Exposição aberta no CCBB Rio de Janeiro joga luz às conquistas da Semana de 22 nas artes visuais brasileiras

Traçar um paralelo entre a Semana de Arte Moderna de 1922 e a arte contemporânea pode parecer uma tarefa difícil. Mas, se analisada toda linha evolutiva desta história, o material é farto e rico. A exposição Brasilidade Pós-Modernismo, inaugurada no CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil), no Rio de Janeiro – a mostra estará em São Paulo dia 14 de dezembro e depois segue para Brasília e Belo Horizonte -,  assumiu o desafio e o resultado pode ser visto por meio de obras de 51 artistas.

Com curadoria de Tereza de Arruda, a mostra, que prima por material inédito, reconta toda esta ‘construção’ e de que maneira o que antes unia singularidades, tornou-se uma arte plural e diversa.  “Não é o momento de ruptura. A nossa exposição não é um ponto final em uma temática. Ela faz parte deste percurso. É um momento para pararmos, com uma certa maturidade, para analisar”, diz Tereza. 

Nela o público contará com criações de nomes como Adriana Varejão, Anna Bella Geiger, Arnaldo Antunes, Cildo Meireles, Ernesto Neto, Lina Bo Bardi, Oscar Niemeyer, Rosana Paulino e Tunga. Também serão feitas atividades gratuitas – tanto presenciais quanto virtuais – que aproximarão o público da temática discutida há 100 anos. Confira, a seguir, a entrevista com a curadora:

O CCBB do Rio abre a exposição Brasilidades Pós-Modernismo agora em setembro. O que o público pode esperar desta mostra comemorativa e histórica?

É uma mostra focada na arte contemporânea atual, não tem um embasamento histórico porque a nossa ideia é falar da atualidade. O que nós alcançamos daquilo que nós almejávamos, há 100 anos, quando aconteceu a Semana de Arte Moderna. Este é o foco da nossa exposição. 

De que forma ela vai estar disposta para o público? Vi que vai ter uma área só para a poesia concreta…

Nós concebemos a exposição com diversos núcleos. Apresentamos obras de 51 artistas e ela tem uma evolução que é a partir de temáticas específicas que elaborei porque elas faziam parte das indagações há 100 anos e até hoje norteiam o nosso contexto. Nós temos um segmento que vai falar, por exemplo, da liberdade, com algum posicionamento histórico. Teremos também a que vai tratar da natureza, não só os elementos, mas as preocupações que temos hoje em dia em relação à sustentabilidade, com relação à demarcação territorial, ao potencial que temos dentro deste universo e quando pensamos em brasilidade. Um outro segmento é sobre a identidade e vamos usar obras de artistas que vão nos mostrar esta representação da brasilidade através dos protagonistas que fazem parte deste universo. Há uma parte que fala sobre o futuro, porque no momento em que se estavam pleiteando a Semana de 22, tinha toda aquela discussão, e de certa forma as pessoas atuantes eram chamadas de futuristas. Mas era um termo errôneo, usado com certa ironia, que causava um desconforto. Porque, na verdade, futurista era tudo que fosse inusitado, novo, diferente. Com a evolução histórico-cultural da época, não só em termos de Brasil, mas internacionalmente, o tema acabou sendo usado de forma errada, mas vamos falar do futuro. Naquela época (da Semana) estava-se pleiteando um novo futuro, uma nova dinâmica, uma nova perspectiva a partir do que era realmente o contexto nacional. Neste futuro temos alguns focos e um deles é com relação à arquitetura como, por exemplo, Brasília. Porque, para nós, é um dos maiores exemplos da modernidade. E, naquele início, na época da Semana de 22 nem se pleiteava ainda mudar a capital, construir uma cidade, era muito utópico. E Brasília é a representatividade maior do nosso modernismo. Outro segmento que temos é a poesia, porque quando houve a Semana ela foi apresentada com três elementos: artes plásticas (pintura e escultura), literatura e música. E a literatura naquela época, a discussão, era para o empoderamento do idioma português. Porque estavam muito embasados no português originário de Portugal. E já existiam nuances no português brasileiro e não eram reconhecidas oficialmente. Justamente, naquele momento, se pleiteava o ‘nosso português’, a autonomia na fala.Vamos falar da poesia concreta, poesia visual e também novas mídias. Para cada um dos segmentos, nós selecionamos artistas brasileiros de diversas regiões do País, de diferentes gerações também e com narrativas diversificadas, para que possamos abrir a perspectiva. Essa aventura toda é uma leitura de uma evolução histórica, 100 anos do modernismo, 200 da independência do Brasil, é um momento para rever todo esse histórico. Não é o momento de ruptura, a nossa exposição não é um ponto final em uma temática. Ela faz parte deste percurso. É um momento para pararmos, com uma certa maturidade, para analisar. Quando falo brasilidade, penso no Brasil e na idade que ele alcançou. Então é uma maturidade para que você possa enxergar com outros olhos e até chegar a reparar, não no sentido de notar, mas de consertar, refazer coisas. Estamos nos preparando para um momento histórico muito relevante em vários segmentos.

