Rodrigo Valente/Divulgação

‘Di Cavalcanti contribuiu para a emancipação da arte brasileira’, diz o escritor e biógrafo do modernista, Marcelo Bortoloti

O catálogo da Semana de Arte Moderna de 1922 é uma das imagens mais conhecidas quando se pensa no evento. Aquelas letras pretas e vermelhas, com uma árvore solitária, tudo foi criação do ilustrador, pintor e desenhista carioca Emiliano Di Cavalcanti, que deixou não só essa como outras que resultaram em uma contribuição imensurável na história da arte brasileira. E para contar toda sua história, o pesquisador e escritor Marcelo Bortoloti prepara, para o segundo semestre deste ano, a biografia do artista, que será publicada pela Companhia das Letras, mais uma ação em comemoração ao centenário da Semana de Arte Moderna.

Para tanto, Bortoloti foi a fundo nos arquivos nacionais e seguiu seus passos, principalmente no período que morou na França, em diferentes momentos da vida: na década de 1920, na de 1930 e, por fim, na de 1960. E lembra, na publicação em fase de elaboração, de como Di foi importante para reafirmar a arte nacional, mote principal da Semana que, muitos dizem, surgiu de uma ideia sua. “Di Cavalcanti contribuiu para a emancipação da arte brasileira”, afirma o autor. Confira, a seguir, a entrevista completa:

Você está preparando uma biografia de um importante modernista, que é o Di Cavalcanti. O que te deu o ensejo deste trabalho e o que está preparado até agora? Tem previsão de publicação?

Na verdade o Di Cavalcanti é um artista, de fato, importante, e que não tinha uma biografia. Tinham alguns estudos sobre ele, mas nenhum livro que desse conta de uma existência, que foi tão ampla. Ele viveu quase 80 anos, sempre ativo, envolvido nos movimentos culturais brasileiros. É uma história comprida e que ninguém tinha contado ainda. Achei que era uma boa oportunidade neste centenário, poderia ser um mote para o livro. Eu já tinha feito uma pesquisa sobre ele junto à Biblioteca Nacional, levantandoa produção dele na imprensa. Porque além de pintor, ele foi um caricaturista, cronista, escreveu para imprensa, então teve uma produção vasta nos jornais e revistas da época. Essa foi minha primeira pesquisa dele, já faz alguns anos. Como já tinha esse material, resolvi dar prosseguimento para fazer a biografia agora. Tem uma previsão de ser lançado no segundo semestre, aproveitando o momento do centenário, pela Companhia das Letras. 

É um recorte, pelo que li, da parte que ele morou na França, foi trabalhar lá. É isso, ou compreende toda a vida dele?

Não é um recorte, é toda a vida dele. Mas ele passou períodos muito importantes na França, eu fiquei lá um tempo e essa é uma parte importante do livro. Di viveu na França por três ocasiões importantes: assim que terminou a Semana de Arte Moderna de 1922 ele foi para lá, junto com vários modernistas, inclusive Tarsila, Oswald, Brecheret, estavam lá neste período – ele ficou de 1923 a 1924. Depois retornou em 1935 e ficou até a Segunda Guerra Mundial, 1940, passagem muito importante da vida dele lá e posteriormente foi nos anos 1960, quando chegou a ser nomeado Adido Cultural da Embaixada do Brasil em Paris, só que foi nomeado no dia 31 de março de 1964 e chegou lá no dia 1º de abril, exatamente no momento do golpe (militar) que ele foi destituído. A partir disso passou um período como exilado em Paris, enfim, tem uma identidade muito forte com essa cidade e a pesquisa foi importante ter passado por lá também. 

E tem uma história que ele fugiu da França, você pode contar um pouco para gente o que ocorreu? Deixou obras dele e da mulher dele lá…

Ele estava lá quando o exército alemão invadiu a França em maio de 1940 e estava se aproximando de Paris. Ele e Noêmia Mourão, pintora muito importante que foi mulher dele neste período, e deixaram, às pressas, a cidade. Foi um momento que muita gente deixou Paris de maneira precipitada e eles acabaram deixando para trás as obras de arte, porque não tinha como carregar. Eram quase 40 quadros, às vezes de grande formato, era preciso ser transportado por uma empresa. Esse material não chegou, então foi aquele momento de tristeza, tanto de ter deixado a França quanto de ter ficado para trás uma parte importante da produção deles feita ali. 

Mas depois conseguiram recuperar?

Vai ter de ler o livro para entender o restante da história (risos). Tem desdobramentos, mas foi um momento dramático da vida dele, sem dúvida. 

Você está em um momento da elaboração do livro. Mas o que dá para adiantar para a gente de interessante que você descobriu que não sabia sobre o Di?

