Livro recém-lançado mostra a repercussão que a Semana de Arte Moderna teve entre os integrantes da ABL

‘Isso é apenas uma agitação’. Será? Essa foi a declaração que o então presidente da Academia Brasileira de Letras, Coelho Neto, deu ao ser questionado pelo jornalista Peregrino Jr. sobre o movimento que teve como ponto alto o evento no Theatro Municipal. A verdade é que não só ele, mas outros acadêmicos viam com receio o movimento que denominavam como ‘futurista’ e demoraram para entender as mudanças que propunham, principalmente no quesito literário.

Essa e outras entrevistas estão no livro recém-lançado É Apenas Agitação: A Semana de 22 e a Reação dos Acadêmicos nas Célebres Entrevistas de Peregrino Júnior para O Jornal (Editora Telha), escrito pela pesquisadora e mestra em Teoria Literária, Nélida Capela. Na publicação, a especialista faz uma análise dessas conversas, do contexto brasileiro da época e quais os desdobramentos que elas tiveram à época. Uma coisa é fato: o evento foi de extrema importância para a cultura brasileira. “Como Peregrino Jr. fala em um livro que ele publica que é O Movimento Modernista, uma conferência que ele dá no Uruguai, sobre o que é o movimento, ele diz ‘o Rio de Janeiro tinha difusão, mas São Paulo realizou’.” Confira, a seguir, a entrevista completa: 

Você acaba de lançar um livro que fala sobre o contexto da Semana de 1922 na época em que ela ocorreu e a repercussão dela. Do que se trata o livro?

Ele trata de uma série de entrevistas que foram realizadas em 1926 pelo Peregrino Júnior, que estava iniciando a carreira de cronista, mas era uma pessoa muito bem articulada. Era cunhado do Ronald de Carvalho, escrevia para jornal e tinha sido convidado para fazer entrevistas para passar para o público os impactos e desdobramentos deste movimento nas artes, mas principalmente com os integrantes da Academia Brasileira de Letras. Esse material permaneceu inédito até a publicação do livro, tanto a questão de entrevistas literárias como essas do Peregrino. Durante o mestrado tive acesso a essa  informação por meio do meu orientador, Gilberto Mendonça Teles, um pesquisador que tem um livro muito famoso que é o Vanguarda Europeia e Modernismo Brasileiro, um arquivo de vida dele que está sempre pesquisando e atualizando sobre manifestos tanto na Europa, quanto na Hispano-América e no Brasil que foram publicados sobre a Semana e o modernismo, como evoluiu o movimento. O livro vai trazer a questão da entrevista literária de forma teórica e histórica, como acontece esse fenômeno, e na segunda parte as entrevistas que ele fez com dez acadêmicos. Existe uma segunda parte dessas entrevistas que foi realizada no mesmo ano, então um projeto para um futuro bem próximo é pegar essa segunda parte e fazer um corpo mais forte.

E como os acadêmicos da época recebiam esse movimento modernista? Existia preconceito?

