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Grafitti em Fábrica de Cultura de Diadema reflete sobre a participação dos negros na Semana de 22

Quem foi o negro que participou da Semana de 22? Aquele que, entre os sete dias de exposição no saguão do Theatro Municipal de São Paulo, ou nas três noites de festival, pôde demonstrar o que de melhor sabia fazer: sua arte. Resposta difícil de ser concedida, até porque não houve representatividade no evento ocorrido há quase cem anos. E foi para fazer esta reparação histórica, e alertar para esta realidade, que os artistas de Diadema, Robinho Santana e Nenê Surreal fizeram um mural na Fábrica de Cultura de Diadema.

Lado a lado, os artistas, parceiros nas tintas e nos ideais, lembraram que o apagamento que sofreram há décadas ainda insiste em se repetir. Questionam, com o mural, qual o espaço que tiveram no evento e pedem que, para daqui cem anos, essa pluralidade esteja, enfim, sanada. “Foi um movimento que mudou a história da arte brasileira, para entender que a elite tinha de sacar qual era a realidade. Mas será que as pessoas que participaram disso eram as que faziam parte do povo brasileiro na época? Não sei”, questiona Robinho. 

“Não temos de explicar porque temos de estar em alguns lugares. Tem de simplesmente as pessoas olharem e falarem: ‘não tem’. Isso não pode ser doloroso, a gente é um povo que passou por muitas dores. Não dá para falar que somos iguais, não somos. A tez diferente impede da gente estar dentro de espaços”, reflete Nenê. Confira, a seguir, entrevista exclusiva concedida à Agenda Tarsila:

Vocês são artistas da região do Grande ABC, Diadema. Queria que vocês contassem a história de vocês na arte e como o grafitti entrou nesta trajetória. 

Nenê: Estou na cena do grafitti, no movimento de cultura hip hop, mais ou menos, desde 1996. Venho através do pixo, apesar de já fazer alguns trabalhos com artesanato, por causa da vivência com minha avó. Atuante, de fato, falando que hoje minha renda vem do grafitti, que me dá visibilidade, mesmo dentro do apagamento, acho que tem uns quinze anos sobrevivendo da arte. 

Há um tempo atrás, este era um meio mais masculino. Como foi para você ser uma mulher e entrar nessa cena?

Nenê: Ele continua. A gente tem avanço sim, mas ainda é um movimento que as mulheres precisam sempre pontuar a pauta na line, nos convites, nos eventos, uma pauta geral. Quando comecei dentro do universo, além de ser masculino, era extremamente machista e, para estar neste movimento, a mulher tinha de estar, de uma certa maneira, ‘xy’. A gente ia muito para a rua camuflada de homem, se protegendo e também quando eram os melhores picos a gente também era escolhida, ou não, muitas vezes estávamos ali só para olhar, dando fundo em muro. A mulher muitas vezes foi colocada neste lugar. Há pouco tempo, participei de um evento que tinham algumas mulheres e eu ainda via essa cena. Fui trocar ideia com a mana, ela era grafiteira e estava ali só para dar fundo para o companheiro, sabe? São coisas que não são só do movimento. Quando a gente fala de vida, mas estar ainda hoje dentro do movimento já não é um problema nosso, é um problema de todes. Todes têm de se incomodar. A cena continua sendo machista. Hoje a gente tem a necessidade de ter eventos femininos. Chegamos a este ponto para cobrar esta falta nos eventos e a gente sempre esteve lá. Você faz essa pergunta e reverbera muita coisa em mim, é muita coisa para se falar ainda. Quando a gente vai resumir, é complicado falar ainda as mesmas coisas. Tenho 54 anos, o movimento tem um pouco mais de 40. Há quanto tempo estou falando isso? Ainda estou falando disso. Esses posicionamentos ainda têm de vir na frente da minha arte, ainda hoje temos avanços, têm vários grupos de mulheres incríveis pintando e ainda há uma falta, e a culpa não é nossa. 

