Cleber Corrêa/Divulgação

Exposição na Oficina Cultural Alfredo Volpi transforma a arte modernista em ‘tatuagem’ na pele

O corpo é uma tela. É com essa ideia que a artista plástica e maquiadora Louise Helène trabalha para criar sua arte. Desde 2019, quando experimentou pela primeira vez escrever ‘arte’ no rosto de um ator, descobriu a sua paixão em pintar a pele e criou, junto com o fotógrafo Sergio Santoian, o projeto #feitotatuagem. A partir daí desenvolveu a técnica e, na pandemia, em razão do isolamento, passou a se pintar de forma artística. Postou as fotos, feitas pelo seu companheiro Cleber Corrêa, conquistou seguidores e ganhou o convite para fazer a exposição Arte na Pele – Modernismo Brasileiro, em cartaz na Oficina Cultural Alfredo Volpi, em São Paulo. 

“Estamos fervilhando ideias, experimentos e novas formas de criar isso. Felizes, empolgados e desafiados. Estudar a história das mulheres, principalmente da Anita e da Tarsila, me comove muito e me sinto quase que um compromisso de honrar essas memórias. Até a performance que vou fazer no dia 22 (de julho) vai ser em cima da Anita Malfatti e da história dela. A luta dos artistas na época era para terem mais espaço, para conseguirem se expressar da forma como queriam, sem tanta caixa, opressão, sem serem tolhidos. Cem anos se passaram, temos muitos avanços, mas em muitas áreas as coisas continuam se repetindo, mulheres não podem pintar porque são mulheres, ou têm seus trabalhos silenciados, roubados. Para mim é bem importante falar sobre isso”. diz a artista, que conversou com a Agenda Tarsila: 

Você é maquiadora profissional, artista plástica e começou a realizar pinturas na pele durante a pandemia. Como se deu esse ensejo criativo?

Sou formada em Artes Cênicas e trabalhei como atriz por dez anos em São Paulo. Junto com o teatro comecei a maquiar. Esse interesse surgiu porque quando adolescente, em Joinville – sou de lá – dançava sapateado e por conta das muitas apresentações me veio o interesse na maquiagem, me apaixonei. E por fazer teatro, estar envolvida com isso, comecei a maquiar o pessoal das peças que fazia como atriz. Porque já tinha material e assim comecei a fazer a maquiagem profissional, visagismo para teatro. Tenho formação de maquiadora tradicional, trabalhei por um tempo em salão, com noivas, essas coisas convencionais e disso comecei a trabalhar com muitos fotógrafos. Os books que eu fazia como atriz, retratos para mandar para agência, eles elogiavam a maquiagem, falavam que estava super natural e pediam para me indicar. Comecei com teatro e maquiagem para ensaio fotográfico. Por que estou falando disso? Tem um fotógrafo com quem trabalho muito, que é o Sérgio Santoian, e em 2019, já estávamos há quase oito anos juntos, com essa maquiagem básica e retrato, e pensávamos em fazer uma coisa mais artística. E durante um ensaio com um ator para a assessoria de imprensa, estávamos angustiados com a situação do país, várias peças sendo censuradas, amigos perdendo o emprego e no final o Sérgio me sugeriu fazer uma foto mais artística. ‘A gente já tem foto dele bonito. Você consegue escrever arte no rosto dele?’. ‘Nunca fiz, vamos experimentar’. E o ator amou a ideia. Improvisei e tiramos foto. Deu muito certo, porque ele fez em preto e branco e ficou parecendo uma projeção. Mandamos para o jornal várias fotos normais e uma só dessa. E o jornal publicou justamente essa foto com o escrito ‘arte’. Aí o Sérgio falou: ‘para o jornal dar uma foto assim, em preto e branco, que nem é tão boa para a impressão… Acho que a gente tem um projeto’. Em 2019 entramos nesse furacão que é o #feitotatuagem, nome desse projeto, e hoje em dia já fizemos em mais de 150 pessoas. Ali descobri a paixão de pintar corpos. Era uma pintura que se relacionava com artes plásticas. Só que veio a pandemia. Fiquei em isolamento com meu companheiro, que é o Cleber Corrêa, que está terminando um doutorado em Filosofia, mas que estava cansado da carreira acadêmica e comprou uma câmera fotográfica. A gente ficou em casa, ele com a câmara precisando testar e eu com a minha vontade de pintar corpos. Começamos a fazer vários testes e senti vontade de fazer uma pintura em mim, mas não o que já tinha visto no Instagram, de caracterização. Não queria essa linha. E como estava pegando livros de uma amiga artista plástica para estudar por conta, via as imagens e imaginava que ia ficar muito interessante no rosto. Pesquisei tinta para o corpo, achei a ColorMake, que me apoia hoje em dia, e comecei a me pintar despretensiosamente. Cleber fotografou e jogamos no Instagram. E as pessoas começaram a gostar muito, passamos a ter um retorno muito positivo. Acabou virando uma grande paixão, porque nesse processo todo da pintura do meu corpo, das telas – porque hoje também faço para compor as fotos, além de roupas – e comecei a entrar na performance, algo que aprendi por cima na faculdade. Então hoje estou nesse caminho autoral, que exige muita coragem, porque é solitário de alguma forma. Nunca teria feito esse trabalho se não fosse o Cleber, se não tivesse o olhar dele, e vários outros fotógrafos com quem vou colaborando no meio do caminho. Eles vêm agregando, mas é um trabalho autoral bem solitário. É desafiador, mas entendi que é um trabalho de uma vida. A pandemia me trouxe esse presente de entrar em contato comigo e ver que é um caminho sem volta. 

