Acervo do Museu da Cidade de São Paulo

Livro mostra bastidores do trabalho de Mário de Andrade à época que liderou o Departamento de Cultura de São Paulo

Paulo Duarte, jornalista, advogado e intelectual de destaque na sociedade paulistana no início do século passado, teve um papel importante na vida de Mário de Andrade. Foi dele a ideia de criar o Departamento de Cultura e Recreação da Prefeitura de São Paulo, à época em que quem estava à frente do Executivo era o prefeito Fábio Prado. Para capitanear seu projeto, chamou o modernista, que entre 1935 e 1938 não fez mais nada além de se dedicar ao seu papel de funcionário público. Ou melhor, fez muito. 

Grande parte dos bastidores desse período, e da amizade dos dois, está retratada no livro Mário de Andrade Por Ele Mesmo (Todavia), de autoria do próprio Paulo, com prólogo de Antonio Candido e organizado por Flávio Rodrigo Penteado, lançado há pouco em ocasião do centenário da Semana de Arte Moderna. Foi com o Penteado que a Agenda Tarsila conversou, para saber um pouco mais sobre esse período tão próspero para Mário, mas também grande responsável por suas aflições, tanto que chegou a dizer, em certo momento: ‘o Departamento é meu túmulo’. A obra traça um retrato íntimo e emocionado do escritor modernista. Confira, a seguir, a entrevista completa:

Mário de Andrade escreveu mais de 7 mil cartas em vida, e o livro reúne as que ele trocou com Paulo Duarte. Conte-me um pouco sobre a relação deles e o teor das missivas.

Antes de falar um pouquinho sobre isso, você me permite fazer um esclarecimento? O livro não reproduz apenas a correspondência de ambos, originalmente reunida, comentada e anotada por Paulo Duarte em 1971, às vésperas do cinquentenário da Semana de Arte Moderna. No capítulo 6, As Nossas Cartas, esses textos são também entremeados por mensagens que Mário enviou a uma das irmãs do Paulo, Maria Aparecida Junqueira Duarte (a D. Nini), então chefe da Seção de Parques Infantis do Departamento de Cultura e de Recreação da Municipalidade. Aliás, esse órgão da prefeitura de São Paulo, precursor da atual Secretaria Municipal de Cultura, foi instituído em maio de 1935, durante a administração Fábio Prado (1934-1938), graças ao empenho de intelectuais modernistas, entre eles Mário de Andrade, quem primeiro o dirigiu, e Paulo Duarte, que, apesar das divergências estéticas – sobretudo no início dos anos 1920 -, se tornou amigo íntimo de vários deles. Aqui e ali, o livro ainda inclui cartas a Paulo Ribeiro Magalhães, que esteve à frente da Seção de Teatros e Cinemas. Já no capítulo 7, temos acesso às Cartas a Sérgio Milliet, cunhado de Paulo Duarte e responsável pela Divisão de Documentação Histórica e Social. Assim, muitas dessas missivas se assemelham a ‘cartas de trabalho’, testemunhando a experiência dos interlocutores no serviço público. No entanto, apesar de as mensagens trocadas entre Mário e Paulo nos convidarem, por vezes, a explorar os bastidores do Departamento de Cultura, variados são os temas que alimentavam esse diálogo. Além de política, eles também debatiam literatura, história, sociologia, antropologia, folclore e até mesmo culinária. Inclusive, foram esses dois últimos tópicos o que aproximou os dois amigos, conforme o próprio Paulo Duarte recorda no início do livro. Ainda segundo o depoimento do autor, teria sido ele o responsável pela indicação do nome de Mário para dirigir o Departamento de Cultura, durante o período em que prestou assessoria jurídica ao prefeito Fábio da Silva Prado – na prática, porém, Paulo Duarte desempenhava o papel de chefe de gabinete do administrador municipal.

Qual o papel que os dois tiveram para o desenvolvimento da cultura não só de São Paulo, como também do país?

