Divulgação/Poiesis

‘Guilherme de Almeida não é reconhecido como um grande escritor que foi, um poeta’, afirma a pesquisadora e especialista no modernista, Marlene Laky

Em um belíssimo casarão no bairro do Pacaembu, o escritor Guilherme de Almeida teve sua última morada. Era no sótão, onde por um interfone conversava com quem estava no andar térreo, que ele mergulhava em seus livros, traduzia loucamente e criava textos que ficaram para história – como, por exemplo, o Hino da Televisão Brasileira, encomendado por  Assis Chateaubriand. E é neste espaço, hoje não mais rodeado por tantas árvores como à época em que ele viveu ali, que funciona o Museu Casa Guilherme de Almeida, uma das três casas do Governo do Estado de São Paulo que respiram cultura. 

A técnica em conservação e restauro da Casa e pesquisadora especialista em Guilherme de Almeida, Marlene Laky, conversou com a Agenda Tarsila sobre a trajetória ímpar do escritor. Lembrou de seu papel na Revolução de 1932, a amizade com os modernistas – que começou com Oswald, ainda adolescentes – e o reconhecimento que ele alcançou, inclusive no exterior. 

E destacou as pérolas que podem ser vistas no museu, todas que um dia pertenceram ao modernista. “As coisas de Guilherme ficaram para casa e para a gente é muito interessante esse trabalho do museu porque conseguimos fazer recortes no acervo e exposições temporárias, atividades, oficinas, com todas as coisas que estão aqui. Então o visitante vê os objetos, mais os cursos e oficinas que acontecem por conta do patrono.” Confira, a seguir, a entrevista completa: 

Guilherme de Almeida, antes de ser um literato importante, foi muito amigo de Oswald de Andrade. Queria começar nossa conversa falando sobre essa relação entre eles.

Guilherme e Oswald se conheceram no Ensino Médio, estudaram no Colégio São Bento, no Nossa Senhora do Carmo e depois acabaram estudando também na Faculdade de Direito do Largo São Francisco. Não se formaram na mesma turma, porque Guilherme se formou em 1912 e Oswald só depois, porque neste ano ele vai para Europa, curtir um pouquinho a vida dele. Nesta época, Oswald fundou a revista O Pirralho, da qual Guilherme foi um dos colaboradores. Todo mundo colabora, Di Cavalcanti começou a carreira dele também ali e a maioria dos modernistas. Tanto que os primeiros poemas impressos do Guilherme foram ali. Depois mantém essa relação próxima, trabalham nas redações. São Paulo naquela época era uma cidade pequena e todo mundo se conhecia. Em 1916 eles resolvem escrever uma peça em francês, foi o primeiro livro dos dois a quatro mãos, Mon Coeur Balance, uma peça de teatro. Foi escrita em francês, com uma coisa cotidiana, mas ambos não tinham ainda maturidade na escrita. A peça foi lida no Natal de 1916, saiu bem noticiada na revista O Pirralho. Depois Guilherme lançou o primeiro livro dele, Nós. Em 1922 já tinha lançado vários livros, enquanto os outros estavam engatinhando nisso. Mário lança Uma Gota de Sangue em Cada Poema, em 1917, mas ali ainda não era o ‘Mário’, estava mais ligado com a parte musical. Já o Guilherme era best-seller de poesia, tanto que tem uma história em um livro autobiográfico de Di Cavalcanti comenta que a Semana de 1922 começou na verdade em 1921, na livraria O Livro. Di foi atrás de Paulo Prado e vem toda aquela história conhecida. A relação destes modernistas já começa daí. Tinham os salões da Olívia Guedes Penteado, do próprio Mário, ou seja, cada dia da semana era feito um sarau em algum lugar da cidade. Eles faziam  muita coisa, escreviam, faziam de tudo. 

Como se deu o ingresso dele nessa organização da Semana? E por que ele não fez parte do Grupo dos 5, já que era tão próximo do Oswald?

Guilherme de fato lê dois poemas na primeira noite da Semana, Os Discóbolos, que pertencem ao livro chamado A Frauta que Eu Perdi – Canções Gregas, publicado só em 1924. O que acontece? No final de 1922 ele vai para o Rio conhecer a futura esposa, a Baby de Almeida. Na verdade houve uma troca de correspondência entre os dois, Guilherme não a conhecia pessoalmente, e no final deste ano vai acontecer a Exposição Universal no Rio (pelo centenário da independência). Ele vai para lá, fica envolvido. Não está neste Grupo dos 5 justamente por conta desta ‘ponte aérea’ que tinha com o Rio. Tanto que é curioso, que tem uma minissérie da Globo, chamada Um Só Coração, que eles mostram exatamente que o Guilherme tem uma participação na Semana e fala ‘estou indo para o Rio ver a Baby’. Apesar da proximidade com todos os outros ele, de fato, acaba não estando no Grupo, e acabou estando Menotti, por um acaso. 

