Silvia Zamboni/Divulgação

‘É muito importante a gente cantar a coragem’, diz o cantor e compositor Zeca Baleiro, responsável pela trilha de ‘Tarsilinha’

Tarsilinha é aventureira, destemida. Quem ver ou ouvir sua história, contada pela paleta de cores e formas da pintora modernista de mesmo nome, certamente se encantará. E sairá das salas de cinema cantarolando os versos criados pelo cantor e compositor Zeca Baleiro em parceria com Zezinho Mutarelli, ambos responsáveis pela trilha sonora da animação infantil brasileira. 

Em entrevista exclusiva à Agenda Tarsila, Zeca conta que bebeu muito da fonte modernista, da importância que o movimento teve, principalmente na música brasileira, e ressalta a mensagem do filme, uma lição tanto para as crianças quanto para os adultos. ‘É muito importante a gente cantar a coragem’. Confira, a seguir, a conversa completa. 

Você está em um projeto muito importante que é o longa Tarsilinha, que estreia nos cinemas. Queria que me falasse sobre esse trabalho e a contribuição na trilha sonora do filme. 

O convite partiu da Célia Catunda, Kiko Mistrorigo e do Zezinho Mutarelli, músico, compositor, amigo, que já estava incumbido de fazer a trilha. Só que chegou um momento em que precisavam de uma canção e o Zezinho pensou no meu nome. Acabei entrando mais do que na canção, terminei por compor também alguns temas instrumentais da trilha propriamente dita. É um filme longo e a música é muito presente. Ele já estava um pouco exausto de um trabalho de não sei quantos anos (risos), precisava de um parceiro. Falou: ‘Zeca, você topa?’. Eu: ‘O projeto é lindo, não posso dizer não.’ Lembro que estava bem ocupado, mas quando a gente quer fazer sempre arranja tempo, mesmo em meio a um vendaval de compromissos. Assim se deu. Tivemos vários encontros, fui vendo a cada novo corte do filme, resolvemos onde teria música, qual atmosfera seria, e passei um tempo  compondo uma canção final, que teria de ser uma síntese do filme, falar sobre todos os personagens, o espírito destemido, aventureiro, da menina Tarsilinha, a nossa heroína. Tinha de ser uma canção curta, como convém a projetos infantis, porque a criança tem uma atenção um pouco mais dispersa. É muito inquieta a mente dela, tem de ser uma coisa de sedução rápida. Foi desafiador. Fiz umas quatro tentativas até chegar nesse lugar, que é um baião pop, moderninho. Que bebe um pouco na fonte do Villa-Lobos, dos compositores ligados de certa maneira ao modernismo. 

Pelo que ouvi a música fala bastante sobre coragem, dessa questão da Tarsila ser destemida. É uma mensagem importante para passar para as crianças neste momento em que estamos vivendo?

Sim, essa ideia, essa mensagem da coragem, do destemor, de enfrentar os medos, porque ter coragem não significa não ter medo (risos). Pelo contrário, o medo está sempre ali. Mas é ter coragem de enfrentá-los e ela passa por coisas bastante perigosas, assustadoras, que não vou contar para não dar spoiler do filme, mas enfrenta tudo com muita bravura. É uma mensagem sempre importante não só para as crianças, mas para a humanidade de uma maneira geral. Agora, então, que a gente está vivendo a pandemia, medo da morte, uma ameaça sempre pairando… Agora diminuiu um pouco, mas teve um tempo que estava uma loucura. Isso tudo cria uma atmosfera de terror, de opressão. Acho importante cantar a coragem. 

O universo da Tarsila costuma gerar encantamento nos pequenos. Por que você acredita que tem essa proximidade da artista, com trabalhos feitos há 100 anos, com as crianças?

