Matheus José Maria/Divulgação

Diversos 22, do Sesc, propõe refletir sobre importantes marcos da história brasileira, entre eles a Semana de 1922, e pensar um projeto de futuro para o país

São inúmeras as atividades que, desde o ano passado, o Sesc tem promovido com a proposta de analisar e refletir marcos importantes da história brasileira, entre eles a independência do Brasil (1822), a Semana de Arte Moderna (1922) e a atualidade. Por isso, o projeto recebeu o nome de Diversos 22, que com diversas ações – seminários e cursos, programas musicais e audiovisuais, exposições artísticas e documentais, espetáculos em diferentes linguagens, publicações e reedições de obras literárias – traz em pauta a memória brasileira, reflete sobre elas, para então esboçar o projeto de futuro para o país.

O diretor do Sesc São Paulo, Danilo Santos de Miranda, conversou com exclusividade com a Agenda Tarsila sobre a extensa programação, que vai até o fim do ano, apontou as lacunas que ela tenta preencher da história e ressaltou a importância que todo esse movimento tem para ajudar a amenizar, principalmente, as desigualdades existentes hoje e a degradação do meio ambiente, pauta que há um século, pelo menos, não era tratada. 

“Dois aspectos que considero importantes e vão redundar em manifestações artísticas para nós: uma é a questão da Amazônia e a pauta ambiental, coisa que na época, tanto na independência e na Semana de 22 não era uma perspectiva tão relevante. Não tinha ninguém discutindo isso. Era uma visão mais ampla e ligada na questão estética, portanto. Nós estamos preparando uma ação bastante forte nesse campo, discutindo a questão ambiental, indígena, vinculada a essa pauta vastíssima que é a integração nacional de maneira plena usando como símbolo a Amazônia, que é um bioma ameaçado e sabemos do que estamos falando. Há um desmonte geral de tudo quanto é mecanismo de defesa”. Confira, a seguir, a entrevista completa: 

O Sesc deu início, ainda no ano passado, ao programa Diversos 22, que compreende uma gama de atividades enorme sobre marcos importantes da nossa  história. Gostaria que me falasse o que é abordado em todo esse movimento?

