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‘Meu pai era uma pessoa muito intensa, em todos os sentidos’, diz Elisabeth Di Cavalcanti, filha do pintor modernista

A Semana de Arte Moderna de 1922 foi realizada em São Paulo, mas a ideia, como muitos defendem, veio de um jovem artista nascido no Rio de Janeiro: Emiliano Di Cavalcanti. Foi o exímio pintor, desenhista, ilustrador e escritor que, com seus contatos, reuniu uma turma de intelectuais e mecenas para promover aquele que seria o evento mais repercutido nos últimos cem anos, que teve como palco o Theatro Municipal de São Paulo. 

O fato é que Di, como era chamado pelos íntimos, era um apaixonado pelo Brasil. Embora tenha vivido também bastante tempo na Europa, especificamente na França, por razões políticas ou outras, ele nunca deixou de se preocupar com o seu país. É o que revela em entrevista exclusiva a sua única filha, Elisabeth Di Cavalcanti Veiga, que lembra que o artista era uma pessoa muito intensa, em todos os sentidos. Em breve deve abrir um instituto para perpetuar a obra paterna, a qual ela tem muito apreço. “O Di Cavalcanti não vai morrer e eu fico até muito orgulhosa porque este meu trabalho não vai deixar ele morrer”. Confira, a seguir, a entrevista completa:

Como é carregar o DNA e o legado de uma pessoa tão importante para a história da cultura brasileira, e ver essa história ser revisitada 100 anos depois, agora, inclusive, pelo centenário da Semana?

Trabalho com a obra do meu pai há 20 anos. Se no princípio foi difícil de carregar, de começar a levantar a obra dele, hoje já não é mais. Não estou mais engatinhando, estou andando, o que já é um grande mérito. Comemorar Di Cavalcanti neste ano do centenário da Semana de 1922 não é difícil porque comemoro meu pai todo dia. Já empreendi várias exposições do Di, então sempre estou visitando a obra dele, em recortes diferentes. E sempre é uma surpresa, porque tem muitas coisas que vêm à baila, todo dia. Vai sendo acrescentado ao banco de dados dele. E o que é isso? São as obras levantadas, mais todas as informações que tenham sobre elas e também da biografia dele, que é muito intensa em todos os sentidos, porque ele era uma pessoa intensa. 

Você formou um Instituto que leva a obra do seu pai. Como é este trabalho? Existem 9 mil obras catalogadas dele?

É complicado falar disso. Sempre olhei Di Cavalcanti não como artista, mas como meu pai. O que vem sempre em primeiro lugar é a relação afetivo-emocional. Quando papai morreu foi um choque tremendo para mim, não vivenciei o luto e durante muito tempo não conseguia mexer nada que dissesse sobre ele. Ele nunca falava de trabalho em casa. Só me conscientizei de que era um grande artista quando houve a exposição do Museu de Arte Moderna de São Paulo, uma retrospectiva levada a cabo pela curadora Diná Coelho (em 1971), que era casada com um grande amigo do meu pai chamado Luiz Coelho. Eu estava chegando da Europa. Quando entrei no MAM e vi todas aquelas obras unidas tive um impacto muito grande. Naquele momento vi que não era só meu pai, era um grande pintor, um grande artista, um grande intelectual e que se chamava Emiliano Di Cavalcanti de Albuquerque. Di Cavalcanti não faz parte do nome dele, que é Emiliano Augusto de Albuquerque Melo. E esse apelido ‘Di’ veio de uma tia que chamavam de ‘Didi’. E passaram a chamar o menino rechonchudo com esse apelido afetuoso que pegou.

E sobre o Instituto? São mesmo 9 mil obras dele?

Juridicamente ainda não está constituído, mas vai ser em pouco tempo. E por que 9 mil obras? Porque eu sei como papai produzia e fazendo uma análise da biografia dele você vê quando ele tinha acesso ao material com tintas, cavalete, produzia. No começo da carreira, não sei se as pessoas estão cientes disso, o Di começou como ilustrador e caricaturista. Mas além de ser isso, foi um grande desenhista, pintor, poeta, escritor, intelectual e uma pessoa extremamente preocupada com o Brasil, era um ser político. Uma pessoa plena e eu tenho muito orgulho de poder olhar meu pai hoje, transcorrido 40 anos da morte dele, com o mesmo afeto e ternura que eu tinha quando ele ainda estava vivo.

Como era o Di pai?