É difícil falar isso porque, na verdade, a história dele está muito pouco contada. A maioria das pessoas conhece muito pouco o Di Cavalcanti, a não ser o estereótipo daquele homem, que era pintor de mulatas – uma palavra hoje pejorativa -, aquela figura do boêmio, conquistador, mas ele tem uma profundidade muito interessante. E a história dele começa desde a abolição da escravatura no Brasil, porque era sobrinho do José do Patrocínio, um grande abolicionista. A família dele toda esteve envolvida neste movimento e em vários dos acontecimentos que seguiram na história do Brasil e do mundo ele estava envolvido. A Semana de 1922, a Primeira e Segunda Guerra Mundial, a disputa no Brasil entre o abstracionismo e a arte figurativa, a ditadura militar. Antes disso, o golpe do Estado Novo, ele era militante comunista na época, foi preso. A história dele está envolvida com a história do Brasil e é interessante essa perspectiva do artista como um todo. No caso da Semana, havia inicialmente uma ideia mais artesanal do evento, que partiu dele e de um grupo que estava presente em uma exposição dele numa livraria. 

Alguns dos entrevistados que ouvi afirmam que a ideia foi do Di, principalmente o Ruy Castro, escritor do Rio de Janeiro. Você concorda?

Acho que essa posição do Ruy Castro talvez tenha um pouco do bairrismo carioca, mas de fato ele tem razão, surgiu do Di a ideia de fazer um evento que juntasse várias expressões da arte moderna. Mas era ainda uma ideia artesanal como estava dizendo. E depois, quando Graça Aranha (escritor) se juntou com o grupo e posteriormente o Paulo Prado (mecenas), a ideia ganhou o corpo que ela teve, virou um evento mais robusto. Inicialmente era uma coisa mais independente, mas depois ganhou esse viés que seria um evento da elite local que entraria para história.

Você acha que o Di ou qualquer outro artista que estava ali imaginava que 100 anos depois ainda se discutiria o que eles fizeram durante as três noites no Municipal?

Certamente foi um evento que não tinha tanta pretensão. O que era mais forte ali, mais do que o evento, era o movimento de renovação das artes. Era isso o que se pretendia, a transformação das artes. O evento em si poderia ser só mais um de tantos outros que aconteceram na época, mas este ficou marcado por razões às vezes até mundanas, ‘porque estava no Theatro Municipal’, ‘porque tinha um patrocínio da elite paulista’. Esses aspectos que são para além da própria questão artística, eles interferiram na nossa recepção do evento até hoje. Acho que neste centenário muita gente está estudando a Semana e está ajudando a desconstruí-la, o que é importante porque muitas coisas aconteceram neste momento no Brasil, seja no Rio de Janeiro, em Minas Gerais ou em Pernambuco. Era um movimento que estava para estourar em qualquer lugar. 

Qual foi a principal contribuição do Di Cavalcanti para a arte brasileira?

Ele foi esse pintor que trouxe um pouco da população, dos costumes de um certo subúrbio carioca, de uma certa raça que não era exatamente a negra, mas uma mistura intermediária. Fez uma leitura erudita do país, porque ele era um pintor que estava em diálogo com os grandes mestres, seja do passado ou do presente, mas tentando juntar isso com um caldo cultural brasileiro. Foi um dos que ajudou nessa emancipação da arte brasileira para poder dialogar com o que estava sendo produzido no mundo naquele momento. 

E ele não é o primeiro modernista que você se dedica a contar a história. Recentemente você lançou a biografia também de outro modernista…

De Alberto da Veiga Guignard, um outro modernista, com uma trajetória completamente diferente do Di Cavalcanti. Era um fluminense, nasceu na cidade de Friburgo, no Rio de Janeiro, e se mudou para a Europa e a formação dele foi toda lá. Estudou em Munique, passou pela Itália, pela França e retornou ao Brasil já como pintor maduro. Era muito preso aos moldes acadêmicos e aqui ele se envolveu com o espírito da modernidade. Uma história de vida muito interessante, dramática, um pintor sensível, mas pertencendo não a estes primórdios da Semana de 1922, estes modernistas heróicos. Ele é já de uma fase posterior e talvez até um pouco consequente deste movimento que surgiu na década de 1920. Então, embora eles sejam dois modernistas, pertencem a fases distintas e se apropriaram do modernismo de maneira distinta. Di foi um artista militante muito aguerrido, vinculado ao Partido Comunista e isso refletiu na arte dele. O Guinard não teve esse engajamento, partiu para outro tipo de expressão, acabou indo para Minas Gerais, morreu em Ouro Preto. Mas de alguma maneira estavam dialogando. Acho que tem coisas parecidas, mas pertencem a fases distintas. Há um pioneirismo no campo das artes que foi muito importante para os artistas que vieram posteriormente.

E o que te atrai nos modernistas?

Esse espírito de romper determinado tipo de barreira, de procurar a identidade nacional. Ninguém pensa isso: o que é o Brasil, qual a identidade do brasileiro? Essa foi a questão que eles levaram muito a sério. Acho que merece ser retomado. Vamos pensar um pouco quem nós somos. Estamos em uma situação tão difícil, uma confusão política e cultural, é um momento bom para a gente se voltar para nós mesmos.

(Miriam Gimenes/Agenda Tarsila)

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