Acredito que sua pergunta se refira ao papel deles como gestores culturais. Mais do que decisivo, foi exuberante o desempenho de ambos na criação de políticas públicas para o setor cultural, até então inexistentes no país. De fato, não havia, em parte alguma do Brasil, nada parecido com o Departamento de Cultura. Ainda que a iniciativa aproveitasse algumas estruturas já em funcionamento na cidade, como o Theatro Municipal, o Arquivo Histórico, o Parque Infantil Pedro II e a Biblioteca Municipal, a concretização desse projeto – fruto do trabalho de inúmeros artistas e intelectuais, vários deles referidos por Paulo Duarte no livro – representou o esforço sem precedentes de reunir diversos equipamentos culturais sob a responsabilidade de uma única instituição. Dito isso, é importante esclarecer que o órgão não se ocupava apenas de cultura no sentido estrito. Isso porque o Departamento de Cultura também encampava ações de assistência social, educação, esportes, estatística, lazer, planejamento urbano e turismo. Tudo isso justificava a generosa dotação orçamentária daquele organismo, que dispunha de 10% do erário municipal. De acordo com o relato de Paulo Duarte, a proposta se inseria nas ambições do Partido Constitucionalista de conduzir à Presidência da República o então governador do Estado, Armando de Sales Oliveira. Embora os dois amigos tenham pertencido ao Partido Democrático, antecessor do PC, apenas Paulo se transferiu para a nova agremiação, pela qual se elegeu deputado, enquanto Mário nunca mais se associou a nenhum partido. Percebe-se que, assim como a Universidade de São Paulo – de cuja criação Paulo Duarte participara em 1934, apesar de seu nome não constar no decreto de fundação -, o Departamento de Cultura se inseria em uma agenda política mais ampla, de caráter nacional e não apenas regional. Se é evidente, por um lado, o objetivo, traçado pela elite paulista da época, de alcançar uma hegemonia não atingida pelas armas na Revolução Constitucionalista de 1932 ou pelo poderio econômico, não é desprezível, por outro lado, a projeção do Departamento de Cultura como protótipo de um Instituto Paulista de Cultura. Uma vez implantado, este serviria de modelo para um futuro Instituto Brasileiro de Cultura. Isso tudo aproximadamente cinquenta anos antes da criação do hoje extinto Ministério da Cultura! Daí se percebe o caráter visionário da instituição que Mário de Andrade e Paulo Duarte ajudaram a colocar de pé. A correspondência deles ainda menciona o importante papel exercido por Mário na estruturação do antigo Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Sphan), que posteriormente daria origem ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), órgão federal de proteção ao patrimônio cultural brasileiro. Aliás, esse é o órgão do qual, em dezembro de 2021, o atual Presidente da República se orgulhava de ter ‘ripado todo mundo’, após um conhecido empresário do setor varejista, e notório apoiador do mandatário, ter reclamado da dificuldade de erguer um novo empreendimento sobre um possível sítio arqueológico…

A Cultura era um descampado em plantação. E Mário já vinha lutando há tempos para formar a arte essencialmente brasileira. Quais foram as sementes plantadas por ele que frutificam hoje?

Retomando a metáfora proposta por você, a Cultura hoje é uma várzea em devastação. O fim da minha resposta anterior dá a medida do acelerado desmonte, ainda em curso, pela atual administração federal, de instituições culturais edificadas ao longo do século 20. Ainda assim, especificamente na cidade de São Paulo, resistem iniciativas derivadas da gestão Mário de Andrade no Departamento de Cultura (1935-1938). Lembro-me de três pessoas que, à frente da Secretaria Municipal de Cultura (instituída em 1975), assumidamente se espelharam em ações promovidas por seu ilustre antecessor. Em primeiro lugar, Mário Chamie, em cuja gestão (1979-1983) se deu a criação do Centro Cultural São Paulo, abrigando não apenas a Discoteca Oneyda Alvarenga (em homenagem à primeira diretora da Discoteca Pública Municipal, ex-aluna de Mário de Andrade no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo), mas também o acervo constituído pela Missão de Pesquisas Folclóricas, que foi o último – e o mais ambicioso, talvez – projeto desenvolvido sob a tutela de Mário de Andrade no Departamento de Cultura. Em segundo lugar, Marilena Chauí, em cuja gestão (1989-1992) se processou uma fundamental revitalização tanto do prédio quanto do acervo da Biblioteca Mário de Andrade (a antiga Biblioteca Municipal, reorganizada por Rubens Borba de Moraes a partir de 1936). Em terceiro lugar, Carlos Augusto Calil, em cuja gestão (2005-2012) ocorreu a implantação do Sistema Municipal de Bibliotecas, dezenas delas reformadas e renovadas durante essa administração, bem como a ampliação do programa Ônibus-biblioteca, inspirado em uma das primeiras propostas do Departamento de Cultura, a Biblioteca Circulante – inicialmente instalada em uma única caminhonete, depois em quatro, ela levava livros a praças públicas, indo ‘em busca do seu público onde este estiver’, conforme as palavras do próprio Mário.

