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Bibliotecas de São Paulo têm atividades que repensam e difundem os textos escritos pelos modernistas

Para quem gosta de leitura, não há nada que se compare à sensação de entrar em um lugar repleto de publicações. Sejam elas pagas ou gratuitas. Mas como forma de democratizar e garantir que as obras cheguem ao maior número de pessoas possíveis, as Bibliotecas atendem o segundo quesito – ou seja, não cobram nada – para usar dos recursos literários e munir, cada vez mais, a população de conhecimento.

É com esta proposta que trabalham a Biblioteca de São Paulo e a do Parque Villa-Lobos, gerenciadas pela SP Leituras, que tem como diretor Pierre Ruprecht. Entre as diversas atividades vigentes nas unidades, algumas que tiveram início ainda este ano têm como foco celebrar o centenário da Semana de 22.

Em entrevista para Agenda Tarsila, Ruprecht fala sobre as intervenções poéticas que têm sido realizadas nas duas undidades, das oficinas de escrita e até da discussão a ser promovida, no Dia da Consciência Negra, que põe em diálogo a produção de autores negros e a dos modernistas. “Você vai ouvir de tudo, vai ver um apanhado de visões da produção contemporanea de autores negros lendo 22. Isso é uma coisa que está sempre se discutindo, inclusive do século 20 em diante, até agora, isso tem sido sempre discutido, que é o que constitui o que nós chamamos de brasilidade. O Drummond já dizia, ‘o Brasil não existe, são coisas que nós inventamos’. O que constitui brasilidade, o que é a cultura brasileira? É evidente essa discussão riquíssima e interminável, porque evidentemente hoje nós vamos ter uma leitura e pode ter certeza que daqui 20 anos vai ser outra, vai ter de ser outra”. Confira, a seguir, a entrevista completa:

Estamos próximos ao centenário da Semana de Arte Moderna e vocês da SP Leituras estão cheios de atividades, já fazendo um esquenta para estas comemorações. Queria que falasse o que está sendo feito e o que ainda está por vir para o público das bibliotecas de São Paulo. 

De fato a gente está preparando a chegada da comemoração do centenário de uma série de atividades. Nós já fizemos algumas, entre elas, uma das mais importantes, foi discutir a questão do modernismo no âmbito da biblioteca. Porque nós tivemos um bibliotecário, que foi o Rubens Borba de Moraes, que era muito ligado ao Mário de Andrade, fez parte da gestão do Departamento de Cultura, criado pelo Mário, e ajudou ele em toda discussão da questão da biblioteca. O projeto do Mário de Andrade para as bibliotecas era visionário, atual até hoje, importantíssimo e o Rubens Borba era quem tocava isso. Então nós fizemos uma discussão com o pessoal do Sistema Estadual de Bibliotecas em cima de um texto do Borba que se chamava O Problema das Bibliotecas Brasileiras, que é atualíssimo. Já fizemos esta discussão com os profissionais de biblioteca pública do Estado, além de uma série de outras atividades. Nós temos o centro de distribuição de acervo para as bibliotecas públicas municipais e estamos dando destaque a obras que discutem o modernismo ou obras modernistas. 

Mas vocês estão também disponibilizando um acervo físico nas bibliotecas, como funciona?

Nas nossas bibliotecas, as duas estaduais, que são a Biblioteca de São Paulo e a (Biblioteca Parque) Villa-Lobos, tem uma vasta programação, um monte de coisa acontecendo, (uma delas) que vai até o centenário, no ano que vem, uma exposição de livros sobre o modernismo e livros modernistas. Eles estão expostos, em destaque, e estão sendo emprestados também. Temos hoje mais ou menos 70 títulos em exposição nas duas bibliotecas e uns sete livros na biblioteca digital (https://bsp.org.br/biblioteca-digital/), também disponíveis para o público. Além disso, tem uma atividade cultural imensa nas duas bibliotecas. Estamos fazendo coisas diversas, por exemplo, temos um projeto que se chama Literatura Brasileira no 21, de literatura brasileira contemporânea em parceria com a Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). No âmbito deste projeto estamos fazendo todo um diálogo entre a produção contemporânea e a modernista. No momento, a gente está com uma oficina dos Modernos Antes de 22, que se propõe a leituras de textos da época, e práticas de escrita em vários gêneros. Está se discutindo quais eram estes pressupostos e ela termina justamente com os participantes produzindo, de forma orientada, resenhas de textos que acharem interessantes e que discutem essa questão do moderno e do contemporâneo. E temos previstos uma série de oficinas ainda. Vamos ter uma que discute a Semana de Arte Moderna por outros caminhos, que traz uma reflexão para os múltiplos suportes além do literário. Também feita com o pessoal da Unifesp. Vamos ter palestra Portugal-Brasil e os Modernistas em Revista, também no âmbito da literatura brasileira no 21. Além de, nas duas bibliotecas, intervenções poéticas em cima de textos do modernismo. Toda essa programação está disponível no site das bibliotecas, no www.bsp.org.br e www.bvl.org.br

