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‘Mário de Andrade foi talvez o intelectual mais importante do Brasil no século passado’, afirma curador de exposição no Paço das Artes, Claudinei Roberto da Silva

De que forma a arte proposta pelos modernistas conversa com a contemporaneidade? Tendo essa questão como norte, o Paço das Artes, em São Paulo, abriu a exposição  Moderno desde aqui, em cartaz até o início de julho, composta com 68 obras, entre modernistas e artistas atuais, que mostram a leitura descolonizante da cultura no Brasil. 

Em conversa com a Agenda Tarsila, o curador da mostra, Claudinei Roberto da Silva se diz emocionado em notar a força que a cultura ganhou hoje e que Mário de Andrade, que tem um espaço especial na exposição, foi, para ele, o intelectual mais importante do Brasil no século passado. “É preciso talvez pensar que uma das grandes qualidades ou a maior é justamente revelar no outro as suas potencialidades. É como se ele fosse um fio que conduzisse uma energia, ele potencializava, tornava possível, certo tipo de realização. A atuação dele é fundamental”. 

Em maio, um curso que detalha as concepções da exposição e as múltiplas faces do moderno será ministrado por Claudinei – mais informações aqui. Confira a seguir a conversa completa:

Vocês acabam de abrir a exposição Modernismo desde aqui. Gostaria que me falasse como ela está composta e qual história ela conta. 

Primeiro é uma alegria dar esse depoimento para esse projeto tão importante. Queria agradecer o convite que me foi feito e as instituições parceiras, sem as quais teríamos dificuldade de fazer uma exposição com essa qualidade. Agradecendo o Museu de Arte Moderna de São Paulo, o Museu Lasar Segall, que contribuiu de forma significativa e o Sesc São Paulo, que emprestou obras da sua coleção. A exposição Modernismo desde aqui pretende comentar um dos vários aspectos deste fenômeno que nasce em São Paulo, mas que tem inúmeras outras ramificações no Brasil. O que podemos hoje a partir dessa efeméride, do centenário da Semana de Arte Moderna, ela dá um ensejo para que a gente analise de forma crítica o movimento. A gente vai, a partir dessa crítica ou dessa aproximação, verificar que o modernismo de fato corresponde de formas diversas em cada um dos lugares que acontece. O de São Paulo tem complexidades que agora, à distância de tempo, permite a gente contemplar com mais cuidado. O modernismo celebrado na Semana é bastante diferente do que acontece com os mesmos protagonistas na década de 1930 do século passado. Inclusive a obra da Tarsila que está na exposição é de 1948, de uma fase diversa daquela que a consagrou na década de 1920. Estamos falando de uma Tarsila que tem uma sensibilidade social mais aflorada do que a do pós-Semana . Então a exposição quer justamente falar desse fenômeno a partir desse lugar e de como o pensamento também do Mário de Andrade construiu para uma situação que permitiu e tem permitido que nós, principalmente no sul e sudeste, nos aproximemos de produções outras que não estão exatamente codificadas, não pertencem exatamente ao cânone de uma história de arte que ainda está em construção. Acho  que o trabalho desses artistas presentes na mostra que participaram no modernismo, no calor da hora, permanecem atuais porque nós, a partir da nossa experiência, conseguimos descobrir camadas novas de entendimento em obras de grande intensidade poética, como são as da Tarsila do Amaral, do Ismael Nery, do Lasar, do Lívio Abramo, que são artistas presentes a esta mostra. 

Há um espaço dedicado apenas a Mário de Andrade. Você acha que ele foi o grande nome do evento no Municipal?

