Feira Literária em Ribeirão Pires celebra Oswald de Andrade e centenário da Semana de 1922

Era início da década de 1950 e Oswald de Andrade vivia um turbilhão em sua vida. Problemas financeiros e de saúde tiravam seu sossego. E era na pequena cidade de Ribeirão Pires, no Grande ABC, que o escritor encontrava seu éden. Seu destino era o Sítio da Boa Sorte, onde passava finais de semana, férias e encontrava a magia do silêncio para produzir seus últimos escritos. Esse espaço de propriedade particular, agora tombado pelo patrimônio histórico da cidade, será um dos roteiros da FLIRP (Feira Literária de Ribeirão Pires), que será realizada nos dias 24 e 25 de setembro e homenageará o escritor e o centenário da Semana de Arte Moderna. 

A Agenda Tarsila conversou com o Diretor de Patrimônio da cidade, Marcílio Duarte, responsável pelo tombamento do sítio, e com o curador da feira, Reynaldo Bessa. Ambos gestam esse evento há quatro anos, desde quando o Boa Sorte foi tombado, e concretizam, com o apoio da administração local, aquela que tende a ser a primeira de muitas ações literárias na cidade. “É uma homenagem dupla, porque lembra um artista de proa do modernismo, este movimento tão polêmico, resistente e necessário para cultura brasileira, e também um morador que acabou vivenciando aquela região”, afirma Lessa. “E ela vai ser na rua, uma ideia bem modernista”, completa Duarte. Confira, a seguir, a entrevista completa:

O Sítio da Boa Sorte tem uma história importante com Oswald de Andrade. Queria que vocês me contassem um pouco sobre essa passagem do modernista pela cidade e também sobre o tombamento do espaço.

Marcílio – O que se sabia sobre este sítio é que havia vivido ali um jornalista, de uma forma bem genérica. Quem descobre a existência deste sítio em Ribeirão associado ao Oswald de Andrade é um professor chamado Ivan Russeff, ali no final da década de 1990, por conta de uma pesquisa de mestrado ou doutorado que estava fazendo sobre modernismo. Naquele momento ele tentou uma negociação direta com o proprietário para que a prefeitura pudesse fazer a aquisição do imóvel, porém não prosperou. Rudá (Andrade, filho de Oswald e Pagu) chegou a ir ao espaço, fez o reconhecimento da mobília pertencente ao pai. Até então ninguém sabia que Oswald tinha morado em Ribeirão Pires. Ricardo Conde, atual proprietário, assumiu como herança este imóvel, que pertenceu ao pai dele, Juan Castro, e foi ele quem comprou da Maria Antonieta D ́ Alkmin, já na época viúva de Oswald. Deste período, de 1998 até 2018, o sítio ficou sob os cuidados dele, porém sem nenhuma intenção do município de fazer sua proteção. Em 2018, o Centro de Apoio Técnico ao Patrimônio, um órgão da prefeitura, decidiu procurar o proprietário e fomos surpreendidos positivamente com o interesse dele na preservação, o que é muito raro em termos de preservação do patrimônio no Brasil. Geralmente quando o poder público propõe o tombamento ao proprietário caminha-se para o litígio. É comum entenderem que vai prejudicar sua propriedade o tombamento, ele não vai conseguir negociar, vender, arrendar. Mas Ricardo nos surpreendeu dizendo que apoiava, porém tinha algumas questões que gostaria que fossem respeitadas no processo e todas as sugestões foram acatadas. Daí para frente abrimos o estudo técnico de patrimônio, que levava em consideração o que era a casa: um chalé inglês, com características muito próprias, de arquitetura rara no Brasil. Fomos buscando elementos históricos da arquitetura e depois fomos para questão imaterial, que residia justamente no Oswald ter morado lá. O que agregava valor a casa era isso. Buscamos referências nas biografias lançadas no mercado, que sempre de forma sumária indicava que ele tinha estado ali. Até que entramos em contato com a Marília de Andrade, a última filha viva dele, e ela foi de uma generosidade muito grande porque nos abriu uma série de informações que não tínhamos conhecimento, o que enriqueceu bastante o processo de tombamento na justificativa da relevância deste bem se tornar protegido pelo município. Foi fundamental o processo. E em 2018 estávamos a quatro anos do centenário da Semana. Em 2019 entramos na fase final do tombamento, em 2020 veio a pandemia e em 2021 preparamos a Feira Literária. Agora está tudo convergindo. A casa não vai aludir à imagem de Oswald, por direitos autorais, mas o fato dele ter vivido lá sim, é uma informação pública, e a casa vai estar integrada à Feira Literária. A feira celebra a vida e obra dele e a casa fica como uma referência para quem quiser conhecer. 

