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Blog Modernistas em Quadrinhos traz prováveis diálogos entre os artistas no início do século passado

Não há quem não se interesse pelas histórias de bastidores. Aquelas pessoas que participaram de fatos históricos mas ficaram de fora, as intrigas, o início das amizades, enfim, informações extras. E essa é a proposta do Blog Modernistas em Quadrinhos, criado pelo professor e artista plástico Edgard Santo Moretti, que há pouco mostrou algumas dessas ilustrações em exposição feita no Centro Cultural dos Correios, a Semana de 22 – Diálogos Centenários

O fato é que Moretti estuda a Semana e o modernismo há mais de 20 anos. Leu tudo que foi possível sobre e reuniu informações que ficaram escondidas no emaranhado histórico que envolve o tema. Como, por exemplo, um terremoto forte que acometeu São Paulo às vésperas do evento no Theatro Municipal. Ele, inclusive, foi quem descobriu o real endereço da exposição de Anita Malfatti em 1917, na rua Líbero Badaró, que acabou por ganhar uma placa. Confira, a seguir, a entrevista completa. 

Você mantém um blog muito interessante chamado Modernistas em Quadrinhos. Queria que me falasse sobre ele e como nasceu a paixão pelo legado desses artistas. 

Já é uma história de uns 20 anos. Sou formado pela faculdade de Belas Artes de São Paulo e produtor cultural. Já atuei na sala de aula, mas como artista não aguentei ficar em sala, porque me tolhia todo esse universo de criação, ainda que eu amasse. Daí fui trabalhar como produtor cultural na Secretaria de Cultura de Barueri, onde fui diretor da Pinacoteca Municipal, e lá tinha uma atividade muito efervescente, agenda farta de eventos, que eu participava ativamente montando a cenografia, o visual, principalmente das artes plásticas. Então, a Semana de Arte Moderna foi e continua sendo um conteúdo muito importante dentro do calendário do Estado de São Paulo e no Brasil. E eu sempre estive envolvido nas pesquisas com o modernismo, desde que comecei a trabalhar no final dos anos 1990. Ao longo desse tempo fui desenhando as cenas, porque não existem imagens do início do século 20, não tinha tecnologia para filmar e fotografar no Brasil com tanta qualidade quanto na Europa e Estados Unidos. Temos poucos registros da Semana de Arte Moderna, principalmente dos eventos que foram antes dela, como a exposição do Monteiro Lobato, do Saci, em 1917 e, em seguida, a da Anita Malfatti, no mesmo local. Pesquisando estes conteúdos me interessei em saber os lugares onde ocorreram essas exposições. Comecei a me aventurar, pesquisar nos livros, periódicos, na internet. Quando me interessei para saber o local físico de tudo isso comecei a ilustrar, realmente, estas pesquisas. Peguei os desenhos que já tinha feito, repaginei, colori e como tinha bastante, pensei em lançar uma revista em quadrinhos, um HQ dos Modernistas. É um trabalho muito complicado, reuni muito material e pretendo ainda lançar, mas ainda não consegui por toda correria de exposições, eventos, mas eu tinha de mostrar tudo isso. Resolvi então lançar um site que pudesse colocar tudo até lançar o livro físico. Além das cenas modernistas, também criei um personagem que é um gato, chama-se Fantomas. Ele viveu no começo do século 20, nasceu em 1916 e tem contato com os modernistas, com acontecimentos históricos da cidade. Ele e sua família de gatinhos são acolhidos por um palhaço, que os leva para o Largo do Paissandu. Era o circo do Piolin. Criei uma situação entre modernistas e anarquistas, alguns estavam no Café Paraventi, outros no Colombo e o gatinho entra no café onde estavam o Oswald, Guilherme de Almeida e o Celestino Paraventi, que era barão de Café. Tem um personagem do Oswald chamado Garoa que coloquei no livro, que fala: ‘esse gatinho só pode ser um anarquista que veio irritar os barões do Café, isso para cutucar o Paraventi. E aí um outro fala: ‘não, ele é o Fantomas, olha a roupinha dele!’. O Fantomas era um personagem francês que era moda na época nos cinemas de São Paulo, principalmente no Cine Central. O gatinho parecia com ele, que era um criminoso de fraque e cartola e agia à noite. Ele faz parte desse pacote de modernistas em quadrinhos que pretendo no futuro lançar. 

