Divulgação

Exposição na Pinacoteca traz a multiplicidade da obra de John Graz no modernismo

John Graz não é brasileiro. Nasceu em solo suíço. Mas ao apreciar sua obra, principalmente a que produziu em solo tupiniquim, é fácil acreditar que se pudesse escolher uma pátria para chamar de sua se identificaria com a daqui. Nascido em Gênova, na Suíça, o pintor, decorador, escultor e artista gráfico se apaixonou por uma brasileira, a também modernista Regina Gomide – que conheceu nos corredores da Escola de Belas Artes – e arrumou as malas para seguir rumo ao Brasil, precisamente em São Paulo, onde morreu em outubro de 1980. 

E foi com o intuito de tornar mais popular toda essa trajetória, que passou, com força, pela Semana de Arte Moderna de 22, evento em que expôs alguns de seus quadros, que a Estação Pinacoteca abriu a exposição John Graz: Idílico e Tropical, que traz um pouco de tudo que ele fez ao longo de sua vida. “Um dos temas que vai atravessar toda produção dele é o da natureza brasileira, da fauna, da flora e também dos povos originários”, ressalta a curadora da mostra, Fernanda Pitta, que conversou com exclusividade com a Agenda Tarsila. Confira a seguir:

A exposição do John Graz está em cartaz na Estação Pinacoteca. Gostaria que você me falasse sobre este artista: um pouco da obra dele, como se apaixonou pelo Brasil, e quem foi John Graz.

A exposição está em cartaz desde julho e ficará até o começo do ano (que vem) e é uma mostra em torno deste artista moderno que nasceu na Suíça e se radicou no Brasil, com uma trajetória muito importante no campo das artes visuais e do design de interiores e mobiliário. É um artista que vem de uma formação ampla no campo das artes. Ele estuda arte decorativa na Escola de Belas Artes da Suíça e é lá que conhece a Regina Gomide e o Antonio Gomide, artistas brasileiros que estavam estudando neste mesmo período lá. Ele acaba se envolvendo, se apaixonando pela Regina, vem para o Brasil por um período e acaba ficando aqui toda sua vida, desenvolvendo seu trabalho. 

De que maneira a cultura brasileira influenciou na arte dele? 

Muito interessante que o John Graz vem desta formação nas artes decorativas, com uma experiência muito ligada às vanguardas europeias do início do século 20, ao art déco. Ele, a Regina e o Antonio são os responsáveis pela introdução do art déco neste estilo moderno no Brasil. Ele chega em 1920, participa da Semana de 22, atua neste contexto da arte moderna em São Paulo, publica algumas ilustrações na revista Klaxon, se envolve com esse ambiente moderno daqui, mas logo começa a explorar também dentro deste repertório de decoração temas brasileiros. E um dos que vai atravessar toda produção dele é o tema da natureza brasileira, da fauna, da flora e também dos povos originários. 

E na Semana em si, de que maneira ele participou?

Ele expôs um conjunto de telas que fez na Espanha. São paisagens que desenvolveu com vistas específicas, paisagem espanhola, são produções muito interessantes, mas ainda não ligada a esta temática brasileira que começa a explorar por volta do mesmo período.

Quando se fala em Semana de Arte Moderna ele não é um nome citado. A obra de Graz está vindo à tona agora ou as pessoas já conheciam o trabalho dele?

Ele é um artista pouco conhecido do grande público. Quando a gente pensa em arte moderna no Brasil pensamos muito na figura da Tarsila, da Anita Malfatti, do próprio Lasar Segall, com quem ele também teve uma relação de amizade muito longa. E as figuras do Graz, da Regina Gomide, do Antonio, outros artistas que estiveram no mesmo ambiente são menos conhecidos, explorados. Mas como a gente tem passado por um processo de revisão, repensar justamente as múltiplas expressões da modernidade, do moderno no Brasil, acho que o John Graz é uma figura exemplar neste processo, para entendermos outras formas de pensar o moderno. A contribuição dele é justamente essa atuação múltipla, que culmina em uma atuação de pintor, desenhista, mas também como decorador, designer de objetos, de ambientes, com uma visão de arte muito moderna. Essa integração de várias linguagens que a gente conhece mais pela raíz, John Graz traz por outros caminhos da formação dele nas artes decorativas e a relação que ele estabelece com a art déco.