Conta sua história agora, Robinho…

Robinho: Adoro estar na presença da Nenê, porque ela é uma professora para mim. Também não sei quando comecei, sou péssimo com data e o grafitti é só uma das ferramentas que uso para fazer a arte. É mais fácil dizer quando comecei com arte, até porque não me identifico como grafiteiro: sou um  artista. Sou de Diadema, também, e sou influenciado pelos movimentos sindicais. Lembro, quando criança, via as revistas do Henfil, os desenhos do João Ferrador e isso já me influenciou pelo interesse pelo desenho, interesse também de falar de algo que tenha um sentido. Igual a Nenê, vivo de arte desde criança, mas não necessariamente vivo dela. Vivo isso, mas não vivo disso. Que vivo disso talvez faça uns seis anos. Fui muito influenciado pelas pessoas que são minhas amigas. A Nenê é uma influência para mim, assim como o Jerona Ruyce, Pixote (artistas de Diadema), que são pessoas que vi fazendo, pareciam comigo. Aí entendi, ‘da hora, isso é uma parada que posso fazer também’. Porque a gente tem medo de fazer algo que não mostraram que era para gente fazer. Como sou do ABC, meu futuro era certo que eu seria metalúrgico. Não que isso seja ruim, mas é legal saber que você pode fazer outras coisas da sua vida também. São pessoas como essas que fizeram minha vida mudar e entender que eu queria isso para a minha vida. 

Como surgiu o convite da Fábrica de Cultura para participar do Grafitti Moderno?

Robinho: Estou em dívida com Diadema. Tenho feito alguns trabalhos fora da cidade e desde que inaugurou a Fábrica de Cultura a gente tenta fazer algum trabalho junto e nunca dá certo por algum motivo. Ou não tenho agenda, ou são eles, e outras questões burocráticas de documento. Então essa história está durando já um tempo e agora surgiu essa oportunidade de fazer sobre a Semana de 22 e eles deram a ideia de fazer esse tema, o que eu acho difícil, e me disseram que poderia chamar alguma pessoa para fazer comigo. Na hora pensei na Nenê, porque faz todo sentido. Não só porque é minha amiga, não só porque sou fã, mas porque faz sentido com a história da Semana de 22. Estudando a Semana, foram pessoas que quiseram fazer algo que iria contra uma elite brasileira que existia na época, tentar colocar uma arte brasileira quando ela era totalmente influenciada por uma visão eurocêntrica. E a gente faz isso sem fazer parte de qualquer grupo. O modernismo na época, pesquisei e não achei muitos artistas negros presentes. Então quando a gente fala sobre nossa cultura, é muito importante que para falar dela venha a partir de alguém que faça parte da cultura. Como falar sobre o movimento negro sendo artistas brancos pintando? Acho que faz total sentido ser a Nenê que faça parte disso também. Ter esse enfrentamento, inclusive. De abrir essa questão sobre a Semana de 22. Foi um movimento que mudou a história da arte brasileira, para entender que a elite tinha de sacar qual era a realidade. Mas será que as pessoas que participaram disso eram as que faziam parte do povo brasileiro na época? Não sei. 

Houve bastante crítica por não ter artistas negros, por não ter a arte indígena, originária do Brasil. Passados cem anos deste evento, hoje a arte está mais plural, até na questão modernista, que veio ecoando durante todo este tempo?

