Arquivo pessoal

‘Mário (de Andrade) viveu intensamente os seus 50 anos de vida’, diz o sobrinho e afilhado do modernista, Carlos Augusto de Andrade Camargo

Era no endereço na rua Lopes Chaves, na Barra Funda, onde hoje está o Museu Casa Mário de Andrade, que a família se reunia. Haviam dias bons, quando o escritor se arriscava a brincar com os sobrinhos e outros nem tanto, em que se trancava na sala do piano para ‘as crianças não perturbarem’. É de maneira carinhosa que o seu sobrinho, Carlos Augusto de Andrade Camargo – tem mais duas sobrinhas, Teresa Maria e Maria Luiza -, lembra do pouco contato com um dos patronos da Semana de Arte Moderna de 1922. Quando Mário morreu, em 1945, ele estava prestes a completar 6 anos.

Isso não impediu, no entanto, de que o tio e padrinho se mantivesse vivo na história de Carlos. Até 2015 ele foi curador de sua obra que, a partir de então, entrou em domínio público – fato que ocorre 70 anos após a morte do escritor. Guarda como lembrança um quadro que pertenceu ao ‘amante das artes’ e uma imagem de Nossa Senhora barroca que, assim como o tio, mantém em cima do piano, outra paixão herdada. 

Carlos fala com orgulho de tudo que Mário fez, inclusive enquanto esteve à frente do Departamento de Cultura de São Paulo, lembra que o tio deixou um legado que demonstrou que viveu intensamente o período que esteve na pauliceia desvairada e que era um homem dado às paixões, inclusive gastronômicas. “(Mário) gostava muito da vida. Era um glutão! Gostava de comer, das especiarias e comidas do Norte, ele vibrava. Frutas do Norte… Ele tinha uma cozinheira que chamava Sebastiana, que me carregou no colo, e era exímia cozinheira. Ele vinha com as receitas dele e pedia para ela preparar as comidas. Gostava de beber, de comer, fumava igual um desesperado.” Confira, a seguir, a entrevista que ele concedeu à Agenda Tarsila:

O seu tio, Mário de Andrade, teve uma grande importância para a cultura brasileira. O senhor acha que ele, em vida, teve a dimensão de todo trabalho que fez em prol da nacionalidade brasileira?

Quando Mário faleceu, em 1945, eu era pequeno. Tinha cinco anos e meio, estava para fazer seis. E  não sou o único sobrinho. Tenho duas irmãs, uma mais velha, Teresa Maria, e uma mais nova, Maria Luiza. Sou o ‘do meio’, o sanduíche. Tivemos pouco contato com o Mário. Não sabia ler ainda, quem sabia era minha irmã mais velha, que foi como ficou sabendo da morte do tio (saiu no jornal), porque nossos pais não tinham contato.

Vocês moravam onde nessa época? Não moravam perto dele?

Nós morávamos na Pompeia, na Rua Tucuna. Mas a minha avó morava lá (Rua Lopes Chaves) e nós frequentamos muito, porque minha mãe (Maria Luísa de Almeida Leite Moraes de Andrade) era a única filha da minha avó. O outro era o Mário e o Carlos Moraes de Andrade, que morava ali do lado, na Lopes Chaves. Íamos com habitualidade lá. Depois do falecimento da minha avó fomos morar na Lopes Chaves. 

E ele tinha dimensão de toda obra que fez?

Se a gente recapitula tudo que ele fez, realmente viveu intensamente os seus 50 anos de vida. De modo que ele deixou um legado bastante grande. Não só na obra própria dele, nos escritos, poemas, as histórias que escreveu, contos, mas também na parte de gestor cultural que teve. O papel muito significativo dele foi de gestor cultural como Diretor do Departamento de Cultura. Desde os parques infantis até o Coral Paulistano, a Biblioteca Municipal, a Biblioteca Circulante, a discoteca municipal, tudo isso foi construído com o apoio e iniciativa dele. Me parece que ele deixou um legado muito significativo para a cultura aqui em São Paulo e do Brasil. Ele se interessou pelo folclore, fez aquelas missões pelo Departamento de Cultura, foi para o Norte, Nordeste, fazer levantamento, isso foi um papel muito significativo. Deixou uma boa memória para ser recordada.