O Sesc é uma instituição ligada à educação informal, não escolar. Portanto tem a perspectiva educativa como orientadora de sua ação. Tudo que nós fazemos tem esse caráter educativo, no sentido mais pleno possível, desde a origem. Então toda programação nossa, as diversas facetas do nosso trabalho, nossa pluralidade de atividades no campo social, cultural, esportivo, das ideias, todos os campos onde atuamos, tem sempre essa orientação. Que visa esclarecer, aprofundar, criar novas perspectivas, reconhecer a memória como valor importante para nossa história. O caráter está envolvendo tudo que a gente faz, inclusive por ocasião da Semana de 22 e da independência do Brasil, que são duas datas absolutamente significativas, sendo que uma é dependente da outra, na medida que a Semana foi parte das comemorações que se imaginava dos 100 anos da independência. O que significa dizer que estamos falando de um projeto de país, de uma discussão sobre quem nós somos, o que pretendemos, quais são nossas características, o que já produziu, o que precisamos fazer, quais são as questões que estão por trás de tudo isso. Seja considerada a nossa independência no plano mais profundo de um país autônomo, capaz de ter uma sociedade evoluída, solidária, com uma perspectiva de evolução cada vez mais importante. Seja no que diz respeito à instituição política ou institucional, se é um país independente, com vida própria. No fundo estamos falando a mesma coisa, de um projeto de país. Os que estavam lutando pela independência no século 19, que foi consagrado no 7 de setembro, acabou tendo essa data, mas muita coisa aconteceu antes e outras depois, em termos de autonomia política, as lutas que tivemos, os levantes, como por exemplo, o famoso caso da Inconfidência Mineira e muitos outros. A comemoração ou a discussão em torno da independência não se prende apenas ao grito do Ipiranga, que é um símbolo, um momento no qual estamos envolvidos também porque aconteceu em São Paulo, na colina do Ipiranga, e temos aí inclusive esse marco especial da reinauguração do Museu do Ipiranga, que estamos acompanhando de perto. O Sesc como instituição ligada à cultura e vizinho fisicamente do museu, já que temos uma unidade ao lado, tem um compromisso muito grande com todo esse esforço com relação ao museu. Mas tem um aspecto importante, fundamental, para São Paulo, Brasil e o mundo todo, essa  coisa da revalorização do museu e tudo que ele significa. Agora, cem anos depois da independência, tivemos a Semana de 22, que é um marco do ponto de vista de sua abrangência. Tinha uma característica mais centrada no esforço de modernização da nossa arte. O modernismo que chega de maneira acentuada, celebra 1822 e estabelece um novo movimento. O modernismo já estava presente no Brasil, sabemos disso, mas de maneira pontual e isolada. E na Semana de 22 é o primeiro movimento organizado que vai buscar várias pessoas, de várias áreas, como da literatura, da poesia, da música e das artes visuais. Então, nesse momento é que se consagra esse desejo da modernização do país, de certa maneira cumprindo um fluxo que vem talvez desde o século 18 que era a tentativa de ter um país, uma nação, homogênea, ao mesmo tempo diversa, e que estabelece de alguma forma condições para refletirmos sobretudo nesses fatos todos. Para nós são dois movimentos fundamentais: celebrar, comemorar – que significa lembrar junto -, de tudo que aconteceu. Portanto a comemoração tem um caráter também festivo. E, ao mesmo tempo, temos uma necessidade de aprofundar cada vez mais a noção, as características, de tudo que tenha a ver com essa coisa de independência, autonomia, criação, que uma sociedade justa e igualitária para todos, que era o que se imaginava e continua sendo perseguido, é fundamental para nós, tem todo esse caráter bastante importante que é fazer, refletir sobre, comemorar e pensar. E, ao mesmo tempo, refletir e aprofundar buscar o que é necessário para uma sociedade, um projeto de país mais pleno e completo, onde a desigualdade seja superada, as integrações nacionais sejam mais plenas e completas, onde todos os aspectos da vida nacional tenham uma dimensão bastante própria e importante que os pensadores da Semana de 22, Mário e Oswald, e mais todos que tiveram junto, naquele grupo central, que fizeram o Grupo dos Cinco, que tiveram de certa maneira a incumbência de provocar, debater, com todas as características da época, a favor e contra. A favor que digo dando um basta em determinados tipos de pensamentos retrógrados do ponto de vista literário, isso é importante, e também propondo uma nova estética, um novo jeito de falar as coisas, usar a linguagem de maneira mais direta, no caso da língua brasileira, segundo Mário de Andrade, e isso tudo é objeto de reflexão e debate para inclusive ver as lacunas, o que faltou. Porque não estava presente a nossa cultura indígena, negra, que já era importante naquele tempo, mas não foi reconhecida como tal. Hoje refletir sobre isso significa levar em conta todos esses aspectos também. 

