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‘Lobato deveria ter sido o pai do modernismo’, afirma a bisneta do escritor, Cleo Monteiro Lobato

Uma situação sempre colocada em pauta quando se fala na Semana de Arte Moderna de 1922 é o papel que Monteiro Lobato teve como o ‘deflagrador’ da fúria modernista. Crítico no jornal O Estado de S.Paulo, ele fez um texto sobre a exposição de Anita Malfatti, em 1917, que não só a prejudicou com os quadros que já havia vendido – muitos foram devolvidos – como também criou certo desconforto por quem defendia a inovação nas artes brasileiras. 

As respostas vieram por meio de textos nos periódicos da época, um deles de Oswald de Andrade, e também, tempos depois, em um evento um pouco maior, no palco e saguão do Theatro Municipal, que colocava o moderno ‘goela’ abaixo de Lobato e de quem mais não gostasse da ruptura com a arte acadêmica. Isso, no entanto, não torna o autor do Sítio do Picapau Amarelo o vilão da história, como muitos acreditam. Amigo de muitos deles, inclusive de Oswald, manteve relações profissionais, inclusive com Anita, e chegou a publicar livros de modernistas.

É o que defende a sua bisneta Cleo Monteiro Lobato, que em entrevista exclusiva à Agenda Tarsila fala das polêmicas envolvendo o escritor, de seu papel primordial na ideia de Brasil nação e que ele deveria ter sido ‘o pai do modernismo brasileiro’. Confira, a seguir, a entrevista completa. 

Estamos revisitando a história da Semana de Arte Moderna e não é de hoje que Monteiro Lobato é colocado como um ‘vilão’ dos modernistas, por conta da crítica que ele fez no Estadão sobre a exposição da Anita. Queria que você, como herdeira e curadora da obra dele, me falasse como você o vê neste cenário modernista?

Sou neta da filha mais velha de Monteiro Lobato. Quando ele morreu, a memória, o legado dele, passou a ser cuidado pela minha bisavó Purezinha, minha avó Martha e a irmã mais nova, Ruth, que eram as pessoas que estavam vivas. Ruth morreu, purezinha morreu, sobrou para minha avó, passou para a minha mãe e meu pai, que durante anos foram os representantes da família. Brinquei embaixo dos móveis do Visconde de Tremembé, que tinham passado para Fazenda (São José) do Buquira, que Lobato herdou. Nasci ouvindo histórias que mamãe lia para mim antes de eu saber ler e, curiosamente, temos esse negócio de querer ser artista, mas não ser. Começa com Lobato, que queria ser artista e Visconde não deixou, porque ’você tem de seguir uma carreira tradicional, de uma família tradicional’. E pode ser o quê? Advogado, professor, arquiteto, engenheiro e médico. Mamãe também queria ser artista, mas também não foi. Curiosamente, o genro de Lobato, pai da minha mãe, é o ilustrador J. U. Campos (Jurandyr Ubirajara Campos), que virou artista por causa de Lobato. Então cresci no meio dos quadros do meu bisavô, desenhei a minha vida inteira, fiz aula com um dos professores do meu avô, Castellani, que foi quem criou o túmulo de Monteiro Lobato. Passei lá semana passada para ver o estado, super cubista, moderníssimo! Agora vamos: Lobato vilão ou não? Não. Lobato é como se fosse ‘o pai’ do modernismo. E só porque o cara era muito teimoso, o que geneticamente todo mundo da família tem, uma independência de pensamento muito grande. Ele aboliu a religião e não batizou os quatros filhos. O meu ramo da família manteve isso. Ninguém foi batizado, desde a minha avó Marta, minha mãe e eu também não. Desde pequena que minha mãe cultiva em mim um pensamento crítico, em todas as áreas. Então você não consegue fazer parte de um movimento. Lobato foi convidado para ser candidato à presidência da República pelo Partido Comunista, não aceitou. Ele era amigo do Júlio Prestes e estava decepcionado com ele. Disse não. Ele não conseguia se filiar a movimento algum. A mesma coisa com o modernismo. Todo problema com Anita Malfatti foi em 1917, cinco anos antes da Semana de 1922. O foco fundamental de Monteiro Lobato é o Brasil, formação do país nação. Estávamos no meio da Primeira Guerra Mundial, Brasil um paiseco, novinho ainda, de fralda, e Lobato pensando em independência energética, educação para todos, saúde e vacinação, saneamento básico, livro para todos. Ele transformou o livro de um objeto que só as elites podiam ter e passou a ser vendido no Brasil todo. Quem popularizou o livro foi ele, trazendo as primeiras impressoras de Portugal, porque antes era tudo impresso lá. Ele faz o tal inquérito do Saci, porque estava no Jardim da Luz, onde é a Pinacoteca do Estado, e vê um monte de gnomos, fadinhas e a cabeça dele com esse projeto de Brasil nação não para. Vê e diz: ‘gente, que absurdo, devia ter Saci, Boitatá, Curupira, Iara. Nós precisamos da nossa independência intelectual, cultural’ Todas as coisas que o modernismo, mais tarde, veio falar com o movimento antropofágico. Ficou na cabeça dele esse passeio e foi atrás fazendo o inquérito no vespertino do O Estado de S.Paulo. Milhares de pessoas responderam, foi tanta repercussão que ele fez não só o livro Saci – O Resultado de um Inquérito, como fez uma exposição. Tinha escultura, alto relevo, aquarela do Saci e Anita participou. Isso em 1918. Na exposição da Anita, um ano antes, é tão interessante porque o artigo Paranoia e Mistificação não se chamava assim inicialmente, chamava-se A Propósito da Exposição de Anita Malfatti. Estamos em 1917, numa sociedade patriarcal, machista. Se você era uma pintora como Anita era, pensavam que você estava passando tempo, não te tratam com respeito jamais. E Lobato faz isso. Ele reconhece o talento dela no tal artigo, mas como era obcecado pelo Brasil nação, era muito importante que a arte fosse essencialmente nacional, ele ficou nervoso e criticou os estrangeirismos.