Muito se fala da conferência de 1942 que ele fez em que analisou a participação da Semana de 22 e o que eles fizeram ali. E tem gente que fala que naquele discurso ele faz uma alta punição, por não ter realizado tudo o que queria pelo modernismo e pela cultura do Brasil. Ele se arrependeu de ter participado do movimento ou tinha orgulho?

Se arrepender não acredito, mas que ele estava inconformado, quero dizer, ele via oportunidades de se fazer muita coisa e lamentava por não ter tido tempo de ter feito tudo aquilo que ele imaginava. Ele se via meio frustrado. No meu entender, meio injustamente, mas ele se sentia (assim).

E o que o senhor acha que ele queria ter feito e não conseguiu?

Difícil imaginar. Não teria condições de fazer essa elucubração (risos). 

Disse que quando ele faleceu tinha quase seis anos, era muito pequeno. Em que momento teve contato com a obra dele e teve total dimensão do que representou Mário para a cultura?

Foi só quando eu tinha meus 14, 15 anos. Porque meu pai e minha mãe diziam que a obra dele não era para criança ler. Eu só vim a ler Mário de Andrade com essa idade. Depois, como nós moramos na rua Lopes Chaves, o tempo todo estávamos rodeados dos quadros, porque ele fez da casa da minha avó uma verdadeira casa dele. Não tinha parede que não tinha quadro. Ou se não tinha quadro tinha uma estante com livros. Então, como vivi isso aí muito próximo, inclusive estudava na escrivaninha que ele usava, então a gente foi tomando conhecimento daquilo que ele era, daquilo que fez, depois dos livros que escreveram sobre ele e sobre a obra dele. A gente vai tomando conhecimento, contato, aos poucos, e deste contato que a gente aprende a admirar. Não por ser meu tio, mas por aquilo que ele fez. 

Tem alguma obra preferida dele?

Gosto dos contos dele, acho muito bons. E da parte de música também. Aquelas músicas que ele coletou no Norte e no Nordeste, tem coisas preciosas e muito interessantes. Gosto de música também, estudei durante muito tempo piano e gosto da história da música. E Macunaíma, a gente não pode esquecer. Ele é difícil de entender, é difícil de engolir, mas depois que você leu algumas vezes, aquilo que se escreveu sobre Macunaíma, a peça que foi montada por Antunes (Filho), você consegue entender um pouco melhor a história e se divertir com ela. 

O senhor falou dessas viagens que ele fez e todo esse estudo folclórico. O Mário foi o único dos modernistas que não teve oportunidade de sair do Brasil, ir para Paris, como muitos faziam. Por conta disso, acha que a obra dele e os preceitos modernistas dele foram essencialmente nacionalistas como pregou a Semana de 1922?

Embora ele não tenha viajado, lia muito as revistas alemãs – ele falava e lia alemão -, revistas francesas, que estavam muito em voga na época também, então ele estava por dentro da cultura mundial. Sabia o que se passava na França, na Alemanha, na Inglaterra. Embora não tenha viajado, participado e ido aos lugares, estava sempre muito a par do que acontecia no mundo das artes, das poesias e da pintura também. Tanto que a maioria dos móveis da (casa da) rua Lopes Chaves, que mandou fazer (no Liceu de Artes e Ofícios), ele desenhava baseado em uma revista alemã que ele assinava, que se chamava Mein Haus, alguma coisa assim. 

Pelo que pude observar ele era uma pessoa muito família. Morava com sua avó. Ele era assim, você lembra algo da convivência com ele?

Nós éramos os únicos sobrinhos, as únicas crianças na família. O irmão dele, Carlos Moraes de Andrade, embora fosse casado, nunca teve filhos. Então éramos únicos. Ele sempre demonstrou muita simpatia com a gente, brincava muito com a gente, arranjava tempo para brincar. Tinham os momentos mais duros dele, de se fechar na sala do piano, ele tinha um Steinway, de vez em quando se fechava ‘para as crianças não perturbarem’ e ficava curtindo as amarguras da vida dele e os prazeres. 

Se fosse definir o seu tio como definiria? 

Ao lado do intelectualismo dele, gostava muito da vida. Era um glutão, gostava de comer, das especiarias e comidas do Norte, ele vibrava. Frutas do Norte… Ele tinha uma cozinheira que chamava Sebastiana, que o carregou no colo, e era exímia cozinheira. Ele vinha com as receitas dele e pedia para ela preparar as comidas. Gostava de beber, de comer, fumava igual um desesperado (risos).