Acho que tem uma coisa muito lúdica no trabalho da Tarsila. Esse espírito é uma coisa eterna, que permanece por gerações. Você vê uma tela como Abaporu, que inclusive é cenário do filme – também não vou dar spoiler -, há muitas telas dela que são usadas como cenário da ação do filme, então tem magia, fantasia. Não tem uma forma exata de pessoas, as paisagens não são como são. Para isso a arte serve: para criar uma outra dimensão mental, de percepção do mundo, criar outras atmosferas. E nisso o filme é muito bem-sucedido, porque ele nos leva a uma viagem, não só pelas telas da Tarsila e o imaginário modernista, que é muito presente, mas nos leva para um lugar de sonho, bonito. Eu fiquei emocionado quando vi o filme pela primeira vez. É claro que era um trabalho técnico, então você tem de ouvir mais de uma vez, o que até banaliza em um certo sentido, mas depois quando vi pronto me emocionei de novo, porque é comovente mesmo. E é lindo, de uma beleza plástica arrebatadora. 

Estamos falando do centenário da Semana de Arte Moderna. Para você como artista, qual a importância de trazer esse ideário modernista para os dias que a gente vive hoje?

Importantíssimo, porque o modernismo tocou em questões, talvez pela primeira vez no debate cultural brasileiro, que permanecem até hoje. Propostas, rupturas, essa coisa da antropofagia, esse conceito da gente deglutir a própria cultura, mesmo que absorva o melhor que vem lá de fora. Que a gente passe a dar uma atenção especial para as nossas informações culturais, nativas, e processe essas coisas para criar uma nova arte. Isso nos nutre até hoje. Nutriu, de certa maneira, o tropicalismo e todas as coisas interessantes da vida cultural brasileira desde então. No próprio filme tem um sapo, por exemplo, que é um personagem importante, meio oswaldiano, faz trocadilhos o tempo todo, brinca com a língua portuguesa, ou brasileira, no caso, é muito divertido. Certeza que esse personagem as crianças vão ter grande empatia com ele. 

E você bebeu da fonte modernista?

Sim, totalmente. Ainda na época escolar aquilo me atraiu muito, me seduziu, toda a discussão, aquela intenção de reavivar os símbolos profundamente brasileiros. Aquilo tudo falou alto ao meu coração. E quando me vi artista, já produtor, fazedor de arte, foi natural para mim. Já era uma coisa que, de certa maneira, estava em mim, esse sentimento de que a nossa maior riqueza é o que a gente tem de único, tudo que é nosso, sem confundir com xenofobia cultural, que aí é outro assunto. Não é que a gente não vai gostar de um blues, porque é americano, ou de um fado porque é português. Não. O mundo é grande e tudo nos interessa. Mas é sempre lançar um olhar brasileiro sobre as coisas que a gente ouve, consome e produz. Isso é a grande lição do modernismo, de todos esses grandes que formaram esse ideário que permanece até hoje. 

Na sua música você também tem essa ousadia. Mistura rock, baião…

Quando a Bossa Nova surgiu, eu falo que ela era tropicalista antes do tropicalismo, porque o que eles fizeram, na verdade? Tom Jobim, João Gilberto, Menescal, Carlos Lyra, todos os que estavam envolvidos? Pegaram o samba, que era uma matéria profunda e exclusivamente brasileira, mixaram ali com informações do jazz, que era de origem norte-americana, mas que já era uma música dominante no mundo, interessava a todos. Isso internacionalizou, de uma certa maneira, a nossa música. É um procedimento tropicalista, só que antes. Quando o tropicalismo veio com Caetano, Gil, Tom Zé, Mutantes, Torquato Neto, todo mundo, veio propondo isso também, que a gente deglutisse a la os ensinamentos de Oswald e todos os outros envolvidos na Semana, as informações profundamente brasileiras como o baião, o samba, maracatu, banda de pífano de Caruaru, baião de Luiz Gonzaga, mas com uma informação que dialogasse com o mundo, que tem a ver com o rock emergente, o pop rock. Já nos anos 1970 já era uma segunda fase, com Beatles, Rolling Stones, Hendrix, Bob Dylan surgindo ali. O que eles fizeram foi juntar essa informação mais internacional valorizando as que eram exclusivamente brasileiras. A partir daí isso marcou toda produção musical no Brasil, porque a nossa grande riqueza é essa mesmo. Se você bota um japonês para tocar samba, ele vai tocar, porque os japoneses fazem quase tudo, mas ninguém vai tocar samba como um brasileiro. A gente tem de ser cada vez melhor do que já é, do que é naturalmente nosso. Às vezes rola um deslumbramento, uma cafonice, o que o Nelson Rodrigues gostava de chamar de ‘complexo de vira-lata’, dar uma importância tamanha ao que vem de fora e desprezar as nossas informações. Mas está tudo aqui, o Brasil é um grande caldeirão étnico, cultural e a gente só precisa estar ligado nas coisas do mundo porque é importante também não ficar isolado. Não é para ser purista, nada disso. É ser brasileiro, entender o que é isso, a brasilidade cultural, e tirar proveito disso. Porque é uma informação linda, única e sedutora. Basta ver os gringos quando vêm ver nosso carnaval e ficam encantados com a beleza, exuberância da festa. 

