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‘Havia mulheres no modernismo, mas o movimento não deu atenção a elas’, afirma a historiadora e professora da FAAP, Maria de Lourdes Eleutério

Quando se fala no movimento modernista, que teve seu evento ápice há cem anos, no Theatro Municipal, uma lista de nomes masculinos vem à mente. Eles aparecem como os idealizadores, organizadores e movimentadores dos anos que se seguiram à Semana de Arte Moderna. De fato tiveram grande participação no enredo contado ao longo de décadas mas, na verdade, quem deu a ideia de que se fazia necessário mudar os rumos da arte brasileira no início do século passado foi uma mulher: Anita Malfatti. 

Estudiosa do assunto, a historiadora e professora da FAAP Maria de Lourdes Eleutério cita pelo menos três escritoras que já produziam na época e uma delas que tinha nuances modernistas, a Madame Chrysanthème, pseudônimo de Maria Cecília Bandeira de Melo, mas pouco é lembrada na história, até em razão do contexto feminino do início  dos anos 1920. “O patriarcalismo achava a leitura e a escrita perniciosas, porque as mulheres podiam se corresponder com os amantes, também organizar associações reivindicatórias.”

Esse machismo, no entanto, estava entranhado não só na classe intelectual da época, como nas próprias mulheres. ‘Temos de pensar no exemplo da tela da Tarsila do Amaral, que é do início dos anos 1930, mas que representa os operários. No período dos anos 1920, no operariado paulista, têxtil, a maioria era de mulheres. Na representação que ela faz, há 25 rostos de mulheres, para mais de 100 de homens. Isso que eu falo: a mulher internaliza esse machismo”, analisa. Confira a entrevista completa a seguir.

O movimento modernista foi essencialmente masculino, embora tenha tido como start uma exposição feita por uma mulher, Anita Malfatti. Como as mulheres lidavam com este ambiente intelectual da época e o que faziam para serem ouvidas, vistas e lidas? E em qual contexto elas viviam?

O movimento modernista foi machista, mas a construção do movimento também foi masculina. Teve algumas escritoras, mas sempre com uma documentação de homens e uma visão, ao longo desses 100 anos, muito ligada ao patriarcalismo. Acho que hoje, no centenário, a gente tem novas publicações, exposições e pesquisa com documentação ou novas interpretações que nos dão uma abertura de entender que havia mulheres no movimento, mas que, principalmente, ele não aborda, não comporta, não tem atenção às mulheres. Neste sentido, me parece que Anita, como precursora, é absolutamente inconteste, inclusive com as suas exposições anteriores a 1922. Ela é uma pessoa absolutamente ousada e original. Quanto à questão das mulheres de forma geral, a gente precisa perguntar quem são elas? Pensando em termos dos lugares que têm no espaço público e privado, temos de pensar no exemplo da tela da Tarsila do Amaral, que é do início dos anos 1930, mas que representa os operários. No período dos anos 1920, no operariado paulista, têxtil, a maioria era de mulheres. Na representação que ela faz, há 25 rostos de mulheres, para mais de 100 de homens. Isso que eu falo: a mulher internaliza esse machismo. As mulheres, então, no espaço público, na São Paulo dos anos 1920, era operária. Ela pouco lia, ou poderia ler desde que estivesse dentro de uma organização partidária de esquerda. Não podemos esquecer que 1922 é a criação do Partido Comunista no Brasil. A gente vem de um período tenentista, temos um tempo muito denso e intenso de reivindicações. Nestes movimentos também tem o feminismo. Temos as classes médias em expansão, que reivindicavam trabalho de telefonista, o ideário republicano almejava que fossem professoras e elas vão tomando esses espaços. E na elite a gente tem ainda as salonistas como a dona Olívia (Penteado), mulheres instruídas em música, nas artes plásticas, mas mais restrito no sentido de escreverem suas reivindicações. Mas é um momento, nos anos 1920, de bastante efetividade do que elas almejavam, fundamentalmente o voto. A gente tem também a formação da Federação pelo Progresso Feminino. Antes tem a liga da emancipação da mulher, que depois se torna essa federação, algumas saem, porque isso é muito avançado ou outras porque é atrasado. Existem ali na percepção emancipacionista também várias vertentes. Temos, por exemplo, a anarquista Maria Lacerda de Moura que congrega os ideais com a Betha Lutz (ativista feminista) pelo voto. Mas depois Maria fala: ‘o voto não vai adiantar nada. A gente precisa de outras tantas ideias e ações’. 

