Ana Colla/Divulgação

‘Mário de Andrade é meu mentor intelectual’, diz o estilista mineiro Ronaldo Fraga

Conhecer o Brasil além dos pontos turísticos; desvendar as histórias de seu povo, seja nas peculiaridades do sertão nordestino ou na população ribeirinha do Amazonas; degustar os ritmos populares, conhecer o alinhavo das rendeiras ou valorizar quem, de fato, luta para perpetuar a cultura popular brasileira. A descrição da conduta de trabalho tanto serve para o modernista Mário de Andrade quanto para o estilista mineiro Ronaldo Fraga, autor dos desfiles mais esperados – e profundos – da São Paulo Fashion Week. “Mário de Andrade é meu mentor intelectual”, justifica o artista. 

Isso não é de hoje. Muito antes de fazer moda, Fraga já havia sido tocado pela personalidade ímpar do escritor. Não elenca uma obra em especial – cita bastante O Turista Aprendiz -, mas diz que a figura provocativa e inconformada do paulistano desvairado é o que mais o inspira a fazer o mesmo. Para o artista,  não teríamos um olhar sobre a cultura, não a entenderíamos como uma política pública, se não fosse o Mário de Andrade. “Ele deu outra dimensão para a cultura brasileira. Digo que ele, nesse perfil extremamente provocador, foi uma das maiores e mais importantes figuras que ajudaram a forjar o Brasil contemporâneo.” Fraga, que o homenageou por duas vezes nas passarelas, diz em entrevista à Agenda Tarsila, que Mário está em cada croqui que faz. Confira a seguir a entrevista completa. 

Estamos nos aproximando de uma efeméride muito importante para a cultura brasileira, que é o centenário da Semana de Arte Moderna. E pelo que sei você é fã de um dos protagonistas do evento, o Mário de Andrade. Como nasceu essa admiração e de que maneira ele influenciou sua obra estilística?

O Mário, muito mais do que ser um fã, sempre digo que ele é meu grande mentor intelectual. Ele provocou em mim um olhar para o Brasil como nenhum outro escritor brasileiro despertou. E acho que, mais do que nunca, com a desculpa dos 100 anos, principalmente olhando para o momento que o país está passando, a obra do Mário se torna muito cara. O pensamento dele também é necessário nestes tempos de patrulha ideológica em cima da cultura brasileira. Quando me perguntam: ‘qual o livro do Mário prefere?’ Falo: ‘gente, é o Mário’. Posso até citar várias obras dele, mas é o Mário de Andrade (que prefiro). A relação dele com os amigos. Por isso, ele muito se revela na troca de cartas. 

Ele escreveu mais de 7 mil cartas…

Sim! Tanto a troca de cartas dele com o (Carlos)  Drummond (de Andrade), com (Manuel) Bandeira, com o (Candido) Portinari, enfim, com os seus, da sua época, revelam a figura de uma pessoa de personalidade extremamente provocadora. E, principalmente, acho que este é o ponto da questão, nós não teríamos um olhar sobre a cultura, não entenderíamos ela como a responsabilidade, em grande parte, do financiamento pelo poder público, se não fosse o Mário de Andrade. Ele deu outra dimensão para a cultura brasileira. Digo que ele, nesse perfil extremamente provocador, foi uma das maiores e mais importantes figuras que ajudaram a forjar o Brasil contemporâneo. Como exemplo cito O Turista Aprendiz (resultado de duas viagens etnográficas realizadas por Mário entre os anos de 1927 e 1929), um livro que ele fez anos depois da Semana de Arte Moderna. Em uma passagem, Mário lembrou quando estavam na casa de Tarsila do Amaral – ela estava em Paris durante a Semana -, e faziam um sarau contando para ela tudo que tinha acontecido no evento. Em uma provocação, num duelo – ele vivia em duelo constante com o Oswald -, Mário fala: ‘Vocês acham que essa Semana prestou?’ Eles se entreolharam e disseram: ‘Mas a cidade não fala em outra coisa’. E ele disse: ‘fizemos uma Semana de Arte paulistana. Portanto, provinciana. Olha o tamanho deste país! E no entanto, vocês artistas, querem o que? Fazer o seu tempo pegando o vapor em Santos e indo para a Europa? O mundo quer mais do que uma cópia desfocada do que está sendo feito por lá. É preciso olhar para o país’. E ali, com essa provocação, os modernistas, patrocinados pela mecenas, a Olívia Penteado, vão para Minas Gerais. Agora você imagina o que era ir para Minas naquela época. Claro que, quando voltaram para São Paulo, um a um foi saindo fora da história. ‘O que? Andar pelo Brasil, tirar dois anos sabáticos viajando pelo país, não!’, diziam. Foram saindo fora. Só sobrou Tarsila e Oswald que, quando pegaram o vapor em Santos, chegaram no Rio, na escala, eles ficaram. Estavam em vias de separação e o Mário foi sozinho. Então falo que essa obra é muito importante e é também um marco na história dele, porque ali revela um país, tem encontros saborosos e traz para gente figuras como Câmara Cascudo (escritor de Natal), que também se tornou Câmara Cascudo ao ceder às provocações do Mário de Andrade. Em cada lugar que chegava procurava seus pares e falava: ‘não quero ir para o litoral, quero ver o Brasil profundo’. É essa ‘a expressão’. Esse encontro com o Brasil real, esse Brasil do lado de lá, desse país feito à mão, das origens, do Brasil do mestiço, que é uma coisa que Mário provocou há cem anos. E o Brasil continua tão desencontrado desse país…