Não fosse esse trabalho em conjunto feito no Departamento de Cultura, as artes escondidas no Brasil profundo daquela época teriam sido descobertas?

Nos termos em que está colocada, penso ser preciso muita cautela para responder a essa pergunta. Tendo a responder que sim, mas não sem fazer algumas ponderações. Nas primeiras cartas trocadas entre Mário e Carlos Drummond de Andrade, o nacionalismo é um tópico recorrente. Drummond se considerava um exilado na própria terra em que nascera e chega a lhe declarar ter nascido por engano não em Paris, mas em Minas Gerais. “Acho o Brasil infecto”, escreve ele, antes de complementar: “O Brasil não tem atmosfera mental; não tem literatura; não tem arte; tem apenas uns políticos muito vagabundos”. Mário reage com veemência a essas colocações, mas não porque fosse um ‘patriotário’ – recorro a expressão cunhada, nos anos 1970, por José Paulo Paes. Mário e Drummond estavam de acordo em um ponto: ser brasileiro era apenas um acaso, pois tanto podiam ter nascido aqui quanto em qualquer outra parte do mundo. Daí se percebe por que nenhum deles adota princípios ufanistas. Mas, enquanto Drummond lamenta sua nacionalidade brasileira e enxerga na França um modelo civilizacional, Mário reage contra o que chamou de “despaisamento provocado pela educação em livros estrangeiros”. Segundo a perspectiva de Mário, diante do acentuado afrancesamento dos ditos meios cultos do nosso país, era necessário “dar ao Brasil o que ele não tem”, isto é, uma independência cultural, levando-nos a superar o que mais adiante Nelson Rodrigues chamaria de “complexo de vira-latas”. Nas palavras de Mário a Drummond, era preciso mirar o “abrasileiramento do Brasil”. Como assim? Imaginemos que o Brasil fosse uma pessoa. Caso essa pessoa buscasse enxergar o próprio reflexo no espelho, nada enxergaria, tão acostumada estava a se medir por referências estrangeiras. Essa é a base do raciocínio de Mário. O símbolo maior desse projeto viria a ser Macunaíma, “o herói sem nenhum caráter” – enfatize-se, claro, que ‘sem caráter’ é sinônimo de ‘vazio’ e não de ‘mau caráter’. Mário estava em busca do ethos cultural do Brasil, daquilo que fazia o Brasil ser o Brasil, e não um reflexo da França ou de qualquer outra nação europeia. Ainda me valendo da imagem do Brasil como uma pessoa, é como se Mário propusesse ao Brasil uma autoanálise, convidando-o a olhar menos para os outros do que para si mesmo. Nesse processo de sondagem interior, seria imprescindível a investigação de tradições cultivadas longe de ambientes urbanos, onde eram muito marcantes as referências estrangeiras. Daí o interesse de Mário por folclore, no qual vislumbrava um instrumento de acesso às “raízes do Brasil”, para citar a expressão célebre de Sérgio Buarque de Hollanda. Ao contrário do que defendem alguns estudiosos hoje em dia, penso que Mário, ao viajar para as regiões Norte e Nordeste no fim dos anos 1920, não assumiu uma postura “colonialista” em relação às regiões mais distantes do eixo Rio-São Paulo, à espera de serem “descobertas” e “reveladas” a si mesmas por intelectuais como ele. Esse “Brasil profundo” não era desconhecido de si mesmo, mas sim dos brasileiros ditos “cultos”, que, na visão de Mário, não faziam mais do que “macaquear” – a expressão é dele – referências estrangeiras, sobretudo francesas. Foi sem dúvida com base em sua experiência individual que ele, em seu último grande ato como diretor do Departamento de Cultura, mobilizou a Missão de Pesquisas Folclóricas. Partindo de São Paulo em fevereiro de 1938, a expedição tinha o objetivo de produzir registros fonográficos, fotográficos e cinematográficos de manifestações da cultura popular em vias de desaparecimento, face à industrialização e à difusão massificada de referências culturais estrangeiras por meio do rádio ou do cinema. Durante cinco meses, a Missão atravessou Pernambuco, Paraíba, Ceará, Piauí, Maranhão e Pará, recolhendo, em plena ditadura do Estado Novo, um número expressivo de gravações, partituras e objetos – nesse último caso, foram salvas da destruição imagens ligadas a cultos desenvolvidos em terreiros, alvos de intolerância religiosa praticada pela própria polícia da época. Indexado por Oneyda Alvarenga, todo esse material está atualmente preservado no Centro Cultural São Paulo e disponível para consulta.

