Divulgação

Exposição em cartaz no MAC mostra processo de criação de artistas modernistas

Um quadro não nasce pronto. Quando o artista expõe o seu trabalho final, passou por diversos projetos até efetivar a pintura. Tudo tem um processo. E foi para mostrá-lo que, desde o ano passado, o Museu de Arte Contemporânea da USP inaugurou, desde o ano passado, a exposição Projetos para um Cotidiano Moderno no Brasil, 1920-1960, que pode ser visitada até o fim de julho. Com curadoria de Ana Magalhães, a mostra reúne 120 obras do acervo do museu, que retratam o modernismo e o ambiente urbano do início do século passado. 

Em entrevista à Agenda Tarsila, a curadora diz que ao passear pela exposição o visitante conhece, literalmente, ‘a cozinha do artista’. “Ali a gente vê efetivamente o artista se arriscando com uns meios novos. No caso do Di é muito importante o conjunto de desenhos que a gente tem, porque vemos que o traço dele muda conforme o meio técnico para o qual está pensando aquela representação. Se é pintura mural, o desenho tem um tipo de tracejado, e às vezes vemos esse fundo quadriculado, porque ele tem de trabalhar com a ideia da escala. Se é ilustração de jornal ou livro, está pensando no processo do clichê, da litografia, como passar esse desenho para outro meio técnico.” 

Além da exposição, Ana ressalta que desde o ano passado o museu tem feito atividades relacionadas ao modernismo. Entre eles o seminário chamado Ciclo 22, em parceria com a Pinacoteca do Estado e o Instituto Moreira Salles, em que participaram 41 pessoas que refletiram diversos aspectos do modernismo no país e pode ser visto no YouTube. Confira, a seguir, a entrevista completa:

O MAC tem um rico acervo modernista, que pode ser visto em exposição em cartaz desde o ano passado. Do que se trata a mostra e o que o público pode apreciar nela?

O Museu de Arte Contemporânea é universitário, da USP, então a gente geralmente faz exposições com essa duração maior, justamente porque fazemos um trabalho de formação, de mediação com o público em vários níveis. E nesse caso, essa exposição que chama Projetos para um Cotidiano Moderno no Brasil, 1920-1960, e foi um trabalho de uns três anos com um grupo de pesquisa CNPQ que eu coordenava, com estudantes em vários níveis, desde iniciação científica, que é um tipo de bolsa que temos quando estamos fazendo formação da gente na universidade para aprender a ser pesquisador, até meus alunos de mestrado e doutorado. E também tinha chegado ao grupo uma pós-doutoranda recém-formada que veio com uma pesquisa sobre as ditas artes aplicadas no Brasil. Ela trabalhava com pintura mural, decoração de espaços públicos e privados, tinha trabalhado sobre a pintura mural em São Paulo nos anos 1940 e 1950, e isso coincidiu num momento em que eu também tinha acabado de fazer um levantamento no museu sobre o que o acervo do MAC-USP tinha nessa direção. A gente tinha conjuntos bem importantes de estudos preparatórios, esboços, de artistas modernistas brasileiros que tinham trabalhado em várias instâncias das artes aplicadas, fazendo pintura-mural, decoração de interiores, mobiliário, objetos de uso cotidiano, a gráfica, tem um trabalho muito forte de artistas que eram ilustradores de jornal, de livros, trabalhavam para editoras, cartazes e uma outra coisa bem bacana do acervo é um conjunto de artistas que trabalharam para a indústria da moda no começo do século 20 e também para as artes do espetáculo. Tem três conjuntos bem importantes ali. Um artista que é muito revelador nesse aspecto é o Emiliano Di Cavalcanti, porque conhecemos ele como pintor, mas na verdade ele começou sua carreira como ilustrador e caricaturista. Tem um conjunto muito importante de desenhos que ele doou para o antigo MAM de São Paulo, o Museu de Arte Moderna, que é de onde nossa coleção vem. Doou em 1952 e o MAC tem um conjunto de obras em papel que revela esse lado dele muito especial, que a gente vê ele fazendo cenografia de teatro, cartaz, capa de revista e ilustração de livro. E outros dois conjuntos que merecem destaque nesse universo é de um lado um conjunto de objetos que a gente tinha da família Gomide Graz, de Antônio Gomide, sobretudo, de estudos de estamparia, muito provavelmente algo que apresentava como esboço ou projeto para as tecelagens da indústria da moda em Paris, no início do século 20, e de outro lado o Flávio de Carvalho, um artista absolutamente irreverente, um arquiteto de formação, mas muito radical, que experimentou com vários meios, inclusive o teatro. Foi o responsável por fazer o figurino e cenário do chamado balé A Cangaceira, uma das coreografias que tinham sido pensadas para o quarto centenário da cidade de São Paulo, em 1954. Mas nunca foi encenado aqui, só no Rio de Janeiro, mas as aquarelas de estudos que temos em acervo. Descobrimos esse outro universo, esses artistas modernistas que trabalhavam nessas outras chaves. Ao mesmo tempo que faziam as chamadas belas artes, arquitetura, escultura, etc, para eles a experiência da linguagem moderna passava por esses outros meios técnicos também. 

Quando a gente vai à exposição geralmente vemos o trabalho pronto, mas nessa, pelo que entendi, mostra esse processo criativo. Qual a importância de mostrar todo esse estudo?