Nenê: É muito louco que hoje estava pensando aqui nestas pessoas que estão com a gente e que gostamos, que vão seguir outros caminhos e uma hora ou outra a gente se reencontra. Estava pensando no Robinho. A gente quase foi família, mas é muito louco porque o que liga de fato Robinho, eu e você (direciona para ele), é este grande irmão que a gente tem que é o Jerona, que acaba conectando a gente e nós trocamos muito sobre arte. E poucas vezes pudemos fazer algo junto. Quando ele me convidou, fiquei muito feliz, para além de tudo, para além de estarmos vivendo dentro da pandemia um apagamento, porque está para além de ser um trampo. A gente tem dentro do não-privilégio, Robinho, a gente poder fazer um rolê que a gente curte demais. Nós fazemos arte 24 horas. Até a gente não fazendo arte, estamos fazendo. É muito amor. Muito afeto, é nossa cura também, é minha terapia. Sou uma mulher preta que estou neste núcleo, mas não consegui ir para terapia. Brinco aqui com a minha companheira que minha terapia é o chuveiro e a arte. Às vezes, não tenho nenhum desenho (na cabeça). Só jogo tinta e parece que consigo pelo menos encaixar os rolês para continuar. Respiro arte e tranquilamente. O que tem dentro da arte são nossos atravessamentos. Sempre tive uma questão com a Semana de 22 e nem sabia porque. Venho de uma geração que a gente estava muito preocupado de, no fim de semana, curtir os bailes, se encontrar, tirar uma onda para poder segunda-feira contar o rolê que a gente fez e nem conseguia registrar. A gente tinha uma reunião dos rappers na frente da Igreja São Judas, já era um ato político. Nós queríamos vestir uma roupa, levantar o black e ir para frente da igreja. Porque a reunião era lá, a gente nem estava ligado, mas já era um ato político. Os acessos foram muito importantes para a gente. E daí a gente vê na história este apagamento dos artistas. Quando me ofereciam: ‘Nenê, faça uma releitura da artista ‘x’ – não quero citar nomes porque são atravessamentos mesmo. Eu não queria fazer, nunca aceitei e nem sabia porque. Mas porque não me via. Aí, na quinta série, tinha um professor muito parecido com o Robinho porque era preto, que chegou na escola hippie, barbudo, com a camisa toda amassada, com uma bolsa de couro atravessada, chamava Roberto. Eu me apaixonei. Ele deu vida à minha arte junto com minha avó. Ele disse: ‘faz, é importante você fazer’. Porque nem mostrava o que eu fazia, tinha vergonha do meu trabalho porque estava contradizendo toda aquela coisa bonita que era mostrada para mim, que me atravessava. Tem um rolê dentro da Semana de Arte Moderna que até hoje me atravessa, Macunaíma… Até hoje me atravessa esse rolê. De pensar o que é esta história. Foi muito mais importante o convite do Robinho dentro desta temática de significar o que a gente sempre fala que é ‘ubuntu’, a gente está fazendo. Foi muito importante o modernismo, deu alimento para os nossos estudos, mas continua fazendo um apagamento até hoje. 

Hoje não tem essa democratização na arte ainda e nem essa pluralidade?

Robinho: Com certeza não, esse apagamento existe. Inclusive porque os museus, galerias, estão todos localizados no centro. Tudo é feito para dificultar o acesso do público. Poucos criam pontes para os artistas periféricos saírem de lá e irem para outros lugares e mostrarem sua arte. Quando as pessoas procuram é sempre no estereótipo de falar sobre racismo, sobre dor, enfim, não entendem as pessoas pretas de uma forma plural. Porque as pessoas pretas elas também amam, sofrem, vivem, não têm de ser chamadas para trabalhar apenas em novembro (mês da consciência negra) ou qualquer outro tipo de data comemorativa do movimento negro. Este apagamento, sem dúvida, ele existe. Cem anos se passaram, talvez esteja a mesma coisa assim. É só ir no Masp e contar quantas obras de artistas negros e negras existem. Ou qualquer outro tipo de museu. É fácil ter essa resposta. Quase sempre a gente está neste lugar em posição de resistência, sabe? Eu e a Nenê, a gente ama o que a gente faz, é nossa vida. Se não fizermos isso, a gente fica doente. Mas quase sempre é em resistência. A gente tira do nosso bolso para fazer algo. A gente faz algum outro trabalho para ter dinheiro e fazer outro de graça. Enquanto outras pessoas estão fazendo ou falando sobre a gente, não sendo a gente, e ganhando muito dinheiro. 