E um pouco depois da Semana ele adere ao verde-amarelismo…

Não, confundem o Guilherme de estar envolvido com essa questão do integralismo, do verde-amarelismo, só que não. O papel importante dele foi difundir a Semana de Arte Moderna. Em 1925 vai para o norte do país fazer a palestra A Revelação do Brasil pela Poesia. Esses textos foram publicados em 1962 no O Estado de S.Paulo. Na verdade ele foi difundir a Semana, nunca fez parte dessa questão do verde-amarelismo.

Era até nisso que ia entrar, porque depois ele participou da Antropofagia, que não batia com o verde-amarelismo…

Exatamente. Menotti sim, tanto que ele tinha uma editora chamada Hélios que publicava Cassiano Ricardo e, de fato, os livros da editora tinham toda essa pegada verde-amarela. Com a Revolução de 1932, Guilherme acabou indo para o exílio, porque ele era contra a questão da ditadura de Getúlio, brigava pela constituição de São Paulo. Só que Menotti, Cassiano Ricardo, que eram dessa turma integralista, eram da turma do Getúlio. Guilherme jamais. 

Guilherme teve papel importante na Revolução de 1932, que o levou a ser sepultado no Obelisco do Ibirapuera. Qual foi?

Ele se alistou como soldado raso, chegou a ir para Cunha, mas sempre esteve envolvido com o jornalismo. Ficou um mês no campo de batalha mesmo, tem até uma foto clássica dele com um menino, que sempre sai nos livros sobre a história da revolução, mas ele acaba se embrenhando para o Jornal das Trincheiras, do qual vira um dos editores. Ele teve 13 números e a gente nota que Guilherme sempre teve uma preocupação com a questão da diagramação, a parte gráfica. Quando ele assume, o jornal muda a cara, começa a ter charges, vai para esta expertise dele. Por ter sido um dos editores, acabou exilado com  Júlio de Mesquita e outros cabeças da revolução. Ficaram um mês presos no Rio de Janeiro, num lugar chamado Sala da Capela, e depois acabaram indo para o exílio. Ficou oito meses em Portugal. E esse período lá acabou rendendo um livro de crônicas interessante chamado Meu Portugal, onde ele fala assim ‘Lisboa não, Lisótima’, de tão bem recebido que foi lá, com conferências na Academia de Ciências. Ele era um poeta best-seller, inclusive neste país. Teve todas as honras de um grande poeta. 

E ele foi o primeiro modernista a entrar na Academia Brasileira de Letras, né?

Sim, foi o primeiro, em 1930. Mas entrou  primeiro na Academia Paulista de Letras, ocupando a cadeira que era do pai dele, Doutor Estevam, que morreu em 1926.

A Casa Guilherme de Almeida é um dos três Museus Casa-Literários de São Paulo. Qual é o papel dela nessa história cultural paulistana?

Guilherme mora aqui desde 1946 até 1969, quando faleceu. Foi o único morador da casa, pela qual tinha verdadeira paixão. Pesquiso as crônicas dele e em muitas delas a casa é protagonista. E praticamente todas as coisas que eram dele ficaram aqui, a biblioteca, obras de arte, não necessariamente nos locais exatos que estavam quando morava. Este tipo de Museu Casa, com todas essas peças dentro, você tem uma ideia de quem era esse personagem, de fato. Não é vazia. A do Mário de Andrade é um museu literário também, tem muita atividade, mas as coisas dele não ficaram lá, acabaram sendo transferidas para o Instituto de Estudos Brasileiros (IEB/USP). As coisas de Guilherme ficaram para casa e para a gente é muito interessante esse trabalho do museu porque conseguimos fazer recortes no acervo e exposições temporárias, atividades, oficinas, com todas as coisas que estão aqui. Então o visitante vê os objetos, mais os cursos e oficinas que acontecem por conta do patrono. Guilherme, além de ter participado da Semana, foi um grande tradutor de poesia, escreveu peças de teatro inéditas e argumentos de cinema. Não sei o que não fez. Esteve envolvido no cinema, na TV, no teatro, antenado com tudo que acontecia na época dele. No museu temos um Centro de Estudos de Tradução, cursos voltados para tradutores, além da área de cinema, outra pegada dele. Através do que ele fazia, damos continuidade a todas essas atividades. 