Relendo as entrevistas num contexto de hoje, com mais informações, e também debatendo com mais pessoas que conhecem, estudam o contexto, a gente percebe que há uma grande resistência e uma desconfiança do que seria o ‘futurismo’. O movimento entrou pelo Brasil pelo Manifesto Futurista, foi evoluindo, teve a Semana e depois começou a chamar pelo que viria ser o modernismo brasileiro. Você tem um corpo de acadêmicos que têm uma desconfiança, alguns acreditam que é necessária uma mudança sim, que já não havia grandes criações de literatura. Na questão da Academia Brasileira de Letras, ela precisa se renovar. O título (do livro) que é a resposta do Coelho Neto à entrevista – ele era o presidente da ABL na época -, é justamente essa ‘é apenas uma agitação, isso não vai dar em nada, é um ciclone literário’. Você imagina, desde 1917 no mundo passando por tantas revoluções e oscilações e isso chegando no Brasil pela arte, era uma agitação. Eles estavam muito agarrados nos seus cânones. Vamos pensar politicamente, estava em momentos de transição, depois viria o golpe de 1930, mas era um pós-Primeira Guerra, pós-gripe espanhola. Realmente estava uma confusão no globo e em São Paulo havia um desejo de se colocar dentro do trajeto da arte. Porque a coisa acontecia mesmo no Rio de Janeiro. Como Peregrino Jr. fala em um livro que ele publica que é O Movimento Modernista, uma conferência que ele dá no Uruguai, sobre o que é o movimento, ele diz ‘o Rio de Janeiro tinha difusão, mas São Paulo realizou’. Como a ABL fica nisso tudo? Desconfiados. Eles não participam, mas sabem o que está acontecendo, e têm uma forma política de lidar. Estava conversando com a Josélia Aguiar (escritora e historiadora) semana passada e ela chegou à conclusão que eles já estavam tratando de modernismo, mas nenhum deles fala esse termo, sempre falam ‘futurismo’. Até na forma de se expressar linguisticamente havia uma resistência. E você tinha na Academia Graça Aranha, que participou em 1922 da Semana. Ele já se envolveu com o movimento de modernidade, porque ele estava vindo da Europa para o Brasil, parece que ele vem nesse tufão, se envolve no movimento e em 1924 faz uma conferência na ABL que praticamente é a saída dele. Estava todo mundo desconfiado, temeroso do que ia acontecer, e você pensa: Academia, uma instituição da cultura brasileira, fundada em 1897, toda a questão do cânone, da tradição, da influência europeia… É interessante ver essa reação deles. 

Mas depois houve uma aproximação, entraram modernistas na Academia, como Manuel Bandeira. E, mesmo assim, houve quem não quisesse entrar, como foi o caso do Oswald…

Todos eles malhavam a Academia, não queriam o academicismo, porque era o pensamento de época, era isso que estava acontecendo no mundo todo. Mas a partir da década de 1930 eles começam a ingressar na ABL, você tem o Menotti del Picchia, Manuel Bandeira, o próprio Peregrino Jr. e o Oswald que tenta, mas não tenta e faz essa polêmica. Ele fazia bem a publicidade. Até dizem que ele teria pago a claque para fazer as vaias durante a Semana porque o ‘Ibope’ estava baixo. Se não tiver rivalidade, polêmica, o assunto passa despercebido. Até mesmo as entrevistas são interessantes, porque precisava dessa encrenca toda para vender o jornal. Essas entrevistas são publicadas no suplemento dominical e todo mundo gosta de uma boa ‘treta’ como a gente diz hoje. E o Peregrino fazia isso muito bem. Tinha um estilo de entrevista que não era o mesmo que vinha no modelo João do Rio (jornalista carioca). Como tinha traquejo na escrita, havia passado por setores diferentes na redação de jornal, pelas páginas policiais, então ele sabia como entreter e provocar o público. Cada entrevista ele começa de uma forma, descreve o lugar, como é a casa de fulano ou como é o ambiente da Academia. Então dá uma ideia para quem não conhecia esses lugares perceber como era. Na sexta entrevista ele começa a ficar meio p. da vida, porque alguns acadêmicos ficam enrolando ele para não participar – ninguém queria se envolver com a confusão – e ele fica irritado. Quando ele vai apresentar o entrevistado vai dando umas agulhadas em quem não quer participar. Ele publica tudo, não quer saber. Chega até ser engraçado ver nos dias de hoje a ambientação da Academia na época e como descreve eles. 

E você falando dessa questão da polêmica é até engraçado, porque até hoje existe isso, se foi um evento que fez história, ou não foi uma coisa de paulistas. O que você acha disso ecoar até hoje?