Nenê: Essas pessoas precisam chamar a gente para falar de nós. Algumas coisas que cobramos muito são presenças de pretos, pretas, pretes dentro destas organizações, já que estão falando de luta. Acho que falam de reparação… Tenho dúvida, mas estão falando. Porque só levantar essa bandeira anti qualquer coisa não resolve. A gente precisa vir para o campo das ações, fazer de fato. O movimento hip hop é preto e nos eventos quando você vai contar quantas pessoas pretas tem essa organização, sabe… É uma ou outra que está sendo citada. A gente não está falando de ter um preto, uma preta nestes espaços. A gente está falando de ter o justo. Então se tenho uma line com dez pessoas, preciso ter uma representatividade igualitária dentro deste movimento. Não dá para eleger uma pessoa, eu e o Robinho dentro do não privilégio, estamos em um privilégio de poder falar. Me arrisquei muito dentro do que faço porque sou artista e tive de me posicionar, porque gostaria de estar aqui falando só flores, mas ainda assim preciso chamar atenção para muitas coisas que são importantes, que estão aqui. Estamos falando do quê? Estão falando de antes, mas eu não estou lá. A galera LGBT não está lá, ainda hoje. A gente está falando de reparação, essa reparação tem de ser feita e, se você não sabe fazer, precisa chamar as pessoas para ensinar. Essa apropriação é feita sim. Mas a gente quer ensinar e quer também colher tudo isso, porque a gente sobrevive, a gente consome, queremos ser outras coisas, não só o que foi dado para nós. Então está para além só de anti. A reparação precisa acontecer agora. 

Robinho: Só para complementar: ela falou uma palavra de privilégio que é importante de falar mesmo. Eu, inclusive, me encontro em vários lugares de privilégio. De ocupar os lugares. Mas, no meu discurso e no da Nenê também, a gente não se preocupa só com a gente. Uma pessoa ocupar um lugar não quer dizer que isso é uma ocupação. Ocupação é quando todo mundo está junto, não adianta só uma pessoa estar lá. Isso não acontece. 

Como vai funcionar este projeto? É só na Fábrica de Cultura de Diadema, explica melhor. 

Robinho: Não sei se vai ter outros projetos nas outras Fábricas. Neste mural estamos dentro desta criação falar sobre a Semana e estes nossos enfrentamentos. A gente ficou pensando muito no que fazer, como fazer, como isso ia lincar com a Semana de 22, mas na verdade, estamos fazendo o que fazemos sempre, que é o enfrentamento dessa parada. Estamos presente lá. Isso, de alguma forma, já relembra a Semana de 22, porque a gente não estava lá. Pessoas parecidas com nós não estavam lá. 

E se houver uma comemoração daqui 100 anos, como vocês querem que a arte esteja sendo vista aqui no Brasil?

Nenê: A gente precisa entender, por exemplo, eu sou uma mulher sapatão, avó, mais velha, o Robinho é um homem preto, mais jovem e são questões, dores que são diferentes, mas são iguais. Nós somos indivíduos. Robinho tem a idade para ser meu filho, a gente consegue conversar muito de igual. Em momento nenhum me senti colocada em outro lugar pelo Robinho, sempre foi assim, horizontal. É o que a gente quer: que daqui cem anos seja tudo muito horizontal, porque a gente vem de uma realidade que a gente aprende em roda. As avós colocam as crianças no chão e estão ali, dando uma bronca, mas chamando o aprendizado, a oralidade. Que as nossas mais velhas, por exemplo, uma mulher muito incrível, Ordalina Cândido (artista de Diadema), que é uma mulher que eu gostaria de ver porque é muito importante para nós, e somos de gerações diferentes, ela tem mais de vinte anos do que eu. E a gente se encontra, se respeita, temos o respeito que, às vezes, troco pouco com Robinho, com a Ordalina, e a gente se vê e já é isso. Não temos de explicar porque temos de estar em alguns lugares. Tem de simplesmente as pessoas olharem e falarem: ‘não tem’. Isso não pode ser doloroso, a gente é um povo que passou por muitas dores. Não dá para falar que somos iguais, não somos. A tez diferente impede da gente estar dentro de espaços. A nossa simbologia ela está aí, está dada, vocês que lutem! (risos)

Robinho: Daqui cem anos é mais do que obrigação estar falando não só da Tarsila mas da Nenê Surreal. Não só do Di Cavalcanti, mas do Jerona Ruyce. Minha busca, como artista, obviamente que quero viver disso e ganhar dinheiro, não estou negando, mas que meu trabalho sirva para educação, que no futuro as crianças tenham algo que não tive na escola, que é aprender sobre arte e o mais importante, aprender sobre os artistas afro-brasileiros, é um sonho. Então seria interessante que, daqui um ano, nem cem anos, essas pessoas tenham sido comentadas na escola para estas crianças saberem que elas existem e que esse caminho que elas percorrem é um caminho possível para  todo mundo. 

(Miriam Gimenes/Agenda Tarsila)

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