pouco estas informações você não consegue enxergar um movimento, um pessoal de música, ligado ao pessoal das artes plásticas, do teatro, do cinema. Enfim, a coisa está muito dispersa. Na época (da Semana), não sei se é porque as pessoas conviviam, porque não existia televisão, mídias, então as pessoas se encontravam mais. Então, o Mário e os modernistas da literatura, tinham uma convivência íntima com o pessoal da música como Villa-Lobos, Guiomar Novaes, Brecheret, Anita. São Paulo era um pouco menor, então tinha essa troca de informações. Oswald era o grande alto-falante destas coisas que vinham da Europa. Ele trouxe o manifesto modernista do italiano maluco e adaptou. Ele reverbera estas informações e era muito fácil disseminar porque eles se encontravam, praticamente, todo dia. Fizeram a história do Cozinheiro de Todas as Almas, escrito por todos eles, ficava na garçonnière e todos eles escreviam todos os dias, então isso você já vê que era uma forma de se encontrarem e trocarem essa ânsia de serem modernos. Eles queriam chacoalhar o Brasil para que sentisse necessidade dessa modernidade, de sair dessa coisa escravagista, do século 19, muito ranço dessa época. E acho que conseguiram, que a gente, aos poucos, gostasse da literatura brasileira, pouquíssimo lida na época. 

De cada personagem que o ator interpreta, fica um aprendizado. Até porque é um mergulho grande. E você teve um mergulho intenso com Oswald. Se você conseguisse sintetizar, qual o maior aprendizado que teve com ele, o que ficou para você?

Na verdade, a coisa foi tão profunda que acabei virando o Oswald. Cada vez que vão fazer uma festa literária, uma performance, todo ano quando tem o aniversário de São Paulo eu sou chamado com o Mário de Andrade, que é o Pascoal. Com o Pascoal fiz teatro, televisão, cinema, em uma casa de Samba, Terra da Garoa. O diretor, Ulysses Cruz, me chamou para ser o apresentador musical (Sampa). Circulo um pouco com Oswald. Eu e o Pascoal que encarnou, por sua vez, o Mário, a gente até briga às vezes (risos). Ele nasceu, inclusive, no mesmo dia que o Mário. A gente vai fazer apresentação, eu fico defendendo o Oswald, achando que o Mário era careta, e ele fica achando que o Oswald era um inconsequente, um brincalhão, um piadista. Até hoje não conseguimos chegar a uma conclusão. O gozado é isso, eu estudar Oswald e me apaixonar por ele, me passou muitas coisas, que às vezes me traz até dissabores. Como, por exemplo, fui assistir a uma peça que um grande amigo meu dirigiu, e a mulher dele estava no elenco. Chegou no final, falei: ‘Bicho, para tudo! A sua mulher está muito ruim. Volta a ensaiar, estreia daqui uns 15 dias’. É uma sinceridade que fui inspirado por Oswald na época. ‘A arte não tem de ter esses pruridos’. Poxa, o cara é teu amigo, fez uma coisa que não está legal, dá um toque para ele melhorar. Eu sei que fiz isso umas três, quatro vezes, e quebrei a cara. Arrumei umas inimizades boas. Ele influenciou muito na minha escrita também, em teatro, roteiros de cinema, onde sempre parto de uma coisa inusitada. O Oswald sempre me surpreendeu. Quando o leio, às vezes ele termina a frase de um jeito tão absurdo… Essa surpresa é um pouco da chave de sua leitura. Gosto muito de fugir da obviedade. Em cena também, gosto de buscar uma coisa que não seja muito óbvia, gosto que tenha uma cara ‘só eu que faço desse jeito’. 

E você tem uma obra preferida dele que indicaria?

Na verdade Miramar e Serafim Ponte Grande são irmãos. Se você ler os dois na sequência você fala: ‘caramba, é o mesmo personagem’. Não que ele tenha reescrito, nem que tenha amadurecido e resolvido fazer melhor o Serafim… Mas é que ele pegou aspectos que deixou passar no Miramar. O Serafim é um romance mais completo dele. Agora, os romances dele são todos muito legais, gosto muito, e tenho particular carinho, gostaria muito de um dia fazer alguma coisa referente a uma reportagem que fizeram com ele, um livro de entrevista, que chamava Os Dentes do Dragão. O dragão é ele, velho, que está perdendo os dentes. E os caras descrevem muito bem quando vão até a casa dele e encontram aquele velho prostrado, já doente, pronto para morrer, e ele fala com uma sabedoria, e com uma verdade, que eu achei que era o epitáfio dele. O livro seria como o que ele queria deixar como uma última mensagem. Então é o tipo de coisa que eu gostaria de um dia fuçar e fazer algo, no teatro.

E se você encontrasse o Oswald, na sua frente, o que você falaria para ele?

