Bruna Brandão/Divulgação

Festival de Inverno de Campos do Jordão celebra o centenário da Semana de Arte Moderna

Música de qualidade em uma cidade aconchegante. Estes são os elementos que compõem o Festival de Inverno de Campos do Jordão, em São Paulo, que agora em julho, do dia 2 a 31, faz a sua 52ª edição, com repertório que presta homenagem ao centenário da Semana de Arte Moderna, com o tema Modernos Eternos. Ao todo, serão 84 concertos, quase todos gratuitos, apresentados em quatro pontos da cidade, que atendem a todos os públicos. 

A Agenda Tarsila conversou com o coordenador artístico e pedagógico do Festival, Fabio Zanon, que detalhou o que o público encontrará no evento ao longo do mês.  “Vai ter muito Villa-Lobos no Festival, mas também vamos apresentar obras dos compositores que eram daquele modernismo internacional dos anos 1920, 1930. Estamos falando de Stravinsky, Prokofiev, Bartók, Martinu, enfim, vai ter um monte de música desses compositores também. Tem um outro compositor belga muito importante para formação dos nossos estudantes, que está comemorando duzentos anos, que é o César Franck. Vamos tocar a sinfonia dele, que é uma obra-prima, e também algumas obras de câmara durante o festival. Vai ser um apanhado do que é esse espírito iconoclasta do modernismo de 100 anos atrás.” 

Além do caráter de entretenimento, o evento também tem o viés formativo, já que no seu módulo pedagógico receberá 142 alunos e 52 professores, que juntos vivenciarão mais de mil horas-aula durante julho. “O legal é que hoje em dia a maior parte dos nossos estudantes ou vem de projetos sociais em áreas de risco, de várias partes do Brasil, ou vem de igrejas, principalmente a Protestante que mantém a educação musical. Então o perfil sócio-cultural dos nossos estudantes agora é muito mais inclusivo. Para eles, poder trabalhar sob a direção de um maestro que vem da Inglaterra, ou com um professor que vem das principais orquestras do país, é uma oportunidade ímpar. Eles ficam um mês inteiro tendo aulas todas as manhãs e ensaiando com orquestra todas as tardes. Ainda assim, também tocando juntos. É um intensivão, vale por praticamente um ano letivo com tudo concentrado em um mês.” Confira a entrevista a seguir: 

O  Festival de Inverno de Campos do Jordão é um evento tradicional do Estado de São Paulo e, neste ano, vem com uma homenagem especial à Semana de Arte Moderna. De que forma isso influencia no repertório?

A gente tem algumas comemorações, tem o bicentenário da independência também. Mas aproveitamos o gancho do centenário da Semana de Arte Moderna para tocar música que entendemos como moderna, mas na verdade já tem 100 anos. O modernismo deixou de ser uma coisa atual, necessariamente, para ser um momento de experimentação, de quebra de paradigmas. E aqui no Brasil é claro que isso foi representado pela Semana de 22, e o Villa-Lobos, que foi o compositor que brilhou naquele evento. Mas decidimos não ficar só nos compositores brasileiros. É claro, vai ter muito Villa no Festival, mas também vamos apresentar obras dos compositores que eram daquele modernismo internacional dos anos 1920, 1930. Estamos falando de Stravinsky, Prokofiev, Bartók, Martinu, enfim, vai ter um monte de música desses compositores também. Tem um outro compositor belga muito importante para formação dos nossos estudantes, que está comemorando duzentos anos, que é o César Franck. Vamos tocar a sinfonia dele, que é uma obra-prima, e também algumas obras de câmara durante o festival. Vai ser um apanhado do que é esse espírito iconoclasta do modernismo de 100 anos atrás. 

Por que o nome escolhido é Modernos Eternos?

Veio de um poema de Carlos Drummond de Andrade, que tem um verso que é mais ou menos isso: ‘cansei de ser moderno, agora quero ser eterno’. E é isso. Os modernos que estavam fazendo música para o momento, reagindo às questões políticas e sociais ali dos anos 1920, hoje são os compositores que fazem parte do repertório da mesma forma como Bach, Mozart. São nossos clássicos apesar de terem sido quem derrubou barreiras naquele momento. Eles também cansaram de serem eternos modernos. Agora são eternos. 

É uma programação pulverizada pela cidade, que atende a todos os públicos. Quais são os destaques?

A gente tem concertos no Auditório Cláudio Santoro, onde vai ter as principais orquestras, inclusive o que é sempre o grande destaque do Festival, que é a orquestra de estudantes bolsistas. Vamos receber 135 estudantes selecionados por um teste muito rigoroso para formar uma orquestra sinfônica completa, mais estudantes de piano, violão e regência. E com isso vamos ter uma grande orquestra, que vai tocar três concertos, incluindo os compositores que mencionei, como Villa, Camargo Guarnieri, também um filho da Semana de 1922. Nossa orquestra traz os melhores estudantes de música do país, justamente por passar por um processo muito rigoroso. Vai ser nos três primeiros sábados do mês de julho. Também vamos ter orquestras lá como a Sinfônica do Theatro Municipal de São Paulo, recital do Jean-Louis Steuerman. Temos uma programação grátis, principalmente aos finais de semana, ali na Praça Capivari, inaugurada em janeiro, uma área que era de estacionamento, feira de artesanato, que foi totalmente remodelada. Agora tem lago, espelho d´água, pedalinho, parque de diversões e um palco muito mais bonito e funcional dos nossos concertos. Lá a gente vai receber de tudo, desde orquestras do interior de São Paulo, orquestra experimental de repertório, sinfônica de Santos, de Mogi das Cruzes, Banda Sinfônica do Exército, São Paulo Big Band tocando Jazz. Isso será aos sábados, às 11h e às 15h, e aos domingos no mesmo horário. No Palácio do Governo teremos dois palcos: um é na capela, que a gente vai ter só música antiga, de câmara, com poucos artistas, uma coisa mais intimista, e um palco aberto na frente do Palácio, que vamos receber tanto clássicos populares quanto grupos de jazz e MPB. 

