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Exposição no Museu Monteiro Lobato retrata em pinturas e peça teatral a relação entre Anita Malfatti e o autor do Sítio do Picapau Amarelo

Um dos embates mais comentados da história da arte brasileira é o que foi ‘travado’ entre Anita Malfatti e Monteiro Lobato, no início do século passado. Após a exposição individual da artista em um prédio na rua Líbero Badaró, no centro de São Paulo, o autor do Sítio do Picapau Amarelo fez um texto publicado no jornal O Estado de S.Paulo que criticava os ‘ismos’ contidos nas telas, entre outras coisas. Rapidamente, artistas saíram em defesa de Anita e nasceu ali a semente para a Semana de Arte Moderna. 

Exposição recém-aberta no Museu Histórico e Pedagógico Monteiro Lobato, em Taubaté,  Os Dois em 22, com curadoria de Lani Goeldi, trata desse famigerado texto e promove o ‘encontro’ dos protagonistas. Com releituras de cinco artistas da cidade – cada qual com quatro telas pintadas -, a mostra reflete o contexto em que eles estavam inseridos e, com uma encenação teatral, colocam o público a pensar como esses dois ‘atores’ influenciaram na arte a partir de então.

“Não notei, de nenhuma maneira, que Lobato foi rude com ela. Foi sincero, franco. E às vezes isso foi mal-interpretado, talvez por ela, que esperava algo melhor. Penso que se a família dela não gostou do resultado, e o diretor do jornal também, que estava na expectativa, colocou Lobato para falar da exposição propositalmente, tudo isso culminou para que o movimento fosse crescendo. Por isso é considerado o estopim da Semana de Arte Moderna, e ele ficou taxado como anti-modernista, porque era como se tivesse ido contra ao movimento e não era isso’, analisa Lani Goeldi, que conversou com a Agenda Tarsila. Confira a seguir: 

Você faz curadoria de uma exposição que conta a história da relação de dois importantes personagens da cultura brasileira. Do que se trata?

Esse foi um projeto elaborado a quatro mãos na verdade.  Existe um outro profissional, o Fernando José Arouca, que é um arquiteto de São Paulo e a gente propôs junto essa exposição para o governo do Estado para falar dessas duas personalidades, Anita Malfatti e Monteiro Lobato. Taubaté é a capital da literatura infantil, temos o sítio de Lobato, que é o museu mais visitado aqui, onde resolvemos fazer essa exposição. Na verdade falo que não é só uma exposição, ela tem uma questão multidisciplinar, porque envolve também uma peça teatral. O sítio já tem essa característica de todo dia ter o teatrinho das crianças, com a Emília, o Visconde… E nas férias aumenta muito a visitação. Tem todo esse trabalho que a gente não podia deixar de inserir. A mostra se chama Os Dois em 22, com o propósito de fazer alusão a 1922, a Semana de Arte Moderna, mas também em 2022. O Jefferson Machado, roteirista de teatro, convidou dois atores aqui na cidade para tratar como se fosse Lobato e Anita e eles vão fazer uma contenda contemporânea. Porque o fato de Lobato ter feito uma crítica em 1917 falando sobre uma exposição da Anita deu várias vertentes de interpretação. ‘Falou mal da Anita e tudo mais’. E na hora que a gente vai analisar o texto ficamos com aquilo na cabeça, mas vemos que não foi nada disso. Dentro da crítica dele fala, inclusive, que é uma excelente artista, mas que ele não gostou dos trabalhos expostos. Ele achou que falando isso,  como eram amigos, poderia estar ajudando. E acabou sendo o estopim da Semana, toda aquela história que já conhecemos. Trazendo esse assunto para o contemporâneo, que as crianças não sabem, os jovens, numa linguagem atual,  a gente optou em não fazer uma mostra de reproduções de Anita. Quisemos fazer releituras das obras modernistas e de artistas contemporâneos, porque Lobato gostava, e reunimos cinco artistas da cidade para montarem essa exposição. Está sendo incrível, porque os trabalhos são maravilhosos, todos criativos. Eles estão amando fazer. A gente deu as telas, são quatro trabalhos cada, para criarem do jeito que quiserem. Eles pegaram obras dos acadêmicos e modernistas. 

Você falou dessa apresentação teatral. Ela ocorre diariamente, como vai funcionar?