E até por conta de todas essas coisas que tem aí dentro a casa é um monumento. Tem o sótão, a questão dos cachorros que viveram aí, me conta essas histórias, além das obras modernistas…

Guilherme está na casa em todas as coisas e objetos. De fato ele adorava cachorro, sempre teve da raça pequinês, hoje extinta. Tem inclusive o túmulo do cachorro no quintal. A questão das obras modernistas, Guilherme não era um colecionador. Mas era amigo da Tarsila, do Di Cavalcanti, do Lasar Segall. Inclusive semana passada dei uma palestra porque todo ano, no mês de julho, temos um evento chamado Guilherme de Almeida em Cena. São palestras com pesquisas sobre ele, porque é o mês de seu nascimento e morte. Este ano apresentei um trabalho sobre crônicas e numa delas ele fala de como foi posar para o quadro do Segall. Temos dois, um da Baby de Almeida e outro do Guilherme, e nesta crônica ele conta sobre isso. Essas memórias que ele vai nos deixando, vai dando pistas. 

E essas obras podem ser visitadas, as pessoas podem ir aí?

O museu é do Estado de São Paulo, da Secretaria de Cultura. É gratuito e funciona de terça a domingo, das 10h às 18h. As atividades, a maioria, não acontecem exatamente nesta casa, temos um anexo, e realizamos as ações agora em formato híbrido. Também são gratuitas. Tem muita coisa no site da Casa Guilherme (CASA GUILHERME DE ALMEIDA Centro de Estudos de Tradução Literária). A biblioteca dele, por exemplo, está aqui. São livros abertos para pesquisa, a maioria de obras raras, algumas com dedicatória de Oswald, de Mário, de toda essa turma. 

E uma dessas atividades promovidas pelo museu é um passeio peripatético, que passa pelos locais onde ficavam livrarias frequentadas pelo Guilherme, a São Paulo literária dele. Fale um pouco sobre o roteiro. 

Esse passeio peripatético é um evento que a gente sempre fez, às vezes entre as Casas (Guilherme de Almeida, Casa das Rosas e Casa Mário de Andrade), cada ano de uma maneira diferente. Neste que você citou é baseado numa pesquisa sobre as antigas livrarias que ele frequentava. Esses livros que estão aqui na casa, muitos deles têm um selinho de onde foram comprados. Então fiz um percurso baseado nessas livrarias onde ele lançava os livros. Foi muito interessante refazê-lo e perceber que não existe mais nada dessas livrarias. Vamos pelo centro da cidade e não tem mais nada. Peripatético, no antigo conceito dos gregos, é passear aprendendo. É uma maneira de fazer certos circuitos temáticos e aprender. E no caso das livrarias foi o que aconteceu. 

Qual o papel do Guilherme na história da cultura brasileira e acha que ele é devidamente reconhecido pelo que fez?

Não, é injustiçado. Vejo muito visitante chegar aqui e quando começamos a falar do Guilherme diz: ‘nossa, não o conhecia’. Quando se estuda modernismo, vai se falar de Mário, de Oswald, de Tarsila, que nem estava na Semana – não estou desmerecendo o papel dela, mas, de fato, não estava – e Guilherme tudo o que fez acaba não sendo reconhecido como um grande escritor que foi, um grande poeta. Poesia, hoje em dia, acaba sendo um gênero menosprezado e ele era super respeitado pelos outros poetas. Uma vez achei dentro de um livro um bilhete da Cecília Meireles agradecendo alguma coisa que ele tinha dado um toque, uma correção. Dedicatórias do Mário: ‘esse sim o maior poeta vivo do Brasil’. Isso quem está falando é Mário de Andrade. Como esse cara que foi super reconhecido pelos outros grandes escritores foi varrido para debaixo do tapete? Como disse ele foi um best-seller. Apesar de ter escrito coisas modernas, não foi o lado mais conhecido, mas sim a poesia açucarada. Já li crítico literário da época dizer que ele era parnasiano. Não. Ele percorreu todos os caminhos, mas também o modernismo. Tanto na parte gráfica como na própria poesia as pessoas não conhecem. Quando apresentam Guilherme usam somente essa açucarada, que era muito boa por sinal, porque ele era um estudioso, entendia muito do que fazia. Uma outra coisa importante é a questão dos haikais, um tipo de poema curtinho, moderno, hoje em dia bem conhecido, e ele começou a trabalhar com eles em 1936. Colocou rima, que não tinha no original. A poesia do (Paulo) Leminski que conhecemos hoje, haikai, ele bebeu na fonte do Guilherme. 

Tem alguma atividade da casa em agosto que queira destacar?

Tem atividades acontecendo o tempo todo, no site tem cursos diversos acontecendo, inclusive de teatro. Na minha função de conservadora e restauradora, dou oficinas de pequenos reparos para as pessoas normais aprenderem a cuidar dos seus livros. É uma atividade regular da casa, que deve acontecer em novembro.

(Miriam Gimenes/Agenda Tarsila)

Publicada em 1 de agosto de 2022

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