Fábricas de Cultura têm programação intensa, e com foco nos jovens, em comemoração ao centenário da Semana de 22

Trazer para pauta o que foi a Semana de Arte Moderna de 22 e examiná-la com filtro contemporâneo são as propostas das atividades realizadas nas Fábricas de Cultura do Estado de São Paulo. Com programações que vão de contações de histórias – para os pequenos -, passam por ateliês com a temática e chegam  a intervenções de grafitti, o foco das ações das unidades é democratizar os ecos do modernismo e aproximar o evento histórico dos mais jovens. 

Segundo a gerente de articulação e difusão de parte das Fábricas de Cultura (unidades Brasilândia, Capão Redondo, Diadema, Jaçanã, Jardim São Luís e Vila Nova Cachoeirinha), Paola de Marco, trata-se de uma oportunidade importante de reaquecer o debate justamente com os mais jovens. “Além de nós explorarmos todos estes movimentos artísticos contemporâneos, o grafitti, pelo teatro, pelo circo, pela música, nós temos também uma oportunidade de reforçar com um debate que está super em voga no momento sobre: o que é o nacional? O que nós somos em termos de cultura, de sociedade?  Como a gente pode se enxergar como igual através destas manifestações culturais?”, diz. Para ela, suscitar este tipo de questionamento é importante para inflar a importância da cultura brasileira pelos próximos anos. Confira, a seguir, entrevista completa:

As Fábricas de Cultura que você coordena estão com uma programação extensa em relação ao centenário da Semana de Arte Moderna. O que já começou e o que está por vir para o público?

Tem muita coisa legal acontecendo. Desde o começo deste ano, meados de março, abril, já começamos a soltar algumas programações da nossa área de biblioteca, que têm uma programação intensa, principalmente as ligadas à literatura. Então desde o começo do ano o pessoal começou a lançar podcasts, contações de histórias, releituras, de muitos contos e fatos do período de vanguarda modernista. Quem quiser ir conferindo é só entrar no poiesis.org/maiscultura e tem muita coisa boa. Já vai entrando no nosso esquenta, nome da nossa programação (risos). Nós atuamos com três grandes frentes: uma é a área de biblioteca, tem a área de formação, que é o pessoal do pedagógico, e tem a área de articulação e difusão, que é a dos grandes eventos, que durante a pandemia a gente deu uma segurada nas nossas peças de teatros e shows. Mas tudo isso foi para o online e para esta semana de comemoração do modernismo estes três setores prepararam atividades totalmente especiais e liberadas para todas as faixas etárias. Neste momento temos um ciclo de debates com Érica Peçanha. Ela vai falar bastante sobre os contrapontos das vanguardas modernistas e como estão estas vanguardas contemporâneas, como está o hoje na cultura periférica e ela traz uma visão muito interessante que tem tudo a ver com o momento que a gente está vivendo. Quem já prefere uma coisa pautada na releitura, em setembro vamos ter uma muito linda que vai ser feita em homenagem a Chiquinha Gonzaga. É um pouco contraditório quando a gente fala da Chiquinha, porque ela estava na batalha das vanguardas desde 1900, mas querendo ou não ela traz um discurso muito importante para a linha do feminismo e isso se empodera na Semana de 22. Então vai ser uma releitura muito linda, com uma cantora maravilhosa, lá da Zona Norte, e tudo isso vai ficar online, sempre no nosso site do Mais Cultura. Já no mês de novembro, vamos investir no pedagógico, tanto apresentações dos nossos aprendizes, que vai ser a coisa mais fofa desse muito. Também tudo nesta linha de desconstruir e reconstruir o que é o modernismo, a programação traz uma aproximação muito linda neste sentido e também vão ter formações ligadas às artes visuais, tudo super acessível. 

Vamos falar da localização das Fábricas. Geralmente as unidades ficam em bairros periféricos das cidades, até para aproximar a programação de todas as pessoas, para ser mais plural. Você acha que isso democratiza um pouco o assunto modernismo, até porque a crítica que teve é de que foi um evento elitista?

Eu sou artista plástica, inclusive, e confesso que os grandes movimentos artísticos e culturais sempre ganham força nas periferias. Eles vão para frente, se popularizam e trazem discussões políticas importantíssimas. As Fábricas têm sim um papel que é urgente no cenário cultural brasileiro, estão em localizações que são extremamente densas em termos de população, e eles facilitam o acesso não só no sentido demográfico, na coisa da geografia, mas também é um impacto muito importante de sensibilização para um jovem quando ele vê através de movimentos artísticos – culturais que ele pode se reconhecer, construir sua identidade. Então por mais que quando a gente fala do modernismo lá atrás, que era sim um movimento elitista, porque a gente sabe que as classes vulneráveis elas ainda eram um tanto oprimidas para conseguir trazer com facilidade o que estava sendo desenvolvido nas periferias, mas está lá, a expressão está lá. Nos dias de hoje o que a gente vê? Estes mesmos movimentos estão acontecendo com um pessoal que está buscando a mesma brasilidade que a gente estava começando a buscar lá em 22. Só que hoje a diferença, pela minha leitura pessoal, vejo a internet como uma potência primordial para que todas as classes sociais possam ver o que é essa identidade, o que é essa potência periférica. Vamos debater este discurso: o que era elite? Qual é essa nova arte que vem se transformando? E a gente vê grandes nomes que estão saindo das periferias e levando a nossa arte para fora do Brasil. Então as Fábricas têm democratizado acesso, elas têm fortalecido a cultura, elas dão oportunidade não só para o jovem que quer conhecer, mas que quer ser um artista atuante no futuro. 