Você falou dessas intervenções poéticas, até o nome achei bem interessante: Ao Pé do Ouvido…

Temos duas atividades: literatura ao Pé do Ouvido, que é justamente isso, a própria equipe da biblioteca que seleciona textos, no caso são textos modernistas ou que dialogam com o modernismo, e eles pedem licença para quem tiver interesse e leem para as pessoas. E o outro programa, que tem mais ou menos a mesma tônica, é o Licença Poética. Pedimos licença e declamamos poemas, também feito pela própria equipe da biblioteca. É muito legal porque gera uma interação intimista, trazendo um texto na frente. Isso pode gerar muitas coisas, conversas, indicação de livros. 

Antes dessas intervenções relacionadas ao modernismo, como era a procura no acervo, até para empréstimos, de livros de modernistas? Quais são os mais procurados?

Existe, naturalmente, basicamente impulsionada por três razões diferentes. Uma, normalmente, nos vestibulares, acaba entrando na lista de leitura algum livro vinculado ao modernismo. E isso, evidentemente, gera empréstimos e inclusive oficinas, porque perto da época dos vestibulares normalmente fazemos oficinas sobre os livros do vestibular na USP, Unicamp. Há uma demanda também que vem do público das escolas, principalmente as de Ensino Médio, que vêm buscar por indicação de professores. E há uma procura menor, mas sempre muito constante, vinculada às pessoas que apreciam a leitura, gostam de ler e como faz parte hoje do cânone literário brasileiro, acabam sempre procurando. E aí, evidentemente, os autores mais procurados são o Oswald e o Mário, e aí temos na área de poesia o Raul Bopp, o Cassiano (Ricardo), o pessoal de poesia amplia bastante este horizonte. 

Passados cem anos da Semana de 22, qual você acha que é a importância de aproximar o público mais destas obras, do ponto de vista literário, e como você vê este legado da semana 100 anos depois?

É uma ocasião muito importante para a gente não só celebrar, mas continuar uma discussão relevante na área da cultura de um modo geral, e naturalmente na literatura, que é essa questão entre a tradição e a ruptura, entre o cânone e a ruptura. Todas as épocas assistem movimentos de tradição e movimentos de ruptura. A Semana de 22 foi um enorme movimento de ruptura, ela quebrou uma série de paradigmas não só formais, mas de conteúdo, de abordagem do que seria uma cultura brasileira. É claro, com o olhar que se tinha em 22. Discutir um grande movimento de ruptura hoje, à luz deste movimento que foi feito em 22, é muito interessante, é muito importante, porque naturalmente nós não temos hoje a leitura que tínhamos em 22. Não é importante só como cânone, mas é importante como movimento. Abordar a questão da Semana, como um momento em que uma série de artistas das mais variadas formas de expressão se junta e lança bases para repensar tudo que se pensava sobre cultura e essas diversas modalidades de expressão. Essa é a principal importância. Há também a importância estilística, quer dizer, tem um monte de outras coisas interessantes que a gente aborda, mas eu diria que o principal é isso. Por isso, a gente nessa programação está promovendo muito não só a discussão do que foi a Semana, mas como a gente pode ler hoje o evento e que legados efetivamente ela traz para a gente hoje, para discutir tradição e ruptura, discutir cultura brasileira, discutir o que é literatura, para recolocar tudo isso em discussão. Nós estamos, por exemplo, fazendo oficinas de intervenção de poéticas modernas, dentro do âmbito da discussão do centenário da Semana, tentando construir, por exemplo, um diálogo entre o Dia da Consciência Negra e o centenário da Semana.

