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Livro recém-lançado preenche lacuna de artistas mineiros que participaram da Semana de 22

Que a Semana de 22 foi um evento de São Paulo não existe dúvida. Isso não quer dizer, no entanto, que sua composição tenha sido, essencialmente, paulista. Diversos artistas do País tiveram participação importante no evento que está prestes a se tornar centenário. Mas muitos, infelizmente, sofreram apagamento ao longo da história. E foi para fazer justiça – e para preencher uma lacuna – que os autores mineiros Ivana Ferrante Rebello e Fabiano Lopes de Paula lançaram, há pouco, o livro Uma tristeza Mineira numa Capa de Garoa – Agenor Barbosa, um Poeta Mineiro na Semana de Arte Moderna (Editora Ramalhete).

Nascido em 1896, o poeta, natural de Montes Claros, Minas Gerais, consta como um dos organizadores do evento no Municipal – inclusive tem seu nome no catálogo – mas, nem mesmo seus conterrâneos, sabiam dessa participação. Na publicação, os autores também falam sobre a pintora mineira Zina Aita, que junto com Anita Malfatti exibiu suas pinturas no saguão do teatro. 

“É óbvio que o lugar (do evento) tinha de ser São Paulo. Mas houve a contribuição de muitos. Até nisso os organizadores da Semana foram muito felizes, porque chamaram não só artistas diferentes como também várias manifestações sobre o mesmo período, com  leituras distintas. É muito importante que a gente reconheça isso e comece a contar essa história de maneira mais ampliada”, diz a escritora Ivana. Confira, a seguir, a entrevista exclusiva que ambos concederam à Agenda Tarsila: 

Vocês fizeram um livro lançado recentemente que conta a versão mineira do modernismo. Porque quando a gente fala sobre o movimento, geralmente são os mesmos protagonistas, todos de São Paulo. Me falem sobre esta história contada neste livro, que vem para preencher uma lacuna histórica na cultura brasileira. 

Ivana: Como você mesma disse, a Semana acontece em São Paulo em fevereiro de 1922, mas ela é uma semana brasileira. Muitos artistas de diferentes localidades do Brasil foram convidados para trazer sua manifestação artística, entre músicos, pintores, poetas, e eles então, no seu conjunto, levaram a sua contribuição para a chamada arte nova brasileira. Com o tempo, os estudos sobre a Semana começaram a se fixar nos mesmos nomes: Oswald de Andrade, Mário de Andrade, um pouco da Anita e da Tarsila, que se destacam como pintoras, e vez ou outra um outro nome vem à baila. Mas o que nos causava espanto era que não havia nenhuma menção à participação de nenhum artista mineiro no evento. Este livro vem contar isso. Houve um poeta mineiro que participou do segundo dia do evento, não só participou como ele ajudou a organizar a Semana de Arte Moderna e houve também uma pintora mineira que expôs lá na galeria de arte do Theatro Municipal. Enfim, o livro traz em cena a participação destes dois artistas (Agenor Barbosa e Zina Aita) e recobra o que foi o movimento dentro da cidade.

Fabiano: Não é uma versão mineira da Semana de 22, mas a participação de Minas Gerais na Semana, que é um evento brasileiro. A presença de Minas neste evento, que agora já é conhecida, está mais do que homenageada, já está presente. A Semana não vai ser a mesma, agora teremos mineiros. 

Acredito que para vocês buscarem todas essas informações foi um pouco difícil, até por ter tido toda essa informação registrada. Como foi este trabalho de apuração para preencher esta lacuna na história da Semana de Arte Moderna?

Ivana: Foi um trabalho bem difícil. Porque o poeta em questão (Agenor Barbosa) participou ativamente da cena cultural do Brasil nas duas primeiras décadas do século 20, mas ele não deixou livro publicado. Então a gente foi atrás das publicações cotidianas, em jornais de Minas e São Paulo, revistas de Minas, São Paulo e Rio de Janeiro, foi um trabalho mesmo de pesquisa. Mas, para nossa felicidade, existe um trabalho de arquivo maravilhoso no Brasil que tem ajudado. Essa, talvez, seja uma das maiores fontes de pesquisa para quem não tem o livro como objeto, como foi o nosso caso, que é o arquivo das publicações de jornais e revistas, que a gente encontra no Arquivo Público Mineiro, no arquivo digital da Biblioteca Nacional, tudo isso ajudou bastante. Foi um trabalho mesmo de fôlego e foi um encontro maravilhoso porque, para nossa surpresa, foi se comprovando que a participação deste poeta não foi uma participação eventual, circunstancial, ele estava muito presente. Ele publicou muito, inclusive crônicas difundindo a importância da modernização da arte brasileira e chamando as pessoas para a Semana de Arte Moderna. 

