Divulgação/Germano Lüders

Exposição no Farol Santander traz reflexões sobre a formação das identidades culturais e sociais brasileiras

O prédio do Farol Santander, no Centro de São Paulo, é icônico. Faz parte dos cartões-postais da cidade e do imaginário de quem teve a chance de, pelo menos uma vez, passear pelos quarteirões históricos paulistanos. É lá, especificamente no hall de entrada e em três andares, que foi montada a exposição Identidades – 22&22&22, com curadoria de Ana Cristina Carvalho e Carlos Augusto Faggin, e concepção de projeto visual e arquitetônico de Fernando Brandão. 

Em conversa exclusiva com a Agenda Tarsila, Ana Cristina explica que a mostra apresenta um recorte sobre três séculos de produções artísticas no Brasil, com trabalhos de artistas fundamentais para a criação e desenvolvimento da identidade cultural do País. “O Brasil é grande geograficamente e multidiverso, do ponto de vista de raças, de origens, gêneros, enfim, é um país cheio de diversidade, não só cultural como artístico”, explica. São mais de 140 obras, entre elas Tiradentes, de Candido Portinari, e A Ventania, de Anita Malfatti, que fazem parte do Acervo Artístico-Cultural dos Palácios do Governo do Estado de São Paulo e da Coleção Santander Brasil. Confira, a seguir, a entrevista completa: 

A exposição que acaba de ser aberta no Farol Santander tem o nome Identidades e mostra bem como foi construída a brasileira, tanto do ponto de vista político quanto cultural. De um modo geral, o que traz a mostra? 

É por isso que o nome não é só identidade, mas identidades. Porque o Brasil é grande geograficamente e multidiverso, do ponto de vista de raças, de origens, gêneros, enfim, é um país cheio de diversidade, não só cultural como artístico. Começamos a exposição com o século 19, falando da independência política e como isso foi construído por meio de obras ícones da história da arte brasileira, que pertencem à coleção do Acervo Artístico dos Palácios do Governo do Estado de São Paulo e obras da coleção Santander. Buscamos, a partir de então, relacionar as identidades construídas desde a vinda da corte portuguesa para o Brasil até o século 21, em 2022, mostrando quais as identidades que hoje continuam, que nós preservamos e quais as imagens que o Brasil acumulou durante todo esse tempo com relação aos costumes, modos de vida, que foram se transformando ao longo dos séculos. Quando a gente chega no 22º andar, do século 21, usamos uma metáfora que é o passeio na avenida Paulista, justamente para mostrar essa diversidade cultural. A Paulista é um mundo, quem já andou por aquela rua do começo ao fim vai presenciar casos e casos para muitas teses com relação a outras culturas, outros mundos. Pessoas vindas de vários locais, que trazem rostos, feições, etnias diferentes. Enfim, quisemos mostrar isso por meio da reunião de obras que falam dessa diversidade de gênero, de raça, temas também muito atuais, que vêm desde o século 19 e que se reiteram e se transformam. Inclusive as paisagens até o século 21 interpretadas de outra forma, mas as temáticas da ecologia, do próprio ser humano, e tantas outras questões que colocamos e sempre se repetem. Essa identidade que são muitas, que falam de nós brasileiros. 

Em cada um dos andares, personalidades, principalmente políticas, são colocadas em destaque, como é o caso da Princesa Isabel, Juscelino Kubitschek. De que forma a política influenciou diretamente na cultura brasileira e na formação dessas identidades?

