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‘Anita foi fruto de uma sociedade que não estava apta para acolhê-la’, afirma a artista e educadora Desiree Helissa

Um dos principais nomes que compuseram o elenco que fez parte da Semana de Arte Moderna é o de Anita Malfatti. Isso é fato. Representante feminina – uma das poucas – dos artistas que compuseram o evento no Theatro Municipal, ela foi, sem dúvidas, uma mulher à frente de seu tempo. O que muitos não sabem, no entanto, é que ela era portadora de deficiência física – tinha atrofia na mão direita – e teve de aprender a dar suas pinceladas com a mão esquerda. 

E para discutir a obra, a história e a questão de ser uma pessoa com deficiência no início do século passado, que a artista e educadora Desiree Helissa, junto com a especialista em história da arte, Regina Teixeira de Barros, ministra no Sesc o curso Quem foi Anita Malfatti? Entre a História da Arte e das Pessoas com Deficiência. A Agenda Tarsila conversou com Desirre, que faz parte do Coletivo Feminista Helen Keller de Mulheres com Deficiência, que traçou como que essa questão era tratada naquele momento e a representatividade que teve a Anita, inclusive por ser mulher. 

“Pensar que ela era uma diversidade ali (na Semana de Arte Moderna), por mais que tivesse sofrendo opressões, minimamente tinha uma mulher com deficiência no meio. Isso para mim já é uma virada de chave muito grande, de pensar que de algum modo ela trazia sua voz, comunicação e expressava do modo dela o seu contemporâneo. E para mim, para mulheres com deficiência, a comunidade em geral, isso é importante e agrega ao movimento modernista”, afirma. Leia a entrevista completa a seguir: 

Você ministra um curso no Sesc, em parceria com Regina Teixeira de Barros, que traça a trajetória artística de Anita Malfatti e a questão da deficiência física. De um aspecto geral, como esse assunto é abordado?

Conhecemos a importância da Anita Malfatti como artista pelas suas pinturas, seu trabalho, como educadora também, mas é pouco falado sobre o aspecto da identidade dela de mulher com deficiência. O curso parte de uma necessidade pessoal, mas que também é coletiva, de mulheres com deficiência, de poderem se ver representadas. E muitas vezes a gente vai buscar longe exemplos como Frida Kahlo, sendo que temos uma representatividade muito importante aqui. Esse fiapinho que ficava nessa história e nessa falta de pertencimento em artistas brasileiras foi o que motivou o ‘quem foi Anita?’, também o convite a Regina Teixeira de Barros para compor esse curso junto, até para trazer esses aspectos artísticos, e eu a questão da identidade dela e da importância de a reconhecermos como artista e mulher com deficiência. Ela viveu todo um período em que pessoas com deficiência não tinham autonomia de escolha.

Como a pessoa com deficiência era tratada naquele momento, inclusive sendo mulher e artista?

Posso supor que ela foi muito à frente, resistente. No período de 1889, quando ela nasce, estamos saindo de um império para a república. Onde, no império, só olhávamos para pessoas com deficiência quando ela era visual ou auditiva. A deficiência física só depois de um histórico de surtos de poliomielite que começaram a pensar em cuidados. E ela tinha uma deficiência física, não à toa a família vai em busca de um acompanhamento fora do Brasil, porque aqui não tinha. Só imagino o quão resistente ela deve ter sido, obviamente tinha um privilégio de classe, mas era toda uma medicina voltada para um conceito de consertar a pessoa com deficiência. Então foi um período de nascimento de pensamento eugenista, de esterilizações em massa de mulheres com deficiência, então tem questão de gênero também. Mulheres com deficiência não eram aconselhadas a casar, a se relacionar, porque teoricamente poderiam propagar a deficiência. Os filhos poderiam ser pessoas com deficiência e isso não era bem visto socialmente. Até hoje ainda tem pesquisa de mulheres com deficiência que engravidam e têm a orientação médica do aborto. Só que ela pegou esse início onde não se tinha voz, então imagino o quanto foi resiliente em enfrentar tudo isso e ainda a opressão que sofreu com a crítica do Monteiro Lobato ao trabalho dela. Onde ele traz estigmas – no curso comentamos isso – muito nítidos voltado a ela ser uma mulher, que usa de ‘histeria’ (para pintar os quadros), e o fato dela ser uma pessoa com deficiência. A gente sabe que Lobato trocou cartas com Renato Kehl, um grande defensor da eugenia na América Latina. Ela foi publicamente atacada. 