Além do blog você já deu um spoiler do que será esse livro em uma exposição que ocorreu agora no Centro Cultural dos Correios, em São Paulo. Ali retratou algumas cenas entre os modernistas. Quais são elas?

Essa exposição surgiu com esse material que eu estava colecionando e aumentando a cada dia. Quando estava montando uma exposição nos Correios para a Secretaria de Cultura de Barueri, o diretor do espaço me sugeriu fazer uma exposição sobre a Semana. ‘Daqui quatro anos vai ser o centenário’, ele disse. Passou um tempo, me aposentei da secretaria em 2019 e logo depois veio a pandemia. Me isolei em casa e comecei a produzir, fiz 30 telas. A ideia da exposição é mostrar o que encontrei nas pesquisas que ainda não estavam nos livros. Li todos os livros sobre a Semana que você possa imaginar. Mas muita coisa encontrava nos periódicos de 1917 até 1928. Achei muita curiosidade, fofocas. Então o nome passou a ser Semana de 22 – Diálogos Centenários. Coloquei algumas pessoas que poderiam ter participado da Semana e não participaram. Não fiz um quadro sobre o Lima Barreto, mas ele poderia estar lá e era um cara praticamente modernista e morreu no fim de 1922. O João do Rio era modernista, mas não foi nem homenageado. Escreveu A Alma Encantadora das Ruas, totalmente modernista. Outro é Marcelo Tupinambá, maestro que estudou na USP, apaixonado pelo folclore brasileiro, a coisa do caipira, ele nasceu em Tietê, interior de São Paulo e fazia modinhas, pesquisava violas e instrumentos populares. O que o Mário de Andrade procurou depois ele já estava atrás. Outro que ficou de fora foi o Piolim, que era a sensação da época nos eventos de São Paulo. Ele era do Circo Alcebíades, ficava ali perto de onde hoje é a Galeria do Rock, atrás da Igreja no Paissandu. Ele foi uma grande baixa, deveria ter participado. A gente sabe que teve ali uma organização de uma elite, comandados pelo Paulo Prado. São Paulo era comandado por uma oligarquia, porque tinha o clero, o empresariado, a aristocracia e o governo de Washington Luiz, que patrocinou a Semana. Menotti del Picchia trabalhou com ele e foi o mestre de cerimônias da Semana, anunciava quem entrava no palco. Tudo isso fui colocando nos quadros. Também tem uma história, que ocorreu pouco antes da Semana, um teve um terremoto em São Paulo, no dia 27 de janeiro, que foi violento. Parece que foi 5,3 na escala Richter. E o epicentro dele foi ao leste de São Paulo, divisa com Minas, e foi sentido até em Goiás. Tem um trecho no livro do Di Cavalcanti que ele fala sobre o terremoto, quando ele volta para casa acompanhado do Vicente Rao. Ele lembra que foi se deitar e a cama saiu andando. Apagaram isso da história da Semana, mas tem tudo a ver com ela. Porque no Festival, no dia 15, apareceu um grupo de pessoas, maioria com mulheres da alta sociedade. Entre elas estava a Renata Crespi, que casou cedo com Fábio Prado, uma mocinha. Ela estava acompanhando a monitoria do Menotti del Picchia na exposição quando vê um quadro da Anita que tem o Oswald um pouco torto, mas é lindo. ‘Este quadro está torto, não? Os olhos estão fora de ângulo’, questiona. Eles só entendiam de arte acadêmica. E Menotti: ‘Não, isso é arte moderna e foi feito por Anita, uma grande pintora paulista. Ela foi influenciada pela questão do terremoto, por isso o quadro saiu assim. E isso é a Semana de Arte Moderna: um terremoto que  vem para abalar as estruturas…’ (risos) Ele fala isso tão bonitinho, velhinho já, em um depoimento do MIS. Associou brilhantemente. 