E esta exposição na Estação Pinacoteca traz todas essas vertentes. Me fala um pouco sobre as obras que estão lá, que vieram do Instituto Graz, quantas são?

A exposição nasce de uma doação generosa que o Instituto fez para a Pinacoteca, de 42 obras, neste esforço justamente de extroverter esta produção do Graz para que ela possa estar mais presente nos museus e ser mais conhecida do público. E nós complementamos, Thierry (Freitas) e eu, meu parceiro curatorial nesta exposição, decidimos fazer um recorte temático para esta exposição mostrando justamente estes assuntos que interessaram ao Graz ao longo de sua produção, não só a dos anos 20. Então a gente tem obras dos anos 20 até os anos 80. O que nós pudemos reunir com a ajuda do Instituto foram 155 obras, boa parte vindas do Instituto, mas também com empréstimos de coleções particulares, além das coleções da própria Pinacoteca. A ideia foi mostrar, justamente, essa multiplicidade de assuntos e de temas que ele explorou ao longo da vida dele. 

E como está a organização expositiva dessas obras?

A gente fez uma organização temática, com alguns núcleos. Tem um dedicado à temática indígena, outro que trata da natureza brasileira, tem o núcleo que fala da história do Brasil, que ele também explorou em algumas obras, sobretudo estudos em painéis, murais que fez para residências e edifícios. Também temos uma parte muito interessante de cultura brasileira, popular. Ele se interessou muito pelo fenômeno do carnaval, as festas populares, o cotidiano popular, cenas de mercado, de rua, que ele muitas vezes se deparou em viagens pelo Brasil e transformaram seu olhar sobre a realidade brasileira. Tem, por exemplo, o tema dos jangadeiros, muito explorado pelos artistas modernos, ele tem sua série disso. E a gente tem um pequeno núcleo de design que achamos interessante reproduzir na exposição justamente para mostrar este diálogo entre o design com as artes visuais. Este projeto artístico de arte total, que o John Graz traz para o contexto brasileiro. 

Ele era um artista completo então? Desenhava, fazia decoração, tudo?

Sim! É muito interessante ver os projetos de design de interiores dele justamente porque você vê que ele projeta desde o afresco, o mural que vai estar dentro daquele ambiente, até a maçaneta da porta, as plantas que vão ser colocadas, enfim, é todo esse cuidado deste pensamento integral, de entender que a arte está na vida e ela envolve de modo global a todos nós. A gente tem esses exemplos na exposição que são pontuais, mas explicitam bem esta relação que ele tem. Tem alguns desenhos muito lindos de projetos de painéis que você vê que ele faz a composição, mas tem a preocupação de pensar onde vai colocar a luminária, onde vai colocar determinado móvel, a que distância, todo esse cuidado mesmo com o ambiente entendido dentro deste olhar global mesmo da arte que ele tem.

Tem algum projeto importante que ele tenha feito que seja conhecido e vai estar na exposição?

Tem vários projetos que estão documentados por meio de fotografia de residência das elites paulistas, como Antonieta e Caio Prado, a gente tem esse registro na exposição, mas muitos dos projetos ainda estão para ser melhor documentados e mapeados. Até hoje a gente encontrou notícias de pessoas que têm uma residência, ou um apartamento, e descobrem um mural do John Graz por trás do revestimento. Ou peças que entram em leilão ou antiquários que são projetos completos de residência que ele desenvolveu. Então acho que a gente quis dar esse gostinho de ter esses exemplos na exposição com a esperança de que possamos encontrar mais dessa atuação dele, sobretudo aqui em São Paulo.

E como está a visitação à exposição, tem de ser agendada?

A visita está sob agendamento, que pode ser feito gratuitamente pelo site da Pinacoteca, e a gente recomenda todos os cuidados de distanciamento social, uso de máscara, aferição da temperatura, para garantir uma visita tranquila e segura para todos.

E tem a intenção dessa exposição itinerar?

A gente não tem conversas ainda a respeito. Houve uma grande exposição no MAM (Museu de Arte Moderna) de São Paulo. Agora o MAC (Museu de Arte Contemporânea) abriu uma exposição sobre o morar moderno que tem obras do Graz. Está prevista uma exposição sobre o design dele. É um momento em que a gente tem várias iniciativas que possibilitam ver a obra desse artista e esperamos que haja interesse de que a exposição possa itinerar também para outros locais do Brasil. 

(Miriam Gimenes/Agenda Tarsila)

Veja também
+Programação