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Exposição aberta no MAM traz o modernismo para fora das fronteiras paulistas

Composta por 75 obras, a exposição Moderno onde? Moderno quando?, aberta no início de setembro no MAM (Museu de Arte Moderna) de São Paulo, abre uma perspectiva sobre o modernismo que vai além das fronteiras paulistas. A curadoria é de Aracy Amaral e Regina Teixeira de Barros. A última, especialista em história da arte, dá entrevista exclusiva à Agenda Tarsila e fala da importância de não colocar a Semana como um marco que separa o ‘antes do depois’. “Ela (a Semana) faz parte de um todo muito maior e também não é um processo contínuo, não é linear, você tem um vai-e-vem, enfim, você moderniza, volta um pouco para trás…”.

Regina, que também foi curadora de mostra que comemorou o centenário da exposição de Anita de 1917 – aquela que sofreu críticas de Monteiro Lobato e suscitou a Semana – fala da importância da amizade da pintora e de Mário de Andrade para o modernismo brasileiro, além da necessidade de rever o papel dela na história da arte brasileira. Confira a seguir:

Queria que você falasse da exposição recém-aberta no MAM. Do que se trata e o que o público pode esperar da mostra?

A exposição se chama Moderno onde? Moderno quando? e eu estou fazendo a curadoria com Aracy Amaral. Nós estamos preparando esta exposição há dois anos, portanto, começamos antes da pandemia, e a ideia é falar sobre a Semana, mas em um contexto mais amplo. Tanto temporalmente, a exposição começa em 1900 e vai até 1937, então a Semana está ali no meio, quanto territorialmente. A ideia é mostrar que surgem manifestações modernas com vontade de se modernizar em outras regiões do país e não apenas em São Paulo. Queremos mostrar que este processo de modernização é um processo mesmo, não é uma coisa que acontece pontualmente, quer dizer, não existe antes da Semana depois da Semana. Ela faz parte de um todo muito maior e também não é um processo contínuo, não é linear, você tem um vai-e-vem, enfim, você moderniza, volta um pouco para trás… É uma exposição pequena, quer dizer, do tamanho da sala grande do MAM, e enxuta por causa, inclusive, da pandemia. Porque quando tudo começou a gente teve de parar de visitar acervos, tanto das instituições quanto de coleções particulares, ficou impossível. Então isso dificultou muito o nosso trabalho, e a gente teve de reduzir a obras significativas e representativas de cada artista e mesmo assim muitos estão de fora, a gente fez uma seleção.

E quem está na  exposição?

Da Semana, obviamente, Anita, Di Cavalcanti, Zina Aita, Vicente do Rego Monteiro, John Graz, Antonio Gomide, Regina Gomide, Paim e Yan de Almeida Prado, que fazia trabalho com ele, Ferrignac, Brecheret… Tem uma série de artistas que fizeram parte da Semana que estão lá, mas também tem artistas que antecedem a Semana do tipo Visconti, Artur Timóteo, tem até Almeida Júnior – do regionalismo, da identidade caipira – e depois, como desdobramento, tem artistas como a Tarsila, o Ismael Nery, e Cícero Dias, Guignard, Volpi, Portinari, é um mundo de gente. 

Existe essa questão de São Paulo ter feito a Semana, financiada pela elite cafeicultora, para trazer a cidade para o cenário cultural. E como você fala com a exposição, existiam outros focos de modernismo no Brasil como, por exemplo, no Rio de Janeiro. Queria que você me falasse sobre este modernismo fora de São Paulo que pode ser visto nesta exposição.

Na verdade, a gente se concentrou em artes visuais, embora haja uma projeção com imagens de outras capitais. Por exemplo, durante o ciclo da borracha a região norte se desenvolveu muito, então você tem Belém, Manaus, São Luís construindo grandes teatros, reformando os portos, começa uma arquitetura eclética, que era moderna para época, isso antes ainda da virada do século 19 para o 20. Esse nosso audiovisual vai apontar estas diferentes manifestações em outros lugares. Mas, por exemplo, tem o Vicente do Rego Monteiro que nasceu em Pernambuco, a Zina Aita, uma artista bem pouco conhecida, nasceu em Belo Horizonte. Ambos estudaram fora, passaram pelo Rio de Janeiro, você tem um trânsito desses artistas, mas são pessoas de diferentes procedências. O Ismael Nery, que vai para o Rio de Janeiro, nasceu em Belém. Os artistas estavam, sobretudo, no Rio de Janeiro. Tinha o Di Cavalcanti, que estava morando em São Paulo naquele momento e fez a ponte entre paulistas e cariocas. Tinha a Anita Malfatti aqui, que já era uma figura importante e foi um porta-estandarte da comissão de frente do modernismo e da exposição no Theatro Municipal, mas tem outros artistas também que vêm, o próprio Villa-Lobos, Graça Aranha, que naquele momento foi importante para aquele núcleo, mas que também estava chegando. A gente tem estes modernos e modernistas, estes artistas literatos e poetas, a gente chama de modernistas, mas eles ainda não eram, tinham vontade de ser. E o fato de São Paulo querer se projetar como uma capital cultural mobiliza essa elite que traz enfim alguns artistas e literatos e músicos do Rio, sobretudo.

