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Exposição no Rio de Janeiro exibe objetos pessoais de Burle Marx e projetos inéditos ao grande público

O homem que revolucionou os jardins brasileiros e internacionais. Roberto Burle Marx (1909-1984) apurou o olhar, depois de uma estada na Alemanha, e passou a considerar as plantas tropicais dignas de virarem protagonistas do paisagismo. O que antes era mato virou adorno. E unindo o aprendizado com outros talentos – desenho, pintura, escultura, etc – tornou-se um dos grandes nomes da cultura brasileira.

E é sobre essa trajetória ímpar que a Casa Roberto Marinho, no Cosme Velho, Rio de Janeiro, abriu recentemente a exposição O Tempo Completa –  Burle Marx: Clássicos e Inéditos, que deve ficar em cartaz até dia 6 de fevereiro de 2022. Com curadoria de Lauro Cavalcanti e Isabela Ono, a mostra conta com quase 150 itens, entre eles desenhos, fotografias, plantas de projetos, croquis, maquetes, documentos e pinturas, inéditos e clássicos, que dão uma visão ampla da maneira como o artista desenvolveu seu talento ao longo da vida. 

E, principalmente, mostra que a luta pela preservação do meio ambiente, tão atual, já era uma bandeira que Marx levantava em meados do século passado. “No primeiro andar temos formação da mentalidade dele e de seu papel como precursor da defesa do meio ambiente. Porque ele foi ainda nos anos 1970 um dos primeiros a clamar pela necessidade de preservar a natureza brasileira. Ela (mostra) se inicia com uma grande foto de uma queimada e a declaração que ele na época fez, quando reclamou e protestou contra a queimada e responderam que tinha sido ‘controlada’. E a resposta é a frase que está, que ele não acredita em queimada controlada. E disse ‘essa, certamente, matou uma série de animais, índios, araras…’ Enfim, é uma mostra vigorosa como ele era”, explica Cavalcanti, que deu entrevista exclusiva à Agenda Tarsila. Confira a seguir: 

Vocês estão com uma exposição de Burle Marx no Rio que acaba de ser aberta. Queria que me explicasse o que foi priorizado e que recorte que fazem da obra dele?

A exposição é aqui na Casa Roberto Marinho, que teve um jardim projetado por ele. E ela se desenrola no exterior, no jardim, e dentro da casa. No jardim é colocada a cronologia de vida dele e também nós realizamos três mastros com bandeiras, que nunca tinham sido feitos. Esse foi um projeto que ele fez para a praça Rosa de Luxemburgo na Alemanha, também projetou para Espanha, Itália, mas nunca tinha sido realizada e, pela primeira, vez nós fizemos. Uma coisa que é importante falar é que o que está sendo mostrado é o acervo que era do escritório dele, Burle Marx e equipe. São desenhos, projetos, muitos deles são inéditos. O acervo dele foi organizado junto com os colaboradores, dentre os quais o Haruyoshi Ono, que ficou responsável pelo escritório. E com o falecimento (2017) dele, a filha, Isabela Ono, fundou o Instituto Burle Marx, justamente com o objetivo de tornar pública para que qualquer pesquisador pudesse ter acesso. É uma exposição que ocupa dois andares, 1.200 metros quadrados, fora o jardim, e a ideia é a seguinte: no primeiro andar temos a formação da mentalidade dele e de seu papel como precursor da defesa do meio ambiente. Porque ele foi ainda nos anos 1970 um dos primeiros a clamar pela necessidade de preservar a natureza brasileira. 

Um assunto absolutamente atual…

Total. Ela (mostra) se inicia com uma grande foto de uma queimada e a declaração que ele na época fez, quando reclamou e protestou contra a queimada e responderam que tinha sido ‘controlada’. E a resposta é a frase que está, que ele não acredita em queimada controlada. E disse ‘essa, certamente, matou uma série de animais, índios, araras…’ Enfim, é uma mostra vigorosa como ele era. E é isso que você falou: a ideia foi trazer para o presente, para o espectador, essas questões. Uma vez ultrapassada essa sala, a pessoa mergulha no levantamento e desenhos que ele fez dos biomas brasileiros. Tanto da Mata Atlântica, da Mata Amazônica, do Cerrado, da Caatinga, do sertão. E tem então desenhos que ele fez, alguns muito detalhistas, lindos, de nanquim, e outros são obras de arte que faz a partir dessa inspiração. É legal que a pessoa vê como a questão da natureza, do meio ambiente, o motiva não só para desenhar, mas também transcender em arte. A outra sala, do térreo, é dedicada às epifanias dele, descobertas. Porque Burle Marx era paulistano e ele veio para o Rio aos 6 anos de idade, e aqui ele morava na praia do Leme. E lá, naquela grande pedra, ele descobre a vegetação tropical, de plantas bromeliáceas, que nascem na própria pedra. E ele fala: ‘foi no Rio de Janeiro que eu descobri o mar, descobri as plantas, o cheiro da água. Essa foi a descoberta número 1. A número 2, que é muito referida, é quando ele foi, aos 19 anos, tratar dos olhos em Berlim e lá ele foi com o pai e permaneceu um ano. Além dele tratar os olhos, também fez aula de pintura e uma dessas aulas foi no Jardim Botânico de Berlim. E ele percebeu que o que mais lhe agradava, chamava atenção, eram as plantas tropicais que tinham sido levadas por um viajante do século 19. Em Berlim ele toma contato com a arte de vanguarda da época, do século passado, porque antigamente você não tinha – estamos falando de 1929 – não tinha possibilidade de ver exposições no Brasil, não tinha também tantos livros de arte. Então, para ele, Berlim foi uma descoberta da arte do tempo dele e também das plantas tropicais. Ele resolve juntar essas duas coisas. Pegar a estética de vanguarda, da pintura, e transplantá-la para os jardins. Lá ele faz alguns desenhos, ainda sem destinação, quase conceituais, mas começa a fazer. 