Ele morreu brigado com Oswald. Ficou ressentido mesmo com tudo que o escritor havia dito sobre ele ou não, havia o perdoado, mas não queria mais contato?

Sei que ele não quis mais ter contato com Oswald de Andrade, rompeu definitivamente. A gente sabe que o Oswald teve várias tentativas de reaproximação, mas o Mário se negou. Rejeitou. O Mário tinha um conceito de amizade muito sólido, sabe? Quem era amigo dele era amigo de verdade. Foi assim com Drummond, com Bandeira, com Guilherme Figueiredo, com Zé Bento, secretário dele por muitos anos. A Oneida, a Gilda. Amizade para ele era algo intocável, que mantia e curtia com muito prazer. A gente vê isso pelo número de cartas que ele escreveu e o conteúdo delas. É muito rico. As cartas dele para Manuel Bandeira e Drummond são qualquer coisa de notável, eu sinto isso. Coisa de 7 mil cartas (escreveu).

Os pesquisadores costumam revisitar essas cartas. Inclusive, há pouco tempo, encontraram uma em que falava da sexualidade dele. Por que o senhor acha que as pessoas têm interesse em saber de algo tão particular?

Acho que isso é consequência de vocês, jornalistas. Que se interessam mais pelas coisas pouco interessantes do que as que realmente fazem algum peso na vida das pessoas. Foi algo que ele manteve muito particular, não comentava com ninguém, a não ser naquela carta (endereçada a Manuel Bandeira), que hoje todos conhecem. Mas ele sempre se manteve num recato bastante grande. 

Há pouco abriram um instituto em São Carlos que homenageia Mário de Andrade. O que o senhor achou da iniciativa?

Achamos muito interessante e as iniciativas que esse instituto toma são muito curiosas. Peguei pela internet, você hoje consegue recapitular um monte de coisa, e vi alguns dos shows que eles preparam, alguns duram um dia inteiro, às vezes dois dias, de músicas, misturando clássico, popular, mas com elegância e uma criatividade notável. Ficamos muito honrados. 

Todo acervo do Mário foi doado ao IEB (Instituto de Estudos Brasileiros). Ficou algo com vocês ou tudo está lá para quem quiser pesquisar?

A obra dele já caiu em domínio público, mas quem cuidou até 2015 fui eu. Cuidava da edição e divulgação da obra dele. Mas o acervo todo, em 1968 foi para a USP e cada um de nós guardou alguma coisa que lembrava o tio. Eu guardei um quadro, minhas irmãs outros dois, sempre fica alguma coisa do ‘tio Mário’. Aliás, eu tenho até uma santa que ele mantinha, uma imagem barroca de Nossa Senhora que ficava em cima do piano e está comigo. Coloquei em cima do meu piano.

Era muito religioso também, né?

Ele acreditava em Deus, embora não fosse praticante. No começo da vida foi. Mas depois se afastou um pouco, mas manteve a crença em Deus. Nunca pôs em dúvida a existência divina. Acreditava piamente nisto. 

E para o senhor, que conviveu de perto, qual foi o maior legado que o seu tio deixou para você?

Para mim, em particular, foi a lembrança do ‘tio’. A pessoa. Do tio querido. Ele era meu padrinho de batismo. Ele e a tia Nhanhã (Ana Francisca, irmã da mãe de Mário), que teceu os sapatinhos do filho do Macunaíma. O que ficou para mim foi a lembrança do homem, o Mário. 

Se tivesse a oportunidade de encontrá-lo hoje, o que falaria?

(Emocionado) Não cogitei, nem sei se falaria alguma coisa. Eu perderia a fala. 

E para o ano que vem, com os 100 anos da Semana de Arte Moderna de 1922, vocês preparam alguma coisa?

Tem alguns livros que vão ser lançados sobre a Semana de 22, já me pediram licença para reproduzir umas fotos deles. Sei que a Biblioteca Municipal vai montar um retrato que pega a fachada inteira, ao lado da Biblioteca, o prédio de cima abaixo. Tem mais de 50 metros de altura. Também na Barra Funda o Memorial da América Latina que conseguiu na prefeitura a mudança do nome da rua que passou a ser Avenida Mário de Andrade. E eles vão colocar no prédio de administração um grande retrato dele. Aliás, a pintura feita pelo Lasar Segall, de forma ampliada. Já a família não prepara nada (para o centenário). 

(Miriam Gimenes/Agenda Tarsila)

Veja também
+Programação