E você teve uma participação muito importante para descobrir onde foi, de fato, a exposição da Anita de 1917. Me conta sobre essa saga. 

Quando comecei a pesquisar sobre a Semana, notei uma coisa que achava estranha. Quando criança não ouvia falar muito sobre o evento. Fiz a faculdade de Belas Artes e falaram pouco e logo iam para arte universal. Comecei a pesquisar neste meu trabalho de produtor cultural e via aparecer muito a Tarsila. Fiz uma exposição dela em Barueri, Tarsila 120 Anos, com 30 telas feitas pelos meus alunos, a coisa mais linda. Mas pesquisando a Semana via que falavam também da Anita, mas de uma maneira diferente e li sobre a questão polêmica do Monteiro Lobato e a dela ter sido a primeira exposição de Arte Moderna Brasileira, porque a primeira exposição moderna no Brasil foi a do Lasar Segall, na Rua São Bento, em 1913. Como ele não era brasileiro e as obras vieram de navio não era uma exposição brasileira. Anita me despertou atenção quando descobri um livro sobre ela Anita no Tempo e no Espaço, da Professora Marta Rossetti Batista, a biografia dela. A primeira coisa que li é que ela tinha viajado para Alemanha e depois para os Estados Unidos. Foi com 20 anos para a Alemanha, em 1910. Achei que deveria ser rica, já que ficou lá quatro anos. Mas não, era uma sofredora. Porque o pai dela Samuelle Malfatti era um cara de classe média alta, era político, arquiteto e engenheiro e trabalhava com Jorge Krueg, tio dela, também um grande arquiteto e um exímio desenhista clássico. A mãe dela, Elizabeth, também era pintora. Só que o pai faleceu quando ela tinha oito anos, a família passou dificuldades e o tio os convidou para morar com eles, em Higienópolis. As irmãs Shalders, que estudavam com ela no Mackenzie, onde o tio era diretor, disseram que iam para Alemanha estudar música e a convidaram. A mãe conversou com o tio e ele resolveu bancar a ida dela para lá. Teve a recomendação de ir aos museus e fazer um curso de arte. Lá ela conheceu artistas que mostraram pinturas diferentes, mais modernas. Foi aí que ela conheceu a obra do professor Lovis Corinth e se apaixonou pela cor. Voltou e os tios não gostaram nada do que ela produziu lá e acabaram querendo jogar fora seus quadros. Então ela ficou numa tristeza, a primeira vez que ela pensou em largar tudo. Tentou um concurso que não teve êxito e em 1915 foi para os Estados Unidos, bancada pelo tio novamente. Chegou lá e não se adaptou. Ela tinha uma atrofia no braço direito e isso limita qualquer artista a trabalhar. E ela não era canhota, era destra. Mas não conseguia trabalhar com o braço direito e a mãe a treinou a escrever e pintar com a mão esquerda. Ela não se adapta, ouve sobre um atro chamado Hommer Boss, que organizou uma escola livre de arte, a Independent School of Art, no Leste de Nova York e ela resolveu ir com uma amiga. Lá ela conheceu Juan Gris, Máximo Gorki, Isadora Duncan, e o irmão dela e o papa do dadaísmo, o Marcel Duchamp. Ela travou um contato maravilhoso com a arte moderna. Foi lá que ela criou A Mulher dos Cabelos Verdes, o Homem Amarelo e O Japonês. E quando voltou para o Brasil recebeu a mesma reação, não gostam do trabalho dela. Ficou  desanimada, mas teve uma exposição em 1917 do Saci, que o Monteiro Lobato reuniu muitas cartas, objetos e obras. Ele queria fazer um inquérito para saber o que as pessoas sabiam do personagem. A Anita resolveu participar, foi a única mulher. Quem ganhou foi o Roberto Cipicchia, que era um italiano. O Monteiro fez a primeira crítica falando que o trabalho dela não estava certo porque tinha usado ‘ismos’, que estaria hors concours, não estaria ‘apta’ ao concurso. Ela almejava o prêmio para poder viajar. Desanimou, foi para casa. Só que lá tinha um garoto carioca, de 20 anos, marrento, era Di Cavalcanti. Ele já conhecia todo mundo, inclusive Oswald. Ele viu o quadro do Sacy pintado por ela e junto com os jornalistas Arnaldo Simões Pinto e Gelasio Pimenta, foram na casa dela de bonde, na rua Ceará, conversaram com ela e convenceram a fazer uma exposição. Eles falaram com Freitas Valle, o mecenas, que falou com o Conde Lara e arrumaram aquele salão térreo, no número 111 na Líbero Badaró. Em todos os livros havia isso. E eu fiquei com o endereço na cabeça, precisava saber onde era. Ia bater o centenário em 2017 e a gente queria fazer uma performance teatral no local. Falei com atores, toparam na hora. Mas não conseguimos encontrar o local exato a tempo. No dia 12 de dezembro de 2017 fomos até a Avenida São João com a Líbero Badaró, vestidos à caráter, e fizemos uma performance. Passamos praticamente em frente de onde foi sem saber que era ali. Mas continuei pesquisando e em 2018  consegui alguns horários no Arquivo Municipal. E em janeiro do ano seguinte, pelo emplacamento, descobri onde era. Comuniquei aos jornais e o Estadão publicou. A Secretaria de Cultura colocou uma placa no local identificando que foi lá a exposição da Anita. As ilustrações que eu tinha feito sobre isso transformei em telas. Conversei com o dono do Restaurante Pirandello, que fica hoje no mesmo salão, e ele pediu para levar. Ficou um ano, foi para os Correios e agora está lá novamente. Ali aconteceu o início de um romance paulistano e o local está vivo.