O Festival tem também um caráter pedagógico. Como funciona?

O Festival foi criado um pouco inspirado pelo Festival de Tanglewood, nos Estados Unidos, que é a residência de verão da Orquestra Sinfônica de Boston. Tem mais de 60 anos. E o maestro Eleazar de Carvalho foi aluno e depois professor neste festival. E ele percebeu o benefício que isso tem para formação de estudantes. É claro que eles têm aulas de seus instrumentos e participam de orquestras educacionais ao longo do ano, mas no festival têm oportunidade de travar contato com professores internacionais, com os melhores profissionais das melhores orquestras do Brasil, e formar uma orquestra que realmente, perdoe a palavra, é de elite. A gente pega os estudantes que passam por uma prova muito rigorosa. E o legal é que hoje em dia a maior parte dos nossos estudantes ou vem de projetos sociais em áreas de risco, de várias partes do Brasil, ou vem de igrejas, principalmente a Protestante que mantém a educação musical. Então o perfil sócio-cultural dos nossos estudantes agora é muito mais inclusivo. Para eles, poder trabalhar sob a direção de um maestro que vem da Inglaterra, ou com um professor que vem das principais orquestras do país, é uma oportunidade ímpar. Eles ficam um mês inteiro tendo aulas todas as manhãs e ensaiando com orquestra todas as tardes. Ainda assim, também tocando juntos. É um intensivão, vale por praticamente um ano letivo com tudo concentrado em um mês. 

Heitor Villa-Lobos foi o grande nome da Semana de Arte Moderna no campo musical. De que maneira sua obra continua influenciando a arte hoje?

O Villa-Lobos não é só um compositor, não é só um artista de destaque, é um ícone cultural. Hoje no Brasil tem shopping com o nome dele, condomínio, banca de jornal, ele acabou virando uma espécie de marca daquilo que dá certo na cultura brasileira. Nome de exportação. A importância dele é a seguinte: você não tinha a fisionomia brasileira na música clássica que fosse muito forte antes dele. Tiveram tentativas. Antes dele não tinha compositores de muito destaque, que desenvolvessem uma linguagem, uma fisionomia brasileira, para música clássica. Escrevendo para orquestras, para piano. Ele veio como se fosse uma força da natureza. Em uma tacada só criou uma possibilidade de música, é um inventor da música brasileira e a gente continua ouvindo a influência dele não só nos nossos compositores clássicos, mas também na música popular. Sem Villa-Lobos você não tem Milton Nascimento, Clube da Esquina, Egberto Gismonti, não tem trilha sonora de filme brasileiro. A cor que ele criou na música instrumental veio da cabeça dele e a gente identifica como brasileiro agora. Tudo fruto da imaginação dele. 

Dá para dizer, então, que ele foi um divisor de águas ali em 1922?

Sim, porque depois da Semana de 1922 ele foi morar em Paris, para se projetar. Estava tentando se tornar conhecido. E foi exatamente o que aconteceu, ele virou uma celebridade mundial nessa estadia dele lá e justamente levando na bagagem esse colorido que para os europeus daquela época era uma coisa exótica, inusitada, que nunca tinham ouvido antes. Ele já tinha brilhado na Semana e logo em seguida se projetou internacionalmente. 

Você já está há algum tempo na coordenação do Festival. Qual a expectativa para esse, que vem em o que esperamos ser o fim da pandemia?

Já é meu décimo ano no festival, é a administração mais longeva. Claro, é uma honra, um privilégio, poder trabalhar nele. Este ano, além das reverberações da pandemia, a gente tem uma outra grande dificuldade, que são as mudanças na Lei Rouanet. Que na verdade é uma lei de isenção fiscal extremamente fiscalizada, que permitiu que a gente fizesse 85 atrações com apenas três vezes o valor do cachê de um artista de música sertaneja que é financiado diretamente por uma prefeitura do interior. Então isso sim é um escândalo, não a Lei Rouanet, que permite que a gente leve cultura de alto nível para uma população ampla e espalhada tanto por Campos do Jordão e região quanto por São Paulo. Claro, estamos esperando bastante público. Ano passado nós tivemos o Festival também, mas com um público muito reduzido, os concertos foram transmitidos pela internet, não tivemos ao ar livre, o palco ainda não havia sido inaugurado. Este ano a gente volta a ter toda gama de espetáculo que estávamos acostumados a ter, porém com esse empecilho imenso criado pela administração federal de mudar as regras da lei sem justificativa nenhuma prejudicando justamente quem leva o melhor da cultura para a população. 

(Miriam Gimenes/Agenda Tarsila)

Publicada em 29 de junho de 2022

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