Ela tinha acabado de vir dos Estados Unidos e também tinha passado uma temporada na Alemanha e ele achava que tinha total influência desses movimentos na arte dela…

Total influência. ‘Feio, horroroso, que terrível, pecado’. Mas Lobato até quando diz bom dia ele faz isso de jeito polêmico. Então fala a favor do talento dela, respeitando ela como artista, mas critica a influência estrangeira. Ele continuou empregando Anita na Companhia Editora Nacional para fazer as capas dos livros do Oswald, do Mário, do Del Picchia.

Então não houve esse racha que as pessoas imaginam?

Como as pessoas imaginam, não houve de jeito nenhum. O respeito que ele tinha pelo Oswald, ele até fala que o movimento modernista era uma blague desse ‘menino’. Que era apenas seis anos mais jovem que ele, só que Lobato já era casado e tinha quatro filhos. Eles eram muito próximos. (Depois) tentou levar Macunaíma para os Estados Unidos, era o primeiro livro que ia editar lá, na editora Tupi, que ia abrir lá, mas não rolou. E Oswald leva Monteiro Lobato para Sorbonne, o traduz para o francês. Então não houve a ruptura. Na realidade tem até uma carta, que está no livro Furacão na Botocúndia, em que Oswald diz ‘Monteiro Lobato devia ter sido o pai do modernismo’. Mas não aceitou, não ia ser presidente pelo Partido Comunista, não ia ser pai do modernismo, não ia se filiar a nenhum ‘ismo’. Olha que homem teimoso! 

Por que ele queria ser livre?

Independente, livre e esse negócio de uma arte verdadeiramente nacional. Enquanto não verificou que essas influências estrangeiras não estavam sendo assimiladas criteriosamente, criticamente, para daí serem transformadas em arte nacional, não sossegou. O que falava para o meu avô era: ‘Jurandyr, você tem de virar pintor. Pinta tacho de cobre, pilão, queijo de Minas, abóbora, bananeira, banana…’ E meu avô passou por uma fase assim, já vi esses quadros, a coisa mais estranha. É Monteiro Lobato no ouvido dele. 