Isso é muito bacana, porque uma das críticas era que não havia essa questão negra no evento. Como trazer isso para os dias de hoje?

A leitura da Semana foi uma leitura feita naquela sociedade de 1922. Que postulava suas questões, ela revê como a sociedade postula as questões do século anterior, mas ela é de 22. Quando a gente dá um olhar histórico, nós não estamos procurando no passado leituras que são similares às que nós podemos ter hoje. Mas estamos procurando relações com movimentos que possam nos ajudar na leitura que hoje nós temos que ter das coisas hoje. A gente não pode querer olhar a semana estritamente do ponto de vista do nosso olhar hoje. Isso teve um contexto. O que isso representou naquele contexto? E hoje, qual é o legado que isso deixa e como nós podemos aproveitar alguma coisa, criticar, etc? Nos relacionamos hoje com esse legado. 

E essa oficina específica, falando do Dia da Consciência Negra. O que ela discute?

Ela apresenta poesias de autoras e autores negros construindo esse diálogo, tentando construir. Vai acontecer no dia 20 de novembro, entre o Dia da Consciência Negra e a Semana de 22. Então você vai ouvir de tudo, vai ver um apanhado de visões da produção contemporanea de autores negros lendo 22. Isso é uma coisa que está sempre se discutindo, inclusive do século 20 em diante, até agora, isso tem sido sempre discutido, que é o que constitui isso que nós chamamos de brasilidade. O Drummond já dizia, ‘o Brasil não existe, são coisas que nós inventamos’. O que constitui brasilidade, o que é a cultura brasileira? É evidente que essa discussão é riquíssima e interminável, porque evidentemente hoje nós vamos ter uma leitura e pode ter certeza que daqui 20 anos vai ser outra, vai ter de ser outra. 

E você, que acompanha bem de perto a literatura, quais são os movimentos de vanguarda que fazem a mesma ruptura dos modernistas?

Eu diria que estamos assistindo vários movimentos. O que nós não estamos assistindo neste momento, isso não quer dizer que não possa se introduzir, é uma confluência das formas de expressão em torno de um programa. Porque a Semana tinha um programa. Isso nós não temos, um enorme movimento na cultura brasileira, que se impõe como uma grande nova leitura, nós não temos. Pode ser que tenhamos ou não. O que certamente temos são inúmeros movimentos de ruptura, em todas as áreas. A começar com movimentos da cultura popular, da urbana, como hip hop, que propõe outras leituras culturais, outros modos culturais de ler e outras relações muito interessantes. Você tem alguns movimentos até ligados a grandes questões modernas, contemporâneas, como por exemplo, a própria questão que antigamente a gente chamava de meio ambiente, mas é a questão da sustentabilidade. Essas rupturas estão acontecendo e com uma velocidade impressionante. A gente tem de lembrar que a circunstância que se vivia em 1922 do ponto de vista da comunicação era completamente diferente da que estamos vivendo hoje.

Sim, com redes sociais, etc…

Nem comunicação de massa, como começou a existir nos anos 1950 e 1960 não existia. Era extremamente restrito, os canais eram restritos. Os movimentos que acabavam aparecendo tinham de ser muito poderosos, mas ficavam circulando em um âmbito também restrito. Depois disso você tem a comunicação de massa que começa a entrar e a internet, com essa explosão e essa confusão que às vezes é muito interessante e, em outras, nos bota muito medo, entre emitentes e emissores. Não me esqueço de um encontro que fui de booktubers e a coisa que mais me encantou nesse encontro é que você vai em um evento de literatura, o número de produtores que estão no encontro, comparado com o número de público tem uma certa proporção. Tem 30 escritores e 3 mil pessoas de público. Quando você faz isso, todo mundo que é público de alguma maneira é produtor. E isso, é claro, promove uma intensidade enorme de movimentos de ruptura. Então, eu diria, que uma Semana de 22 como foi em 1922 nunca mais teremos. Mas movimentos de ruptura e principalmente essa discussão, porque uma cultura não se constrói só com ruptura. Se constrói no diálogo entre tradição e ruptura. Isso está cada vez mais intenso. 

(Miriam Gimenes/Agenda Tarsila)

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