De que maneira foram escolhidos estes artistas, qual foi a premissa?

Nós nos inscrevemos no edital do ano passado, foi aprovado em outubro, mas já tínhamos um levantamento, uma discussão muito grande com vários artistas, apesar de ser um período pandêmico, que estávamos isolados, mas pudemos trabalhar com artistas diretamente nos ateliers. Estamos fazendo uma publicação e abrindo um leque para discussão. Também estamos elaborando gravações, filmagens, por exemplo, com dez dos 51 artistas, para podermos compartilhar nas redes. Convidamos para participar da publicação com textos, não só quem é ligado a conceitos de artes plásticas, mas também filósofos, antropólogos, psicólogos, pessoas que fazem parte do nosso universo e podem contribuir com uma leitura de outro viés, que não seja somente o da história da arte ou artes plásticas. Abrimos a discussão justamente para termos um diálogo mais amplo e daí fazer diversas perspectivas. Na mostra temos obras de escultura, fotografia, algumas obras são existentes, alguns artistas não vivem mais, outros artistas estão executando obras novas para exposição, mas neste viés, com estes núcleos, é praticamente um caráter de ineditismo. Esta era um pouco da nossa preocupação, não fazer o mesmo do mesmo. Realmente tem algo um pouco mais plural.

Vão ter algumas atividades gratuitas que vão aproximar um pouco mais o público da Semana de 22. O que são elas?

Nós estamos atentos para desenvolver várias atividades. Algumas delas esperamos que possam ser presenciais, como o departamento educativo, estamos desenvolvendo debates, visitas guiadas, mas também no âmbito virtual vamos criar palestras, webinar. Quando a exposição estiver em São Paulo, do dia 14 de dezembro e vai ‘passar’ pelo período que ocorreu a Semana de 22 (13 a 18 de fevereiro), e fisicamente, o CCBB está a 500 metros do Theatro Municipal, onde foi justamente o palco destas atividades. Não podemos dizer que a Semana de Arte foi o único evento responsável pela modernidade brasileira, mas foi um movimento de foco muito importante. Estamos elaborando várias atividades, atentos, trabalhando paralelamente, tanto para atividades presenciais como virtuais. A programação detalhada vamos divulgar muito em breve.

De que forma a arte contemporânea carrega os traços modernistas?