Costumam contar a história da Anita por esse viés de vítima, tanto do Monteiro Lobato, quanto da sociedade. Para você, qual foi o real papel dela nessa história?

A Anita sempre foi uma contestadora. A família mesmo a tratava de maneira pejorativa, de coitadinha. Primeiro porque o apelido dela era Babynha, mesmo sendo a filha mais velha. Ela tinha um problema físico, mas sempre foi obstinada. Foi para a Alemanha sozinha, ninguém que é coitadinha faz isso. A sobrinha disse que ela namorou lá. Enfrentou o Monteiro Lobato. Só que assim, foi uma crítica muito dura, ainda mais no jornal, naquela época todo mundo lia. Muita gente devolveu os quadros já adquiridos. Mas a Anita jamais foi coitadinha, seu desejo era ser artista, não moderna, mas artista. Falou isso várias vezes. Em 1919 voltou à carga, foi buscar o ateliê do Pedro Alexandrino, na Luz, rua Vitória, onde encontrou Tarsila, que disse ser sua admiradora, tinha ido à exposição. O nome da Tarsila está algumas vezes na lista de presença que pesquisei. Tarsila era uma mulher exuberante, de alta sociedade, tinha uma forte presença visual e investia nisso. E ela respeitou demais a Anita.  E por ela ter enfrentado tudo isso, aglutinado esses caras (os modernistas), as mulheres tinham de ter muito orgulho, todos nós, porque ela não baixou a cabeça. Dizem que tentaram furar as telas dela com guarda-chuva, mas ela foi até o fim com a exposição. E na Semana de Arte Moderna ela também foi grande. 

E você tem ideia de quando vai publicar essa HQ?

Não tenho, porque as pesquisas ainda estão em curso. Quero fazer isso para ficar uma edição de luxo, uma coisa bacana, com páginas cromadas, para no futuro as pessoas poderem apreciar, principalmente a juventude. 

(Miriam Gimenes/Agenda Tarsila)

Publicada em 4 de abril de 2022

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