E houve essa questão dos modernistas chamarem ele para ser o homem-forte da Semana e ele não aceitou, depois veio o Graça Aranha. Ele era moderno, poderia estar no evento no Municipal?

Tem um veio conservador na minha família em termos de moral. Eu quebrei completamente com isso. Fui embora para os Estados Unidos, divorciei, que era um negócio que não podia fazer. Era um conservadorismo social. Simultaneamente há um pensamento crítico e uma capacidade de criar muito grande. É muito contraditória, como foi minha educação. Era extremamente de vanguarda, me colocaram em um colégio americano em São Paulo, desde o jardim da infância. Nasci e cresci bilíngue. Daí quando me mudei para os Estados Unidos: surpresa! Muito estranho, mas tudo bem. 

Você acha que esse fato de ele ter sido pintado como ‘vilão’ da Semana de 22 o prejudicou de alguma forma?

Prejudicou, porque ele foi tão moderno em tantas áreas tão importantes na literatura, que se ele tivesse se juntado ao grupo… Junto a gente é mais forte. Além de ser o pai da literatura infanto-juvenil brasileira, deveria também ser o pai do modernismo. Tenho uma xícara (mostra) que veio do atelier do meu avô, J. Campos, tem assinatura do Portinari, do meu avô, Rebollo, Quirino, todos foram artistas que tiveram aula na Escola de Belas Artes e passaram pelo modernismo. E aqui nós temos a assinatura de quem? Anita Malfatti, Lucília Fraga, Paim, Noêmia. É uma graça e como minha avó dizia: ‘eles eram todos amigos, tomavam cafezinho lá em casa’. É muito interessante o jeito que as coisas passam na história, é baseado no que está escrito e que a gente tenta reconstituir. Por isso é bom ter essas entrevistas e ressignificar, esclarecer, desmistificar. Durante muito tempo minha família não falou muito a respeito. Mas eu sou historiadora, adoro o que estou fazendo, estudar Monteiro Lobato, ainda mais que é tão pessoal. Estou recuperando parte da minha história. Passei um pouco afastada e, de repente, meu pai faleceu e eu comecei a cuidar dos negócios da família. Fiz o site monteirolobato.com, para ser referência sobre ele. Dá uma olhada e vê como ele era modernista nas fotos…

Você falou dessa questão do conservadorismo da família. O maior sonho do Monteiro Lobato era ter sido artista plástico, ele até chegou a pintar quadros. Você acha que o fato dele criticar tanto as artes plásticas talvez fosse um pouco de frustração dele, de não poder fazer aquilo também?

É uma teoria muito boa, porque ele gostava muito de desenhar. E se você não encontra um outlet para sua necessidade criadora fica meio frustrado. Acho que tem a ver. Tenho um quadro dele (mostra), que pintou em 1914. É pequeno, minha bisavó lendo na cadeira da sala de jantar, os móveis que eu brincava embaixo, que a gente doou para o Museu do Ipiranga. Ele até que pintava bem. Sinto que teve essa frustração mesmo.

Você me disse da polêmica. Recentemente voltou a ser discutida a questão dos negros nos livros dele. Queria que me falasse um pouco sobre isso. 

Monteiro Lobato é polêmico e escreveu em jornal, Urupês, Cidades Mortas, críticas. E é um estilo específico. O artigo tem de ser relativamente curto, a manchete tem de chamar atenção e não necessariamente dizer a verdade. Ele tinha esse estilo polêmico porque começou a escrever para jornal. Em 1920 ele escreveu o primeiro livro infantil A Menina do Narizinho Arrebitado. Revolução no mundo do livro nacional. Capa dura, colorido, nada tinha sido feito igual no Brasil antes. Em 1922 ele escreveu Negrinha. Antes disso, em 1921 publica em uma edição escolar pequena e Tia Nastácia não tem tanta importância, está em duas ou três histórias. Só em 1931 que vira Reinações de Narizinho, com 11 histórias. Voltando. O negócio de Monteiro Lobato, realmente, era o Brasil nação. Mas ele encontrou na literatura um jeito de fazer dinheiro e sobreviver. Ele escreve isso em diversas cartas. Primeiro traduzia, antes de começar a escrever livros para crianças, Alice no País das Maravilhas, Quim, Contos de Grimm, Robin Hood, Peter Pan, tudo tradução dele. Trouxe a literatura do mundo para o Brasil. Acordava às 5h da manhã e traduzia até o meio-dia na máquina de escrever. Mamãe conta que minha bisavó Purezinha gritava: ‘Lobato, vai incomodar os vizinhos!’ Eles moravam na Aclimação, casinha geminada e você escutava tudo. Ao escrever A Menina de Narizinho Arrebitado, quando ele coloca ‘a negra de estimação’ e a ‘boa negra’, na realidade está fazendo a ponte, na cabeça das pessoas da época, que as pessoas negras, ex-escravas, também eram boas, também eram estimadas, queridas. Primeiro o português mudou, quando você lê hoje em dia. A sociedade mudou. Nós estamos 100 anos depois que o livro foi escrito. Sim, Lobato era um homem do seu tempo, mas estava fazendo uma apologia positiva do negro. Acho que você nunca escutou ninguém falar isso.