E como surgiu o convite para participar da exposição para fazer releitura modernista em corpos, na Oficina Cultural Alfredo Volpi?

A Gabi, que trabalha na oficina, me seguia no Instagram, eu não a conhecia. Tenho uma grande amiga atriz, a Fani Feldman, que entrou em contato comigo falando da Oficina e que me indicou para uma exposição. A Gabi me fez o convite, por conta da pauta do centenário da Semana de Arte Moderna. Era uma coisa que estava com muita vontade de fazer. Eu e o Cleber já tínhamos pesquisado bastante sobre os artistas que fizeram parte da Semana, fizemos a releitura da Tarsila, de quadros da Anita Malfatti, do Di Cavalcanti, do próprio Volpi, e quando surgiu o convite, aceitei. Achei que era uma oportunidade de revisitar o material que já tínhamos, mas também de criar coisas novas a partir daí. Estamos fervilhando ideias, experimentos e novas formas de criar isso. Felizes, empolgados e desafiados. Estudar a história das mulheres, principalmente da Anita e da Tarsila, me comove muito e sinto quase que um compromisso de honrar essas memórias. Até a performance que vou fazer no dia 22 vai ser em cima da Anita Malfatti e da história dela. A luta dos artistas na época era para terem mais espaço, para conseguirem se expressar da forma como queriam, sem tanta caixa, opressão, sem serem tolhidos. Cem anos se passaram, temos muitos avanços, mas em muitas áreas as coisas continuam se repetindo, mulheres não podem pintar porque são mulheres, ou têm seus trabalhos silenciados, roubados. Para mim é bem importante falar sobre isso. É uma oportunidade de continuar pesquisando sobre esse tema por conta da exposição, para trazer novas coisas em cima das fotografias e agora estamos fazendo intervenções, trabalhar com colagem, costura, coisas que não havia experimentado. Vai ser uma nova frente de trabalho para experimentar.

Que releituras o público poderá ver na exposição e como é esse processo criativo?

