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Cia. Articularte promove programação especial sobre o centenário da Semana de 1922 no Centro Cultural São Paulo

Bonecos articulados que ajudam a contar uma parte importante da história da arte brasileira. Foi com esse propósito que há quase duas décadas Dario Uzam e Surley Valério criaram a Cia. Articularte, que após 15 espetáculos no currículo acaba de iniciar o projeto 100 Anos de Arte Moderna 100 Ponto Final, no Centro Cultural São Paulo, com programação que vai até o final de agosto. Em entrevista à Agenda Tarsila, o diretor da companhia, Uzam, explica a influência que Abaporu teve para criação de seu grupo teatral, como os personagens modernistas são mostrados para as crianças e detalha toda programação oferecida de forma gratuita em São Paulo. 

“No Centro Cultural estão previstas 40 apresentações (algumas já foram), mas temos um pacotinho para escolas toda sexta-feira. Já fecharam 18 apresentações, restam as outras aos sábados e domingos, às 16h. Mas tem uma novidade: a instalação que a gente colocou feita pelo Kleber Montanheiro como se fosse uma visitação em uma pequena exposição, que prevê um quarto dos pintores, onde eles fizeram as obras. E o público chega e mostramos a ‘sujeira’ do pintor, com pincéis, tintas, etc. Dizemos que é como se fosse uma brincadeira infantil esse processo.”

Além dessa instalação e dos espetáculos infantis, o programa também oferece oficinas de mímica, bufonaria e clown, além de três debates híbridos que contará com a participação de descendentes dos modernistas. Confira, a seguir, a entrevista completa:

A Cia. Articularte tem mais de 20 anos e ajuda a contar para as crianças a história do modernismo. Queria que me falasse sobre esse trabalho. 

Tudo começou com uma mostra da Tarsila do Amaral no Sesi. Fomos ver e lá estava o Abaporu, que nos emocionou. A gente já sabia que não era mais nossa, pertencia a um argentino e eles emprestam para gente. Mas de uma forma ou outra veio da nossa terra, da nossa cultura, do nosso paraíso tropical. A partir dali eu e a Surley Valério, que é a bonequeira da companhia, por consequência também minha esposa, parceira de todas as etapas artísticas também, olhamos um para o outro e no momento ela estava fazendo trabalhos em uma produtora de espuma. Pensamos: ‘e se desse certo montar um infantil?’. Começamos dessa forma muito simples, mas mostra a importância de uma exposição que selou a vida de uma companhia, a subsistência de vários atores, o giro cultural que a gente criou, 15 peças foram montadas desde lá, então é tocante a importância de uma exposição, que vai influenciar as pessoas e foi a formação do nosso grupo. Depois dali montamos A Cuca Fofa de Tarsila, o fofa metaforicamente, para mostrar como é interessante a cabeça da Tarsila do Amaral. Porque ela fez a proposta prática do modernismo, deixou esquecer rapidamente o parnasianismo, aquela coisa de retrato, para isso já existia a fotografia. E ela veio com cores, expressões, outras formas do olhar, do sentido, do artista plástico reinterpretar o que está vendo, colocar o respiro, a tonalidade, a temperatura dele e ela dialoga com a gente desde o princípio, é quente. 

E vocês não se limitaram a Tarsila. Outros modernistas também fazem parte do repertório. Me fale sobre os outros personagens e de que maneira neste ano do centenário vocês têm rodado algumas cidades contando a história desses artistas.