Não…

É o contrário. Estou achando que meu bisavô era anti-racista. Vai ter gente que vai cair da cadeira. Cilza Bignotto fez uma analise da figura do negro na literatura infantil na época de Lobato e você não tem noção. Não tem nenhuma personagem positiva igual Nastácia. Pode ter personagens negros, mas eles se matam por seus donos brancos, negro só é bom se está obedecendo. Não! Tia Nastácia é personagem principal, não é secundária. Cria a Emília, fala de igual para igual com Dona Benta. Quando li, tinha uma imagem de Nastácia. Quando fui ler recentemente para o meu filho e embarcar no projeto de traduzir Lobato para o inglês, fiquei chocada, porque não dá para ler Lobato clássico sem notar o jeito que ele trata a Tia Nastácia e achar que é normal. Não é normal (são outros tempos). 

Embora naquela época você diga que ele estava querendo inserir o negro na história, você acha que hoje é inconcebível?

Hoje a personagem Nastácia está desatualizada na obra de Lobato. Porque o resto, os temas que ele trata, todas as questões, na obra infantil, continuam atuais. A segunda história de Reinações de Narizinho se chama O Sítio do Picapau Amarelo. Em um momento a Narizinho e a Emília vão visitar o Reino das Abelhas. Lobato primeiro passa duas páginas falando do sistema de governo das abelhas, que não tem chefe. Está fazendo uma apologia do socialismo para crianças de 10 anos. Outra coisa que acontece é que as duas vão visitar o berçário das abelhas e uma delas fala: ‘nossa, as abelhas bebês são tão alvas’. Falei: ‘gente, olha só, racismo’. Dei um Google, a abelha bebê é larva, é branca mesmo. Essa campanha contra Lobato foi muito forte, mas agora que o contraponto está sendo mostrado é muito bom. Porque se até eu como bisneta estava com estes pensamentos, estou influenciada desse jeito… Não sei se na escola se lê livros infantis e adultos, porque a literatura de Lobato se complementa, lendo os livros de adultos, e só assim você pode julgar. Acho que hoje em dia não é feita essa análise mais profunda. Julgou e condenou. Tudo começou com um trabalho chamado Os Negros na Obra de Lobato, de 1998, de Marisa Lajolo, uma excelente lobatóloga, super importante. E ela na época só identificou. Estava começando o movimento negro, estudos raciais. Ela fez essa identificação, mas não contextualizou. Esse estudo foi usado repetidas vezes para provar que ele é racista sem contextualizar. A Vanete Santana-Dezmann, editou esse livro Entre Metafísica, Distopia e Mecenato onde ela analisa o presidente negro de Lobato, o original, primeira versão e contextualiza o que estava acontecendo nos Estados Unidos nessa época, porque o livro foi rejeitado, ela faz uma analise detalhada que jamais foi feita. Passei a falar sobre Lobato abertamente, minha família nunca deu resposta. Meu pai foi o representante oficial da família durante 25 anos. Imigrante judeu polonês. Não sei se por ignorância, não tenho resposta, mamãe, papai, o parceiro comercial, nunca deram resposta. Uma nota de repúdio, gente! ‘Não, a família não está de acordo, não fizeram’. Mas eu estou aqui agora fazendo isso. 