Nós tivemos uma relação de pai e filho que não foi um mar de rosas. Papai era muito explosivo, acho que tinha de ter recebido umas lições de como ser pai. Mas quando você cresce e consegue ver outra coisa além da paternidade, essas diferenças vão amainando. E principalmente porque, no final da vida, quem ficou ao lado dele fui eu. Ao invés de ter somente um pai, passei a ter também um filho. E, nesses momentos, todas as diferenças são esquecidas. Acho que vai triunfar mais uma coisa chamada amor. E o amor foi, de uma certa forma, o que conduziu meu pai. O Brasil para ele era uma grande preocupação. Lutou muito para que o país se tornasse melhor, que não houvesse tanta miséria como tem no nosso país. Não só a física, mas também a moral. Sou do Rio e não preciso sair daqui (para ver isso). Nas calçadas hoje, os desnutridos, uma coisa terrível, hoje chamam comunidades, mas na época do meu pai era favela. São pessoas ótimas, maravilhosas, porque o brasileiro é maravilhoso, é um povo gentil, mas destroçado pela miséria. O papai lutava muito contra isso, a favor de que mudasse, mas infelizmente, em vida, não pode ver isso, como eu também acho que não vou ver. Seria tão bom que nos uníssemos todos. Uma coisa muito bonita aconteceu agora no Rio, após a tragédia de Petrópolis, com os voluntários, as doações imensas, e espero que a solidariedade não esmoreça. E você vê em todos os escritos do meu pai este tipo de preocupação, a análise política e social que fazia é totalmente pertinente aos dias de hoje. Vai sair uma biografia dele no segundo semestre do ano e estou até muito curiosa porque vou ver: ‘o que não sei daqui?’. Porque a vida dele é um grande quebra cabeças, tanto da produção, não só pictórica como sócio-política, lírica, que era ele sendo poeta, fazia coisas lindas. Estava até agora lendo poesias dele porque vou precisar usá-las e são coisas que continuam. O verdadeiro artista falece e a obra não morre. Você tem hoje mercado de arte, muitos galeristas tentam trabalhar o artista para que haja um ganho de mercado. Mas o verdadeiro artista pode até não ser muito famoso, mas quando descobrem a obra dele, que fala tanto a alma humana, a emoção, que ele acaba sendo incorporado à constelação dos artistas. O Di Cavalcanti não vai morrer e eu fico até muito orgulhosa porque este meu trabalho não vai deixar ele morrer. Porque são 9 mil obras que calculei estudando a trajetória de vida dele e papai era um desenhista compulsivo. Isso não vai se perder porque dentro desse universo já consegui registrar umas 6 mil mais ou menos. Em museologia, se você tem um desenho pequeno, 3 por 3 que seja, isso é uma obra. Se você tem um painel como o que está no Museu Afro Brasileiro (Navio Negreiro, de 1961, que pertence a um banco), essa é uma outra obra. Jamais podia imaginar que ele tivesse feito tantos painéis quanto levantei, mais ou menos umas 60 obras de grande formato.

E estão espalhadas pelo mundo?

Tem pouca coisa que levantei pelo mundo. Tem em Portugal, Genebra, na França, tem uma na Inglaterra. Apesar da minha mãe ser inglesa, papai não gostava do que fosse inglês, a não ser ela (risos). Não é Di Cavalcanti que vai ao mundo, mas é o mundo que vem a ele. É diferente. A emoção humana é a mesma independente da latitude e longitude. Quando uma pessoa vê uma obra dele, vai ficar impactada e vai perguntar. A obra dele tem de ser trabalhada comercialmente. Não trabalho com mercado de arte, não compro e vendo quadros, o que fico querendo fazer é mostrar Di Cavalcanti para o mundo. E como faz isso? Entrando nas grandes casas de leilão. Se você começa a despertar ou fazer exposições que mostram o artista isso vai despertar o interesse de colecionadores em adquirir o artista. Para mim tem duas coisas que regem o mercado: a mais rara que é o amor ao artista, a identificação, e a especulação. A arte hoje está muito especulativa. Me pergunto se ela vai sobreviver. Não vou estar mais aqui, mas as gerações futuras verão isso com certeza. 

Para você, qual a maior marca da obra do Di que o torna tão especial, não só no Brasil como para o mundo?

Para mim, no meu julgamento, o Di Cavalcanti foi um grande desenhista. O papai em vida fez uma coleção com Luciano Finkelstein de joias. E ele falou uma coisa que é verdade: você pega um desenho de Di é tão bem urdido, que se você muda uma linha quebra o desenho. Foi um caricaturista extremamente mordaz, tanto na parte visual, pictórica, como também na escrita. Ele teve um momento com grandes dúvidas se continuaria a ser um pintor, desenhista, ou escritor. Mas acredito que não continuou com a veia literária porque era muito anárquico, e a literatura exige o silêncio. A concentração. E o papai era muito aberto, muito luz, para ficar confinado escrevendo. Porque naquele tempo você tinha de ficar catando milho como Jorge Amado dizia, mas precisava de silêncio para produzir. Acho que ele não tinha esse temperamento. Quando estava pintando gostava de ter sempre um interlocutor. Até o modelo, ficava falando uma série de baboseiras, mas ele gostava. Tirava a cabeça da seriedade, do drama humano. E ele era uma pessoa extremamente alegre, exuberante, tinha milhares de amigos de fato, uma pessoa muito generosa. Mas, ao mesmo tempo, era extremamente angustiado, pelo que chamava de tragédia do Brasil dele. Não conseguia ver uma solução política para o país. Quando ficava angustiado e não conseguia falar com ninguém e era nesses momentos que ele parava, escrevia, muito bem por sinal. Foram dois livros, tem muito manuscrito, poemas lindos. E análises políticas também, recordação do que passou. Foi preso duas vezes – ele disse três, mas só encontrei duas até agora – e isso o marcou profundamente. 