A saída de Mário do Departamento de Cultura, da forma como foi, ecoou de que maneira nos anos restantes de sua vida?

Essa saída foi bastante traumática. Aliás, Mário não saiu, mas sim “foi saído” do Departamento de Cultura, conforme se diz coloquialmente. Em novembro de 1937, deu-se o golpe que estabeleceu o Estado Novo, subvertendo a conjuntura política que dava sustentação aos projetos desenvolvidos naquele órgão municipal. Primeiro, o novo regime depôs o governo Armando de Sales Oliveira e dissolveu o Legislativo. O agora ex-deputado Paulo Duarte passou a sofrer perseguição e foi detido inúmeras vezes, antes de se exilar no exterior um ano mais tarde. O prefeito Fábio Prado ainda resistiu no cargo por alguns meses, até ser afastado em maio de 1938. Em seguida, diante da pressão exercida pelo novo prefeito, Mário se viu compelido a deixar a diretoria do organismo que ajudara a conceber. Aproximadamente dois meses mais tarde, solicitou exoneração da chefia da Divisão de Expansão Cultural, posto de carreira na administração municipal que ele acumulava ao de diretor, sendo este cargo de confiança do Executivo. Pouco depois, mudou-se para o Rio de Janeiro, então capital federal, onde moraria até o início de 1941. Esse período viria a ser descrito por Moacir Werneck de Castro como ‘exílio no Rio’. Não à toa. As cartas de Mário a Paulo Duarte testemunham as saudades de casa e dos amigos, bem como o sentimento de autocomiseração, decorrente da forma brusca como se encerrou a passagem de ambos pela prefeitura. Durante um ano, ele lecionou na Universidade do Distrito Federal, mas esta foi extinta pela ditadura getulista em 1939, quando, sob nova orientação, foi incorporada à Universidade do Brasil. Sem emprego fixo e com muitas dívidas, Mário também sofria com o alcoolismo, vício agravado naquela época. É o próprio Mário quem, numa carta de janeiro de 1942, remetida a Paulo Duarte, diz ter a impressão de estar se suicidando aos poucos. Ele faleceria apenas três anos mais tarde, vítima de um enfarto no miocárdio.

Quem era o Mário de Andrade por ele mesmo? Como se via?