Olhar tudo isso com as lentes de hoje…

Sim, de hoje. Acho importante a gente enxergar tudo isso dessa forma corajosa. As instituições em São Paulo, no Brasil todo, de modo geral, já desde o ano passado, tem uma quantidade de ações voltadas para esse campo. Para nós (Sesc) acaba sendo algo que eu diria não unificado propriamente, mas com pontos comuns das duas efemérides, que é o que chamaria de projeto de país. O que pretendemos? Que país é esse? Quais são as características que a gente tem de valorizar? Considero tanto a independência e as independências, os levantes todos na época, como elemento-chave para fornecer essa reflexão. Muita coisa que aconteceu depois de 1822, na medida que ficamos ainda em uma independência meio parcial, porque foi o único país no mundo que chamou o herdeiro do colonizador para ser o chefe de Estado da sua nova condição, que é o caso do Pedro I, que em Portugal depois se tornou o Pedro IV. É uma figura que estava com o pensamento aqui e outro lá. Por isso acabou voltando rapidamente para reconquistar o trono na medida que havia uma ameaça grave. Então foi uma independência que Portugal estava muito presente, muito no plano da reflexão toda que se fazia. O próprio Bonifácio levava isso como um ponto muito importante, era um grande estadista. Já quando a gente chega em 1922, que é uma fase nova, já estamos na primeira república, com questões graves do ponto de vista da economia, política, cultura e vários elementos que faziam com que fosse um momento especial. Ao mesmo tempo que no Rio de Janeiro se fez uma imensa feira universal (para celebrar o centenário da independência), que tem edifícios construídos daquela época até hoje lá, mas em São Paulo surge em decorrência do seu momento, economia, as pessoas que estavam na elite à época, pensando nessa reflexão mais no plano cultural, do que com as trocas comerciais que era no fundo a questão da grande feira. Sobre isso nós estamos refletindo, pensando, aprofundando, essa temática desde muito tempo, talvez desde 2019 já estávamos com isso na cabeça. Divido a nossa atividade em três grandes campos. O primeiro é da reflexão, com seminários, cursos, debates, discussões, sobre todos os temas. Fizemos um seminário interno, com grandes pensadores brasileiros, todos que aprofundam esse tema de São Paulo e fora, foi muito rico. Essa é uma parte substancial do que a gente já fez, está fazendo e vai fazer. O segundo grande campo é das manifestações artísticas, que foram fundamentais nem tanto no momento da independência, embora tenha algum fato interessante: o Dom Pedro I apreciava muito a música, tanto que o Hino da Independência é dele. Já tem um quê artístico na parada. Mas o das manifestações voltadas para Semana são bastante numerosos, temos inúmeras exposições, algumas já em andamento e outras que serão feitas. É um campo imenso do ponto de vista histórico e estético, artístico. Outra área importantíssima é a das artes cênicas. Estamos preparando ações que vão discutir questões ligadas a nossa condição de nação, sociedade, mas com um olhar atual. Hoje qual é o olhar que nos faz enxergar algumas coisas da realidade brasileira que tem de ser mais aprofundada e divulgada? Dois aspectos que considero importantes e vão redundar em manifestações artísticas para nós: uma é a questão da Amazônia e a pauta ambiental, coisa que na época, tanto na independência e na Semana de 22 não era uma perspectiva tão relevante. Não tinha ninguém discutindo isso. Era uma visão mais ampla e ligada na questão estética, portanto. Nós estamos preparando uma ação bastante forte nesse campo, discutindo a questão ambiental, indígena, vinculada a essa pauta vastíssima que é a integração nacional de maneira plena usando como símbolo a Amazônia, que é um bioma ameaçado e sabemos do que estamos falando. Há um desmonte geral de tudo quanto é mecanismo de defesa. Estamos neste momento com um problema gravíssimo de uma dupla de pesquisadores, um jornalista e um indigenista sumidos. Isso é um assunto internacional, não só nacional. Esse é um tema importante que está no decorrer desse processo pensando no país como um todo. E outro aspecto que tem a ver mais com a independência de 1822, porque vai trabalhar em cima de um momento no final do século 18 chamado Conjuração Baiana. Vai ser uma atividade cênica importante, com a direção de Márcio Meirelles, um grande diretor de teatro e espetáculo da Bahia, que vai organizar uma ação voltada para esse momento da história. Por que a Conjuração? Porque cruza vários outros elementos. Além de ter sido uma tentativa de independência semelhante à mineira, que tinha aspectos próprios e próximos, mas com características bem diferenciadas também. A Inconfidência Mineira era um movimento forte liderado sobretudo pela elite pensante da cidade de Vila Velha, Ouro Preto. Eram pessoas religiosas, alguns padres, líderes da comunidade, literatos, pessoas que eram preparadas. A Conjuração Baiana é liderada por alfaiates negros recém-alforriados em parte. Aí a gente cruza outras questões, porque era liderada por pobres e foram os quatro líderes todos enforcados, dizimados, além de outros que foram presos. A mineira acabou sacrificando uma apenas, o Tiradentes, embora tenha exilado um monte de gente. Estou dizendo isso porque aí a gente cruza a questão racial no meio, das características bem próprias da conjuração e isso vai ser transformado em espetáculo. E muitas outras manifestações mesmo de teatro que vão acontecer no bojo dessas comemorações e reflexões todas. E o terceiro aspecto: publicações de modo geral, livros editados, muitos já saíram e outros serão lançados, e vídeos e CDs. 

Há produção que pode ser assistida por demanda no site do projeto? Inclusive o Toda Semana, ou outras coisas que envolvem esse trabalho?