E aí ele vira o precursor do paisagismo modernista?

É o caminho, um processo. Ele volta para o Brasil, para o Rio de Janeiro, e é convidado a dirigir o serviço de parques e jardins em Recife, Pernambuco. Lá ele faz diversos jardins, quatro ou cinco. São ainda convencionais, em termos de desenho, mas já utilizando plantas tropicais. Ali ele começa um certo esboço do que virá a fazer depois. O trabalho dele com os maiores destaques, talvez o maior, do paisagismo do século 20, começa efetivamente no Rio de Janeiro quando participa de uma equipe brasileira, que executou o projeto do Le Corbusier, que é o Ministério da Educação e Saúde, atual Palácio Capanema. E ali ele começa a aplicar a ideia de manchas de cor e de vegetações contínuas com formas curvas e aí se desenvolve no caminho que vai levar para vários projetos. No primeiro andar (da exposição) justamente são os projetos dele e da equipe. Então temos o original deste projeto do Ministério, a praça em frente ao aeroporto Santos Dumont, que foi a primeira obra pública. Primeiro são projetos do Rio, depois são de outros estados do Brasil, públicos, tem projetos de residências. Ela também é entranhada por pinturas dele, porque além de fazer essas intervenções artísticas nos jardins ele nunca deixou de pintar e dizia que, por um lado, a pintura era exercida nos jardins usando plantas ao invés de pigmentos, mas por outro lado também ele percebia que o paisagismo não pode ser igual à pintura porque você está lidando com seres vivos e tem de colocar plantas compatíveis entre si. Mas a exposição é entremeada de pinturas dele e a pessoa vê a correlação, que é o mesmo autor. Depois tem uma seção que são os projetos internacionais, porque ele chegou a ter um escritório na Venezuela, nos anos 1950, tem um projeto em Miami, para Alemanha, Itália e Espanha. E depois é uma sala muito bonita que é sobre a arte dele aplicada à arquitetura, painéis, murais. Há cerca de 150 projetos expostos, talvez até um pouco mais, e há um panorama completo da trajetória dele. Pela primeira vez possibilitada por esse acervo que era do escritório dele. E a última sala é dedicada a explicar o que é esse instituto que surge e também tem uma coisa emocionante, que são os objetos com os quais ele desenhava, o que é bem curioso, porque atualmente jovens usam praticamente só o computador. Tem coisas que são novidades para a maioria das pessoas. É uma mostra muito envolvente, muito alegre, colorida. Tem também essa questão de trazer para hoje e discutir a questão do desmatamento no Brasil, que é um problema sério e antigo. Estamos muito contentes, porque a visitação tem sido ótima no final de semana, sobretudo. Recebe grupos, muitas vezes, até da periferia do Rio, líderes comunitários que se preocupam com a questão da preservação e o público em geral. Não é para especialista, é uma exposição amistosa.

Existe a intenção de itinerar com ela?

Não, vai ser feita só aqui no Rio. 

As obras do Burle Marx de alguma maneira beberam da fonte dos modernistas de 1922?

Acho que sim. O diálogo dele era de um homem culto e certamente via pintura, conhecia a obra da Tarsila, com certeza leu Mário e Oswald. Não tem uma influência direta, mas o modernismo é um rio, tem um fluxo e a Semana de 1922 foi uma  parada e alavanca importante. Todo modernismo brasileiro de certo modo tem um vínculo. O modernismo não nasceu na Semana de Arte Moderna, já vinha uma série de pequenas rupturas com a ordem acadêmica e tradicional ocorrendo. Agora, a importância da Semana, inclusive como marco simbólico, é cada vez mais forte. 

Para você qual foi a principal contribuição da obra de Burle Marx para a cultura brasileira?

A primeira que eu acho que não é pequena foi a incorporação da vegetação tropical como um elemento importante e fundamental nos jardins. Porque antes dele a percepção das pessoas de São Paulo, do Rio, do Recife mesmo, era de que as plantas nativas eram mato. E eram relegadas ao fundo das residências, quintais. E os jardins da frente eram tentativas de aplicação de jardins europeus, muitas vezes fracassados porque as plantas não se davam no clima tropical. Então, essa importância é inegável. Outra coisa interessante que estou lembrando, e que é objeto de uma sala no térreo, que eu não tinha mencionado, são as expedições que ele fazia no Brasil para descobrir novas plantas. E há uma série de expedições que estamos mostrando o caminho, no qual descobriu várias plantas, depois recorria a botânicos, para catalogar, uma série delas ganharam o nome dele. Era um humanista, um artista total, pintava, aplicava arte em azulejos. Tem um fundo de piscina que ele desenhou. A exposição é uma oportunidade ímpar do público entrar em contato com trabalhos por vezes inéditos. Não é um dado preciso, mas ao menos 70% da exposição nunca tinha sido vista. Estamos fazendo um catálogo e, de certo modo, a ideia é difundir a exposição para outros lugares do Brasil. A previsão de lançamento é 18 de janeiro. 

(Miriam Gimenes/Agenda Tarsila)

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