Você se considera uma artista de vanguarda?

Não… Não sei bem o que é vanguarda. Estou mais para retaguarda mesmo (risos). Acho que o artista tem de estar sempre questionando o seu tempo. Neste sentido, se a gente pensar assim, todo artista é de vanguarda. Mas quando fala essa palavra, em um conceito mais europeu, você pensa em rupturas, estéticas, quebra de paradigmas, que hoje soam meio quase que obsoletos. Ainda mais quando se trata da matéria em que eu trabalho, que é a música popular, canção. Hoje o importante é fazer uma música que dialogue com todas as gerações, que os jovens possam lançar um olhar interessante para aquilo, mas que fale também coisas profundas, pertinentes ao nosso tempo. Isso, para mim, de certa maneira é ser de vanguarda, mas não neste sentido formal. ‘Agora vou fazer uma música totalmente autoral, que ninguém vai entender…’ Não! Isso também me parece um pouco datado. Em um país como o Brasil, com essa alegria que é um fato – embora a gente esteja vivendo um momento meio estranho, que até a alegria e certos valores de gentileza, empatia, estão sendo questionados -, mas a gente tem uma alegria inerente, do corpo, que um dinamarquês talvez não tenha, um norueguês, um irlandês não tenha. Uma certa sensualidade. Por exemplo, como vou desperdiçar o ritmo, a dança, que a música pode proporcionar não posso. Experimento é uma coisa para europeu mesmo. Sempre brinco: não conheço nenhum filósofo baiano, mas conheço vários alemães, finlandeses e tal. Porque o baiano não vai filosofar, vai usufruir da festa, vai ver o Olodum no Pelourinho (risos). Essa é a filosofia dele, é o bem-viver. 

O que é ser moderno para você?

É ser contemporâneo do seu tempo, se é que é possível se dizer. É viver no seu tempo. Você pode beber sempre das fontes do passado, porque é importante conhecer a história. Hoje acho que rola uma coisa com essa geração já nascida totalmente dentro da internet, do universo das redes sociais, parece que eles sabem tudo, que não precisam de nada. Vejo isso até, às vezes, na relação com meus filhos. Rola uma arrogância inerente, natural, não no sentido pior da palavra. Uma autossuficiência, sabe? E a gente sabe que o mundo não começou agora. Para eles chegarem nisso, antes havia alguém fabricando Long Plays, depois cassetes e CDs até chegar ao Spotify. Eles acham que o mundo começa no Spotify, é um pouco isso. É importante, à medida que a gente envelhece, não perder a juventude no espírito, da cabeça, relacionar criativamente com as gerações mais jovens, uma coisa que tenho feito muito no meu trabalho. Os mais jovens me procuram já como uma referência, já me chamam de mestre. Acho bacana e vou lá e componho, canto, me divirto com isso. Um amigo meu fala: ‘quando te chamarem de mestre, não pense que é porque você é o bambambam. É porque está ficando velho mesmo’ (risos). Então tá tudo certo. O conceito de moderno, se você pensar, já é antigo. Já tem o pós-moderno e recentemente o hipermoderno. Agora estamos vivendo o momento da pós-história, já vem o novo epíteto do que a gente está vivendo. Mas acho que ser moderno, alinhado até com a Semana de Arte Moderna, é viver dentro do seu tempo, do seu espaço cultural, relacionando com o mundo de uma forma fluente. E estar ligado nas revoluções culturais, porque todo tempo estão acontecendo e de uma velocidade muito grande. A própria música, a forma como se propaga hoje, vai mudando e você tem, de certa maneira, de se alinhar com esse novo modo de fazer as coisas. 

(Miriam Gimenes/Agenda Tarsila)

Publicada em 16 de março de 2022

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