Morreria de medo dele (risos). Era um cara tão brilhante, me sentiria muito pequeno perto dele. Vejo as coisas que ele faz, que ele escrevia, e com uma leveza, uma falta de compromisso. Uma vez ele foi se candidatar a uma cátedra na USP, para ser professor de filosofia, e ele tinha de estudar três grandes filósofos. Dois deles ele dominava, mas tinha um deles que ele nunca tinha lido. E tinha um dos concorrentes dele que era expert nesse filósofo. Ele ligou para o cara e falou para ele: ‘escuta, fala alguma coisa aí do fulano, que vou ter de fazer a prova amanhã, em dez minutos’. O cara: ‘Oswald, pelo amor de Deus, como vou falar do cara em dez minutos?’. Ele: ‘Se você não sabe falar do cara em dez minutos é porque você não sabe nada dele’. O descompromisso dele com essa coisa cultural, que de repente ele ficou malquisto até pelo pessoal da USP, da inteligência brasileira, foi um pouco por causa dessa sua falta de compromisso. Eu fiquei muito feliz porque tanto Tarsila quanto Um Só Coração, que é uma obra televisiva e que o pessoal da USP, Unicamp, das universidades, torcem um pouco o nariz para este tipo de veículo, foi muito elogiado. Os caras escreveram para a Globo dizendo que estava muito benfeito. Claro que, o que estava lá, veio de uma peça. A Maria Adelaide pegou a peça, enfiou dentro da minissérie, e criou todo um universo em volta disso. Eu chegava lá, estava fazendo a peça, não tinha nem de decorar as falas, virei um consultor de modernismo para o resto do elenco. Já tinha pesquisado, estava com tudo quentinho. Foi muito bacana receber esse reconhecimento do pessoal mais intelectual. 

E você fez uma homenagem importante para o Oswald na sua família. Conta um pouco sobre isso.

O Oswald sempre teve um lado folclórico. As pessoas falavam que ele tinha um filho chamado Rolo Metálico. E durante muito tempo falavam que o Rudá chamava Rodo Metálico. E ele, muito cara de pau, achando aquilo muito engraçado, ele era um piadista de marca maior, deixou rolar. Só depois de muito tempo que o Rudá cresceu e o pessoal ficou sabendo que ele não se chamava Rolo Metálico. Esse era o nome do lança-perfume que, quando foi lançado no Brasil, era chamado assim.  Na verdade, Rudá significa amor em tupi-guarani, ou então Deus do Amor. E aí, quando tive meu quarto filho, já estava impregnado de Oswald e procurando um nome bonito, e querendo me ligar ainda mais a esta figura, coloquei o nome de Rudá no meu quarto filho. Todo mundo fala: ‘Nossa, que lindo! É árabe, francês?’ Não, é tupi-guarani. Ele adora o nome e eu mais ainda. 

Ano que vem a gente tem o centenário da Semana de Arte Moderna. Você tem alguma programação, algo previsto para celebrar, o que vem por aí?É uma época muito difícil. Estou trancado em casa, os trabalhos presenciais estão quase que impossíveis. Não vejo grandes perspectivas de montar a curto ou médio prazo alguma coisa. Sei que a prefeitura de São Paulo está incrementando uma grande festa em 2022, comemorando o centenário da Semana. Em 2019 eu e Pascoal fizemos uma passeata por São Paulo comemorando a data do aniversário da cidade. Foi muito legal, gente pra caramba, teve mil ações. Fomos andando por São Paulo com outros personagens também, a Tarsila era Rosi Campos, o próprio Villa-Lobos, caminhamos pelo centro. Terminava no palco do Teatro Municipal. Foi muito bonito, mas deu tudo errado (risos). Falharam os microfones, as pessoas não conseguiam ouvir o que a gente falava, mas foi uma festa bacana. A prefeitura está prometendo que as coisas vão ser mais bem produzidas. Enfim, se me chamarem eu vou. Senão, vou tomar uma champagne sozinho e lembrar que, mesmo na miséria, no fim da vida, quando ele já estava durango, mas tinha algum dinheirinho ainda, ele ia com Nonê, o filho mais velho, para a porta do Mercado Municipal, em um carro velho, com uma garrafa de champagne francesa em um balde de gelo. Eles compravam ostras no mercado e ficavam lá na porta comendo e tomando champagne francês. Quer dizer, ele ficou duro, mas não ficou pobre. Continuava rico no seu gosto, na sua liberdade, na sua cabeça, isso é uma coisa muito bacana da gente falar. Ele nunca se abateu com a pobreza na qual ele foi confinado. Porque ele não vendia mais livro, não era chamado para nada, vivia dos terrenos que herdou do pai, até que acabou. Mas esse dinheirinho para champagne e para as ostras ele guardou.

(Carolina Loback e Miriam Gimenes/Agenda Tarsila)

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