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Livro a ser lançado em janeiro revisita a Semana de Arte Moderna e preenche lacunas

Manuel Bandeira (1886-1968) teve o seu poema Os Sapos lido por Ronald Carvalho no palco do Theatro Municipal de São Paulo, na ocasião da Semana de 22. Mas, depois de certo tempo, Bandeira ficou um tanto entediado de falar sobre o evento. Tanto que quando passaram-se cinco décadas do fato ocorrido, ao ser questionado por um jornalista pela efeméride, disse que não via sentido em ficar rememorando o festival. E desafiou: ‘Se daqui 100 anos se lembrarem de nós, então sim (falaria sobre o assunto)’. Ele não está mais entre nós, mas sua afirmação foi premonitória. Tanto que, às vésperas de completar cem anos, a Semana ainda suscita estudos, discussões, polêmicas e novas interpretações.

É o que faz o livro Modernismos: 1922-2022, a ser lançado pela Companhia das Letras em janeiro. Organizado pela professora, pesquisadora e tradutora Gênese Andrade, com consultoria de Jorge Schwartz, a publicação conta com mais de 30 colaboradores, das mais variadas áreas, que analisam o evento histórico sob a ótica atual.  “O livro questiona algumas interpretações e traz novas leituras a partir do novo contexto que vivemos”, adianta Gênese. Questões de gênero, racismo, representatividade e abordagem do tema pela crítica são algumas das pinceladas a serem encontradas nas páginas da obra, que está saindo do forno. Confira, a seguir, entrevista de Gênese Andrade para Agenda Tarsila: 

Nosso assunto, como todos sabemos, é a Semana de 22. Queria que me contasse um pouco sua história como estudiosa e quando você se envolveu com o assunto, para se tornar uma especialista. 

A história é longa. Fiz a minha carreira na USP (Universidade de São Paulo), graduação, mestrado e doutorado, estes dois últimos em Literatura Hispano-americana e quando estava terminando o mestrado conheci o Amos Segala, que era coordenador, criador, da Coleção Arquivos, edições críticas de escritores brasileiros, pan-americanos e do Caribe. Ele gostou muito do meu trabalho, estava sendo iniciada a concepção dos volumes sobre Oswald de Andrade, coordenados pelo Jorge Schwartz (escritor e professor). E ele me convidou para trabalhar no estabelecimento de texto da poesia do Oswald após conhecer meu trabalho de mestrado. Era 1995 e comecei a estudar Oswald de Andrade. E no doutorado trabalhei com poetas que também foram pintores, brasileiros e uruguaios. E a partir deste trabalho foi se abrindo um campo novo para mim e aconteceram coisas que foram me trazendo cada vez mais para as pesquisas em torno da literatura e das artes visuais do modernismo. Em 2000 o Jorge Schwartz fez a curadoria de uma exposição que se chamou Brasil: Da Antropofagia a Brasília, que foi apresentada pela primeira vez em Valência (Espanha), no Instituto Valenciano de Arte Moderna, e depois no museu da FAAP em 2002,  e eu fui assistente de curadoria. Fiz a cronologia, coordenei a edição do catálogo. Quando Jorge fez a Caixa Modernista, que na verdade é um desdobramento da exposição Da Antropofagia a Brasília, também trabalhei, fui assistente editorial e minhas pesquisas foram se voltando sempre para este tema. Acabei também tendo a possibilidade de ministrar cursos, escrever textos, sobre Oswald e a Semana de Arte Moderna, publicado na revista da Unicamp em 2013. E, mais recentemente, ministrei curso sobre os antecedentes da Semana na Casa Mário de Andrade. 

E por falar neste curso, sabe-se que a Semana de 22 ocorreu aqui em São Paulo porque não havia uma questão cultural forte e a elite da época queria trazer essa efervescência para cá. Foi só isso mesmo, ou algo a mais influenciou para que ela ocorresse em fevereiro daquele ano?