O que tem ali no sítio que foi de Oswald? Também gostaria que me falassem sobre estes últimos anos do escritor ali. O que o sítio representou em sua vida?

Marcílio: Quando fizemos o estudo de tombamento não havia sido lançado este último livro Diário Confessional (Companhia das Letras), onde ele cita com mais profundidade a existência do sítio e a relação dele, que era como qualquer outra pessoa tinha, de descanso. Era o repouso da vida turbulenta na capital, já que ele passou por uma série de problemas no final da vida, financeiros, de saúde, então ali era uma espécie de templo para que ele pudesse de alguma forma escrever sua obra. Embora nada disso esteja documentado, acreditamos que a última obra dele, Um Homem Sem Profissão, tenha escrito partes ali. Quanto à mobília, é muito característica da década de 1940 e 1950. Isso tudo nos leva a crer que pertencia a ele. Nada de papel passado, sempre a partir de testemunho. E o proprietário, Ricardo Conde, disse que o pai comprou de ‘porteira fechada’, com tudo dentro. Por ser uma casa de descanso, acreditamos que parte da mobília era da família de Oswald e Maria Antonieta.

Reynaldo: O que se afirma em alguns registros, inclusive no Diário Confessional, era uma ideia do Oswald já era escrever este livro, mas acabou se tornando Um Homem Sem Profissão. Deste, segundo Antonio Candido, um dos prefácios foi encontrado póstumo. Inclusive foi ele quem sugeriu ao escritor que escrevesse suas memórias. No sítio foram os últimos cinco anos. E ele tinha sim o local como descanso, que agora é muito pacato, mas na época era muito mais. Era todo um turbilhão a história dele. Oswald de Andrade não foi apenas um dos maiores nomes da literatura, mas da cultura em geral, um conhecedor profundo, e portanto queria descansar. Alguns livros dessa obra completa de Oswald, que tive o prazer de revisitar, ele ressalta a preocupação de deixar suas memórias, que trazem sobre o Brasil, o mundo e a cultura em geral. Segundo Maria Antonieta, ele amava o sítio, queria ficar lá e escrever os últimos livros lá. 

E vocês estão preparando a Feira Literária. Quando vai ser e o que vocês propõem para este evento inicial no município?

Reynaldo: A FLIRP (Feira Literária de Ribeirão Pires) é a primeira na cidade, foi uma conquista muito bacana iniciarmos. Começou de forma muito modesta, foi crescendo muito, e está tomando uma proporção grande, muitas companhias aderindo a participação. Tínhamos começado com pequenas editoras e algumas grandes foram aderindo. Como, por exemplo, a Companhia das Letras, a Record, a 34, Martins Fontes, Planeta, Global, a Pensamento, e a ideia é fazer essa grande festa em prol do livro. Costumo dizer que uma feira literária não é apenas um ponto de vendas. É também, porque as editoras precisam mostrar seus catálogos, mas também serve para levar o livro até o leitor. Se você pretende comprar uma ferramenta, um fio, eletrônicos, vai até Santa Efigênia. Imagine uma ‘Santa Efigênia’ do livro, que é o que vai acontecer. Uma feira literária é, antes de tudo, um movimento de resistência em prol da proteção, valorização e democratização do livro. É uma grande festa e que tenho uma responsabilidade grande de fazê-la que acho super necessária para Ribeirão Pires como um evento que vai começar de forma significativa e se houver uma continuidade já é um evento que vai marcar na história do livro e da cidade.