Ali a gente vê efetivamente o artista se arriscando com uns meios novos. No caso do Di é muito importante o conjunto de desenhos que a gente tem, porque vemos que o traço dele muda conforme o meio técnico para o qual está pensando aquela representação. Se é pintura mural, o desenho tem um tipo de tracejado, e às vezes vemos esse fundo quadriculado, porque ele tem de trabalhar com a ideia da escala. Se é ilustração de jornal ou livro, está pensando no processo do clichê, da litografia, como passar esse desenho para outro meio técnico. Ou então um artista como o Mario Zanini, que a gente vê muito claramente ele apontando o que é a base de preparação do azulejo e cerâmica, para passar o desenho para esse outro meio técnico. Então, ali vemos justamente a cozinha do artista, digamos assim. E entende que tudo isso faz parte de uma experiência maior. No fim é o mesmo processo com a pintura e escultura. Tanto para as artes gráficas, quanto para mural, cenografia, tudo isso faz parte do artista experimentar sua linguagem em vários meios. 

De que maneira esses artistas retrataram o país daquela época? Quais eram os signos?

Um que acho que é bastante controverso hoje e aparece com certa frequência, os assuntos brasileiros entre aspas. Aquilo que era considerado tipicamente de uma cultura popular. O universo do carnaval e, por exemplo, a Cangaceira é toda inspirada na cultura do sertão nordestino, na cultura do cangaço, que nos anos 1940 ganhou toda uma proeminência, inclusive nos meios de comunicação no Brasil. O mundo do espetáculo de um modo geral, o samba a gente também vê nas representações, as figuras populares, do subúrbio. Mas, ao mesmo tempo, a gente tem um outro tipo de temática tratado, por exemplo, a da figura do bandeirante paulista. Isso estava muito em voga na época. Hoje é uma figura controversa bastante problematizada pela historiografia, mas que é importante a gente entender por onde ela ganhou essa notoriedade. E alguns desses objetos fazem parte desse momento de afirmação de uma São Paulo moderna. E a gente não pode esquecer que apesar desses objetos terem uma grande circulação, sobretudo quando pensamos nos meios de comunicação, ainda estamos falando dessa produção, que ao mesmo tempo, o mural é entendido como uma espécie de expressão da coletividade, mas que era feito para as grandes empresas, para as casas da elite paulista. Tem toda essa outra questão que temos de tratar também. 

O principal intuito deles era fazer São Paulo e o país serem modernos. Você acha que eles conseguiram?

Claro que aquilo era um projeto de país naquele momento. De pensar que tinha efetivamente alcançado a modernidade, que se industrializava e tinha seus meios de comunicação desenvolvidos. É um projeto que sabemos muito bem que teve seus trancos e barrancos. Quer dizer, aquilo, sobretudo quando pensamos nos anos 1950, tem um papel muito importante. Era realmente quase um furor, porque estávamos no meio do processo da construção de Brasília, da política econômica dos ‘50 anos em 5’, e do Brasil se colocando no jogo das nações, porque tem seu assento nas Nações Unidas após a Segunda Guerra Mundial. Existe uma promessa de país para se desenvolver ali. Que, enfim, mais tarde vai ter milhões de outras preocupações. É um projeto interrompido várias vezes. E acho que no caso da nossa situação hoje, em um país como vemos, é muito interessante de perceber o que era aquele período que houve investimento muito grande nessa linguagem moderna da arte, associada com esse processo de industrialização, quando hoje vemos um processo de desindustrialização do país. Isso se refletia, inclusive, no entorno da cidade de São Paulo. A região, por exemplo, do ABC Paulista, que recebeu investimento enorme, que também se envolve com essa linguagem moderna da arte, também tem seus salões e projeta seus artistas. A ideia de Museu de Arte Moderna começa a se disseminar pelo país inteiro e, no fundo, isso não se sustenta por tanto tempo. Quando chegou no final da década de 1960 começou a minguar. 

E o MAC, desde o ano passado, tem feito atividades sobre o assunto. Promoveu seminários com a Pinacoteca e com o Instituto Moreira Salles. Como você vê o papel do MAC contando essa história moderna, principalmente nas últimas décadas deste centenário?

A gente procura contribuir, justamente, traduzindo em exposição, como no caso dessa, aquilo que a pesquisa traz de novo, de original, de novas leituras no acervo do museu. Ele era visto, durante muito tempo, como de arte moderna essencialmente, o que não é. Ele é de arte moderna e contemporânea. Essa arte moderna era vista dentro da chave mais convencional, ou seja, era a Semana de 1922 mostrada da maneira clássica, com os mesmos artistas. Mas mesmo eles começam a ser mostrados de outro jeito e numa complexidade maior, como é o caso de Di Cavalcanti nessa mostra. O papel do museu é esse. 

Essa revisão histórica que está sendo feita em ocasião do centenário, em diversos aspectos. Como você vê tudo isso?

De uma maneira muito positiva. Primeiro que tivemos várias exposições desde o ano passado que reviram vários aspectos do modernismo brasileiro. O Ciclo 22 que a gente organizou com a Pinacoteca e o Instituto Moreira Salles foi muito enriquecedor, porque a gente ouvia outras experiências de moderno, fora do eixo São Paulo e Rio de Janeiro, que foi muito importante para nós e trouxe outras informações, artistas e outros modos de ser moderno no país. Tem sido, de um ano para cá, um momento de renovação da pesquisa e de complexar o que é essa tradição modernista para nós. 

Esse ciclo foi todo virtual. As pessoas ainda podem assistir?

Sim. A playlist fica disponível tanto no canal do YouTube do MAC USP, quanto do Moreira Salles e da Pinacoteca do Estado. Convidamos 41 colegas de várias partes do país para falar de vários temas, como a cultura popular, samba, cinema, teatro, dança, arquitetura, fotografia, da representação, da diversidade na experiência moderna, a contribuição afro-diaspórica no Brasil, indígena, o que a gente sabe no campo das artes aplicada, artistas mulheres, falamos de muitas coisas. 

(Miriam Gimenes/Agenda Tarsila)

Publicada em 22 de junho de 2022

Veja também
+Programação