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“É quase impossível conhecer Pagu e não se apaixonar por ela”, diz a produtora cultural e atriz Ana Gusmão

Patrícia Galvão, conhecida popularmente como Pagu, foi multiartista. Desenhou, escreveu, dirigiu, militou, traduziu e existiu, no melhor sentido da palavra. Durante quatro anos, a atriz e produtora cultural Ana Gusmão mergulhou nesta vida – e consecutivamente obra – intensa para produzir uma peça de teatro, na qual viveu a personagem no auge da maturidade. E foi então que se apaixonou por ela, em todos os sentidos. 

Agora, em razão da proximidade do centenário da Semana de 22, Ana viu a necessidade de levar a obra de Pagu para o mundo: criou um projeto (aqui) em que estão disponibilizados textos, bate-papos e um curta-metragem – Tanto me foi negado, por justa causa, eu diria -, todos com a modernista como tema. Entre os assuntos abordados, com foco na referida artista, está a sua relação com a política, com a psicanálise e com a arte. Em todos os trabalhos dispostos é possível tecer uma ideia sobre quem foi e o que fez Pagu, cujas ideias se tornam cada vez mais atuais. Confira, a seguir, entrevista que Ana concedeu à Agenda Tarsila:

Você mergulhou quatro anos na vida e obra da Pagu. Queria que me contasse o que te despertou o interesse nessa mulher que foi tão importante na história do modernismo e da cultura brasileira.

Eu sempre tive uma queda pelo modernismo. Acho que é impossível, para todo artista brasileiro, escapar das influências do modernismo e de todas as premissas de reflexão da arte e da construção da identidade nacional. E a Pagu, especificamente, sempre me despertou muita curiosidade por ser também uma mulher muito forte. Sempre esteve ligada ao seu fazer artístico a questão da prática também, do discurso político e da luta pelo feminismo. Acho que é quase impossível conhecer Pagu e não se apaixonar por ela. Pela sua coragem, sua dedicação e criação artística. Foram muitas Pagus. Quanto mais a gente descobre, quanto mais busca, mais se encanta com a obra dela. 

São muitas Pagus, ela foi uma artista múltipla. O que mais te encantou nesta pesquisa e pensou que as pessoas precisavam saber sobre ela?

A ética e a coragem da Pagu. Ela teve a coragem de vivenciar as próprias ideias, o que acho que é bem raro no ser humano. O que ela dizia, de fato, fazia. O seu discurso era político e artístico também, e era muito verdadeiro. Então, por isso, a ética também. Ela buscava sempre pensar no bem-estar do próximo, da sociedade, de pensar em como construir algo para além dela mesma. Ela levou isso ao máximo. Não é à toa que uma pessoa que foi presa 23 vezes, todas pelo mesmo motivo, sempre por ‘atentar contra a ordem’, poderia ousar nisso tudo, para além da sua criação artística, que é maravilhosa. Desde os desenhos, que a gente vê nos croquis, até mais tarde, quando ela vai para o teatro, é uma qualidade artística que a gente vê que é uma mulher extremamente inteligente, uma artista brilhante. Mas acho que esse passo que ela ousa, que é corajoso e ético, realmente me encantou. 

E isso não era habitual para as mulheres da época dela. Ela estava à frente de seu tempo. Qual era a receptividade dessas mulheres? Havia a sororidade que falamos tanto hoje?

Infelizmente não. E ela sentia isso desde criança. É muito interessante que no Paixão Pagu, uma carta, um livro autobiográfico, ela diz que mesmo quando criança se sentia uma mulher criança. Então já sentia que era diferente. Era sempre estranha, fora do lugar. Acho que não só as mulheres, mas a sociedade, de uma certa forma, sempre teve dificuldade de entender a Pagu. Por isso, a colocava sempre no lugar da doida, da desordeira, porque como ela era muito à frente, as pessoas, no geral, não davam conta dela. Até muita gente do próprio movimento modernista não deu conta da Pagu. Imagina, no meio de intelectuais da época, um grupo maravilhoso de artistas e pensadores, mesmo com eles, ela era sempre alguém que chegava e chamava atenção, porque tinha uma energia muito grande.

E desse  mergulho que você fez na vida dela e da obra surgiu uma peça de teatro, que depois se transformou neste trabalho que você está apresentando agora, que é o curta-metragem, várias mesas de discussões sobre ela. Fale um pouco sobre o projeto. 