O título do livro bem poderia ser ‘Mário de Andrade por Paulo Duarte’, mas não teria o mesmo impacto. Outra opção, mais descabida – e com ainda menos apelo -, poderia ter sido ‘Paulo Duarte por Mário de Andrade’. Já no início do prefácio à primeira edição, conservado na edição atual, Antonio Candido enfatizava haver não um, mas dois protagonistas nessa obra: “Livro sobre Mário de Andrade, é também sobre Paulo Duarte, e sendo sobre ambos, esclarece a respeito de uma geração decisiva para o desenvolvimento da cultura no Brasil”. Trata-se, por certo, de um volume de difícil classificação, pois reúne traços de diferentes gêneros: biografia e crítica literária (capítulos 1 e 2, nos quais Paulo Duarte sintetiza os principais episódios da vida de Mário, bem como se dispõe a comentar os escritos do amigo); epistolografia (capítulos 6 e 7, em que se reúnem as cartas trocadas entre os dois, além daquelas remetidas por Mário a outros interlocutores, sobretudo Sérgio Milliet); memorialismo (capítulos 3, 5 e 8, aqueles em que Paulo Duarte, ao evocar sua convivência particular e profissional com Mário de Andrade, também nos oferece um retrato de sua própria vida); e, por fim, relato histórico (capítulo 4, que ainda hoje constitui uma das principais fontes de informação sobre o Departamento de Cultura, tamanha é a minúcia com que Paulo Duarte examina as atividades desenvolvidas pelo órgão entre 1935 e 1938; como se não bastasse, ele também analisa o progressivo desmonte do organismo no decorrer das administrações municipais seguintes). Ainda assim, diversos comentários de Paulo Duarte, ao longo da obra, atestam que ele a concebeu, fundamentalmente, como veículo de sua correspondência com Mário de Andrade. No romance Respiração Artificial (1980), do argentino Ricardo Piglia, há uma passagem – já realçada por Silviano Santiago – em que se alude às cartas como ‘modelo de autobiografia’, na medida em que palavras dirigidas a destinatários diversos, em situações distintas e sob o impacto de múltiplos estados de ânimo, equivaleriam ao caleidoscópio da vida de quem as escreveu. Nesse sentido, a imagem que se projeta em Mário de Andrade Por Ele Mesmo é a do homem cujo “espírito de sacrifício” – a expressão é de Paulo Duarte – orientou sua atuação como gestor público, absoluta e apaixonadamente entregue ao exercício de suas funções. É ilustrativa desse aspecto da personalidade de Mário aquela que talvez seja a carta mais dramática do conjunto, escrita por ele em 3 de abril de 1938, poucas semanas antes de se ver obrigado a abrir mão da diretoria do Departamento de Cultura. Embora admita a Paulo Duarte o prestígio, o “prazer de mandarzinho” proporcionado pelo posto mais alto daquele órgão, o ainda diretor logo ressalta o elevado preço da satisfação de suas vaidades: “o sacrifício de mim, sobretudo da minha liberdade e da minha felicidade pessoal. […] Sacrifiquei por completo três anos de minha vida […] dirigindo o D.C.”. Não era exagero: entre 1935 e 1938, Mário de Andrade praticamente não produziu literatura, tamanha foi sua entrega ao serviço público.

Como seu legado chega hoje?

Já que o livro de Paulo Duarte acentua uma faceta até então pouco conhecida daquele intelectual polivalente – a de servidor público –, vou me ater ao legado da gestão Mário de Andrade no Departamento de Cultura. Anteriormente, mencionei iniciativas da Secretaria Municipal de Cultura que resgatam aspectos daquele projeto ceifado pela ditadura getulista. Agora, para fechar essa entrevista, realço a finalidade crucial daquela instituição pioneira: a busca incessante pela democratização do acesso a bens culturais, num país que, já naquela época, era tão flagrantemente desigual. Dirigido por Mário de Andrade, para quem o devotamento ao serviço público não era mérito, mas dever – parafraseio passagem de um despacho dele ao prefeito Fábio Prado -, o Departamento de Cultura mirava a emancipação social: “Não basta ensinar o analfabeto a ler”, escrevia ele ao congressista Paulo Duarte, engajado na campanha Contra o vandalismo e o extermínio, em 1937. “É preciso dar-lhe contemporaneamente o elemento em que possa exercer a faculdade nova que adquiriu. Defender o nosso patrimônio histórico e artístico é alfabetização”. Conseguiremos nós, oitenta e cinco anos mais tarde, reavivar esse ideário quando as próprias instituições democráticas se encontram desvirtuadas?

(Miriam Gimenes/Agenda Tarsila)

Publicada em 11 de julho de 2022

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