Nós temos o site apropriado que é sescsp.org.br e a partir dali você entra inclusive na lojinha que coloca tudo isso à disposição para as pessoas, as publicações, além de termos também as publicações das lojas das nossas unidades. Essa, por exemplo, Toda Semana são quatro CDs com o material todo musical. Tem todo histórico do que aconteceu na Semana de 22, inclusive as músicas tocadas, e textos importantes. Regravaram tudo. E temos alguns vídeos também, que já foram preparados, um deles dá conta um pouco da história da Semana, feita pelo diretor que era da TV Cultura, o Helio Goldsztejn (22 em XXI), que ficou muito bom, e estamos preparando outro sobre toda trajetória dos levantes acontecidos. Para nós, portanto, mais do que uma efeméride a ser celebrada, mais do que um momento, isso que temos Diversos 22, que fala de 1822, 1922 e 2022, por isso o nome. Temos uma diversidade imensa nesse país, o que torna de um lado a gente muito capaz de entender essa mistura, essa realidade unificada em uma língua, que é quase um milagre, a unificação política e linguística brasileira. A América Latina toda se fragmentou. Tem o fato da corte ter vindo para o Brasil, o que, durante algum tempo, alçou o Rio de Janeiro a capital do império português. É o único país da América que foi capital de um império que tinha uma parte na Europa. Isso deu condição de formarmos uma nação sem termos ainda a independência. O Brasil dependia ainda de Portugal, porque o rei, fugido de Napoleão, veio para cá. Não é uma situação das mais louváveis, porque no fundo ele estava fugindo do rolo da Europa. Mas de qualquer forma estabeleceu aqui Biblioteca Nacional, Banco do Brasil, a imprensa nacional. Tudo foi trazido para cá e se tornou portanto um país sem ser totalmente independente. Só em 1822 o príncipe vira monarca do Brasil. É importante ter essa ideia clara de que tudo que aconteceu tem uma trajetória, mas falta muito ainda. 

Qual a importância de projetar o futuro com foco nesse passado brasileiro?

Perspectiva nossa só faz sentido na medida que a gente imagina a superação ou pelo menos o enfrentamento da questão da desigualdade. Não é chavão dizer que somos frutos hoje, a economia, relações, modo de atuar, está cheio de atitudes, pensamentos, que de alguma forma são ainda colonizadoras. A perspectiva nossa é de criar e manter, para usar uma expressão mais profunda, as utopias. Embora a gente esteja vivendo hoje um momento distópico, ou seja, sem esperança, sem perspectiva, em função de um quadro político nefasto que estamos atravessando. Mas esses dois momentos da nossa história nos fazem refletir da seguinte forma: isso que está acontecendo, por pior que seja, o desmonte da questão cultural de modo geral, ambiental, a questão da falta de empatia por parte dos detentores do poder com relação à população de modo geral, perdendo um caráter humanitário, de buscar o melhor possível para todos, isso tudo vejo com um elemento formador para nos fazer provar um momento, superar isso e transformar realmente numa perspectiva mais utópica, verdadeira. Não acho que de um dia para noite vamos ser um país sensacional, todo mundo igual, se reconhecendo e se solidarizando com tudo que acontece. Não existe isso, não vamos ser ingênuos. Mas uma sinalização para isso é fundamental, que já tivemos em vários momentos. Há uma polarização forte no país, tem quem combata isso de maneira forte, como se esse fosse um mal em si mesmo. A polarização desrespeitosa é um mal em si mesmo, mas a normal, onde penso de um jeito e você de outro, a democracia vive disso, desde os gregos. Se queremos um país democrático, temos de ter quem pensa de um jeito e quem pensa do outro. Uma coisa é polarização, outra coisa é esse desrespeito mútuo de agressão, violência verbal ou física, essa coisa de dar arma para todo mundo, como se fosse todos ameaçados de ter algum tipo de prejuízo ou ser atacados por alguém. Isso para mim é muito primário. Claro, temos a violência no país, decorrente de muitos fatos, inclusive do mal exemplo dos que têm poder, que querem tirar vantagem em tudo. Nesse sentido temos uma vasta pauta para o futuro, mas as duas centrais têm a ver com a questão da desigualdade e do racismo, que são elementos que vêm da nossa história. Muitos países tiveram escravidão. Mas a do Brasil foi maior que a maior parte dos outros países, mais de 5 milhões de negros trazidos da África. Não tem nenhum que tenha tido essa quantidade. A nossa escravidão é mais intensa do ponto de vista numérico e de tempo, é o último país que resolve abolir, e é uma escravidão violenta, nefasta, terrível, que temos conhecimento parcial. Porque a elite brasileira achou conveniente esquecer isso, inclusive no início do século 20 trataram de acabar com qualquer registro possível. O que tem por aí é salvo por milagre. O Brasil tinha toda sua economia baseada no trabalho escravo e se tornou incapaz de se desenvolver a não ser através deste mecanismo. E isso traz consequências até hoje para nós. Nem diria que é uma coisa que a gente percebe o tempo todo, mas a sociedade brasileira tem manifestações de intolerância racial terrível. Acho que na medida que trata desses temas agora de alguma forma ajuda a transformar o país. E a questão ambiental que já mencionei, tudo vai ser voltado para o lado artístico, que é a praia que lidamos melhor. Queremos oferecer ao grande público toda uma ocasião para que essas reflexões sejam colocadas na mesa e tragam algum tipo de avanço na sociedade. Tenho esperança de no futuro a gente passar por essa fase, não sou pessimista total. Acredito na mudança da transformação desse país, mesmo que o mundo inteiro esteja um pouco comprometido com uma visão controladora, terrível, que impede que o pobre supere sua situação, isso em termos mundiais e aqui. Está crescendo a quantidade de pessoas em situação de miséria. Temos de estar muito atentos. A minha esperança que mude recriando as condições, a infraestrutura, tendo ministério da cultura novamente, uma quantidade maior de instituições espalhadas por todo país, reconhecendo a capacidade de todo mundo, inclusive os mais populares, simples, que têm uma sabedoria própria. Estou falando dos indígenas, dos quilombolas, dos ribeirinhos da Amazônia, da periferia de São Paulo, das grandes cidades. Temos uma capacidade enorme de criar e devemos aproveitar isso. 