Deu muito certo. A gente já ganhou o Prêmio Panamco (2000), da classe teatral infantil, de críticos que viram a peça. Entendemos que estávamos no caminho certo, porque não temos essa coisa de ensinar quem foi Tarsila ou os outros modernistas. A gente coloca o tema como fundo e cria as próprias histórias. Como deu certo na Cuca, foi muito pedido na época, logo depois veio o Trenzinho Villa-Lobos, que ramificou o trabalho. E também deu certo, ficamos em cartaz no Centro Cultural São Paulo, onde estamos hoje novamente. Tínhamos músicos em cena, ao vivo, um trio com violoncelo, clarineta e violão. E esse trio cantava e tocava músicas. O que aconteceu? O público queria dobrar a apresentação, porque a lotação se esgotava. O Trenzinho depois da Tarsila é um dos mais encenados e apresentados. Em 2002 veio Portinari Pé de Mulato, que depois se tornou Portinari Pé de Moleque, por causa da discussão em cima da palavra mulato. A gente faz um teatro artesanal, mas ele não é só o bem ou o mal, temos vários comportamentos, escadinhas de personagens e acreditamos nisso desde o princípio. Tive contato com Luiz Alberto de Abreu, importante dramaturgo brasileiro, e ele nos orientou que não adiantava fazer só o bem e o mal, não vai ajudar a criança. Agora, colocando um bom, outro mal, em várias cadências e gráficos, eles aceitam e entendem. E é um público específico, talvez o melhor que tem, porque fala ‘gostei’, ‘não gostei’. Claro, graças a Deus, elas sempre ficaram nos espetáculos. Já entendemos que o público é um cidadão em crescimento. A criança vai para lá, volta, já aprendeu, mesmo que pareça que não está prestando atenção, ela está entendendo a história. A atenção hoje ficou múltipla e nós percebemos isso. 

A criança é um ser em formação. Como vocês lidam com essa responsabilidade?

E o próprio modernismo é isso, uma ligeira revolução. O que antes era retrato e virou uma expressão. As obras da Anita Malfatti, tem vários autorretratos e ali vai pintando a cor que ela sente. É o resultado de um processo e até da relação da pintora com o modelo que está ali e dependendo disso as cores vão saindo e isso é interessante, como se enquadra esse processo. A nossa questão é levar tudo isso para criança porque ela está em formação, em evolução o tempo todo. Muitas que estão ali nunca viram um espetáculo de bonecos, tem pouco contato. Vamos para vários locais assim de São Paulo, Minas, já fomos para o Amazonas. Tem várias trocas de intensidades envolvido nesse processo todo. 

Vocês estão promovendo um projeto no CCSP que envolve instalação, apresentação de peças para as crianças e seminário, que vai até agosto. O que o público encontrará no local?  

O projeto é 100 Anos de Arte Moderna 100 Ponto Final. Apresentamos para Secretaria Municipal de Cultura no fomento ao teatro e fomos contemplados. Estamos muito alegres e agora é executar o projeto. No Centro Cultural estão previstas 40 apresentações (algumas já foram), mas temos um pacotinho para escolas toda sexta-feira. Já fecharam 18 apresentações, restam as outras aos sábados e domingos, às 16h. Mas tem uma novidade: a instalação que a gente colocou feita pelo Kleber Montanheiro como se fosse uma visitação em uma pequena exposição, que prevê um quarto dos pintores, onde eles fizeram as obras. E o público chega e mostramos a ‘sujeira’ do pintor, com pincéis, tintas, etc. Dizemos que é como se fosse uma brincadeira infantil esse processo. Então temos esse ateliê com obras de vários modernistas como Vicente do Rego Monteiro, Portinari, Tarsila, Anita. No próximo espaço a gente vê um Abaporu de três metros e olhando para esquerda tem algumas figurações da Tarsila, um quadro do sapinho, mandacaru, cacho de bananeiras. E depois tem o mini-teatro Municipal, com a cortina vermelha, as molduras laterais e do topo. Na frente também tem uma reprodução grande das frisas, a plateia. Essa é a instalação, é uma coisa simples, mas dá para brincar bastante. Dentro do mini-teatro vamos apresentar quatro espetáculos, o primeiro o Trenzinho, depois Portinari, a Cuca Fofa de Tarsila e o último é uma estreia, Farol de Cores, onde vamos retratar Anita Malfatti e Di Cavalcanti, uma duplinha de arte que vamos fazer com o teatro de sombras, fundamentado na personalidade da Anita e na do Di. Eles fizeram uma duplinha, brincando como metáfora, que ‘pintaram o sete’, desde os tempos remotos. 

Além disso, também tem os seminários?

