Caio Galluci/Divulgação

‘Com a rapidez das informações que nos chegam pela internet, acho que cada semana pode ser uma nova Semana de Arte Moderna’, diz o cartunista Mauricio de Sousa

Quem teve a oportunidade de visitar a exposição Portinari Para Todos, no MIS Experience, em São Paulo, pôde passear por quase toda a obra do artista nascido na cidade de Brodowski. Seu pincel é tão inspirador que virou até personagem da Turma da Mônica, em uma releitura feita por Mauricio de Sousa do quadro icônico O Lavrador de Café, na figura de Chico Bento. As crianças adoram. E esta não é a primeira vez que o cartunista bebe da fonte modernista para inspirar seus personagens.  

“Dentro da exposição História em Quadrões, que inaugurou na Pinacoteca de São Paulo com grande sucesso em 2001, há releituras com nossos personagens sobre obras importantes na pintura e escultura mundial. Dentre elas temos Pescadores, de Di Cavalcanti, Bananal, de Lasar Segall, e até um inédito, somente no desenho,  que é o Monumento às Bandeiras, de Victor Brecheret”, lembra o cartunista em entrevista exclusiva à Agenda Tarsila.

Um pouco depois, na série As Donas da Rua, em que promoveu o empoderamento feminino e igualdade de gênero, Mauricio transformou Magali em Tarsila do Amaral, inspirado no auto retrato chamado Le Manteau Rouge. A personagem comilona também virou a protagonista de O Tropical, de olho nas frutas pintadas por Anita Malfatti em 1917. “O que funciona na exposição é que os personagens ajudam a divulgar a própria obra original que tem uma reprodução ao lado da releitura. Contribuímos para que as crianças se interessem mais pela arte e pelos artistas retratados”, justifica. Para ele, se analisarmos hoje, com a rapidez das informações difundidas na internet, ‘cada semana pode ser uma nova Semana de Arte Moderna’. Confira a conversa completa a seguir: 

O movimento modernista, que teve seu ápice há 100 anos, durante a Semana de 1922, está sendo celebrado este ano. Você se inspirou no movimento para fazer sua arte?

Quando comecei a desenhar minhas referências eram os autores infantis. Monteiro Lobato um deles. Então não tinha contato com os escritos de outros autores modernistas, embora meus pais fossem poetas. 

Quais foram as principais mudanças, principalmente nas artes visuais, que eles imprimiram?

O movimento, embora elitista naquele momento, inspirou mudanças de parâmetros para as artes. Uma nova visão carregada de nacionalismo que ajudou a encontrarmos nossa identidade cultural.

Por algumas vezes você homenageou expoentes do movimento, como foi o caso da Tarsila, a obra Tropical, de Anita Malfatti, e alguns quadros de Portinari, que inclusive podem ser vistos no MIS Experience. De que forma acha que o movimento conversa com as crianças?

Sim, realmente, dentro da exposição História em Quadrões que inaugurou na Pinacoteca de São Paulo com grande sucesso em 2001, há releituras com nossos personagens sobre obras importantes na pintura e escultura mundial. Dentre elas temos os que citou e mais Pescadores, de Di Cavalcanti, Bananal, de Lasar Segall, e até um inédito, somente no desenho,  que é o Monumento às Bandeiras, de Victor Brecheret. O que funciona na exposição é que os personagens ajudam a divulgar a própria obra original que tem uma reprodução ao lado da releitura. Contribuímos para que as crianças se interessem mais pela arte e pelos artistas retratados. 

A história em quadrinhos sempre teve um traço internacional, mais americanizado. Acredita que com seu trabalho, em trazer a linguagem brasileira aos quadrinhos, investiu no ideário defendido pelos modernistas?

Posso dizer que personagens como Chico Bento que até foi atacado por ter falas caipiras e que hoje é visto como preservação de um jeito de viver e Horácio que já falava de ecologia há muitos anos em que crianças nem sabiam o que significava, são exemplos de que sempre é preciso ter um olhar próprio de nossa cultura e da leitura de nosso tempo. A própria Mônica, toda empoderada, que foi criada nos anos 60, em pleno movimento Women’s Lib, quando personagens femininos eram apenas reprodução de uma visão retrógrada e até machista, foi um marco dentro da área de quadrinhos. Tudo isso veio de nossa visão de brasilidade e de nosso povo.

Quais são as principais obras modernistas, na sua opinião?

Creio que o que marcou a Semana de 22 foi justamente a junção de todas as obras e gêneros de arte. Por isso, lembramos hoje como um movimento importante sem que destaquemos uma ou outra obra. Mas, claro que tenho um carinho especial pela área de pintura, por razões óbvias. Nesse caso, Tarsila, Di Cavalcanti e Anita Malfatti se destacam.

Como a mensagem modernista chega para a cultura brasileira, 100 anos depois?

É uma referência de que sempre devemos ter um olhar no passado para espelharmos o futuro. O Brasil sempre pode levantar muitos temas para a cultura mundial.

Haveria hoje espaço para uma segunda Semana de Arte Moderna?

Com a rapidez das informações que nos chegam pela internet acho que cada semana pode ser uma nova Semana de Arte moderna. As crianças, os jovens, estão vindo com novas ideias a cada dia e sempre temos novidades acontecendo. Temos que correr atrás deles para não perdermos o diálogo cultural necessário para a comunicação moderna.

(Miriam Gimenes/Agenda Tarsila)

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