O Rio não tinha como fugir, era uma metrópole, era a capital do Brasil, ali que acontecia tudo. A corte se estabeleceu lá primeiro. Por natureza tinha essa vocação de receber pluralidade e diversidade. São Paulo ainda não estava no trajeto cultural que era Rio, Nordeste, as pessoas passavam em São Paulo e não paravam, então foi a forma de se colocar no mapa da cultura. Naturalmente tinham essas questões todas, é bom ter essa rivalidade. A partir daí teve de se colocar nesse mapa e fez muito bem até hoje. E a Semana de 1922 a cada ano temos uma nova, porque foi um marco. A partir dali que a gente começou a pensar de fato, apesar de já existir narrativas de brasilidade, você realmente criou um marco. E convenhamos que os artistas que estavam ali envolvidos realmente, principalmente nas artes visuais, queriam fazer uma mudança. É importante destacar o Mário de Andrade, que pensou em um projeto de cultura brasileira. Esse é o grande mérito, tanto que ficou até hoje. Se estamos hoje reavaliando a academia, revendo quem ficou de fora e as novas vozes que irão se expressar, é porque teve de ter a primeira Semana, abertura, e daí os questionamentos. 

Muito se fala que os textos modernistas são atemporais. Queria que me falasse como estudiosa o que de fato ele mudou na literatura e de que forma aqueles temas daquela época se mantém atuais?

Alguns pensadores daquele período realmente são atemporais. Outro dia fui em uma exposição no Sesc, a Raio que o Parta (Sesc 24 de Maio), que ela tem o conceito de ser um trampolim. É muito interessante porque alguns escritos vêm diretamente para nossa época, outros evoluíram a partir dos tempos e foram sendo criadas novas narrativas, não só em forma, mas também nos conteúdos. O parnasianismo tinha uma coisa muito forte na forma e nas palavras que emolduravam o que seria um poema. Era tudo muito fechado, amarrado. Você precisava ter uma forma livre para poder expressar o que era o pensamento brasileiro. Aquilo serviu até um certo tempo, depois teve de mudar. Alguns dos acadêmicos falam ‘a gente precisa de um espírito brasileiro’. A arte brasileira até aquele momento era mimética, copiava os padrões europeus e os clássicos e já não dava mais. Tinha de ter uma mudança, liberdade. Ali na frente já teria o voto das mulheres, era uma série de comportamentos que precisavam se atualizar e sair daquela caixa. Na literatura, por exemplo, tem várias criações que vieram à tona, o regionalismo já existia, mas você tem Mário de Andrade, que no começo nem era tão bom poeta, mas depois vai escrevendo textos e manifestos bem interessantes, em que você pode fazer leitura hoje. E depois os outros movimentos que foram muito fortes em São Paulo como o concretismo, tudo que via a liberdade da forma. Então não tem como dizer que não foi um grande impacto na arte. E na arte visual, quando pega uma obra da Tarsila, profundamente bonita e com uma outra forma, cores brasileiras. 

Você produz eventos culturais que têm temática antirracista, indígena, que envolve questões de gênero. Foram segmentos não contemplados na Semana de Arte Moderna, principalmente porque foi feito por um grupo de intelectuais da burguesia. Você acha que nos últimos 100 anos estes setores da sociedade foram incorporados ao movimento modernista, principalmente as mulheres que foram minoria, mas tiveram participação importante?