Primeiro você vê que os temas estão sempre interligados. A gente começa com o painel Tiradentes, do Candido Portinari, no térreo do Santander, que pertence ao Acervo dos Palácios, mas está desde 1989 no Memorial da América Latina. Agora saiu pela primeira vez de lá. Ele ficou mais próximo do visitante, porque no Memorial ele era muito mais alto, não tem um contato direto. Nessa exposição o visitante entra na cena, sente o impacto das cores do Portinari, e mostra que essa temática do herói da liberdade é construída ao longo de muitos anos, desde a nossa colonização. O tema da Inconfidência Mineira, o herói da liberdade, Tiradentes, foi também um motivo de uma pintura produzida no século 20, em 1949. A partir daí você vai tecendo essas pontes, relações, do ponto de vista também político, que é essa a sua questão. Por que? Porque as transformações políticas também mudam o cotidiano, os modos de vida das pessoas. O império traz, do ponto de vista social, modos de vida importados da Europa e, no final do século 19, começo da República, principalmente em São Paulo, com os cafeicultores, muitos deles, chamados barões do café, eram também políticos. Então a economia também se misturava com estes barões da política e isso modificava o gosto da sociedade. A burguesia queria imitar o império, os reis de Portugal, que também imitavam as influências francesas, alemãs, inglesas. Tudo isso veio para o Brasil via Portugal. No final do 19 e começo do século 20 mudamos a nossa política na Primeira República, o que traz uma mudança grande na sociedade. E chegam os modernistas, no início do século 20, trazendo ventos de novidades que chegam de longe, da Europa. Muitos dos nossos artistas estudaram lá e temos inúmeros exemplos de artistas imigrantes, que trouxeram inovações técnicas na pintura, escultura. Mas estes modernistas queriam, portanto, encontrar raízes de uma identidade nacional. No século 19, com os registros do (Jean-Baptiste) Debret que apresentamos na exposição, que mostra um Brasil totalmente tomado, a sociedade, pelo desastre da escravidão. Mostramos também como isso se modificou, por isso a princesa Isabel é uma das heroínas na construção de uma nova identidade nacional, com a abolição da escravatura. É uma das conquistas da liberdade brasileira, o país foi um dos últimos a abolir os negros. Na corte portuguesa (que estava no Brasil), os empregados eram todos assalariados, não tinham escravos. A princesa Isabel e a mãe dela (Teresa Cristina) vendiam jóias para a causa abolicionista. Ela, inclusive, recebia pessoas negras nos saraus que fazia. Era também uma presença muito debatida na sociedade. Essas personalidades que colocamos na exposição para mostrar que participaram da construção dessas identidades são sempre pessoas que viram adiante e tiveram uma participação realmente relevante nessa construção de símbolos, de significados, da imagem do Brasil. Portanto, quando chegamos no século 20 e apresentamos em especial a coleção de arte moderna do Acervo dos Palácios, que é realmente incrível, temos obras fundamentais como Anita Malfatti, que participou do grupo dos pioneiros, Tarsila, que não estava na Semana, mas começou a participar ativamente deste grupo de Mário, Oswald e Menotti del Picchia. Tarsila era uma mulher icônica na época, vaidosa, que gostava de luxo, criativa. O Manteau Rouge, que ela pintou no auto retrato, ela usou em um jantar em homenagem a Santos Dumont em Paris. Ela vinha e voltava em navios de luxo, trazia com ela tintas que não tinham aqui, os vestidos do Paul Poiret, trouxe inclusive a mobília da casa dela e do Oswald com o design dele. Menotti dizia em um texto: ‘Tarsila chegou muito bonita e perigosamente feminina’. E ela era realmente uma mulher encantadora. Diferentemente da Anita, que era tímida, tinha problemas de saúde, era muito mais introvertida. Esse grupo queria transformar essas influências europeias, a arte de fora, em algo autêntico, que fosse nosso. Aí também carregamos esse desejo de liberdade e há esse marco, reunião de artistas, querendo construir uma nova era com maior liberdade do artista da academia. Se libertar, incorporar no Brasil  novas técnicas com temas praticamente nacionais. E Tarsila volta da Europa com toda essa bagagem sofisticada, mas procura em ambientes simples, rurais, essa cara do Brasil que a gente chama de cores caipiras, essas formas geometrizadas cubistas, que ela aprende lá, mas com a temática nossa, inclusive personagens da vida dela, onde ela passou a infância. As histórias dos empregados, a vida que tinha nas fazendas. Anita também é uma artista muito importante, e a gente inicia o andar que conta essa história do modernismo com uma obra que é fundamental no movimento, que é A Ventania. Ela pintou esse quadro quando foi fazer um curso nos Estados Unidos, havia um professor com uma escola bem libertária, porque ele os levava para pintarem o que quisessem, livres, e ela trouxe essa obra e outras telas em 1915. Em 1917 fez a famosa exposição que o Monteiro Lobato quase acabou com ela. Essa obra, como de impacto, nova e produto dessa crítica na época, também foi escolhida para Semana de Arte Moderna. Pertence ao Acervo dos Palácios e mais tantas outras que você viu na mostra e representam essa busca do artista por uma arte engajada por técnicas novas, vanguardas europeias, mas uma temática muito própria ao que acontecia aqui no Brasil. Tudo isso a gente mostra na exposição, procurando estabelecer pontes entre as obras, significados econômicos, sociais, políticos entre elas e o próprio acervo, com toda essa coleção, foi comprado durante o milagre econômico brasileiro (1968 a 1973), hoje nem poderíamos comprar mais. O acervo tem 13 obras da Tarsila do Amaral, compradas um pouco antes da morte dela (1973), e negociadas diretamente pelo Doutor Luís Arrobas Martins, que foi também secretário de Cultura e Governo, e comprou muitas dessas obras para compor o patrimônio do governo, mas também para formar um patrimônio para o Palácio Boa Vista em Campos do Jordão, que nesta época estava sendo reinaugurado. 

E algumas dessas obras também podem ser vistas no Palácio dos Bandeirantes, como Operários, por exemplo?

