Exposição no Centro Cultural Fiesp tem processo criativo e bastidores de obras icônicas do modernismo

Quando você vê um quadro de Anita Malfatti o define como moderno. Pudera. A pintura fez parte de um movimento que teve início na primeira década do século passado e tudo o que a artista produziu, certamente, vai ser enquadrada nesta característica. Mas o que, de fato, define o modernismo? Era a forma de pincelar uma tela ou a atmosfera – e iniciativas – que envolvia a ação? É esta reflexão que propõe o professor e pesquisador do IEB/USP Luiz Armando Bagolin, curador da exposição Era Uma Vez o Moderno (1910-1944), recém-aberta no Centro Cultural Fiesp, em São Paulo. 

Desenhada como uma linha do tempo, que envolve as décadas que estão no nome da mostra, quem passear pelas salas do Centro Cultural não apenas verá obras icônicas – O Mamoeiro, de Tarsila do Amaral, O Japonês, de Anita ou Macunaíma, de Mário de Andrade – como conhecerá o processo que levou os artistas em questão a chegaram ao trabalho final. Para tanto, rascunhos dos quadros, cartas trocadas, esboços de capas, tudo está colocado de forma relacional, para que o visitante entenda tanto o processo criativo quanto os bastidores da elaboração destes expoentes do modernismo brasileiro. 

É uma forma, reforça Bagolin, de mostrar que o modernismo não foi um movimento singular, provinciano, inaugurado na Semana do Municipal. “Acho muito importante, especialmente nessa exposição, para que o público entenda que a Semana foi uma efeméride muito propagandeada, mas ela não é um marco de início de modernismo no país, nunca foi. O modernismo não é uma criação paulista. Tem contribuições de pessoas de várias regiões do Estado de São Paulo, do país, mas principalmente de entender que o modernismo não foi um movimento no singular, cujo mote é a ruptura com a arte do passado e a apresentação do novo. Essa coisa que se ensina nas escolas, que cai no vestibular, está errada”. Confira, a seguir, a entrevista completa concedida à Agenda Tarsila:

Vocês acabam de inaugurar uma grande exposição no Centro Cultural Fiesp que antecipa as comemorações do centenário da Semana de Arte Moderna de 1922. Primeiro queria que me falasse como o acervo do IEB, que é a base da mostra, foi formado e qual o recorte da exposição que ficará aberta até maio?