O que percebo é que os jovens dos anos 1910, 1915, estavam insatisfeitos com a arte que se produzia naquele momento. É lógico que foram formados nesta tradição de leitura do romantismo, do realismo, do simbolismo, mas quando começam a escrever nos jornais e a produzir a própria literatura eles demonstravam insatisfação com o que era produzido e queriam algo novo, que estivesse mais alinhado com o que de mais recente havia no exterior. Estes jovens eram o Oswald de Andrade, o Mário de Andrade, Menotti del Picchia, todos em São Paulo. Quando Oswald cria a revista O Pirralho, em 1911, já vinha aí uma inovação. É lógico que ele nem tinha obra literária escrita, ele tinha 21 anos, mas já tem uma proposta de criar algo novo, tanto que contratou um caricaturista excelente que era o Vitorino, e havia crítica social, política, paródia da língua que se falava em São Paulo, misturada com as trazidas pelos imigrantes. Havia uma vontade de inovar nas artes. E paralelamente começa a se produzir nas outras artes obras inovadoras, no caso da escultura o Brecheret, na pintura Anita Malfatti, e estes jovens vão se interessar por essa produção artística mais inovadora e querem que isso tenha mais visibilidade. Quando começam os preparativos para o centenário da independência, em 1922, eles questionam: que independência é essa? Se falava de uma independência política. Mas como é que estávamos em termos de produção artística? Se podia falar por uma independência de Portugal? Porque a literatura ensinada, lida, era muito próxima da literatura portuguesa, mas a nossa língua, na escrita, e mesmo a palavra era muito contrária do português de Portugal. E eles começam, inclusive Oswald, a defender o registro da oralidade. Esse desejo de produzir e divulgar arte nova é o que leva à concepção da Semana de Arte Moderna de 22. E este grupo que estava em São Paulo era muito forte, muito ativo. Embora tenha sido um crítico forte do modernismo, Lobato precisa ser mencionado, porque foi uma figura importante como jornalista. Trabalhou no O Estado de S.Paulo, na Revista do Brasil, foi editor. Ele criticou a exposição da Anita em 1917, editou os livros de cujas obras foram lidos trechos na Semana. E ele foi o editor de Os Condenados, de 1922, de Oswald, editou O Homem e a Morte, de Menotti, e recebeu o Pauliceia Desvairada para publicar, mas não publicou. A crítica que ele fez à exposição, ela é complexa. Sempre se divulgou como uma destrutiva, mas ele sempre reconheceu as qualidades dela (Anita), e também chegou a escrever textos favoráveis ao Brecheret e ao Vicente do Rego Monteiro. Isso é menos comentado. Você veja: se tínhamos em São Paulo Oswald, Mário, Menotti, todos com espaço na imprensa e também produzindo obras literárias, Anita, o próprio Lobato, o Vitorino como caricaturista, chega o John Graz, depois em 1922 a Tarsila, é um grupo muito forte, interessado em produzir uma arte. Não foi por acaso que a Semana de Arte Moderna aconteceu em São Paulo. E eles começam a conhecer a produção também de outros que vêm a serem modernistas importantes em 1921. Mas não se pode falar em influência. Por exemplo: Eles conheceram (Manuel) Bandeira em 1921, o grupo foi para o Rio de Janeiro, Mário esteve com Ronald de Carvalho, Bandeira, mas não se fala em influência. Mário de Andrade até comenta que tinha conhecido Carnaval (livro de 1919), mas eles vão se aproximar depois desta viagem. A correspondência do Mário com Bandeira vai começar em meados de 1922.

E ocorreu este clímax produtivo na Semana de 22, que teve ecos até o início da década de 30, com toda questão de Oswald e Tarsila. Conhecedora da história dele, acha que depois Oswald se viu um pouco ressentido de ter caído no esquecimento, até por conta das brigas, que fizeram ele se afastar do Menotti, do Mário. Como você vê este final de vida do escritor, um homem tão importante para a história do modernismo?