Tendo a acreditar que o Mário de Andrade, na realidade, talvez espelhe a complexidade do momento em que viveu. Talvez tenha sido o intelectual que mais sensivelmente captou a complexidade daquele momento. É uma coisa tremenda a gente pensar que 1922 está muito próximo do fim da Primeira Guerra Mundial e que a atuação desses artistas vai penetrar também nisso. Mário morreu em 1945, um pouco antes do fim da Segunda Guerra Mundial. Você vê que é um mundo completamente deflagrado, extremamente polarizado, a pessoa tinha de ter uma imaginação extraordinária para não ser ou comunista ou fascista naquele momento. Não existia alternativa para ser diferente. E Mário consegue esse prodígio, consegue compreender a complexidade do momento, mas, de novo, é preciso talvez pensar que uma das grandes qualidades ou a maior é justamente revelar no outro as suas potencialidades. É como se ele fosse um fio que conduzisse uma energia, ele potencializava, tornava possível, certo tipo de realização. A atuação dele é fundamental. A gente não tem dúvida de que Mário foi talvez o intelectual mais importante do Brasil no século passado. E como tal ele era um sujeito complexo, controverso, é difícil canonizá-lo, justamente porque ele mesmo admitia ‘ser 300, ser 350’. Não é um espaço dedicado ao Mário na mostra, mas uma ação que ele coordenou, a missão de pesquisas folclóricas que aconteceu em 1938. Esqueci de mencionar o Centro Cultural São Paulo, onde está salvaguardado todo esse acervo. É uma riqueza, é difícil colocar em palavras a emoção que a gente sente tomando contato com esse material e é difícil entender também como ele não está disposto de maneira a que o público possa ter um contato mais efetivo com essa riqueza e, a partir daí, uma ideia do quão complexo é esse pensamento moderno que foi sendo prospectado pelo Mário e os artistas daquele período. 

Neste acervo que mencionou tem os registros fonográficos que ele expôs no Turista Aprendiz?

Tem os acervos fonográficos, uma verdadeira fortuna em artefatos e obras de arte, peças de artesanato, notações musicais. Porque tudo foi feito com muito cuidado durante a missão de pesquisas folclóricas. Existe toda uma documentação atestando o caráter de compra dos objetos, foi tudo com muita transparência. Parece que ele já tinha plena consciência do que seria uma apropriação. Os pesquisadores coordenados por ele trabalham no sentido de dignificar as ações que são promovidas. E existem documentos, isso é muito importante, tem recibos, que torna possível auferir o grau de seriedade e de compromisso com as populações visitadas. Mas um dos aspectos da exposição que estão imediatamente ligados a essa questão de pesquisa folclórica e dos objetos prospectados é a ligação que a gente pode perceber com algumas poéticas contemporâneas. É incrível a gente perceber como na contemporaneidade um grupo de artistas que não é pequeno está em conexão com aquela cultura que foi revelada e apresentada para o sudeste a partir da atuação de Mário, como isso reverbera em uma produção importante de arte atual. Como a conexão entre esses universos é feita a partir da lógica da poesia, mas também de uma sensibilidade que é social, política, e naturalmente que é poética. 

Você vai também ministrar um curso com a temática da exposição? O que será abordado?

Participo da ideia de que somos uma comunidade de aprendizes e temos muito o que trocar uns com os outros. Saímos muito enriquecidos das conversas. O professor Paulo Freire, patrono da Educação, dizia que o conhecimento era um processo de construção e que ele se dava a partir da troca das experiências. Nenhuma experiência é insignificante e na troca nós construímos um conhecimento maior sobre o objeto de interesse. Então, no curso, vamos pensar um pouco sobre o que seria o Modernismo desde aqui. Você pode pensar, por exemplo, e isso é uma coisa muito desafiadora, que o cangaço foi uma vertente moderna dentro de uma situação muito peculiar. Quem quiser saber sobre isso vai ter de participar do curso e se deixar convencer ou não pela tese. O modernismo tem características muito distintas e tenho a impressão que o movimento irradiado a partir de São Paulo é justamente entender isso, não ter uma sensibilidade bandeirantista. Estamos também celebrando o bicentenário da independência e, às vezes, você ouve coisas ufanistas que sugerem que a independência aconteceu em São Paulo e é irradiada para o resto do País e desde então a cidade tem um protagonismo. Tem o Museu do Ipiranga, que vai ser reinaugurado, que de certa forma conta essa história do Brasil a partir de São Paulo. Não por acaso é um monumento que tem o nome oficial de Museu Paulista e desde a década de 1960 pertence à USP. Vamos conversar sobre a possibilidade de pensar uma raiz moderna da cultura brasileira a partir de lugares talvez não muito esperados. É importante lembrar um intelectual seminal também que é o Mário Pedrosa, que tem uma frase bastante conhecida e dentro de um contexto complexo disse que o ‘Brasil é um condenado ao moderno.’ Dentro disso está condenado ao moderno por não ter uma tradição, então está sempre prospectando novidades. No momento presente a gente é convidado a pensar a que tradição o intelectual ele se referia. A gente pode pensar que existia uma tradição a partir dos originários que já estavam aqui antes dos portugueses chegarem. Eles desenvolviam tecnologias, tinham uma erudição, eram pessoas capazes de construir o meio ambiente no entorno deles e viver em uma relação harmônica. Tudo isso se constitui em tradição e erudição. E se adicionarmos a este grupo os negros que vieram para cá escravizados, a diáspora africana, também vários povos, não foi um só, cada um deles tinha uma tradição, domínio, um saber e foi por conta desses sapberes e tecnologias que eles justamente foram escravizados. Estamos condenados ao moderno porque não temos tradição, talvez nesse momento dá ensejo de nós enquanto nação nos reportarmos a outras tradições no sentido de entender mesmo a complexidade do que chamamos de Brasil, a necessidade de incluir essas parcelas da população a um debate maior, integração mais efetiva, mais humanizada, respeitosa. 