Por que o espaço que elas tiveram nas artes plásticas, a duras penas, não foi o mesmo na literatura?

O que a gente conhece de Anita e Tarsila foi sendo um conhecimento progressivo ao longo do tempo. Fomos somando. Então a pintura era considerada muito menos reivindicatória. Elas eram instruídas a pintar naturezas mortas ou imagens sacras. A Anita diz nas pesquisas da Marta Rossetti Batista, que quando voltou da viagem para Alemanha e Estados Unidos, a família se decepcionou muito com o que viu, porque não eram ‘os santinhos de colégio’ – isso é literal. ‘Guardei as telas’. Podemos pensar nesse arrojo dela. A professora Ana Paula Simioni acaba de publicar pela EDUSP a pesquisa que ela fez para livre-docência, que o título é Mulheres Modernistas – Estratégias de Consagração na Arte Brasileira, em que trata a produção da Anita especialmente um tópico com os nus dela. Anita era muito ousada porque era muito raro uma mulher fazer a viagem que ela fez. Isso é um grande diferencial dela. Ela não foi para Paris – até viajou depois, mas não foi estudar. Foi estudar no centro do expressionismo. Depois foi para os Estados Unidos onde esteve com um grande professor. Era muito ousado, foi onde ela realmente desabrochou. Já escrevi, no início dos anos 1920, era considerado perigoso, pernicioso. Durante toda Colônia, Império, as mulheres eram relegadas ao analfabetismo. Poucas sabiam ler e escrever. E muitas sabiam fazer isso para poder rezar, anotar uma receita. O patriarcalismo achava a leitura e a escrita perniciosas, porque elas podiam se corresponder com os amantes, também organizar associações reivindicatórias. E elas começam a escrever, justamente, numa trama de solidariedade, com cartas umas para as outras, jornais e revistas femininas. E, posteriormente, são aceitas na imprensa maior. Além disso, a república também vê na instrução das mulheres a perspectiva de serem professoras, principalmente  para os meninos que seriam futuros ‘cidadãos da república’, além de escreverem livros de material escolar para as crianças. Tinha esse projeto. Então, muitas escritoras começam com livros infantis. Madame Chrysanthème, a própria Júlia Lopes de Almeida, Francisca Julia (da Silva), grande poeta, que morreu em 1920. Da educação escolar entram em romances, contos, para adultos. 

Você acaba de publicar um texto no livro Modernismos 1922-2022, organizado pela Gênese Andrade, da Companhia das Letras, que diz que essas escritoras são modernas, não modernistas. Queria que me explicasse essa afirmação.

Vou explicar com três das escritoras que analisei. Podemos pensar que a Madame Chrysanthème, a Maria Cecília Bandeira de Melo, pode ser considerada, a meu ver, uma modernista moderna. Leve modernista, eu diria. Por que? Ela não tem o arrojo da sintaxe modernista, não rompe com os parâmetros estéticos vigentes, como fizeram Bandeira, o Mário, Oswald, por exemplo. Mas no texto dela há um certo coloquialismo, bastante ironia, que eram traços do modernismo literário. Então, ela tem um certo modernismo porque era jornalista e na profissão há uma rapidez, cortes ligados ao cinema, que os modernistas usam muito. E ela era moderna no tema. A produção é vinculada pela questão da emancipação da mulher. Não uma educação para ser professora, mas para emancipação de si mesma, para poder ser uma pessoa melhor, para poder trabalhar. Ela fala do voto, do adultério, não no sentido de que há uma fragilidade e futilidade em ter um amante, mas a razão que acontece isso. Porque a mulher na classe média alta era muito circunscrita à esfera doméstica. O que ela fazia? Pensava nos seus desejos eróticos, românticos, e arrumava um amante. Ela analisa essas frustrações e decisões das mulheres. Temos também duas outras escritoras importantes que analisei que é a Ercília Nogueira Cobra, que escreveu dois livros: Virgindade Inútil e Virgindade Anti-higiênica, na década de 1920, que foram censurados. Ela foi muito fiscalizada pela polícia. E a gente tem uma artista que já me referi, Maria Lacerda de Moura, que era também professora, mas tinha uma visão de educação muito mais ampla como a escola como reprodução do sistema. E as duas tinham um diálogo com os ideais, as políticas da época, que eram higienistas e eugenistas. A ordem pelo progresso, o branqueamento, o racismo, o machismo. E elas dialogavam com isso. Por essa razão, modernas. Aliás, infelizmente, modernas até hoje. Por isso intitulei meu artigo com ‘elas eram muito modernas’. 