A questão política, o envolvimento com o Partido Comunista, o prejudicou de alguma forma?

Acho que sim. É engraçado: ele foi preso porque foi pró-Getúlio e também porque foi contra. E nessa prisão de 1936 conseguiu sair graças aos seus contatos. Saiu do Brasil e se auto isolou na França. E conheceu duas tragédias que devem tê-lo marcado muito. Primeiro é a saída para Paris sem nada, tendo que fazer contatos, e quantas concessões não deve ter feito… E não se firmou como pintor, mas em outras coisas. Ficou quatro anos fora do Brasil, quando tantas coisas passaram. Quando voltou foi fugindo dos nazistas, uma fuga muito difícil, o navio dele quase foi bombardeado. Ao chegar aqui teve de começar do zero novamente. As pessoas sabiam como era Di Cavalcanti, mas ser artista moderno até 1950 era muito difícil. Não é ir a uma galeria, noite de inauguração… Era muito sofrido e sempre você tinha de fazer concessões, sejam artísticas, políticas, até voltar a se firmar. Ele era super conhecido, mas você não come arroz com feijão por isso. Teve de lutar muito. Papai é diferente da Tarsila, da Anita. Não veio de família de posses. A família dele perdeu tudo, o pai morreu quando ele tinha 14 anos, teve de começar a trabalhar muito cedo, e tudo isso é muito sofrido e acho que até um pouco humilhante para um jovem. Não sei se você sabe, mas José do Patrocínio (ativista político abolicionista) era tio do meu pai, foi casado com uma irmã da mãe dele. E o filho (José do Patrocínio Filho) que era genial era primo-irmão do meu pai. Politicamente e artisticamente a casa dele tinha sempre saraus. A mãe dele era amiga do Olavo Bilac, que ia para casa dos pais do meu pai. De repente, o pai morre e fica um vácuo muito grande. A mãe teve de sair da casa porque eles perderam tudo, teve de começar a trabalhar muito cedo, com 17 anos. O primeiro trabalho foi para colocar dormentes na Estrada Mogiana. Foi uma vida de muita batalha. E quando pôde respirar fundo, em meados da década de 1950, resolveu ser um grande boêmio. Já era, mas ficou boêmio oficial. E sempre muito querido, mas às vezes, você viver a vida na plenitude perde a dedicação ao seu fazer, entende? As pessoas vêm falar dele comigo de um jeito até um pouco leviano. Porque acho que quando não se conhece bem um assunto, o mínimo que pode fazer é se calar e escutar. Eu como filha, sendo norteada pelo que falei, o amor e afeto, não esmoreço, vou em frente em levar esse meu trabalho, que daqui a pouco vai ser institucionalizado, vou levar até o fim, até onde puder. Tenho dois filhos: o mais velho se chama Jorge e o mais novo Emiliano Di Cavalcanti. E este Emiliano 2 vai me ajudar a levar a bandeira da vida e obra do meu pai, assim espero.

Muitos dos entrevistados que falei falam que a ideia da Semana de Arte Moderna partiu de seu pai. Concorda? 

Foi sim, casualmente. O papai, pela inteligência dele, começou a frequentar muito a casa do Paulo Prado. E quem o levou lá foi Graça Aranha. E o Paulo ficou encantado com aquele jovem, e lá ele reunia intelectuais, esses homens mais maduros que discutiam o Brasil. O papai já tinha essa carga de brasilidade imensa, lá de traz, com Zé do Patrocínio, e o Paulo Prado era casado com uma senhora francesa, conhecida como Marinetti e ela tinha estado na França, em Deauville, onde teve uma semana de eventos. Já tinha aquele turbilhão de vontade de mudar as coisas no Brasil, o engessamento, e o papai disse para a turma toda de São Paulo e Rio de Janeiro: ‘por que a gente não faz uma semana de eventos?’. E o Graça Aranha abraçou essa ideia e isso tudo foi apoiado pelos cafeicultores, mais reacionário impossível. E a Semana acabou acontecendo. A ideia foi realmente do meu pai. 

Quando for aberto o Instituto, pretende fazer algo para a marca da Semana?

Nada previsto. Alguma coisa vou fazer pelo Di Cavalcanti. A Semana deixo para os outros. Tem muitos que falam da Semana, lutam por ela, acho maravilhoso porque foi um grito de liberdade, você vai fazer uma poesia livre, vai escrever como Oswald de Andrade. Deixo para os outros (comemorarem). E tem tantos que estão comemorando os 100 anos da Semana… Com 110 vão celebrar novamente, com 115, vão comemorar a vida inteira. 

(Miriam Gimenes/Agenda Tarsila)

Publicada em 14 de março de 2022

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