Quantas obras tem a exposição e até quando ela vai?

Ela vai até meados de dezembro e são 75 obras. 

Você tem uma proximidade com a Anita, até fez uma exposição dela em 2017, quando completou-se 100 anos da mostra que antecedeu a Semana. Você acha que ela foi uma artista reconhecida, até a importância que ela teve para ocasionar a Semana de Arte Moderna?

A história da Anita é meio mal contada. A gente mantém uma ideia fixa de que ela foi uma grande artista bem no começo, quando era expressionista ainda, e depois o Monteiro Lobato fez uma crítica dura e que a partir daí ela nunca mais teria sido a mesma, e toda produção que ela teria depois desse momento seria um passo atrás, retrógrado. Enfim, é muito mal-vista pelos contemporâneos. Mas o que me parece é que eles, obviamente, não tinham distanciamento para ver aquilo, para analisar seu trabalho. E o que a gente percebe hoje, mais de 100 anos depois da exposição de 17, era que a Anita era uma mulher extremamente preparada. Ela tinha estudado na Alemanha, depois foi para Nova York, Paris, viaja pela Europa, conhece muito bem a Itália, é uma estudiosa de arte, tem uma técnica incrível, tem uma qualidade de pintura que é muito boa e está completamente em dia com as discussões e debates que estão ocorrendo naquele momento.  Nos anos 30, por exemplo, você tem a Anita olhando aqui, em São Paulo, fazendo muitos retratos e olhando para festas populares, cenas de interior, que era exatamente o que estava ocorrendo na Europa, que a gente chama de ‘retorno à ordem’ e com os jovens artistas que surgem a partir de 30 que são os da família artística paulista, ou do Núcleo Bernardelli brasileiro, muito mais voltadas para realidade cotidiana, do que propriamente inventar maneiras novas de pintar. Então ela foi muito mal compreendida neste momento, porque estava sim antenada com o que estava acontecendo, estava produzindo o que a gente chama de retorno à ordem, uma conversa de linguagem moderna com a tradição, com o passado, e os contemporâneos, sobretudo Mário de Andrade, não gosta desta produção, acha que é muito fraca em relação ao que ela tinha apresentado como expressionista, na década de 10. A história dela ainda tem muito a ser contada, modificada, porque o que Mário disse naquela época, que na verdade se desentenderam no final da década de 30, se cristalizou como verdade. Já é hora, tempo, da gente rever a produção de Anita em contexto, quer dizer, analisar sua pintura dentro de um contexto histórico. O que os quadros delas dizem sobre o período em que ela estava trabalhando e o que o período diz sobre a pintura dela. É importante fazer estas análises e depois pensar em Mário de Andrade como ele vê aquilo tudo, enfim, ele também era um homem de seu tempo e não tinha esse distanciamento que a gente tem. 

Há pouco você deu um curso na Casa Mário de Andrade falando justamente sobre essa amizade entre os dois, que nasceu em 1917 quando ele se apaixonou pelo quadro O Homem Amarelo e rendeu toda essa história que a gente já conhece. Me fala um pouco da importância da amizade dos dois para a arte brasileira e até sobre a história de que ela teria sido apaixonada por ele…

Eles, realmente, se tornaram muito amigos. A Anita gostava muito do Mário. Talvez até nutrisse certa paixão por ele, é difícil a gente saber exatamente. O Mário, por sua vez, gostava muito da Anita. Ele dizia que teria ela no pé da cama de morte dele. Ela e o Manuel Bandeira, os grandes amigos dele, mas eles se desentendem. Porque o Mário sempre foi muito sincero com ela. Em determinado momento, Anitta diz: ‘eu soube que não entrei no salão tal porque você fez parte do júri e não me apoiou’. Eles se desentendem completamente, ela fica super magoada por Mário. É uma amizade linda, que dura muitos anos, mas infelizmente no fim da vida do Mário, ele morreu em 1945, eles rompem no começo dos anos 1940, nos últimos cinco anos de vida dele eles ficaram separados. E depois de dez anos da morte do Mário, Anita escreve uma carta teórica, que ela manda ‘para os céus’, e conta para ele como está a vida, São Paulo, as mudanças que aconteceram, é uma ligação muito forte para ela, assim como ela foi importante para ele ter contato com a arte moderna. Ele o tempo todo, em várias cartas, ele menciona que Anita foi um gatilho para ele, que Anita fez ele ver o que era arte moderna.

Em algumas destas cartas que você mencionou que ele tenta não falar mais para Anita o que ele pensava para não magoá-la, ele tinha esse cuidado. Ele chamava ela de ‘Anitoca’, tinha vários apelidos, tinham essa proximidade…

Eles eram muito próximos mesmo. E ele sabia, falava nas cartas, ‘que eu falo muito, você não gosta muito, mas veja bem, é para seu bem…’

Analisando esta amizade dos dois dá para dizer que esta foi tão ou mais importante dupla do que ‘Tarsivaldo’ para o modernismo brasileiro?