Talvez por isso ela nunca tenha casado ou tido filhos? 

Eu acho. A partir de 1970 aqui no Brasil que começa-se a ter um olhar mais voltado para a integração de pessoas com deficiência socialmente. Então ela é uma exímia artista, educadora, quase que aquele mito da superação, mas como ela se relacionava? Um grande tabu também porque para época pessoa com deficiência não tinha autonomia e era hiper estigmatizada. Acredito muito que tenha sido fruto de uma sociedade que não estava apta a acolhê-la. Principalmente porque ela passou por esse período de império para a república e só em 1950 que começam a olhar para pessoas com deficiência física no Brasil. Ela quase não teve amparo mesmo. Talvez nem tenha achado os seus, ou esse lugar de pertencimento, já que muitas pessoas eram institucionalizadas pelos próprios maridos, familiares. Anita viveu um período de super opressão.

Li em alguns lugares que ela andava com um pano cobrindo o braço, como se tivesse vergonha. É isso mesmo?

Algumas pessoas quando a gente trata disso dizem: ‘ah, ela tinha um auto capacitismo’. Nem colocaria como isso, mas talvez como uma ferramenta até de proteção e resistência porque ela se expunha bastante. Era uma artista, se colocava. Acredito que hoje falar de um auto capacitismo é mais viável, até para uma pessoa que não tinha essas subjetividades acolhidas e que vivia em uma sociedade que não tinha espaço para pessoas com deficiência. Elas geralmente estavam mendigando, nas ruas, amparadas por instituições. Só o fato dela estar ali já era resistência, era um corpo político, já estava movimentando aquele espaço. Imagino que era uma autopreservação pela época. 

E não a impediu de ser uma grande artista. Aprendeu a pintar com a mão esquerda e fez sua arte. Como ela fez para driblar isso ao longo da vida?

Ela teve o amparo da mãe, que já lecionava, era educadora e artista. Acredito que isso foi um diferencial. Se a gente for fazer um comparativo com hoje, muitas pessoas com deficiência são encaminhadas para processos artísticos, para trabalhar com comunicação, com cognitivo, os movimentos de pinça, e ela tinha uma atrofia que era uma deficiência física e do movimento, do cognitivo. Acredito muito que esse processo artístico que inicia desde cedo e que bem amparada pela mãe tenha sido esse start, inclusive para entender como lidar com a própria diferença, sem ver isso como algo negativo, mas quase que se o caminho dela para as artes tivesse sido também um estopim da deficiência. Porque ela teve de reaprender e olhar para seu corpo, entender ‘como faço isso ao meu modo’. Alguns comentários do Diário da Anita, que tem algumas informações já públicas, ela diz que questionavam se era um homem que estava pintando, pelas pinceladas fortes. Sempre me perguntei e coloco em questão: será que não era uma questão do cognitivo da Anita essa força dela, duplicada, de resistência? Hoje em dia, falamos muito sobre um termo da artista Jota Mombaça, que é uma performer, e ela fala sobre redistribuição de violência dos movimentos sociais, desses corpos políticos que já sofrem tanta violência, qual a estratégia que têm de colocar isso para fora de algum modo. Fiquei imaginando por que a Anita escolheu uma pincelada forte, cores tão contrastantes, imagino que era muito um processo de redistribuir isso que passava pelo corpo dela. Por esses estigmas e subjugar a capacidade dela. 

Você falou sobre a Frida no início da nossa conversa. Ressaltam muito a deficiência dela, que até fez quadros acamada, e traduzia isso na pintura. Por que acha que lá fora isso não é usado como algo que minimiza o trabalho da artista e aqui colocam Anita como uma vítima?

São leituras. A Frida também é impactada pelo movimento feminista e é uma super figura de representatividade, mas a gente vê que a identidade dela de mulher com deficiência pelos movimentos sociais é um pouco apagada. Vemos ilustrações dela sem a deficiência, sem estar apoiada e sabemos que ela por um grande período mancou, usou bota ortopédica, depois bengala e cadeira de rodas. E a Anita acredito que seja também por uma questão de temporalidade se fomos pensar na própria história de movimentos sociais na América Latina e no Brasil isso está ligado. Hoje também temos um movimento mais conservador que olha para movimentos sociais como vítimas, isso fica muito mais nítido do porquê desse afastamento de uma representatividade que é tão próxima da gente e tão importante. Acredito que está ligada com o fato das questões de movimentos sociais terem um delay por conta de diversos contextos históricos globais aqui na América Latina. 