Você também está revisando estes livros. Como seria a Nastácia de agora?

Estou traduzindo e atualizando a personagem. A minha editora é Nereide Santa Rosa da Underline Publishing, ganhou o prêmio Jabuti, é brasileira, se mudou para Nova York. Lemos toda obra de Lobato e eu pedi que ela me ajudasse a dialogar. Era como um novelo emaranhado, insolúvel. Pensei por isso anos e não achava que teria chance de traduzir Lobato. Em 2020 foi o ano que George Floyd morreu, que explodiu o movimento negro tanto aqui no Brasil quanto nos Estados Unidos. Sou ativista política lá, meu marido também é, fomos para a rua manifestar. E a experiência como latina imigrante de ter sofrido preconceito ajudou também. Foi um ano que cristalizou muita energia e encontrei não só a Nereide para dialogar de como fazer isso, mas também o Rafal Sam, do Recife. Disse: ‘vamos fazer?’ Ele  me criou uma Tia Nastácia como ele gostaria que fosse para mostrar para os filhos dele. Afrodescendente, orgulhosa de si, mesmo poder aquisitivo de Dona Benta, o que é muito importante. Fiz uma live com a professora Andreia Rosa, ela me falou como isso é importante, essa igualdade de brinquinho, colar, sandália, esse pé de igualdade econômica é uma mensagem subliminar que está passando. No texto peguei o fio do novelo Nastácia e puxei inteirinho para 2021, para a criança do século 21. Ela ficou o que era no meu coração: amiga de Dona Benta, exímia cozinheira e que ajudou a criar a Narizinho. No texto, quando estou limpando, estou modificando para manter essa linha desse jeito. Uma das coisas que questionei: por que ler Lobato hoje em dia? Fui a fundo no meu questionamento. Tanto escritor novo… No Brasil ele é ícone, é uma importante pessoa da história do país, foi atrás da independência energética, é o pai do lema ‘o petróleo é nosso’. Minha família sofreu, fomos à falência por causa disso. Ele usou o dinheiro da família para pagar todos os investidores, e não tínhamos um tostão. A minha mãe não teve o avô dela até os 10 anos em que ele procurou petróleo, foi para prisão, desafiou ditador. Foi visitá-lo na prisão. 

Por que é essencial lê-lo hoje?

Porque ele é ícone da história do Brasil. Ele é tão importante, na literatura infantil e de adulto. Fala de temas importantes, tudo o que escreve, que o professor pode ficar desconfortável, na verdade ele fez isso de propósito, para ser usado para discutir. Para aprender a pensar, não é para repetir o que ele fala. Negrinha é inacreditavelmente um movimento, um manifesto anti-igreja, anti-elite, antirracismo. Não tem quem não leia e não vá às lágrimas, com as torturas da Dona Inácia. Com o abandono do negro pós-libertação, a não inclusão, não ter escola, não ser incluido no mercado de trabalho.

E para você, qual foi o maior legado que ele deixou?

Você está vendo que falo com paixão das coisas. Acreditar em um mundo melhor e pensar criticamente. Acreditar que dá para mudar as coisas. E educação. Acredito tanto em educação e leitura, salvou minha vida tantas vezes e continua salvando. Quando estou deprimida vou ler um livro. Começa desde pequeno o estímulo à leitura. De poder dialogar, discutir e debater. Não esse radical de hoje em dia, ou é isso ou aquilo e cancela. Pesquisar, aprofundar um pouco mais. E poder mudar de opinião. Acho que essa foi a coisa mais importante dele. Lobato mudou de opinião a respeito do Jeca Tatu, virou o Jeca solução, a miscigenação é o ideal, é o brasileiro, é o mais forte. A culpa era das elites que não estavam dando alimentação, educação, saúde. Continuamos na mesma conversa, é incrível. O que gosto é que me reservo o direito de mudar de opinião. Só gente inteligente e corajosa muda de opinião. 

(Miriam Gimenes/Agenda Tarsila)

Publicada em 28 de fevereiro de 2022

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