Fabiano: E nós tínhamos um nome. Uma notícia pequena de uns livros de uma pessoa que escreveu sobre Montes Claros. E, a partir daí, isso foi um indicador, o elemento indiciário da pesquisa. Começamos a destrinchar, em Montes Claros não achamos muita coisa, Belo Horizonte pouca coisa mas, em São Paulo, nós vislumbramos um arquivo muito interessante, com a participação do Agenor efetivamente na vida cotidiana de São Paulo, seja como jornalista, advogado, político. O arquivo abrange todas essas atuações do poeta. 

Ivana: O que foi mais interessante para a gente é descortinar, pelo menos, por meio das publicações de revistas e livros, a turbulência, o movimento, que era São Paulo no início do século 20. Eu falo isso de uma maneira muito positiva porque era um momento em que o jornal era praticamente o centro de toda notícia, inclusive da cultural. E aí é que a gente encontra o Agenor de uma forma mais respeitável. Ele era muito bem visto pelos escritores do seu tempo. E o nome dele está, de fato, citado em toda historiografia literária porque, afinal de contas, está no programa da Semana de Arte Moderna, mas citado. Só que depois que a gente foi percebendo que os trabalhos e as leituras sobre a Semana foram se desdobrando, o nome dele foi sendo apagado. A partir da década de 1950, depois da publicação do Mário da Silva Brito, Antecedentes da Arte Moderna, o nome dele é simplesmente apagado. Alguns vão se referir a ele como ‘obscuro Agenor’, ‘o desconhecido Agenor Barbosa’, e alguns vão considerá-lo um poeta paulista, outros carioca ou, simplesmente, um poeta da província. Então acho que recobrar essa participação, assim como de muitos que temos ali nos folhetos da Semana, é importante porque chega um momento que a gente começa a pensar que o movimento modernista, nesta primeira hora, ele tem de ser entendido de uma maneira plural. Tem de ser entendido como ‘modernismos’. Porque ele acopla, não só tendências artísticas diferenciadas, como diferentes contribuições deste imenso Brasil. 

Fabiano: Na música, na arquitetura sobretudo, na filosofia tem muito esse pensar moderno, esse avanço nessa modernidade. 

O Agenor Barbosa se dizia simbolista, não se julgava modernista. Por que isso?

Ivana: Ele se diz simbolista porque começou dentro deste grupo mineiro, que foi muito forte, em torno de Alphonsus de Guimaraens, do (Zila) Mamede… E foi tão forte que provocou até uma viagem de Mário de Andrade a Minas Gerais em 1919, antes da Semana. Ele foi atrás de Alphonsus lá em Mariana. Então existe uma ligação entre o simbolismo brasileiro e a Semana de Arte Moderna. Todo simbolismo é uma reação contra uma ortodoxia, contra uma forma fixa, clássica, que na literatura era chamada de parnasianismo. Então no simbolismo já há uma abertura, uma manifestação a favor do verso livre e de uma temática também mais abrangente e mais crítica. Sim, há uma ligação entre todos os poetas que inclusive se apresentaram no Theatro Municipal de São Paulo entre o simbolismo brasileiro e o modernismo. O Agenor, quando se muda para São Paulo, em 1917, e começa a ter contato com o Menotti del Picchia, Oswald de Andrade, o Sérgio Buarque de Holanda, o Mário de Andrade, eles se unem para estudar literatura, arte e discutir. Então ele começa a fazer uma adaptação da sua arte simbolista para uma arte modernista. Como? Incorporando aquilo que eles utilizavam preferencialmente na estética do momento, as características do futurismo. Colocando elementos da cidade, da urbanidade, de uma vida mais moderna, mais sintética, os versos ficam mais rápidos, o regime mais veloz, mais intenso. É o que há nele e com todos os poetas que se apresentaram ali em primeira hora. Esse esforço de adaptação à linguagem do novo tempo, que era o século 20 que chegava. 

Sobre esse apagamento, por que vocês acham que  ocorreu isso com ele?