Independentemente da celebração dos 100 anos do modernismo do Brasil, em termos mundiais, nós estamos revendo hoje as questões do pós-colonialismo. Isto acontece em vários segmentos. Por exemplo, em Berlim foi inaugurado, no mês passado, um museu dedicado totalmente à arte não-europeia. São obras, trabalhos, que fazem parte de todo um contexto africano, asiático, América Latina. Neste museu eles estão vivendo a procedência destas obras, o significado delas na atualidade. Se nós pensarmos, a arte contemporânea brasileira faz parte deste discurso global. Agora, se voltarmos um pouco para o nosso contexto, muitas coisas ainda estão sendo revistas, compostas. Tem uma ambição, cada vez maior, de ter uma palavra, discurso de visibilidade. Em termos estéticos tem várias alterações mas, por exemplo, a questão da poesia concreta ou visual, ela está dando vazão ao que foi almejado naquele momento, o empoderamento do idioma português. E hoje, com as artes plásticas, nós temos na poesia visual e sonora, uma individualidade da palavra, um elemento autônomo, e a palavra não passou a ser mais abstrata. Ela tem um corpo, uma forma, uma cor, isso já é parte deste processo de autenticidade do idioma. A nossa produção ainda é marcada por elementos muito singulares na nossa realidade, obras que fazem a junção do popular com o contemporâneo. Como exemplo temos xilogravura, que é algo que tem viés na cultura popular, na literatura de cordel, mas está presente na arte contemporânea. Estamos sempre neste processo de construção. Todo início de movimento tem de ser muito forte. Nós já passamos cem anos do início, não estamos falando de ruptura, mas de construção deste percurso que não é pontuado apenas na Semana de 22, continua de forma evolutiva, progressiva. 

Falando nesta evolução que você citou: a diversidade, a pluralidade que existe hoje não havia naquela época e veio sendo construída?

Exatamente. Ela veio com a construção e abertura, e mesmo em termos de artes plásticas vivemos um momento muito feliz de diversidade, de uma conversa interdisciplinar. Temos também, uma obra que é uma instalação de novas mídias, com celulares, e naquela época não podia se imaginar que existiria isso como um elemento de transpor a ideia, a voz. Ele acaba substituindo a representatividade figurativa de um ser humano. Estamos falando de vários meios de efetivação da arte e características estéticas, que tiveram uma abertura imensa neste percurso. E podemos pensar no que há de vir ainda. Tudo é relativamente recente, cem anos ainda é pouco. Nós, por exemplo, não veremos o que vai ser a arte do século 22, infelizmente. 

E como você prevê a arte daqui 100 anos, a brasileira principalmente?

A produção vai ser diversificada, vai fazer cada vez mais o uso de várias mídias, novos recursos, mas, por outro lado, nós temos na produção contemporânea nacional uma certa diversidade de linguagem e esta vai permanecer. Hoje nós vivemos um período pós-globalização. Houve um momento que havia uma certa massificação de linguagens, termos, esse período foi importante para esta internacionalização. Mas nós vemos também que isso não basta, temos de manter algo de uma identidade própria. Porque nós não queremos percorrer o mundo e deparar com o mesmo do mesmo. Tem de ter uma singularidade, referente à identidade. Creio que a produção nacional vai continuar evoluindo assim como várias camadas que representam a diversidade da cultura nacional. Isso depende de regiões geográficas, de atentarmos para as vozes originais que, por muito tempo, passaram despercebidas. Falo da linguagem original, antes da colonização. Vamos começar, em alguns momentos, este percurso novamente, lá de trás, que ficou estagnado, mas que agora é importante atentar para aquilo. Estas vozes todas, pluralidade, vão continuar de certa forma. Com a riqueza de materialidade que temos, de cores, e necessidade de expressão em diversos meios, porque a arte contemporânea é tão diversificada, felizmente. Lá para frente, a caminho da arte do século 22, vai continuar sendo diversificada e embasada com a vertente original que passou despercebida. É um momento histórico para revermos, atualizarmos.

E além do Rio de Janeiro e São Paulo a exposição vai para mais algum lugar?

Estará em março em Brasília e em junho em Belo Horizonte. Circula por um ano e, com a experiência que tivemos durante a pandemia, que nós aprendemos a utilidade das novas mídias, justamente paralelo à programação presencial, teremos toda virtual de visita guiada, 360 graus, webinar, poderemos alcançar um público maior, espalhado pelo Brasil todo, independentemente destas quatro cidades. 

(Miriam Gimenes/Agenda Tarsila)

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