Vai ter uma homenagem a Oswald de Andrade, por motivos óbvios. Como será isso e de que maneira a feira vai conversar com o sítio?

Reynaldo: É uma homenagem dupla, porque lembra um artista de proa do modernismo, este movimento tão polêmico, resistente e necessário para cultura brasileira, e também um morador que acabou vivenciando aquela região. Nesse sítio, como Marcílio falava, existem questões que precisamos resolver, mas a ideia é usar a casa para fazer passeios para que as pessoas visitem a casa onde morou o maior representante do modernismo brasileiro. Existiram vários outros, mas foi Oswald que foi buscar isso lá fora, foi ele que teve contato com o Manifesto Futurista de Marinetti e transformou isso no modernismo, porque adaptou a questão psicológica e cultural do Brasil. Ele queria algo que fosse genuinamente brasileiro. E é ele que traz depois Mário de Andrade, uma grande figura de proa, com quem começa a pensar esse movimento de forma mais organizada. Era um trabalho em conjunto. Alguns teóricos tentam colocar Mário como quem pensou, mas Oswald começou essa luta toda. Então homenagear Oswald é uma grande alegria, mas ao mesmo tempo uma responsabilidade, porque ele representa esse movimento. E também é uma homenagem particular, um acerto de contas, com o morador da região. Além de ser 100 anos da Semana de Arte Moderna. 

Em que dias serão e quais as outras programações que contemplarão?

Marcílio: Vai ser no dia 24 e 25 de setembro, das 9h às 21h30, com programação muito diversificada com debates sobre literatura. Vamos pegar as três esferas: o livro objeto, a leitura e a literatura. No que diz respeito à literatura, são debates sobre aqueles que produzem, escrevem, pensam e editam. O livro vai ser vendido pelas editoras que oferecerão descontos, vamos ter programação cultural e artística envolvendo artes visuais, dança, música e teatro. Vai ser uma verdadeira celebração, com shows para encerrar. É uma festa que tem uma aposta muito grande no turismo cultural. Temos um prefeito (Clóvis Volpi) que aposta no evento, gosta, tem hábitos culturais e não só relacionados à literatura. Isso não é um elogio falso, é verdadeiro, porque faz toda diferença num evento como esse. Que se entenda a importância do livro, da leitura, principalmente nesse momento que a gente vive. Ele é professor, mas não é só isso, precisa ter uma sensibilidade também e estamos tendo um ambiente de liberdade para organização da feira. 

E onde vai ser?

Marcílio: Vai ser na região central de Ribeirão Pires, em um perímetro de 13 mil metros quadrados. Vai começar na Travessa do Memorial do Santo Antônio. Vai ser na rua, uma ideia bem modernista.
Reynaldo: Seria muito fora da proposta modernista se fizéssemos algo fechado, em um lugar que precisasse pagar ingresso. É uma festa para o povo, aberta. A ideia era abrir para editores pequenos, independentes, mas agora tem de tudo, porque essa é a ideia da antropofagia, juntamos todas as editoras, pequenas, médias e grandes, para que possa ser muito associada a essa ideia de Oswald, absorver tudo e transformar em algo nosso. Acho importante esse apoio da administração, como Marcílio disse. Esses dias pesquisando descobri que a Argentina tem muito mais livrarias que no Brasil e que aqui temos mais farmácias do que livrarias. Acho importante esse sinal verde para fazer essa feira. E também ressaltar que o livro, essa luta, essa resistência, é um bem econômico e cultural, simbólico, que transforma a pessoa que tem essa relação com ele. E nem tudo será sobre Oswald, mas também sobre a Semana de Arte Moderna. Temos de entender que o evento centenário teve uma influência em todas as ramificações da arte. Há pouco fechamos uma mesa de um artista que traz essa cultura africana de língua portuguesa que é o sentido puro que Oswald propunha, a volta ao sentido puro de origem africana, que veio e se misturou com a cultura brasileira e se tornou nosso.

(Miriam Gimenes/Agenda Tarsila)

Publicada em 27 de julho de 2022

Veja também
+Programação