Ivana: Há várias razões. Primeiramente ele não foi o único apagado. Tem muitos nomes em torno e na Semana de 22 que precisam ser relembrados. O primeiro caso é atribuído ao fato de ele ter sido um escritor sem livro publicado. Fica mais difícil, realmente, recuperar sua obra e também que hajam estudos sobre ele. Mas eu penso que o fato da Semana ter se desdobrado em outros movimentos, o Pau-Brasil, Verde e Amarelo, o Movimento Anta, depois o da Revista Klaxon, enfim, ela foi se subdividindo em grupos distintos. E o Agenor não participou de nenhum deles. Então foi se reconfigurando. A Tarsila, que não participou fisicamente da Semana, ela chega neste segundo momento, se junta ao grupo da Revista Klaxon, e se forma um novo grupo. E outros que haviam participado de primeira hora, como a pintora mineira Zina Aita, também foi sendo apagada. Por falta de registros, por falta de livros, também por falta de interesse. Porque a gente percebe que a maior parte dos estudos sobre a Semana, muito explicável porque ocorre em São Paulo, ocorrem em universidades paulistas. O nome de Mário, o de Oswald, obviamente eles trazem um pioneirismo que nenhum traz no terreno da literatura. E na pintura ficamos no entorno daquelas duas mulheres, a Anita e a Tarsila. Tarsila até mais do que Anita, embora Anita, naquele momento, ela tivesse sido a única dentre as duas que participou da Semana. E por que isso? Ora, todo mundo sabe, deve ter acompanhado, a forma como Tarsila e Oswald se juntam, um casal muito bonito, muito artístico, muito festivo, sempre participante, atuante, isso tudo concorre. Então existe uma série de circunstâncias que fazem com que uns persistam e passem a ser estudados, recobrados, mesmo porque eles continuaram na vida artística. E o Agenor foi, aos poucos, se afastando. 

Fabiano: Ele se dedicou ao Direito e à vida política. Ele foi assessor do Washington Luís (presidente do Brasil), chefe de gabinete, também trabalhou como notário, enveredou para outra área. Até onde nós sabemos tem uma participação política dele, mas não até onde chegou nas extensões daquele período. Agora a Zina, até antes da Semana de 22, ela fez aqui em Belo Horizonte uma bela exposição já anunciando esta arte nova. Mas ela ficava entre Brasil e Itália, talvez seja esse um fator dos esquecimentos.

Mas ela, na Semana, teve tanta importância quanto a Anita?

Ivana: Para quem estuda artes plásticas, por exemplo, Aracy Amaral, ela foi considerada a mais autêntica representante da pintura modernista brasileira. Quem indicou a presença da Zina na Semana de Arte Moderna foi Manuel Bandeira. Ela era a pintora preferida do Mário de Andrade, tanto é que foi ele quem adquiriu a maior parte dos quadros dela. E outra coisa também que dificulta é reunir essas obras. A gente tem o catálogo, mas a gente não consegue saber onde estão. Havia uma questão também: ela não assinava seus quadros, nem datava. Isso tudo torna difícil ao pesquisador fazer a recolha, a seleção e o estudo. 

Existe alguma diferença do modernismo mineiro do modernismo paulista ou não, tudo é uma miscelânea e tudo dá para ser classificado como modernismo?

Ivana: O próprio Mário de Andrade, quando ele faz aquela conferência de revisão do movimento (1942) ele fala: ‘Nós não éramos uma escola literária ou artística. Nós éramos um grupo. Porque cada um de nós tinha ideias diferentes do que era arte moderna’. E dentro da Semana havia grupos distintos, que se manifestavam artisticamente de forma diferente, porém reunidos em torno de uma ideia única de renovar a arte brasileira. Isso nos leva a pensar que a Semana foi um movimento plural. Então houve a contribuição dos paulistas, capitaneados pelo Mário de Andrade, que talvez seja, e com justiça, o maior nome da Semana de Arte Moderna, porque ele ultrapassa a Semana, é um grande pesquisador e contribui de diversas formas para a cultura brasileira, não só durante o evento. Mas a gente vê a contribuição do Nordeste, do Norte, de Minas Gerais, então diferentes lugares levaram aí a sua manifestação e a sua tendência. Então há diferença. Pelo que a gente pode catalogar em relação a Agenor Barbosa, esse traço dele introspectivo, que é herança do simbolismo, ele continua na sua poesia com tendência futurista. É uma poesia muito musical, que mesmo se projetando para fora, para a cidade, como queria o futurismo, ela também se volta para dentro, para o ensimesmamento, que é característica do escritor mineiro. Já na Zina Aita é interessante e é uma novidade, depois a própria Tarsila vai reconhecer isso, ela leva para sua pintura modernista as influências do expressionismo. Só que ela traz uma influência da sua infância mineira. O que é notável na sua pintura é o cromatismo, o colorismo, que o pessoal na época vai chamar de excêntrico. Nada mais era do que uma influência grande do Mestre Athaíde do barroco mineiro. Eles contribuíram com uma linguagem própria, particular. 