São três debates. O primeiro com Tarsilinha do Amaral, a sobrinha-neta de Tarsila, já agora no fim do mês. A gente pretende colocar o artista, o herdeiro ou representante de uma forma absolutamente viva. Vamos até tentar surpreender com algumas perguntinhas de criança. Colecionamos ao longo dessa trajetória várias questões e com isso achamos que conseguimos um outro tipo de comunicação. No segundo debate vem João Candido Portinari e Dado Villa-Lobos e no outro mês, em meados de agosto, representantes de Anita Malfatti e Di Cavalcanti. A ideia é mostrar que são cem anos agora, mas essa história vai perdurar por muito tempo ainda. A revolução foi feita, mas ela não terminou. Hoje fala-se muito em diversidade, e nada mais é o que Tarsila começou lá atrás. Teve uma segunda visão das coisas, do mundo, dos quadros e isso foi influenciando todo mundo. O que a gente quer também? Colocar um pouco da humanidade deles e mostrar que tem descendência humana esse movimento. O João Candido Portinari é incansável, está o tempo todo levando a história do pai, é um lutador das artes, como é Tarsilinha e os outros representantes. A ideia é colocar o ser humano não só para homenagear, mas mostrar o que estão fazendo e quais são os interesses para os próximos tempos. O que significa a pintura, a revolução, depois de uma pandemia? Entendo que é uma roda novamente. A gente vai ter de trabalhar o exercício de sair de casa e as crianças precisam disso também, sempre protegidas. Vão ser híbridos e presenciais. Vamos ter uma mesa no Centro Cultural e um telão onde estarão contatados para fazer o on-line. 

E as oficinas?

É para a gente também colocar alguma coisa para classe teatral, arte-educadores, jovens, adolescentes que queiram se aproximar da classe artística. São três oficinas, desde artistas iniciantes ou para aqueles que estão parados por conta da pandemia. Pretendemos trazer mais elementos para a classe teatral, para jovens que queiram se aproximar do teatro e também terapeutas. Tem muita gente que pode fazer uso dos elementos do teatro para trabalhar com seus pacientes, tentar encontrar vias de conexão. O primeiro encontro é sobre Bufonaria, o clown, e o Allan Benatti é palestrante. Ele tem uma série de exercícios muito cativantes, engraçados. Exagera o clown como uma forma de inclusão. Ele é exagerado, mas tem uma forma de cativar as pessoas, de tentar se comunicar e para mim isso é inclusão pura. São duas tardes com vários exercícios. No outro mês vem o Victor de Seixas, doutor da matéria Mimo Corpóreo, que é a mímica do corpo. Ele dá exercícios, interpretações, que vai buscar o corpo das pessoas, aquecer expressões, desde o joelhos, cotovelos, tudo. São oito horas de carga horária, duas tardes. E depois vem a Cida Almeida, que dá clown, ela é doutora nisso. Muito divertida e é capaz de puxar o clown da pessoa. 

Como você vê essa revolução que está sendo feita por conta do centenário? Acredito que você queira fazer um trabalho para que daqui 100 anos continuem fazendo essa revolução…

Acredito que se a gente tiver um contato com a arte ela vai durar 100, 200, muitos anos. A cada 100 anos sempre alguém vai citar e vai descobrir mais coisas. Até para checar se a gente melhorou ou se estragou o modernismo. Cem anos é pouco e estamos muito contentes porque se começamos com a Articularte há 20 anos, jamais pensaríamos que chegaríamos a comemorar 100 anos (da Semana). Mas o projeto deu certo, porque as crianças, a população, as escolas aceitam a arte. Tem escola que chama a gente todo ano, quase como curricular. Porque eles entendem que as crianças vão ter horizontes abertos e cada vez mais vão evoluir com a arte. Chega um ponto que a pessoa para de crescer fisicamente, mas internamente não existe isso. A gente continua firme porque a cultura é surpreendente. É por isso que saímos de casa para ver espetáculos, para se surpreender e muitas vezes a gente consegue. 

(Miriam Gimenes/Agenda Tarsila)

Publicada em 15 de junho de 2022

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