E o Mário foi o único que não viajou para fora e, de fato, fez essa incursão neste Brasil profundo. Você acha que ele foi o único que implementou o que essencialmente pregou a Semana de Arte Moderna?

Para mim o Mário é uma figura daquilo que escrevia, pensava, provocava, a figura que ele era, era a obra dele. Mário era essencialmente a obra dele. Naquela época, ele catalogava músicas que as pessoas nem viam como valor cultural, saberes que as pessoas também não viam como cultura… Lembro que tem uma foto no livro O Turista Aprendiz composta por camisolas de linho branco, em uma época – vale o detalhe – que homens e mulheres vestiam a mesma roupa de dormir. Eram camisas longas, não tinha a coisa da camisola, fetichizada ou feminina. Elas estavam secando em uma cerca no Ceará e ele fez essa foto em perspectiva. Quando vi aquilo pensei: ‘isso aqui é moda’ (risos). Ele fazia moda e nem sabia. E dizem que comprou o varal inteiro e levou embora. A foto é linda. Ele também nem tinha consciência que estava fazendo uma obra que seria marcante. 

Você acha que ele não pensava que cem anos na frente estariam falando sobre ele?

Só o tempo diz o quão ícone de um tempo aquela pessoa foi. Então o Mário não, ele não tinha isso. Era um homem do seu tempo. E até essa discussão de tempo em cima da própria obra dele nos leva a discutir outros contemporâneos. Drummond é um deles. O que ele fez? Falava no seu tempo. A matéria mais fina era o tempo. E hoje tem uma obra extremamente atemporal, como a do Mário de Andrade. Tem uma história do encontro dos dois que eu descobri na troca de cartas, em um livro lindo que chama Carlos e Mário. Drummond era um estudante de Farmácia, tinha 17 para 18 anos, quando os modernistas estavam em Belo Horizonte. Tenho muito orgulho de dizer que moro uma esquina acima de onde existia o Grande Hotel. Infelizmente existia, porque hoje seria o nosso Copacabana Palace de Belo Horizonte. E os modernistas ficaram lá. Drummond, muito tímido, acompanhou todo o passo a passo do tempo que eles permaneceram em Minas, e ficou sem coragem de chegar neles. No dia que estavam fazendo check out, Drummond chegou, gaguejando, olhando para o chão, com um caderninho, deu para o Mário e disse ‘queria te mostrar isso aqui que escrevo’. Mário o chamou para tomar café e dali nasceu uma amizade com troca de cartas até o final da vida de Mário. Nem sei se se reencontraram pessoalmente depois disso. Tem uma carta específica que mostra muito quem é Mário de Andrade. Drummond escreve para ele falando: ‘eu não devia ter nascido aqui, deveria ter nascido na França. Minas nunca vai deixar de ser essa província. Esse país nunca vai deixar de ser esse lugar de atraso.’ E Mário devolve a carta para ele assim: ‘Bom, se você, um jovem, está tentando me convencer disso, então vamos jogar uma pá de cal, porque futuro não teremos.’ Porque se o futuro não for vir de um jovem como você, de mim é que não será.’

E você tem essa amizade tatuada nos braços?