São diferentes teores. Tarsivaldo, Tarsila e Oswald, foram muito importantes para alimentar um ao outro, quer dizer, o Oswald na viagem a Minas faz o Manifesto Pau-Brasil, depois ele com Abaporu faz o Manifesto Antropófago, a Tarsila tinha todo apoio para fazer a pintura dela. Eles se alimentaram muito, foi muito recíproca, mas foi mais fugaz. Durou de 1922 a 1929 quando Oswald começa a trair Tarsila com Pagu e ela se afasta. São sete anos de convívio enquanto Anita e Mário é um longo percurso, é uma vida praticamente em que eles se relacionam, trocam informações. O Mário fala que está doente, das aulas que está dando, dos livros que está escrevendo, tem uma constância maior. Mas acho que de uma forma ou de outra, ‘Tarsivaldo’ ou Anita e Mário, foram duas duplas muito importantes para o nosso modernismo. 

E por falar em dupla Tarsila e Anita também eram muito amigas e brigaram. Me conta o que aconteceu com as duas, fato que também ocorreu com Oswald e Mário.

Elas se conheceram provavelmente em 1919 no ateliê do Pedro Alexandrino, onde as duas tinham aula. Se tornaram amigas, tanto que quando Tarsila viaja para Europa em 1920, ela escreve para Anita perguntando notícias de São Paulo. Anita responde para ela. Elas têm essa troca. Quando Tarsila volta depois da Semana, a Anita apresenta Tarsila para o grupo de modernistas. Tinha uma cumplicidade ali. Em 1923, quando Anita vai para Paris, ela ganha uma bolsa do Pensionato Artístico e há um certo estranhamento entre elas. A Tarsila vive em um meio que não é o da Anita. Era puro glamour, a dona Olivia Guedes Penteado, Paulo Prado (mecenas), quer dizer, a elite cafeicultora era do convívio da Tarsila e eles tinham um trem de vida totalmente exuberante. A Anita não. Vinha de uma vida mais modesta, o pai já tinha falecido, ela tinha trabalhado, dava aulas, e então elas têm essa diferença social, que aparece em Paris e a Tarsila vê na Anita mais uma rival do que uma amiga. Começam a desandar as coisas e os modernistas que estão em Paris neste momento não gostam da produção da Anita, de retorno à ordem, muito sintonizada com o que está acontecendo lá no momento. Porque os artistas das primeiras vanguardas, que Anita tinha conhecido na Alemanha, na década de 1910, estavam mais voltados para história da pintura do que para renovação porque a guerra de certa maneira dá um corte nessa vontade de renovação que as vanguardas históricas trouxeram. E Anita estava muito mais nesta sintonia do que a Tarsila, o Brecheret, mesmo o Vicente do Rego Monteiro, o Di Cavalcanti, embora ela tivesse relações com Gomide, mas a Tarsila já estava em outra busca e outra vida também. 

Essa rivalidade é meio que vem na história, onde Anita fica com a imagem de vítima e Tarsila, que embora não tenha participado da Semana de 22 é o grande ícone modernista, virou a musa…

É uma história que precisa ser recontada. Tem vários pesquisadores trabalhando neste sentido. Uma referência importante é Ana Paula Simioni, que fala muito sobre essas figuras femininas, a Tarsila representando a musa e Anita a mártir, e isso é muito cristalizado e não necessariamente corresponde à verdade, como se só houvesse estes dois papéis para mulher naquele momento.

Você acha que essa imagem de vítima doía na Anita e não da mulher forte, porque na verdade ela foi a propulsora da Semana, muito mais do que Tarsila?

Nunca li que falasse que havia uma mágoa neste sentido. Ao contrário. Em 1946 o Oswald faz uma entrevista com Anita a propósito da necessidade de criação do Museu de Arte Moderna em São Paulo. É uma entrevista super divertida, porque ela se coloca de maneira muito leve. Monteiro Lobato se opôs à ideia de criar um museu, que para ele era um lugar de velharias, um armazém de obras empacadas nos ateliês, enfim, fala barbaridades deste tipo e o Oswald entrevista várias figuras importantes. Anita diz que se dependesse do Lobato estava todo mundo andando de Tilbury, quer dizer, ela brinca com o que aconteceu naquela crítica e retoma isso de maneira jocosa. Não há mágoa. Ela era muito atuante no circuito de artes de São Paulo. Participou da organização de várias exposições, do Sindicato de Artistas Plásticos, ela estava enfronhada. Era uma mulher que não estava em casa chorando, era muito ativa.

E contra o Lobato, ela guardava um ressentimento? Como era a relação deles depois daquela crítica?

Não tenho informação sobre a relação entre eles. Acho que cada um ficou no seu quadrado mesmo. 

(Miriam Gimenes/Agenda Tarsila)

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