Foram incorporados, mas a questão tanto da mulher como do negro sofreu muita resistência como sofre até hoje. De 2018 para cá a gente pode dizer que houve uma expressividade maior desses segmentos. O indígena está entrando aos poucos apesar de sempre fazer muita arte. O que acontece? Não tiveram visibilidade. Grandes mulheres estavam criando na década de 1920 e elas tiveram visibilidade? Não. Se a gente lembrar quem estava na Semana de 1922, tinha Anita Malfatti, porque a Tarsila nem estava. Depois virou musa. E aí veio a Patrícia Galvão também. Mas não estavam ali, era uma ou outra. Mesmo sendo mulheres que tinham dificuldades muito grande não de produção, mas de acesso. A Gilka Machado (poeta) já tinha exercido tanto em tema como forma de não seguir o padrão parnasiano de poesia, já inovou. Tinha a Julia Lopes de Almeida (escritora), que era mulher e não foi estudada. A própria Maria Firmina (escritora), que já vinha com os temas dos escravizados e do relato negro, já em outra forma. Quanto tempo demorou para a gente ter acesso a elas… A Gilka na década de 1990 ainda foi retomada em estudos pela PUC, porque tínhamos uma professora que a estudava. Até então ninguém quase sabia. A própria Maria Firmino surgiu agora em 2017, quando vieram com mais força a juventude negra para reivindicar onde estão os negros na literatura, no museu, na academia. Naquele período de desdobrar foi muito difícil para estes setores. A gente só percebe mais isso hoje quando chega com maior visibilidade e, por isso, acho importante a gente ter um diálogo com as novas gerações, para que eles expressem tudo que faltou. 

E entendam o que foi o movimento e deem continuidade nos próximos 100 anos…

Pois é. Hoje estou envolvida com alguns projetos e outras iniciativas que são justamente isso: a gente quer trazer de uma forma didática, explicando o que foi a Semana, o que era o seu contexto histórico e enxergar o Brasil como ele era. Porque também não dá para ficar pensando só hoje o que aconteceu nos textos sem ter passado por eles. Por isso acho muito importante a polêmica que o Ruy (Castro) trouxe para cima da Semana. Porque provoca a gente para ler os textos. 

Quais são estas iniciativas?

Uma delas, o É Apenas Agitação?, assim como a Karina Almeida fez Muito Prazer, sou Mário de Andrade, que apresenta ele de forma muito interessante para o público jovem, estou pensando em fazer também um formato desses. Seria o Peregrino, uma figura muito interessante, era um jornalista, escritor e médico. Ele é muito atual porque adorava a Amazônia, escrevia sobre ela. Era realmente um homem muito culto, e trazê-lo como personagem junto com Coelho Neto, que é quem dá o título do livro. Porque ele era um homem que trabalhava horrores, teve 14 filhos, perdeu 7, adorava futebol e um dos filhos dele morreu em decorrência de um jogo. Fora isso tinha uma cara carrancuda como era a do Monteiro Lobato. Estamos fazendo também uma curadoria para um evento na cidade do Rio de Janeiro, pegando por aí, para explicar para o público de diferentes idades o que era o contexto da Semana e, principalmente, da modernidade. Porque a Semana foi um marco, mas o espírito é a modernidade e mostrá-la em outras cidades. A ideia é participar também de festivais literários, tenho dois confirmados, um no interior de Minas, que vai falar desse contexto visando a questão da periferia. Quem patrocinou a Semana foi uma classe burguesa paulista porque era dela que vinha o dinheiro para patrocinar a ida de Villa-Lobos com orquestra. Quem ia pagar isso? Ele era profissional, já vivia disso. Tinha de alugar o Theatro Municipal e tudo isso a gente vê no Metrópole à Beira-Mar. Até o público foi com recorte, que realmente precisava saber disso, era mais conservador. 

Você já fez alguns lançamentos do livro, até na Casa Mário de Andrade, estão previstos outros?

Fizemos o presencial, na Ponta de Lança, na Vila Buarque, em São Paulo. Fiz na Casa Mário com uma apresentação didática com alguns flashs, pontos curiosos do livro e preciso fazer no Rio, porque afinal a Academia fica aqui, a ideia entre março e abril. Com os eventos literários a ideia é ir para Minas, também quero levar para o nordeste. Estou vendo se a gente consegue ser incluída na programação na Bahia, ou Pernambuco. É meio que fazer uma turnê. 

(Miriam Gimenes/Agenda Tarsila)

Publicada em 9 de março de 2022

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