Nós fizemos uma pré-estreia antes da abertura e gravamos. Vamos deixar o vídeo passando em looping. Mas a apresentação ao vivo vai ser toda terça-feira, às 14h. Que é o período que na verdade as escolas e pais vão levá-los para assistir. O teatro tem capacidade para 100 pessoas. E depois vamos deixar durante toda a exposição o vídeo passando. 

Ao longo dos 100 anos as pessoas pintam Lobato como algoz na vida de Anita. Há pouco entrevistei a bisneta dele, Cleo Monteiro Lobato, que disse ter havido, depois do ocorrido, uma parceria profissional depois. Isso é contado por vocês?

O Paulo Leonel Vergolino, doutor em artes visuais, fez um texto que fala exatamente da época de 1920, o que estava acontecendo nesse contexto no país, e colocamos alguns trechos da crítica de Lobato – que é bem longa -, coisas importantes. Também estamos falando de Anita, a experiência que ela teve fora do país, e essa concepção nova que ela trouxe. Falo isso porque às vezes as coisas vêm muito herméticas para gente, principalmente porque a concepção artística vai mudando ao longo dos anos. Mas daí o que você aprendeu, leu lá atrás, depois de uns anos vai ver de novo e entende que não é bem assim. É mais ou menos isso que aconteceu (com a crítica de Lobato). Vamos falar isso. Não notei, de nenhuma maneira, que Lobato foi rude com ela. Foi sincero, franco. E às vezes isso foi mal-interpretado, talvez por ela, que esperava algo melhor. Penso que se a família dela não gostou do resultado, o diretor do jornal também, que estava na expectativa, colocou Lobato para falar da exposição propositalmente, tudo isso culminou para que o movimento fosse crescendo. Por isso é considerado o estopim da Semana de Arte Moderna, e ele ficou taxado como anti-modernista, porque era como se tivesse ido contra ao movimento e não era isso.

As pessoas que vão visitar a exposição poderão fazer o próprio julgamento do embate. Essa é a intenção?

Exatamente. A gente quer que as pessoas opinem a respeito, conversem sobre, isso acho que vai ser bem bacana. Vamos ter algo bem interativo. Inclusive a exposição é totalmente acessível, vai ter linguagem de Libras e audiodescrição para todos os textos apresentados e vídeos. Para que possa ser visto por qualquer tipo de público.

E julho é mês de férias escolares. É uma exposição para toda família?

Inclusive o sítio tem uma programação própria de férias. Então tem várias oficinas, brincadeiras e isso vai compor uma coisa a mais dentro da programação. Vai ser bem interessante e estou animada por conta dessa construção multidisciplinar que fizemos. Quando eu e Fernando propusemos a ideia era para que fizéssemos uma réplica da exposição de Anita, de 1917, mas a coisa foi crescendo na conversa. Estamos induzindo com que os artistas produzam as obras para mostrar como construímos agora, por isso fazemos uma alusão a 2022, quando os artistas tiveram de ficar confinados em casa e colocaram a cabeça para funcionar. Agora a gente percebe que eles estão explodindo de criatividade, notamos por esses trabalhos que estão sendo apresentados, as 20 obras. Se aprofundaram mesmo, desde o texto, até a peça teatral, e os deixamos livres para escolherem. Então vai ter reprodução de Tarsila, de Oswaldo Goeldi. Também fiquei super feliz que a logo da exposição tem o rosto de Anita, de Lobato e o guarda-chuva de Goeldi. Achei muito legal porque ele também era uma pessoa avessa a essas convenções sociais, participava pouco de exposição, era um eremita da arte. E esse guarda-chuva veio justamente para proteger aquilo que eles disseram e fizeram na época. 

Sei que não pode dar spoiler da peça, mas quero saber se Anita ‘cancelou’ Lobato, usando uma linguagem contemporânea?

(risos) Acho que na época ela deve ter cancelado sim, mas depois ele a convidou para fazer trabalhos. Ela é artista, era mais fiel ao trabalho dela do que a opinião de qualquer crítico. Isso faz parte da essência do artista: ‘meu trabalho é mais importante para mim, independente do que os outros possam pensar’. É por isso que hoje temos aí inúmeras técnicas. Ando muito pelo Brasil e observo o pessoal produzindo, vejo isso. São misturas, trocas maravilhosas, que chegam em um coeficiente que é o de cada um. De verdade, ninguém está muito preocupado com o que a crítica vai dizer, mas em produzir. 

(Miriam Gimenes/Agenda Tarsila)

Publicada em 6 de julho de 2022

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