Essa coleção sobre modernismo brasileiro tem como núcleo central a coleção de documentos e obras de arte do próprio Mário de Andrade, que foi comprada da família pela USP em 1970. Não é o acervo total dele, com o tempo as coisas foram sendo separadas…. Mas, a grosso modo, mais de 80% do que ele tinha foi para a Universidade, no Instituto de Estudos Brasileiros. Em relação à segunda questão, você lembrou da efeméride, mas a gente não quis, deliberadamente, fazer uma exposição sobre a Semana. É uma mostra mais ampla, em que a Semana de Arte Moderna é apenas mais um capítulo, um episódio de muitos outros, que estão conectados com o nosso modernismo. E aí fizemos um recorte de 1910 a 1944 – 1910 porque é a data da primeira exposição individual da pintora Emma Voss, uma artista alemã que chegou naquele ano em São Paulo e já fez sua exposição. Até onde a gente sabe é a primeira de arte modernista feita no país. É uma artista que já traz uma pintura muito vigorosa alinhada com os preceitos do expressionismo alemão. E a gente não sabe quase nada sobre ela. A única coisa que temos é um autorretrato, cujo o original está na Pinacoteca do Estado de São Paulo e uma notícia de jornal que dá conta dessa exposição, elogiando a qualidade da pintura, mas estranhando o fato de ter sido feita por uma mulher, entre aspas, ‘fora do comportamento habitual feminino’. E achamos muito curioso essa notícia porque, em 1910, quando ela está fazendo essa exposição em São Paulo, Anita Malfatti está partindo para uma viagem de estudos na Alemanha e vai estudar pintura com os expressionistas alemães. Ela não tinha uma formação acadêmica anterior. A formação dela, de 1910 a 1913, se dá dentro da vanguarda da arte alemã. E depois retorna ao Brasil, faz a exposição em 1914 no Mappin – é a primeira vez que a gente expõe o diário dela com as anotações ao público (falando sobre isso). Depois passamos pela segunda exposição, que dá conta também da continuidade da formação da Anita, só que nos Estados Unidos, quando ela conheceu Marcel Duchamp e vários outros artistas também alinhados com outras vertentes das vanguardas artísticas do início do século como cubismo e futurismo. Expomos essa produção – O Homem Amarelo, O Japonês, A Estudante Russa -, obras icônicas que estiveram na mostra criticada duramente pelo Monteiro Lobato no final de 1917, em um artigo que depois ficou conhecido com o título Paranóia ou Mistificação. Passamos pelo início da década de 1920, pela Semana, vamos até 1925, em que os escritores, artistas, músicos estão em Paris, considerada o centro cosmopolita. Eles vivem uma fase na qual todos os artistas, mesmo os europeus e de outras partes do mundo, estão lá, é o chamado ‘retorno à ordem’. Depois do término da Primeira Guerra Mundial, o modernismo se assenta, se pacifica, é um modernismo mais sedimentado, apaziguador, mais palatável. Mário escreveu numa das cartas da época para Anita: ‘Há de ser moderno, mas sem exagero. Então todo aquele radicalismo, aquela potência, da primeira fase do modernismo, que no Brasil nós só tivemos a Anita, esmorece. Essa fase mais potente, de vanguarda, ficou para trás. Não sei se a gente conseguiu, mas na exposição quisemos dar essa ideia não positivista, de que o mais moderno ficou no início da exposição. Conforme você vai avançando cronologicamente, vai perdendo dessa primeira qualidade e força. Um pouco em virtude disso é que o nome é ‘Era uma Vez o Moderno’. Título retirado do livro do Guilherme de Almeida, que esteve presente e seus versos foram lidos na Semana de 1922, o livro está lá nas vitrines, com capa do John Graz. Quando se dá o evento, e depois dele que, enfim, todos estão vivendo a escola de Paris e esse modernismo em segunda fase, menos radical, o modernismo mais radical, mais forte, já virou história. Depois a gente prossegue, passa ao Pau-Brasil, Antropofagia, o período de viagens do Mário ao Norte do país, que resulta no Turista Aprendiz e dois romances emblemáticos na obra dele, Clã do Jabuti e Macunaíma. Temos originais de trabalho do Macunaíma, inclusive as notas, que ele tinha um trabalho incansável de recolher referências. Não é bem verdade que ele se apropria apenas da obra do Koch-Grünberg (etnologista e explorador alemão), de onde se retira o nome. É apenas uma das fontes dele, que tem inúmeras outras que vai tecendo, costurando, até chegar nessa rapsódia, gênero do livro. A partir de 1927 temos uma relação do nosso modernismo com o surrealismo francês, também presente na mostra. Cícero Dias, Ismael Nery, Jorge de Lima… As ilustrações feitas sobre um exemplar do Macunaíma, do Pedro Nava, que é inédito, o público nunca viu. Depois passamos para a década de 1930 em diante em que há preocupação de alguns em fazer uma arte socialmente engajada, politicamente interessada. Portinari, Di Cavalcanti, muitos outros. E, simultaneamente, temos os artistas que não se interessam por nenhum tipo de manifestação e mergulham em uma pesquisa muito pessoal. Com as pesquisas formais, coletadas no modernismo, temos Guignard, que tem uma pintura maravilhosa, de qualidade inegável, mas que revela que o modernismo também teve um viés de mergulho no eu, no individualismo, nas idiossincrasias do artista. E a exposição termina em 1944, recorte de fechamento porque ainda sob o Estado Novo, Mário de Andrade escreve uma carta – também inédita ao público -, a última para o Manuel Bandeira, e não envia. Estava meio estremecida a amizade porque Manuel e todos os outros companheiros sucumbiram ao aliciamento do Estado Novo. (O governo) Passa a enxergar, principalmente naquelas manifestações que clamam por uma arte brasileira com identidade nacional, eles encontram ali a senha que casa com a retórica estatal de ter um povo, uma cultura e, portanto, uma arte brasileira, tudo no singular. E o Mário é contra isso, abomina Estado Novo, abomina Getúlio, quer matá-lo e escreve dizendo assim: ‘estou com muita vontade de fazer uns poemas políticos, mas não tenho mais força. Então escreva você, meu irmão. Você sabe fazer melhor do que eu. Estou cansado, não tenho força’. E ele acabou não enviando essa carta. Desde 1942, quando ele fez a Conferência Modernista, há um sentimento de que o modernismo a partir do Estado Novo acabou. Se passa a ser subvencionada oficialmente por um estado de extrema-direita, não há mais condição de falar de modernismo. É a questão que a gente deixa no final da exposição para o público atual, a questão do tempo deles: ‘como é possível ser moderno em um país com tanta desigualdade?’  Eles jamais poderiam imaginar que 100 anos depois a gente teria uma situação tão semelhante. Mas seja como for a questão deles, ainda mais por conta das semelhanças, faz mais sentido ainda. Passou-se um século e as desigualdades foram superadas? A gente pode ser moderno hoje? O moderno para eles, independentemente dos grupos, era o processo de conversão da realidade a uma outra mais justa, igualitária, com a ajuda da arte e da cultura. Eles não conseguiram, fracassaram no intento. E o que eles nos lançam como questão e legado principal, além das obras, o mais importante é essa questão. Parece que a gente ouve o Mário falar: ‘meu irmão, agora não é o Manuel Bandeira, é você. E aí? O que vocês fizeram neste tempo todo?’ Se eles estivessem presentes, voltassem do passado, iam pensar que a gente ficou congelado. 

