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Academia Latino-Americana de Arte faz exposição em homenagem ao centenário da Semana de 1922

Uma de nossas mais importantes obras modernistas, o Abaporu, de Tarsila do Amaral, ‘vive’ em Buenos Aires. Faz parte da coleção do Malba (Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires). Há muito que o intercâmbio de obras, principalmente na América do Sul, é aquecido. Tanto que há uma instituição sem fins lucrativos, a Academia Latino-Americana de Arte, que faz questão de fomentar essa ‘conversa’ entre vizinhos, não só aqui no Brasil como em outros países. 

E ela é presidida por Fábio Porchat – pai do humorista de mesmo nome -, que há pouco abriu a terceira edição da Exposição Nacional de Artes Plásticas, no Espaço Músico Cultural, que presta uma homenagem ao centenário da Semana de Arte Moderna. Ao todo, são 22 artistas que fazem releituras de obras icônicas e outras pinturas inéditas, que podem ser vistas pelo público até meados deste mês. 

A Semana de Arte Moderna foi um marco importantíssimo para a cultura e as artes do Brasil inteiro. Ocorreu em São Paulo, mas não foram somente artistas paulistas. A Tarsila por um acaso era paulista, mas Anita era italiana. Di Cavalcanti, que confeccionou o cartaz da exposição, é carioca. O Vicente do Rego Monteiro é Pernambucano. Todos eles convergiram para São Paulo onde ocorreu a sede do movimento e aí sim os paulistas têm um grande mérito porque eles que bancaram todo esse evento”, analisa o especialista. Confira, a seguir, a entrevista completa:

Você é presidente da Academia Latino-Americana de Arte e está promovendo uma exposição sobre a Semana de 1922 no Espaço Músico Cultural. Queria que me falasse sobre a mostra que está aberta até meados de abril.

A Academia já tem um grande currículo e felizmente foi muito bem coordenada nestes dez anos que estou trabalhando como presidente à frente dela. Antes era presidida por Carlos Páez Vilaró, uruguaio, um dos mais importantes artistas plásticos sul-americano. Ele passou o bastão para mim e fui me empenhando em organizar exposições e eventos por diversos estados brasileiros e também em outros países latinos. A academia faz diversas exposições como essa que está ocorrendo agora, no Espaço Músico Cultural, que aliás é um lugar belíssimo, que vai terminar dia 14. Organizamos mostras em todos os estados brasileiros para que haja uma comunhão de diversos artistas espalhados pelo país, já que temos filiados quase 280 artistas representando 17 estados brasileiros, mais o Distrito Federal. Não são todos, evidentemente, que participam de todas exposições. Fazemos uma triagem e, em princípio, em cada exposição dessa contamos de 30 a 50 artistas, dependendo do espaço onde vai ser realizado o evento. Nós conseguimos, então, desenhar o atual panorama das artes contemporâneas no Brasil, com artistas desde o Rio Grande do Sul até o Pará. Nós fazemos isso com constância, uma vez a cada dois meses. Além dessa interação de artistas brasileiros, levamos nossos artistas para o exterior. Principalmente para o cone sul. E de lá trazemos artistas argentinos, uruguaios, chilenos. Fazemos um intercâmbio bacana e assim oferecemos como comungar desse conhecimento das artes na nossa América do Sul. Aproveitamos então essa exposição para colaborarmos com os festejos do centenário da Semana de Arte Moderna de 1922. Temos alguns artistas que interpretaram alguns quadros de artistas famosos da época e também outros que pintaram imagens que conversam com o tema como, por exemplo, a Carmem Fonseca, que fez o Theatro Municipal, palco desse movimento tão importante para São Paulo e para o Brasil. 

Como tem sido a receptividade do público? Tem ido bastante estudante por lá?

Tem e nós estamos monitorando. Desde estudantes de ginásio até faculdade. Para cada grupo que queira participar a gente acompanha. É só entrar em contato para marcar essas visitas. 

A Semana de 1922 e o modernismo era um assunto não muito aprofundado nas escolas nos últimos anos. Como você vê o tema sendo abordado agora, na ocasião do centenário? Estão dando o devido valor que a Semana tem na história da cultura brasileira?

Sem dúvida. Isso é de extrema importância, porque a Semana de Arte Moderna foi um marco importantíssimo para a cultura e as artes do Brasil inteiro. Ocorreu em São Paulo, mas não foram somente artistas paulistas. A Tarsila por um acaso era paulista, mas Anita era italiana. Di Cavalcanti, que confeccionou o cartaz da exposição, é carioca. O Vicente do Rego Monteiro é Pernambucano. Todos eles convergiram para São Paulo onde ocorreu a sede do movimento e aí sim os paulistas têm um grande mérito porque eles que bancaram todo esse evento. São paulistas ligados à arte, prósperos, e que se uniram para alugar o Theatro e trazer Villa-Lobos e Guiomar Novaes. É muito importante dizer que os paulistas tiveram realmente uma grande disponibilidade e generosidade para organizarem esta Semana que, sem dúvida nenhuma, hoje, é um marco importantíssimo. Tivemos desde os saraus da Veridiana Prado, que grandes artistas, literatos e poetas participavam, até quando Paulo Prado, Yolanda Penteado, se uniram e conseguiram coordenar esse movimento tão importante. Somos gratos àqueles mecenas da época, como esperamos também dos mecenas e patronos de hoje que se coordenem para lançarmos um novo esquema cultural que possa eventualmente eclodir em novas perspectivas artísticas e culturais. 

E quando estiveram no Municipal, o que eles clamavam era por uma arte nova, essencialmente brasileira. Você acha que eles foram ouvidos?

Sem dúvida. E por que? Primeiro pelo talento deles, mas também porque foi feita pela sociedade paulista. Os artistas eram de diversos estados brasileiros, mas os compradores, os coordenadores eram de São Paulo. Eles deram enorme valor para esse evento que eclodiu depois neste movimento tão bacana, então passaram a aceitar esta nova perspectiva artística e cultural. Isso, os colecionadores da época prestigiaram. De qualquer forma foi um movimento que avalizou toda a cultura até hoje aqui no Brasil. Esse movimento paulista, mas com artistas de toda nação.

Existem hoje artistas de vanguarda, você que acompanha esse mercado das artes?

Sim, tem muitos artistas de vanguarda. Por isso, a ideia da Academia Latino-americana de Arte é organizar um novo evento, não à semelhança de 1922, mas com os mesmos critérios, para que se frise, marque, uma possibilidade dessas novas variantes artísticas, exatamente com estes artistas atuais que você citou. 

E tem algum que poderia citar para a gente conhecer?

Se eu citar o nome de um, dez vão ficar chateados. Mas, com certeza, o público indo ao espaço Músico Cultural, que é belíssimo, nós conversamos sobre isso. 

Essa exposição vai itinerar?

Essa termina aqui. Depois a Academia faz outra em São Vicente e, em seguida, no Espaço Cristal em São Paulo. Temos uma programação para os próximos meses. 

E você que é pai de um grande artista brasileiro, qual é o papel da arte hoje para a sociedade?

O papel da arte é sempre importantíssimo. De tal forma que o Goebbels,  ministro do Hitler, dizia que quando ele ouvia a palavra cultura, levava a sua mão ao coldre. A arte é respeitada. Pode ser vilipendiada, perseguida, mas é respeitada.

(Miriam Gimenes/Agenda Tarsila)

Publicada em 13 de abril de 2022

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