Os modernistas bebiam muito do arcadismo mineiro, com o Tomás António Gonzaga…

Ivana: Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810) é um poeta do século 18 e tem, como todos da sua época, aquele espírito de imitação da academia, dos clássicos, mas ele traz já uma tônica muito forte de brasilidade em seus poemas. E é isso que encanta Mário de Andrade e isso também vai ser pontuado por Antonio Candido (crítico literário) quando ele vai dizer que é com a poesia dos neo-clássicos mineiros, dos árcades mineiros, é que a gente vai iniciar uma literatura efetivamente brasileira. 

Para o ano que vem vocês pretendem fazer alguma coisa ao Agenor, à Zina Aita, estão planejando alguma coisa?

Fabiano: Aqui em Minas Gerais, com a secretaria de Cultura, já estamos planejando celebrar este centenário. Já estamos com alguma coisa engatilhada na Academia Brasileira de Letras e, em Montes Claros, a cidade natal do Agenor, estamos programando umas comemorações. Primeiro é uma grande novidade para a cidade. São pouquíssimos que sabiam da existência ou quase ninguém. Totalmente desconhecido. Foi uma grande descoberta e tivemos várias entrevistas, as pessoas celebrando esse aspecto de ter um conterrâneo participante da Semana de 22. 

Ivana: Provavelmente vai ser em fevereiro, a data ainda está sendo pensada porque vão acontecer eventos simultâneos que a gente não quer que coincida. Então a gente quer pensar no mês do centenário uma mostra de arte mostrando como seria a Semana de Arte Moderna hoje. Com a participação de artistas de diferentes tendências, pintores, poetas, músicos… Seria uma celebração da Semana por meio de uma outra Semana. Além disso, a gente fez essa pesquisa em caráter de redescoberta destes nomes e apresentação. Mas a gente sente que por trás dela, ainda em caráter experiente, ainda existem mais coisas. há desdobramentos em relação a Zina aita, precisa ser mais estudada. é um projeto que a gente vai levar adiante, para que as pessoas conheçam mais sobre ela, como um grande expoente daquele momento. 

Fabiano: O mesmo caso do Agenor. Após o lançamento do livro, nós tivemos várias informações sobre ele. Coisas que estavam escondidas nos arquivos familiares que, até a feitura do livro, a gente não tinha esse conhecimento. E está despertando outros pesquisadores e isso é gratificante.

Ivana: A gente vai percebendo, como em tudo, aliás, que existe uma tendência de construções históricas, narrativas, que acabam deixando de lado outras vozes. E é importante, principalmente em um momento como esse, que essas vozes que ficaram marginais, que elas sejam reinseridas. Que sejam repensadas. O que acho bonito é pensar que não foi uma semana paulista, foi uma Semana brasileira. No território de São Paulo, óbvio, na cidade, na grande Capital Paulista, porque lá sim, havia todo um burburinho de metrópole. Para lá iam todos os intelectuais, era o centro aglutinador – e ainda é – do que havia de novidade no Brasil. É óbvio que o lugar (do evento) tinha de ser São Paulo. Mas houve a contribuição de muitos. Até nisso os organizadores da Semana foram muito felizes, porque chamaram não só artistas diferentes como também várias manifestações sobre o mesmo período, leituras distintas. É muito importante que a gente reconheça isso e comece a contar essa história de maneira mais ampliada. 

Eles não queriam monopolizar, mas sim pluralizar…

Ivana: Exatamente. O termo brasilidade não foi inventado pelo Mário. Quando ele usava esse termo queria se referir justamente a isso: mestiçagem, mistura de vozes, de culturas. Um lugar que o Brasil manifestasse seu caráter misturado, enriquecedor, que é justamente essa a contribuição de todas as vozes.  

(Miriam Gimenes/Agenda Tarsila)

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