E das próximas atividades do Diversos 22, o que você destaca?
Tem bastante coisa, algumas que já aconteceram e outras que estão por vir. Do ponto de vista das manifestações artísticas, tem o lançamento de um álbum chamado Língua Brasileira do Tom Zé, que trabalha a questão do português, mas inserido na realidade brasileira. Vários seminários ainda vão acontecer, agora em junho, em Pinheiro, o Brasis – Territórios Dissonantes, com vários pensadores de São Paulo e do Brasil. O Centro de Pesquisa e Formação tem um seminário sobre Outra Independência, com a Heloisa Starling e Lilia Schwarcz, que estarão na coordenação dele, discutindo nossa situação e sobretudo a presença das mulheres, outro tema importante nesse processo de pensamento sobre o Brasil. No Sesc 24 de Maio teremos a exposição chamada Utopia Brasileira, sobre Darcy Ribeiro, importante antropólogo, político, pensador, sobre a realidade brasileira. No mês de julho uma exposição na Pompéia sobre Flávio de Carvalho, um artista modernista, outra chamada Margens de 22, que vai trabalhar sobretudo as manifestações populares nas primeiras décadas do século 20 que não tiveram o olhar de quem estava no Municipal. Tem dois fatos interessantes que aconteceram naquele período, primeiro a criação do samba, que estava evoluindo e era ligado a população negra, portanto muito mal visto por parte da elite. Isso passou na Semana como se não tivesse acontecido, talvez seja uma das grandes lacunas. O samba que se tornou a música mais típica brasileira. Uma outra coisa que nem é muito tratada: em 1917 a cidade de São Paulo teve pela primeira vez uma greve geral. E foi muito significativa porque foi liderada por uma nova comunidade, sociedade que veio se instalar em São Paulo em substituição aos escravizados que tinham sido libertados alguns anos antes. Eram espanhóis, italianos, europeus, que enfrentavam problemas gravíssimos lá e vieram se instalar aqui. Essa greve tem a ver com esse espírito mais evoluído um pouco, que fizeram com que organizassem isso de forma bastante enfática. E esse fato da invenção do samba e greve geral são elementos vitais para considerar o que estava acontecendo naquele período. Isso tudo vai estar nessa exposição Margens. Em agosto vai ter uma chamada Desvairar 22, digamos assim, ‘sonhe 22’. Na Pompéia teremos o Ecos de 22, em setembro, sobre o modernismo e falando de Lina Bo Bardi, criadora da arquitetura da unidade. Livros são inúmeros, sobre Mário de Andrade, Tarsila do Amaral, que já está na sexta edição, um livro importantíssimo de Nádia Battella Gotlib. Temos também uma publicação sobre os 100 anos do livro Pauliceia Desvairada, icônico de Mário, uma poesia potente, e Cinema e Educação: a Emergência do Moderno (1920-1930); Teatro Modernista de António de Alcântara Machado, Oswald de Andrade e Mário de Andrade; Livro MPB na vitrola de Mario de Andrade (2ª edição), além de livros de coedição que tratam da independência e dos movimentos. Em termos de publicação tem muita coisa.

(Miriam Gimenes/Agenda Tarsila)

Publicada em 20 de junho de 2022

Veja também
+Programação