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Engenheiro ‘pré-modernista’ percorre sua história em paralelo com o movimento centenário e aspira viver mais um século

Completar um século de vida não é para qualquer um. Atingir essa marca histórica exige maturidade, cuidado, resiliência e amor próprio. Esta é a receita do engenheiro Floriano Camargos, que está com 101 anos e percorreu sua história em paralelo com o movimento modernista – já que saiu de Minas Gerais ainda jovem e veio morar em São Paulo onde, inclusive, conheceu o escritor Menotti del Picchia.

Em uma conversa bem-humorada – talvez mais um segredo da longevidade – e repleta de lembranças, o sobrinho-neto de Tiradentes, o inconfidente, elenca as transformações da cidade e analisa a representatividade que o movimento modernista teve não só em São Paulo, como também no país todo.

Não à toa, foi o personagem do livro Meus Primeiros 100 Anos, escrito a partir de entrevistas a Luciana Canuto, e com texto final da filha, a jornalista e escritora Marcia Camargos. Ele cita versos de Fernando Pessoa, de maneira emocionada, para definir sua história de vida. ‘Como demora a morrer a mocidade em mim.’ Confira, a seguir, a conversa completa, uma verdadeira lição, principalmente a de que a vida começa todos os dias.

O senhor se tornou um centenário ano passado. Queria que me contasse como foram os 100 primeiros anos de sua vida, parafraseando o título do livro que conta sua história.

Eu só tenho lembrança boa. Aliás, procuro não lembrar das que não foram boas. O primeiro ano da minha vida foi tumultuado. Nasci milionário, a família mais rica da cidade, a mais importante. Quando eu tinha cinco anos meu pai morreu e deu uma reviravolta. E apareceu um amigo dele que a gente nem conhecia. Naquela época, em 1926, minha mãe teve de pagar em 30 dias 600 contos de dívida desse cara que a gente não sabia quem era. Daí foi degringolando e ela teve de assumir uma cadeira de professora, mas a gente sempre foi muito feliz. 

O senhor nasceu em Minas Gerais?

Sou tão mineiro que sou sobrinho do Tiradentes e neto e bisneto de um inconfidente mineiro. O Tiradentes tinha duas irmãs: Maria Rita e Maria Antonia, esta era minha tataravó.

Que incrível! E o senhor acabou vindo aqui para São Paulo em determinado momento da sua vida…

Quando me formei em engenharia, Minas estava em um processo muito difícil. Parte dos colegas veio para São Paulo. Naquela época, a São Paulo Railway tinha vencido um contrato e o diretor novo queria arranjar dez engenheiros novos, ‘sem os vícios da profissão’, como ele dizia. E eu fui um dos convidados. Era a estrada de ferro de Santos a Jundiaí. Depois fiquei dois anos em São Paulo e fui para Paranapiacaba (Santo André).

Neste período em São Paulo o senhor acompanhou todo o desenvolvimento industrial e tecnológico da cidade. Como avalia as transformações que acompanhou durante todo esse tempo, do local onde escolheu para viver?

São Paulo, para mim, na época, era uma revelação. Fui ver japonês pela primeira vez na vida aqui em São Paulo, pizza também. O mundo era muito restrito naquele tempo. E Minas estava em função do Rio de Janeiro e não de São Paulo. A cidade cresceu barbaramente, mudou. Uma coisa que sempre admirei aqui é a capacidade de trabalho das pessoas, a objetividade. Eu me realizei em São Paulo, prosperei, criei família, um ciclo de amigos muito grande e me sinto muito feliz aqui. Se bem que a gente nunca perde as raízes… Na Europa eu me apresento como brasileiro e com cinco minutos me perguntam se sou de Minas. 

O senhor nasceu um ano antes da Semana de Arte Moderna que ocorreu aqui em São Paulo. Logicamente não acompanhou o evento na época, mas os desdobramentos do movimento deve ter pego um pouco aqui em São Paulo, inclusive a modernidade. Qual o principal legado do evento modernista?

Tive mais contato com a Semana de Arte Moderna aqui em São Paulo. Foi um movimento que revolucionou o setor e uma época brilhante, com muitos intelectuais, escritores, que influenciaram fortemente o país.

E o senhor costuma ler obras modernistas?

Acompanhei há muitos anos. Como tenho quase duzentos anos… (risos). Naquela época a gente acompanhava muito, sabia poesias de cor. Hoje está tão distante para mim…

Qual foi o principal legado deles?