Entre as obras que a gente vai fazer releitura está a do Abaporu, muito emblemática, praticamente capa do movimento, apesar de Tarsila não ter estado na Semana. Tem uma foto dela comigo caracterizada, fizemos a releitura do autorretrato, e vamos ter também dois autorretratos da Anita, além de obras inspiradas no Volpi, com as bandeirinhas características. No caso da Anita, quando não é figura humana, dificulta um pouco meu trabalho. Uma paisagem de casas é difícil de trazer de forma interessante. Tenho de pensar em termos de colagem. Geralmente, nesses processos criativos, o que me ajuda é quando vejo figuras humanas, porque consigo pensar melhor como consigo transpor para o corpo ou rosto. Do Di Cavalcanti, que procurei bastante, a que mais me chamou atenção é um quadro em azul e preto de uma mulher com passarinho. É uma coisa meio cubista que quando bati o olho vi que ia ficar interessante. Quando pesquiso a obra desses artistas procuro o que acho que vai funcionar melhor em mim. Se não vejo solução de nenhuma maneira vou para a colagem, sobreposição, que é o que vou fazer em alguns casos. Também terão duas obras autorais. Uma minha, que se enquadra bastante, porque tem as cores, que se encaixam no que é o movimento modernista, no que ele se propõe, e tem uma obra que é inspirada na Odiléa Toscano, uma artista brasileira, que tem uma obra permanente no Metrô de São Paulo. Quando fiz a minha primeira exposição desse trabalho com o Cleber, na plataforma, eles pediram para me inspirar em dez homens e dez mulheres, entre nacionais e internacionais. E sugeriram um quadro dela. Nem eu nem ele estávamos botando fé que ia ficar interessante e quando olhamos na câmera é uma das nossas obras preferidas. Ela comunica bastante, porque tem elementos que lembram o Brasil, a Tarsila. 

O que aqueles artistas pregavam ali, há cem anos, era ousadia. E pintar pele nada mais é do que isso, ousar. Você transformou a mensagem na sua linguagem?

Pois é, foi sem perceber. Uma coisa muito louca, orgânica e intuitiva, estava vindo desse projeto com pessoas e pele. Porque é uma coisa muito diferente do que pintar objeto e quadro. Pintar corpo é uma coisa que fiquei apaixonada e a medida que fui fazendo, ao conversar com as pessoas, elas foram falando que era revolucionário. E realmente, conecta as pessoas, me transforma, transforma os outros. É um trabalho ousado por conta de se pintar o corpo e ele ser um objeto, principalmente o feminino, de muita sexualização, é muito delicado porque no próprio Instagram tem de ter o maior cuidado, porque vira e mexe sou censurada. Quando pinto meu seio geralmente não coloco adesivo, apenas em alguns trabalhos. Quando faço para mim não cubro, só pinto em cima e sofro censura. E é uma coisa muito louca, porque por vir do teatro, trabalhar com arte há anos, o corpo, para mim, é algo normal, não consigo ver como ofensivo, nem hipersexualizado. Tento ser o mais respeitosa possível. Não achei que seria ousado, mas vendo a reação para as pessoas percebo que ainda é um tabu ver um peito pintado, uma perna, me ver pelada pintada, o que para mim é muito natural. O corpo feminino carrega muita coisa na sociedade. Talvez seja um símbolo de libertação também, porque é um trabalho que me liberta, escuto muito esse feedback, que minha arte convida as pessoas a estarem nesse lugar também. E hoje eu pinto outras pessoas, abri as portas da minha casa para quem queira passar por esse processo. Muitas mulheres, homens, me procuram para terem seus corpos pintados. ‘Quero me entender com meu corpo, me dar de presente esse momento’. Tem quem tenha passado por uma cirurgia que modificou o corpo, tem cicatrizes, e está passando por um momento super delicado e me procura para pintar, para ressignificar o novo corpo. Mulheres grávidas, tem de tudo. E eu me sinto muito feliz, porque é de uma confiança muito grande as pessoas se colocarem nas minhas mãos. É um trabalho ousado. 

(Miriam Gimenes/Agenda Tarsila)

Publicada em 13 de julho de 2022

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