A primeira fase do meu encontro com a Pagu foi um monólogo que eu fiz, Os Olhos Moles de Pagu, em que a interpretei. E criar este espetáculo foi algo muito importante na minha carreira. Ano que vem faço 30 anos de teatro. É claro que nestes 30 anos interpretei muitas coisas que me conectei muito. Mas a Pagu me levou para um outro lugar, para um autoquestionamento. E foi interessante também fazê-la já mais velha, porque fui mãe mais velha também, então pude entender uma série de questões que ela colocava porque estava mais ou menos na mesma idade, não no mesmo nível, claro, mas pude acessar alguns lugares que ela nos coloca para discussão. E aí, eu, de fato, me apaixonei pelo universo paguniano. O segundo passo dessa pesquisa foi convidar pessoas, pesquisadores, para poder mergulhar nos seus universos específicos. Cada um é especialista em áreas diferentes do conhecimento e eu queria ouvir um pouco também. E compartilhar de uma forma simples. Às vezes a gente lê estudos que são muito acadêmicos, eruditos. E a maioria das pessoas não consegue ter acesso a isso. E acho que neste momento que a gente está, de comemoração do centenário da Semana de Arte Moderna, que é um marco importantíssimo da cultura brasileira. A gente tem de conseguir divulgar ao máximo para a população e quebrar a barreira da academia, da erudição, e que as pessoas possam entender quão fundamental foi o modernismo brasileiro na nossa cultura. Essa segunda fase da pesquisa vem um pouco de encontro a essa vontade de que a gente pudesse divulgar a Pagu de forma interessante, original, porque são pesquisas originais e simples. Um pouco como ela queria, dialogar com o povo, com as pessoas.

E o curta é bem uma conversa sua com a obra dela. É um texto forte. Fale um pouco sobre ele.

Como os grandes artistas, a Pagu nos provoca muitas coisas. A minha relação com ela é muito dialética. Ao mesmo tempo que rola as entregas, rolam as cobranças também. Ela entrega e fala: ‘mas e daí, o que você vai fazer com tudo isso?’ ‘Qual a revisão que você faz das suas relações, do seu cotidiano, dos seus parâmetros morais, éticos?’ ‘O que você está, como artista, fazendo para construir um mundo mais possível de ser vivido por todos nós?’ Então o curta diz muito sobre essas minhas discussões com ela. De tudo que ela me entregou e tudo o que ela me tomou. É uma conversa minha com ela. Fico vendo pessoas que estudam muito tempo, por exemplo, autores na filosofia, nas ciências humanas, eles começam a ter uma certa proximidade do autor, é uma coisa que vira uma conversa meio hermética, mas é interessante porque a gente vai realmente ficando próximo. E eu me sinto muito próxima da Pagu. É uma coisa muito doida que eu vou revelar, mas pela primeira vez em 30 anos de teatro tive a vontade de ter uma tatuagem de um espetáculo e eu fiz uma tatuagem da Pagu estilizada nas minhas costas. 

Você falou dessa questão da maternidade que foi uma das coisas que te pegou. Há pouco li uma entrevista do Rudá, filho dela com o Oswald, em que ele falava muito da falta que teve dela, até em razão das prisões. Como era essa questão para Pagu?