Algumas obras dessa coleção estão no Palácio dos Bandeirantes e outras no Boa Vista. Temos um percurso de visita para estas obras sobre o modernismo brasileiro nos dois locais. No dos Bandeirantes temos não só Operários, segundo a própria Tarsila, a obra mais importante dela. Inclusive está sendo negociada em leilão no mercado de arte a obra que foi produzida nesta mesma época, nos anos 1930, que é Segunda Classe, que está extremamente bem cotada… Imagina se hoje o Governo do Estado poderia comprar tantas obras da Tarsila do Amaral e de outros modernistas. Temos uma obra do Vicente do Rego Monteiro, importante artista. É determinante dizer que o modernismo não começou em São Paulo, a Semana foi um marco, já havia grupos em outros lugares do Brasil. No Pará, Amazonas, Pernambuco, Recife tinha também modernistas, sociólogos como Gilberto Freyre. Cícero Dias também, outro artista importante. Mas voltando ao Vicente do Rego Monteiro, temos um quadro chamado Maternidade Indígena. Uma obra totalmente cubista, ela é geométrica, em vários planos, mas fala do tema das nossas origens indígenas. É maravilhosa. Estamos fazendo alguns percursos que falam dessas obras dos dois espaços e também uma apresentação minha, que vai ao ar, complementando essa grande exposição no Santander, que será no Palácio dos Bandeirantes, e vai falar do poder da arte, de obras como Operários. Ela é excepcionalmente poderosa no sentido de que qualquer pessoa quer tirar uma foto ao lado dela e isso está muito ligado à questão de potencializar esse poder no espaço em que vivem. Você pensa na Mona Lisa, lembra do Louvre, pensa no Operários, lembra do Palácio dos Bandeirantes. A gente sempre recebe pessoas de outros palácios do Brasil que colocam essa questão de que os nossos panos de fundo são essas obras fantásticas que as pessoas vêm do outro lado do mundo e do Brasil inteiro para ver. Essa programação (sobre o poder da arte) vai ser de abril a junho de 2022.

Você falou da Avenida Paulista. Seria ela, com toda diversidade cultural, principalmente aos domingos, a materialização do sonho modernista?

Não diria que o sonho modernista ainda vive. Na minha opinião, o modernismo acabou. Hoje vivemos um novo tempo. O modernismo tinha um projeto. Hoje a arte não tem um projeto, é justamente feita dessa diversidade de linguagens, de expressões. Temos a arte muito performática, tecnológica também, os vídeos, mesmo as exposições virtuais e as expressões são muito tecnológicas. Os grupos de periferia, a arte da cidade. Temos outras expressões e linguagens muito diversas do que os modernistas propunham. Não acho que seja a realização do sonho modernista, está construindo outros sonhos. 

E como estudiosa da cultura brasileira, o que acha que podemos esperar da arte para os próximos 100 anos? 

Pergunta difícil, porque a gente não sabe nem o que vai acontecer amanhã. Acho que na história da arte, que é cíclica e não linear, a gente tem muitas voltas. Por exemplo, já se falou na história da arte que a pintura acabou. Hoje temos, ao invés de perguntar ‘o que é a arte’, perguntar ‘para o que é a arte? Ela tem função social?’. Isso acontece com os museus. Há dois anos o Conselho Internacional dos Museus vem estudando uma definição para compor o museu de hoje. A identidade como centro cultural  qual é? Tem função social sim, mas tem uma função participativa na política, na democracia, em países que não são democratas. Os museus da América Latina sofreram muito com as ditaduras, nós aqui também tivemos duas ditaduras, para ter uma democracia que, segundo alguns, está em queda. Essas questões políticas têm uma ligação e comprometimento com a história da arte e a própria arte. Quando na década de 1980 também se disse, ‘o que é um objeto artístico?’ Pode ser arte se eu colocá-lo no museu? A definição de museu hoje não se chegou a nenhuma conclusão, porque o mundo é globalizado. Segundo alguns especialistas a globalização está diminuindo com a guerra na Ucrânia, justamente por conta do preservacionismo dos vários locais e do mundo não estar tão comprometido com as questões econômicas de todos. Cada um está se defendendo e ajudando as pessoas que mais precisam. Isso está se modificando nesse mundo globalizado. Mas a globalização é um impacto muito grande na arte. O que vai acontecer daqui 100 anos? Estamos sujeitos a estas questões econômicas, políticas, sociais, fundamentalmente, porque é disso que o artistas vivem nestes contextos, ele é o produto disso. O que faz é o olhar dele, a interpretação do modo de viver no tempo em que ele está. Não é mais isolado, um cubo branco. Vivemos em um mundo aberto. O que se faz aqui em cinco minutos o mundo sabe. É difícil fazer previsão, mas acho que haverá voltas, como toda história da arte. As duas grandes guerras tiveram um impacto enorme na história da arte mundial e aqui no Brasil também. Com certeza estaremos mais abertos, mais libertos do ponto de vista artístico, um respeito maior, tivemos direitos humanos conquistados durante esse tempo, do gênero, das classes sociais, das etnias, enfim, vários ganhos que impactam diretamente na construção de políticas culturais. Porque você destaca e privilegia aqueles que realmente fazem uma arte autêntica e vão construindo nossas identidades. Escolhendo nossos heróis. 

(Miriam Gimenes/Agenda Tarsila)

Publicada em 23 de março de 2022

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