Você falou que temos uma arte em construção. O que esperar para os próximos capítulos dessa história?

Estou eletrizado com coisas que tenho visto acontecer. Estamos vivendo um momento que a minha experiência não determinava que eu fosse participar de algo tão extraordinário. Você vê a emergência de sujeitos cuja potência sempre existiram, mas que agora estão começando a circular. Essas produções emergentes só têm circulado por conta do esforço que tem sido empreendido há muito por setores da sociedade que conseguiram se organizar para resistir e reivindicar o direito de se enxergar nas coleções dos nossos grandes museus, instituições culturais. O atual comitê curatorial da Bienal de São Paulo é extraordinário, são jovens que já acumulam uma experiência enorme e renovam o léxico, as possibilidades narrativas dessa história. E o que é interessante na minha opinião é que esse momento não é para preterir. Existe, claro, uma revolta perfeitamente compreensível e que às vezes resulta em atitudes não interessantes com relação aos monumentos, por exemplo. E acho que o momento tem permitido a gente olhar para obra da Tarsila com uma perspectiva diferente do que existia há 10 anos. Olhar para a do Lasar e entender nele uma atualidade insuspeitada. Temos na exposição quatro retratos que ele realizou de personagens negras e a gente percebe nele um investimento afetivo, solidário, muito importante que seja discutido. Em um momento que a acessibilidade estão exacerbadas é importante observar a obra de um artista judeu-lituano que foi capaz de estabelecer esse diálogo tão profículo com uma parcela da população que ele reconhecia como oprimida. O próprio Lívio Abramo, Ismael Nery, maravilhoso, acho que a cultura Queer pode se aproximar da obra dele para prospectar nela coisas que estavam em gestação num momento em que essas narrativas estavam todas interditadas. Você vê o Almeida Júnior, no fim do século 19, num quadro que tem um trabalhador cuja função é derrubar uma floresta. As ideias de progresso sempre contemplam entre nós, infelizmente, a incapacidade de preservar o meio ambiente. É só alguma coisa que oferece matéria prima. Você vê a potência da obra e como pode estabelecer diálogos com públicos diversos, para além da técnica, da realização que é aquela pintura que ensina muito também. Sou de um otimismo quase doentio. A gente é um manancial quase inesgotável de artistas. Se pensarmos em arte popular, chamamos assim um tanto preguiçosamente, é uma das contribuições do Mário e da missão de pesquisas folclóricas, observa e isso é possível de ver na exposição, a sofisticação formal dos objetos que foram prospectados pela missão. Eles não devem nada às invenções dos artistas contemporâneos. E é comovente perceber isso. É muito emocionante. Não há buraco em que caiba o Brasil, ele é muito grande. Fico muito comovido e entusiasmado quando me aproximo dessas produções. 

(Miriam Gimenes/Agenda Tarsila)

Publicada em 27 de abril de 2022

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