O reflexo da cultura no estado foi muito grande. Minas era o centro e perdeu o lugar, que passou para São Paulo. O contato que tive com todos esses intelectuais, Paulo Bonfim, entre outros, foi aqui. Conheci ele, o Menotti del Picchia, tínhamos amigos em comum. Li as poesias dele, tinha uma influência cultural muito grande.

O senhor gosta de cultura, de se manter atualizado?

Procuro sempre me manter e não virar dinossauro completamente (risos). 

Naquela época vivíamos um pós pandemia, crise econômica. De alguma forma dá para traçar um paralelo com o que estamos vivendo hoje no país?

O negócio ficou surrealista para a gente. Mas eu nasci durante a gripe espanhola. O médico principal da cidade praticamente mudou para a minha casa. E todo mundo teve gripe espanhola, exceto uma irmã que depois virou freira. E eu bebê tive. No auge da espanhola meu pai me mandou para umas parentes que eram netas do Visconde de Queluz, onde hoje se chama Conselheiro Lafayette, cidade onde nasci. Eram três solteironas e eu virei o brinquedo delas. Foram meus anjos da guarda a vida toda. 

Daquela época algo se assemelha com o que vivemos hoje?

Acho que a mesma coisa, mas com menos intensidade. Minha sogra perdeu três filhas em 48 horas. Não tinha remédio, praticamente nada. Era chá caseiro e carqueja para baixar a febre. Hoje tem muito recurso. Não sei se já leu o livro do (Yuval Noah) Harari, o Sapiens (Uma Breve História da Humanidade), vale muito a pena. Ele diz que daqui a 30 anos ninguém vai mais morrer, exceto de acidente. Porque até lá já inventaram remédio para quase tudo. E eu acredito muito nisso, tanto que minha programação é viver mais trinta anos. Chegando lá a gente conversa de novo (risos).

A situação do país evoluiu de que maneira?

Não sei se politicamente evoluiu muito, mas economicamente foi uma barbaridade. O Brasil exportava seis bilhões. A exportação era do café. O país floresceu. 

E o que é ser moderno para o senhor?

É se manter a par do que está acontecendo. Eu leio o Estadão todo dia para ver se o mundo acabou ou não enquanto eu dormia (risos). Procurar se manter, não enferrujar completamente. Manter a cabeça viva.

Esse é o segredo do senhor de longevidade?

Sempre procurei me cuidar. Você tem de primeiro gostar de si mesmo. Sempre gostei muito de mim, antes de pai, de mãe e de filho. Um dos segredos principais é esse, ter a vida programada em sua função. 

Naquela época existiam artistas inovadores. Hoje tem essa força artística na cultura brasileira?

Hoje a inovação é mais tecnológica. Acabou muito a cultura brasileira, virou universal. Uma coisa acontece e dois minutos depois já estamos a par do que aconteceu. Recebi hoje umas fotografias de um amigo meu que foi passar uma temporada nos Estados Unidos. Ele as mandou em preto e branco que usando uma técnica japonesa, ela adquire as cores naturais. É incrível!

O senhor imaginava, quando criança, que as coisas chegariam da maneira como está hoje?

Não. As limitações vão ser vencidas, como o caso do homem na lua, e agora lançaram um satélite que está indo com uma velocidade astronômica em direção de onde foi o Big Bang. Vai chegar de volta em junho, trazendo as informações do que aconteceu naquela época pelo caminho de volta. 

No final do livro que conta a sua história diz que o senhor recita um poema do Fernando Pessoa para definir a sua vida. Queria que recitasse esse poema e disse o significado que ele tem nessa sua vida tão rica.

Como demora a morrer a mocidade em mim. Se recomeço a amar mais me afasto do fim. Vivo ao contrário do tempo. Não me posso envelhecer. Talvez eu venha a morrer como se tivesse nascendo’ (se emociona) Você vai fazer um serviço tem de pôr toda sua energia, não vai ver o tempo passar. Esse verso traduz com muita perfeição isso.  

No livro foram contados os seus primeiros 100 anos de vida. O que o senhor espera para os próximos 100? Qual o seu sonho?

Primeiro viver outros 100 anos. Tenho uma deusa chinesa em uma prateleira sobre a minha mesa. Ela é da longevidade, de marfim. Toda manhã falo com ela, em francês, porque ali que acredito que os deuses se comunicam. Peço a ela mais 30 anos de vida com saúde e alegria de viver. Tenho essa combinação com ela. Quando chegar 30 anos falo que mudei de pensamento e peço uma bela prorrogada, para ver se consigo o segundo século. Honestamente, penso e acredito nisso. Coisa de maluco, mas acredito. 

(Miriam Gimenes/Agenda Tarsila)

Publicada em 14 de fevereiro de 2022

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