E você acha que essa questão da inclusão melhorou no quesito artístico?

Acredito que estamos em processo. É um período de transição, inclusive esse movimento de reconhecer os artistas com deficiência que a gente tem, teve, ou vimos nos cursos, faculdade, mas sem essa questão identitária pautada, que hoje é tão importante o pertencimento. Estamos no início de algo. (Francisco de) Goya mesmo, que era surdo e pouca gente fala sobre isso. A própria Tarsila, que no decorrer da vida dela adquiriu uma deficiência, passa também a depender, a usar cadeira de rodas (após uma cirurgia na coluna ficou paralítica). Pensar que é o início assim como agora está tendo uma movimentação maior de artistas com deficiência saindo do que o dançarino e performer Edu O, que é lá de Salvador, fala sobre cercadinhos de acessibilidade. Isso também nos segregou. Pensar que se no período da Anita as pessoas com deficiência eram institucionalizadas e no decorrer do tempo fomos sendo segregados. Nós somos artistas. E agora estou sentindo com Estela Lapponi, Edu O, Leo Castilho, que está um movimento diferente, adentrando os outros espaços, que vem com a questão de isolamentos. Os corpos de pessoas com deficiência, principalmente com a questão da mobilidade – me incluo nessa questão porque tenho uma deficiência física também e meu deslocamento é diferente -, a gente passa por isolamento na vida, e as pessoas que não têm deficiência começam a entrar no mundo de isolamento e se ver em telinhas. Não à toa, se você for pensar até nas pesquisas, a palavra capacitismo saltou no Google nos períodos de pandemia, principalmente em 2020, assim como a palavra audiodescrição, acessibilidade. Por que? Porque começa a ter encontros e a ‘janela em Libras’ em diversos shows, apresentações. Isso mobilizou esses encontros de algum modo, essa recuada de pessoas que não eram isoladas, encontraram essas pessoas que usavam a internet como território de deslocamento. Isso também deu uma virada de chave.

Você falou que tem uma mobilidade reduzida. Usa cadeira de rodas?

Uso a muleta para garantir que não force, não tenha dores no pé esquerdo. Tenho uma deficiência física que me acomete do joelho para baixo, tenho ausência de ossos, de dedos e me locomovo mais devagar. Inclusive o meu caminho como ativista das mulheres com deficiência vai muito por esse lugar também, integro o Coletivo Feminista Helen Keller de Mulheres com Deficiência que é totalmente online. São mulheres do Brasil inteiro e a gente se articula pelo WhatsApp e online, politicamente, para dar amparo, acolhida. Se a gente for pensar, em 2018, ano que ‘nascemos’, não existia espaço para debater feminismo e mulheres com deficiência. A própria palavra capacitismo chega aqui em 2015, é tudo muito recente. 

Quase 100 anos depois da Anita…

Exatamente. Só para a gente ter um entendimento do que ela enfrentou. Tem a questão de classe, mas imagino que ainda assim ela circulou por um mundo mais machista e muito capacitista. Não sei nem se era esse o termo, na verdade era eugenista mesmo. Ela era um corpo que não era digno de viver e se reproduzir, é sobre isso também.

Para você qual o maior papel que Anita teve tanto pessoalmente quanto profissionalmente para o Brasil de um modo geral?

Acredito que ela é a nossa grande artista. A gente vê pouca representatividade se pensar no modernismo e todo seu papel, que tem uma questão que a gente também desconstrói hoje. Quem estava pensando o que era o Brasil? Quem eram aquelas cabeças? Pensar que ela era uma diversidade ali (na Semana de Arte Moderna), por mais que tivesse sofrendo opressões, minimamente tinha uma mulher com deficiência no meio. Isso para mim já é uma virada de chave muito grande, de pensar que de algum modo ela trazia sua voz, comunicação e expressava do modo dela o seu contemporâneo. E para mim, para mulheres com deficiência, a comunidade em geral, isso é importante e agrega ao movimento modernista. Tinha uma questão dos pensantes estarem olhando e uma pessoa ali que estava como um corpo intruso, tanto é que a identidade dela começa a ser entendida agora, como uma completude. Em diversos textos, quando vamos ler sobre Anita colocam a deficiência como doença, o que não é, é bem recente essa leitura. É importante, inclusive, acordar para isso. 

(Miriam Gimenes/Agenda Tarsila)

Publicada em 20 de julho de 2022

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