Muito difícil. Era como se a maternidade não bastasse para ela. Ela tinha muito conflito. Era como se ela sentisse que o amor dela pudesse ser destrutivo também, porque ela levava as coisas muito ao extremo. Ela era uma mulher de extremos. Acho muito interessante o texto que a Juliana Motta (enfermeira e psicanalista) fez justamente sobre esse tema, uma leitura psicanalítica sobre a maternidade. Recomendo a quem gosta do tema ler o texto e assistir a discussão que a gente trouxe, e está bem contemporânea. A Juliana tem uma prática clínica de lidar com mães que tiveram questões muito profundas com os filhos. Inclusive o texto nasce de um encontro que eu tive com a Juliana e ela não conhecia Pagu, mas também se apaixonou por ela. E aí começa a fazer uma pesquisa. Realmente é o que eu disse, ela toma a gente. Então acho interessante as coisas que ela diz, principalmente no Paixão Pagu, que logo que o Rudá nasceu ela tinha medo de tocar nele, bebê, então quando estava à noite, que ninguém estava vendo, ela ia e o máximo que conseguia era chegar perto. Tinha medo que aquele amor pudesse de alguma forma esmagá-lo, sabe? Porque ela era muito transbordante nas coisas. Logo depois ela sente a necessidade de sair e deixa o Rudá com Oswald para poder viajar. Fica dois anos fora. Impensável. Ela diz que nunca esqueceu o Rudá. Não é aquela mãe que virou as costas para o filho, foi embora, não. Acho que a discussão precisa ser dita inclusive hoje. O que a sociedade nos coloca é que a maternidade tem de preencher a mulher plenamente, que a mulher não pode querer ser mais nada. Se ela é mãe, a prioridade tem de ser a maternidade, o terceiro lugar, (…), lá para o sexto qualquer outra coisa que não seja a maternidade. E a Pagu teve a coragem de dizer: ‘espera aí: isso não me basta’. Ela teve outras questões, abortos antes de ter o Rudá. A própria sexualidade dela tem uma questão dessa influência na maternidade. Porque ela ainda muito nova se entrega a um homem casado, não necessariamente por um impulso sexual, mas por uma vontade de querer ser amada, aceita. Então tem uma história bem longa, que às vezes a gente faz um corte – ‘ah, a Pagu viajou e deixou o Rudá’. Não foi só isso. Tem uma série de coisas que quando a gente vai percebendo, pensamos: ‘poxa vida, que mulher corajosa’. E o tanto que ela não sofreu também. Diz do sofrimento da distância com o filho. Mas ela tinha esse impulso, voltando à viagem que ela fez, de querer buscar, de querer sair. Ela sabia que precisava fazer isso, até porque a perseguição dela aqui no Brasil era uma coisa horrível. E as prisões dela foram muito duras, apanhou muito, sofreu muito e não baixava a cabeça, e aí piorava a situação.

E tem quem diga que Pagu não foi modernista porque ela era uma criança quando ocorreu a semana de 22. Para você: ela foi modernista e, se foi, em que sentido?

Total. Ela foi uma das grandes modernistas. A Semana de 22 é apenas um evento do modernismo, mas ele tem um pré e um pós semana. É claro que se a gente for pegar a primeira fase, dos artistas que trouxeram as ideias das vanguardas europeias para o Brasil, não, realmente ali ela era muito nova. Mas se a gente for pegar a segunda fase, que é a fase da construção da identidade nacional, aí realmente é o grande pulo do gato, da gente olhar para o nosso país e valorizar. Abandonar aquele classicismo e falar ‘poxa, o que a gente faz aqui que é bonito’. Que é o que realmente temos de fazer. Pagu fez isso de cabo a rabo. Se a gente for pegar o Parque Industrial, que lindo é aquele romance que diz sobre as pessoas que vivem uma vida cotidiana no Brasil, de uma forma nua e crua, um dia a dia tão paulista, tão gostoso realmente, tão de verdade. Tenho certeza que ela foi uma grande modernista e depois, mesmo mais velha, trocando com as vanguardas europeias também, incentivando o teatro amador em Santos. Com toda certeza, ela foi uma modernista que viveu o modernismo.

E qual é a importância de se discutir e saber mais sobre a Pagu nessa sociedade que a gente vive, principalmente do ponto de vista feminista?

A Pagu talvez tenha sido uma das principais mulheres do século passado, do ponto de vista da filosofia feminista. Não porque ela usava calças, fumava e usava batom, não é isso. Ela discutiu o papel social da mulher e a questão do patriarcado de uma forma mais do que reativa, porque ela sofreu muito com isso. Inclusive quando as pessoas sexualizam a Pagu, isso é uma forma de desmerecer ela e novamente colocar a mulher no lugar que ela sempre criticou, que é esse lugar de mulher objeto. 

Chamam ela até de musa do modernismo…

Sim. E não é à toa que depois ela renega esse apelido, não gosta que a chamem de Pagu. Porque criaram esse lugar para ela. A gente precisa sim (discutir sua obra hoje), porque ainda existe essa diferença entre os gêneros, a gente sabe disso. Quem é mulher sabe da violência, do assédio moral que a gente vive, que é cotidiano. A gente precisa ter muita atenção a isso sim. É interessante porque a Pagu sempre colocou algo que acho fundamental no feminismo: nós não queremos ser iguais aos homens, nós somos diferentes. E isso é bom, existem diferenças entre os gêneros. Mas nós queremos a liberdade, a possibilidade de ser o que quisermos sem julgamentos. Ainda hoje nós infelizmente não conquistamos isso. Na prática, na ação, no cotidiano, a gente sabe disso. O discurso paguniano é extremamente atual e ainda um mistério em vários momentos, vários pontos que não conseguimos alcançar o que ela nos propôs. 

(Miriam Gimenes/Agenda Tarsila)

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