Quem de fato designaria como uma autora modernista?

Chrysanthème… Modernista no quilate dos homens, nenhuma. Eu não conheço. Mas como falei, existem novas pesquisas, quem sabe a gente chegue a uma delas, mas penso que não. Porque o modernismo é a ideia da rua, da celeridade da rua, do movimento, e as mulheres eram muito circunscritas à esfera doméstica. E mesmo as que saiam todos os dias às ruas eram operárias. A gente tem, por exemplo, uma tentativa de romance modernista feito pela Patrícia Galvão, que é o Parque Industrial. Ela tenta fazer uma junção entre uma linguagem modernista com um tema moderno, que é o do operariado. Mas ela mesma diz no texto que foi publicado em 2005, com o título Paixão Pagu, uma espécie de autobiografia que ela escreve para o segundo marido: ‘eu não queria escrever. Foi Oswald que insistiu’. Na verdade ela dizia que queria escrever um texto revolucionário sobre os operários. Ela já está no Partido Comunista com Oswald. O Parque foi publicado em 1933, mas ela não tinha experiência operária para escrever um livro com maior profundidade. Isso é uma questão do tema. Já sobre a linguagem, é claro que ali tem toda a relação dela com Oswald, ela aprendeu a fazer. Nada contra, absolutamente. Aliás, escrevi um texto para um congresso que se chamou Criações Compartilhadas e, ao mesmo tempo que ela escrevia Parque Industrial, ele escrevia Serafim Ponte Grande e outras obras concomitantes. E os dois militavam no partido. Mas Pagu era uma mulher muito intensa, forte no sentido de se jogar na causa, era extremamente radical. O próprio partido fez com que ela publicasse o livro às expensas de Oswald, com codinome, que era Maria Lobo. Porque eles não devem ter gostado do texto, que é mesmo muito panfletário. Essa é a minha visão, que não é a corrente, porque ela é vista como uma grande feminista. Não é minha opinião. A grande feminista é Maria Lacerda de Moura, sem dúvida nenhuma. Era tão feminista que disse: ‘emancipar a mulher? Não. Emancipar a humanidade’. A gente, mulheres e homens, se não emanciparmos os homens do seu machismo, vai ser difícil…

Nesta ocasião do centenário, acredita que as mulheres, principalmente as artistas, encontraram o espaço pelo qual lutam há tantos anos?

Hoje? Acho que de certa forma, mas não completamente. Há muito o que se fazer. Hoje, há muitas pautas identitárias, o que enfraquece a pauta maior, que é: nós precisamos nos libertar da ideia de ordem e progresso. Nos libertar do racismo, quer dizer. A naturalização de tantos preconceitos por 500 anos deve ser uma pauta comum. Sim, a gente tem artistas hoje, posso citar, por exemplo, Adriana Varejão, que tem uma exposição magnífica na Pinacoteca e ela mostra as entranhas do que nós somos. Ou seja, o que somos? A gente precisa se juntar e não especificar as pautas. É claro que as identitárias são fundamentais, mas não esquecer o horizonte. Acho que precisamos bater nessa tecla. 

Qual foi a maior mensagem que estas mulheres ‘modernas’ deixaram para as próprias gerações?

Acho que pouco. Como falei, a Ercília foi censurada, os livros foram retirados de circulação. Então pouco se conheceu. Até porque nos anos 1920 a gente tinha mulheres analfabetas, não só no letramento, mas políticas também. Para ler essas mulheres é preciso ter uma certa visão política emancipatória. Elas não faziam romances, poemas. Faziam reivindicações. Foram cerceadas e pouco lidas. É importante hoje publicar. Poderíamos ter, já que estamos neste ano, a Ercilia Cobra. Vejo um certo mal-estar, por exemplo, a Unicamp ter na lista de literatura para o vestibular A Falência, da Júlia Lopes de Almeida, que é considerada uma feminista. Para mim não. Estudei a obra dela inteira para o meu doutorado. Acredito que feminismo é uma coisa mais radical. Não sei se eu sou muito radical….

(Miriam Gimenes/Agenda Tarsila)

Publicada em 18 de abril de 2022

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