A realidade é praticamente a mesma…

Ou, se não, pior. Imagina o Mário de Andrade, o Oswald, dando uma volta pelo centro de São Paulo. Eles ficaram estarrecidos, assustados. O que São Paulo se tornou? E essa mesma cidade que vai comemorar com clima muito festivo a efeméride, acho que vão ter outras exposições com outras abordagens, o que é muito bem-vindo. A gente quis fazer uma exposição com uma abordagem histórica. Usamos essas três décadas de modernismo mostrando uma abordagem do que foi o contexto deles, de acordo com as circunstâncias que viveram. O lugar de fala é deles, não nosso. Não é comum uma exposição ter essa densidade de informações, são várias camadas, textos.

Na mostra, os atores interpretam os personagens da Semana, declamando poemas. É uma forma de personificar a pessoa que está apenas no imaginário. E também tem o bastidor, do que foram essas relações deles. Fale um pouco disso, dessas trocas. 

É inusual a exposição por conta disso. Lá você tem as obras na parede, as esculturas, é o filé mignon, e quando existe uma parte documental, no geral as exposições têm trazido muita reprodução, você deixa separado da mostra. A gente não fez isso, de propósito. É uma exposição relacional, você falou tudo. Aquela pintura que está na parede pode ser um ícone hoje para a história da arte brasileira, pode valer milhões, mas ela não está ali por causa disso. Está ali porque se relaciona com uma carta que está ao lado dela, que a explica, ajuda a entender, e vice-versa. Está ao lado de um livro, uma atriz, um ator, enfim, cada cantinho da exposição tentamos fazer isso, relacionar aquilo que temos disponível, que é o acervo do IEB, para contar a história do modernismo do ponto de vista deles, de como eles viveram. A gente conseguiu trazer também a dimensão humana. Tem os bastidores, os conflitos, as amizades, as inimizades, as dúvidas, frustrações, o desejo. Está tudo ali para quem quiser ver. Se você for acessar as várias camadas de informação nos QR Codes…

Eles levam para um site que tem até entrevistas…

Tem tudo. Todos os documentos que estão lá, as cartas, estão integralmente legíveis, digitadas. Dá para fazer uma leitura da tua casa. É uma exposição para ser visitada muitas vezes. Se você for acessando aos poucos todos esses textos, áudios, você terá lido mais de 100 páginas da história do modernismo, sem exagero. Terá absorvido três décadas de uma maneira suave, não-acadêmica. Mas, em se tratando de uma exposição da universidade, quisemos fazer essa entrega. Tem o primeiro nível da exposição e pode curti-la, não acessar mais nada. Mas, se assim desejar, pode acessar as outras camadas e ter mais condições de fazer essas relações que estão ali na montagem. É uma exposição que leva, literalmente, com você. 

Qual a importância de revisitar essa história hoje, cem anos depois?

Acho muito importante, especialmente nessa exposição, para que o público entenda que a Semana foi uma efeméride muito propagandeada, mas ela não é um marco de início de modernismo no país, nunca foi. O modernismo não é uma criação paulista. Tem contribuições de pessoas de várias regiões do Estado de São Paulo, do país, mas principalmente de entender que o modernismo não foi um movimento no singular, cujo mote é a ruptura com a arte do passado e a apresentação do novo. Essa coisa que se ensina nas escolas, que cai no vestibular, está errada. E sendo professor eu fico muito aflito, vendo essa história sendo pisada um milhão de vezes. A exposição não vai dar conta de superar esse pré-conceito que se formou na cabeça da gente sobre o modernismo, mas que pelo menos ajuda a refletir. O modernismo foi um conjunto de iniciativas coletivas de vários grupos e de tentativas na construção de alguma coisa moderna no nosso país, de uma cultura que tivesse correspondência com o progresso material, industrial, que estava começando. Mas, mais do que isso, que pudesse trazer essa dimensão utópica. O moderno envolve essa condição utópica de você ter um mundo melhor, mais justo. Um mundo tão igualitário que a própria noção de arte desapareceria, porque todos teriam uma convivência estética, que faria parte do nosso dia a dia. Essa dimensão utópica do moderno desaparece quando a gente estuda o modernismo e a gente acha que está nas obras, no Abaporu da Tarsila, no Homem Amarelo da Anita, na Mulata do Di, e o modernismo não foi isso. Moderno era um espírito que eles tentaram trazer para as obras. A minha esperança é que a exposição ajude a quebrar com este preconceito anterior, visão maniqueísta, novo contra o velho, muito ufanista, provinciana, com São Paulo no centro de tudo, e mostre nessas histórias que estão na exposição essas tentativas, a experiência, o processo. Dá para ver ali a gênese de muitas obras importantes. Quando a gente vai à exposição e vê o Homem Amarelo, põe rótulo, chancela ‘ah, isso é arte moderna’, mata a reflexão. Impede das pessoas conhecerem a gênese, a história, para chegar àquele resultado. A gente tentou fazer uma coisa que tivesse esse caráter de pesquisa, de investigação acadêmica, mas ao mesmo tempo fosse palatável para o público, não fosse uma tese chata. Não sei se conseguimos, mas essa foi a intenção.

(Miriam Gimenes/Agenda Tarsila)

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