Tem um dos eventos, em Diadema, que fará uma releitura das artes do modernismo em grafite. Fale um pouco sobre isso.

É o Grafite Moderno com Robinho Santana. Um artista bem interessante do Grande ABC, ele tem um trabalho muito bacana, e eu gosto muito desta visão da releitura. Porque ele traz justamente uma desconstrução estética, de várias imagens de artistas da escola modernista e ele vai fazer contrapontos com esta estética do grafitti hoje. Estou curiosa para ver o resultado deste trabalho. Tudo vai ser gravado também, então todo mundo vai poder ver todo este processo dele. O desenvolvimento, as paletas de cores, a questão dos movimentos orgânicos dos traços, é um trabalho que, com certeza, vai ser lindo e vai ficar marcado lá literalmente na nossa parede de Diadema. 

Você acha que trabalhar com esta programação tão diversa e jovial é uma forma de trazer os jovens para o assunto modernismo? Apresentando de uma forma que converse com a idade deles é uma forma de trazê-los para o assunto até para que comemorem junto o centenário em fevereiro do ano que vem?

Com certeza.  E os jovens são nosso motor. Essa comemoração toda que está sendo feita, promovida pelas secretarias de cultura pelas OSs (Organizações Sociais), é uma oportunidade que nós temos de reaquecer este debate justamente com os jovens. Além de nós explorarmos todos estes movimentos artísticos contemporâneos, o grafitti, pelo teatro, pelo circo, pela música, nós temos também uma oportunidade de reforçar com um debate que está super em voga no momento sobre o que é o nacional? O que nós somos em termos de cultura, de sociedade?  Como a gente pode se enxergar como igual através destas manifestações culturais? É é importante dizer que na maioria das atividades de  transformação, a gente vê os jovens encabeçando isso. E é muito bacana que já estamos vendo graças a estas programações que começaram com as Bibliotecas um movimento de aquecimento da turma procurando a gente para falar de sarau, leitura de poesia, a questão do próprio grafitti, a música, que é uma linguagem super popular, que traz muita ação forte. Então você discutir o modernismo sob este olhar de uma nova construção de vanguarda. Quem são esses vanguardistas de hoje, está sendo potencializado por esta programação das Fábricas, com certeza, e ano que vem acho que vai ser uma comemoração mais intensa ainda, porque tem muitos espaços de cultura falando sobre isso. 

E como você vê, um evento que foi feito há 100 anos, dando ecos até hoje? Ao que você atribui esses ecos?

Na minha leitura, até por ser artista, por ter trabalhado atuando como produtora, vejo isso um processo ainda de transformação. A gente ainda está buscando demarcar qual é o território cultural brasileiro. Qual é a nossa verdadeira expressão cultural. Acho que mais do que nunca este movimento que começou há 100 anos, que discutia a antropofagia, quando você pega um olhar do que está sendo feito no hemisfério norte, ‘transforma isso, vai deglutir isso, e vai promover o novo’. Vejo que a gente ainda está neste processo intenso, porque a produção cultural e artística não cessa. Então, como no Brasil a gente está sempre se renovando, são linguagens novas o tempo todo, lá fora também. E com esta troca da globalização é simplesmente impossível a gente trabalhar em um desenvolvimento linear da cultura. O que eu vejo de cem anos para cá é muita transformação, é muita busca identitária e, ao mesmo tempo, muita reafirmação do que a gente já tem como identidade brasileira. Eu acho que a gente ainda vai continuar vendo esta transformação, não acho que vai ter um momento que vai parar, a coisa vai longe. Espero que sim. 

Com este mundo pós-vacina, como está sendo esta retomada e como é a perspectiva para o próximo ano, até para atividades presenciais?

A nossa volta está sendo cautelosa. Em agosto tivemos um retorno muito cuidadoso com nossos poucos ateliês, que são nossos cursos de formação para crianças, adolescentes e adultos. E a intenção é a gente voltar com uma porcentagem bem pequena seguindo protocolos de higiene, máscara, todo distanciamento e segurança necessária para o nosso público e nossos funcionários. Nós acreditamos que a medida que as faixas mais jovens forem imunizadas vai ter um movimento natural de crescimento deste público. O que a gente tem sentido é que as pessoas estão bem cautelosas, de verificar como estão os procedimentos sanitários. Neste semestre a gente ainda vai viver um momento de conquistar a confiança do nosso público e ver como vão ser estas campanhas. Ainda é muito prematuro falar sobre 2022, mas acredito que com todas as campanhas de vacinação vai ser possível a gente voltar, abrir as nossas portas, selecionar programações que não estimulem uma grande aglomeração. Então a ideia é voltar devagar, com o máximo de segurança possível, para que todo mundo possa aproveitar.

(Miriam Gimenes/Agenda Tarsila)

Veja também
+Programação