Esse trecho (aponta para os braços) é desta carta. A grafia do Mário era muito linda. Ele sentia prazer na escrita. Vou te revelar que em nenhuma escrita dele como obra consigo ver o Mário que vejo nas cartas. Então, quando ele manda uma carta para o Manuel Bandeira escrito da sacada do Grande Hotel, que tinha em Belém, após toda viagem e fala: ‘agora estou aqui no fim de tarde, com minha roupa de linho, depois de uma chuva que acabou de cair, mas o calor…chupitando o meu sorvete de cupuaçu’ (risos)… E as idiossincrasias do Mário. Porque ele é de uma época em que o Brasil, obviamente, extremamente racista, então era um mulato disfarçado, que alisava o cabelo, usava pó de arroz para clarear a pele e, no entanto, foi a figura que insistiu em falar do Brasil. De negros, de gentes da roça, dos índios. E um cara que além de mulato também era homossexual. Ele escreveu uma carta para o Manuel Bandeira, que foi a única pessoa que ele contou sobre isso. E Manuel deixou um escrito junto a essa carta pedindo para que ela só fosse publicada 40 anos depois da morte dele. Era um segredo guardado a sete chaves, como se as pessoas não soubessem… Ele era da farra! Mas era da academia, extremamente letrado, a figura que ia do erudito ao popular com uma desenvoltura, sambando. Amava carnaval. Tem uma foto dele no Amazonas com um chapéu de palha gigante. Fui lá, comprei um igual, vim com ele dentro do avião, porque era como se eu trouxesse Mário de Andrade. E ele usando aquele chapéu, com um camisão de linho, na minha história ele fala: ‘era assim que eu gostaria de estar vestido uma vida inteira. Agora vou voltar para minha vida besta, para uma cidade besta, vivendo como gente besta em São Paulo.’

E você fez uma homenagem para ele um tempinho atrás no seu desfile. Queria que você me falasse o que priorizou nessa coleção e como foi contar essa história tão grande em um curto espaço de tempo?

Quando um objeto pesquisado entra em uma coleção minha não sai mais. Aparece em todas. Fiz o primeiro Turista Aprendiz (2010) e depois foi o Turista Aprendiz na terra do Grão Pará (2012). E todas as vezes que falo de uma coleção das chamadas etnográficas, que trago ali uma viagem pelo Brasil, estou falando de Mário de Andrade. Quando faço uma seleção de música brasileira, com Nara Leão ou Noel Rosa, estou falando de Mário de Andrade. Então toda e qualquer coleção que eu fale efetivamente da cultura brasileira estarei falando dele também. Vai estar ali. E ele foi a primeira pessoa a falar de um Brasil de um jeito totalmente diferente do que seus pares ufanistas faziam na época. Você vê que o Brasil de Ary Barroso, de alguns mestres da literatura nordestina, é diferente do Brasil de Mário. Ele via as mazelas, os defeitos, mas via principalmente a essência. Acho que tempos depois quem se aproxima do Mário de Andrade é talvez o Caetano Veloso. 

E você falou dessa questão do Turista Aprendiz, das viagens. Para fazer suas coleções você vai nessa toada de ir nos lugares, conhecer as pessoas, o que é feito no local de artesanato, entre outras coisas. É por causa dele?

Sem dúvida. Outro dia me perguntaram: ‘antes de você conhecer o Mário, você fazia moda assim?’ Eu disse: ‘gente, penso em Mário antes de fazer moda.’ Conheci ele na adolescência, era um leitor contumaz. De uma época que achava que era normal o tanto que eu lia. Era o final da ditadura militar, então todo e qualquer livro que caia na minha mão… aliás, eu lutava atrás dos livros. Hoje que tenho meus filhos, vejo que não é bem assim, talvez até para minha época eu fosse um ponto fora da curva. Mas nunca parei para pensar nisso. Essas figuras, os livros que li, formaram a pessoa que sou. São grandes responsáveis pelas pedras que edificaram e me edificam como profissional. 

Na época que você fez esse desfile disse que queria refazer o trajeto do Turista Aprendiz. Já conseguiu?

Não, era meu sonho de consumo. Na verdade, eu queria pegar o navio em Santos e ir parando até chegar lá em cima. Já fui em muitos lugares que ele foi: interior do Rio Grande do Norte, interior de Pernambuco, Ceará, tudo isso já passei, Amazonas, Pará. Mas a minha história era para poder justamente atravessar essa coisa de sentir ele, o que encontrava. Mas nem sei se tem um navio para isso…

E se você tivesse a oportunidade de encontrar o Mário hoje, o que diria para ele?

Eu ia dar notícias do Brasil que ele pensou e que, em muitos pontos, ainda não se forjou. A minha troca era essa. Ia pedir a ele muito do espírito inconformista, que era o dele. É isso que precisamos trazer para vida da gente, mais do que nunca. 

Qual foi a melhor lição que ele te deu?

Justamente essa, também. Além do inconformismo com o seu tempo, principalmente para se entender o Brasil é preciso olhá-lo com olhos de poeta. Essa é a grande frase do Mário de Andrade. 

(Miriam Gimenes/Agenda Tarsila)

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