A história do Oswald vai caminhando de uma forma interessante. Nos anos 1920 ele tem uma situação financeira excelente, viaja para Europa, era um momento de muita produção intelectual, em termos de escrita de romance, poesia, jornais, entrevistas, conhecimento dos vanguardistas, porque esteve um ano em Paris, em 1923. Nos anos 30, por causa da queda da bolsa de Nova York, não tem uma situação financeira tão confortável e vai se filiar ao partido comunista, com atuação voltada para outras questões. Nos anos 40 ele volta para o romance e a poesia, é quando ele publica Poesias Reunidas, que escreve em 1945, e começa também um ciclo, que se chama Marco Zero, além de uma atuação imensa no jornalismo. Publica muitos textos em jornais. A coluna que escreveu por mais tempo, até as vésperas da morte, foi a Telefonema. Ele não teve a obra reeditada como gostaria.  Ele teve os romances reeditados, mas não os mais inovadores, que são Memórias Sentimentais (de João Miramar) e Serafim (Ponte Grande). Não sei como a gente pode pensar esta história de que estava esquecido. Ele tinha espaço nos jornais, participava das polêmicas, teve estas reedições dos anos 1940. Ele não era, talvez, reconhecido como gostaria no sentido de ser a referência maior do modernismo, porque Mário é uma figura que cresce muito, merecidamente, porque também atuou em muitas áreas e fez muitas pesquisas. Teve muita visibilidade com Macunaíma, circulava muito por sua correspondência, tinha muitos amigos. Nos anos 1950, que já temos outro momento histórico, realmente Oswald circula menos. E se diz que ele se ressentiu de não ter podido reeditar os romances, um desejo que ele tinha. Mas é um momento em que temos uma produção significativa não só em São Paulo, mas no Brasil todo, e todos eles querem espaço. O próprio Mário vai ver sua obra ser reeditada pela década de 1940. Não se fala: ‘ah, o Mário estava no ostracismo’. Não estava, mas também não tinha tanto espaço porque nós tínhamos neste momento Drummond, Cecília Meireles, o próprio Jorge de Lima, o Murilo Mendes. Em 1950 vamos ter o João Cabral, surge a poesia concreta, quer dizer, sempre há um olhar mais atento para a novidade. Estes que tinham começado nos anos 1920 tinham menos espaço do que os outros. Oswald estava atuando seriamente e atuando também nas polêmicas. 

E ele morreu bem ressentido de não ter feito as pazes com Mário, que era o grande amigo dele… 

Esse rompimento com Mário foi bastante sério. Houve o rompimento dele com o Paulo Prado, por causa deste momento do fim dos anos 1920 em que a Revista de Antropofagia se tornou um espaço de crítica muito ácida, ironias descabidas, não só por parte do Oswald, isso que levou o rompimento com Mário, com Paulo Prado. O Blaise Cendrars se afasta dele também, porque era muito amigo do Paulo Prado. Com outras pessoas houve brigas e reconciliações, o único que não quis foi Mário. Nas cartas ele chega a dizer que tem muita admiração e carinho por Oswald, mas talvez ele não esperasse ter sido tão magoado como foi. Se voltassem não seria como antes. 

O que aconteceu para que a Semana voltasse à tona e que as pessoas começassem a rediscutir, a se inspirar, qual foi o ponto alto na sua opinião?

A Semana sempre foi retomada a cada dez anos. Os próprios protagonistas eram chamados para falar sobre ela. Nos anos 1950 houve uma série de entrevistas publicadas no Diário Carioca, no Rio, onde foi entrevistado o Bandeira. E ele fala uma coisa engraçada, ‘que não vê sentido em ficarem rememorando a Semana de 22’. Daí ele diz assim: ‘se daqui 100 anos se lembrarem de nós, então sim’. Isso vira uma coisa premonitória (risos). Depois o contexto não era favorável. Em 1972 era um contexto ditatorial, mas houveram coisas importantes, uma exposição no Masp, a da Tarsila em 1973. As pessoas se voltando muito para Tarsila que era uma das poucas sobreviventes. Acho que quando Zé Celso faz O Rei da Vela, em 1967, a obra de Oswald passa a ser revisitada, algo que já tinha começado em 1964 com a reedição da obra dele, acompanhada pelo Antonio Candido. Tem a segunda edição de Memórias Sentimentais de João Miramar, em 1967, no contexto da peça se publica a segunda edição do Rei da Vela – a primeira tinha sido em 1937 -, e a partir daí os irmãos campos (Haroldo e Augusto), o Décio Pgnatari também, que tinham conhecido Oswald no fim da vida, começam a estudar a obra. Então, o Memórias sai com prefácio do Haroldo de Campos e também vamos ter a nova edição da Poesias Reunidas. Estes novos estudos vão fazer com que estas novas gerações comecem a se voltar para a obra dele. A do Mário começou a ser reeditada nos anos 1940, ela vai começar a ser objeto de tese e estudos acadêmicos, muitos orientados por Antonio Candido na USP, e a partir daí nós temos uma circulação maior para estas obras. Tem de ser pensado que existe um movimento no mercado editorial. Obras que não eram acessíveis, passam a ter interesse por eles. Nos anos 1970 temos também uma atuação importante do Mário da Silva Brito, que conheceu Mário e Oswald, atuava no jornalismo, e existia um movimento no mercado editorial pelos jovens poetas, como Ferreira Gullar, que admirava muito Oswald, além do movimento na universidade. Estes jovens, também como os modernistas, vão ter espaços nos jornais, vão atuar como críticos e revisitam estas obras. Enquanto nas artes visuais temos as exposições da Tarsila, da Anita, o mercado de arte começa a se interessar por estas obras, algumas em coleções particulares mudam de mãos, vão para museus, isso tudo faz diferença. E tem o cinema também, o cinema novo, que faz o Macunaíma, que trazem novos espectadores, novas leituras. 

Cem anos depois, que visão você tem do evento na história da cultura brasileira?

A Semana, embora no momento ela não tenha repercutido muito fora de São Paulo, o que estes modernistas fizeram, a importância que teve a obra ao longo da história, fez com que ela virasse um ícone. Então ela tem um valor simbólico muito grande. Porque quando se fala em Oswald de Andrade, ele participou, Mario, Anita… Tanto é um evento muito simbólico que é sempre rememorado. Não vejo, por exemplo, as pessoas, a cada dez anos, fazendo eventos em torno de Macunaíma, se faz na universidade. Estamos em um momento atípico, mas sempre houve, no Theatro Municipal, eventos para lembrar a Semana, no Museu da Imagem e do Som. Ela foi um evento também muito significativo pelo fato de ser interdisciplinar, com leitura de poesia, apresentação musical, pintura, escultura, faltaram cinema e teatro. Reunir estas várias linguagens em um evento… A gente demorou para ter eventos assim, com visibilidade e força. As novas gerações já nascem em um contexto muito mais interdisciplinar, mas isso não era tão frequente até os anos 1950. 

Você está trabalhando em um livro que dá um novo olhar para a Semana e as pessoas que participaram. O que você pode antecipar deste livro e quando deve chegar ao público leitor?

O livro se chama Modernismos: 1922 – 2022, vai ser publicado pela Companhia das Letras, e está previsto o lançamento para janeiro. A proposta é revisitar a Semana de Arte Moderna e o modernismo preenchendo lacunas. Pensar um pouco questões a partir de novas demandas. Temos algumas reivindicações sobre a relação dos modernistas com a cultura popular, a questão da representação feminina nas artes dos anos 1920, como foram representadas as vanguardas. O modernismo precisa ser revisto à luz destas questões que são demandas mais recentes, das novas gerações. Durante muito tempo não se questionou o fato de que aquela foto que foi muito tempo divulgada como da Semana de Arte Moderna, mas que o Carlos Augusto Kalil disse que foi feita em 1924, que as mulheres não aparecem. Não se questionava isso, mas as mulheres tinham uma presença muito forte, a Anita, a Zina Aita, na parte de música, e elas não aparecem na foto. Hoje se discute muito a questão da representatividade e estas mulheres foram figuras muito importantes na nossa história da arte. Por que não aparecem? Onde estavam as escritoras? E a questão do negro. Durante muito tempo a tela A Negra, da Tarsila, foi muito discutida e valorizada esteticamente, mas pouco se discutiu como o negro é representado nesta tela. Então, tudo isso aparece nos textos dos especialistas, que são da área de literatura, artes visuais, arquitetura, moda, música, e as leituras acabam dialogando. Porque quando se fala da música, também se fala da literatura e a ideia foi também essa, que houvesse uma interdisciplinaridade. Também temos textos repensando as leituras que se fez do modernismo, os desdobramentos, por exemplo, dos herdeiros da antropofagia, que vai se desenvolvendo e aparece na obra de artistas posteriores, como os novos escritores dialogam com os modernistas, se questionam esta produção. Isso foi pensado para que aparecesse no livro de uma forma bastante crítica, atribuindo o valor para determinadas questões, mas ao mesmo tempo questionando algumas interpretações e trazendo novas leituras a partir do novo contexto que vivemos. 

(Miriam Gimenes/Agenda Tarsila)

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