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‘Minha carreira é dividida entre o antes e o depois de conhecer a obra de Oswald de Andrade’, diz o diretor de teatro, Zé Celso Martinez

O escritor e jornalista Oswald de Andrade era um apaixonado pelas letras. E não se limitou a agrupá-las apenas nas páginas de livros: também se arriscou no teatro. Em 1937 publicou uma de suas principais obras, O Rei da Vela, cujo texto refletia sua visão da sociedade brasileira da época. Coincidência ou não, no mesmo ano ‘estreava’ no palco da vida o diretor e fundador do Teatro Oficina, José Celso Martinez, responsável por difundir, trinta anos depois, a montagem que trouxe o nome do modernista novamente à tona na cena cultural brasileira. 

Zé Celso é um dos principais nomes do teatro brasileiro. Liderou, em cena, nomes como Augusto Boal, Fernanda Montenegro, Sérgio Britto e Raul Cortez. E não nega, de forma alguma, a maneira como a antropofagia oswaldiana inundou seus pensamentos. “De repente chegou ‘O Rei da Vela’, e no momento que o Renato Borghi leu em voz alta a gente ficou besta. Porque eu tinha lido e não tinha entendido nada. Pensei: ‘que peça chata, peça panfletária’. No que ele leu a revelou, porque trouxe a palavra shakespeariana brasileira de Oswald de Andrade”. Segundo ele, o texto do modernista foi um divisor de águas na sua carreira. Confira, a seguir, a entrevista exclusiva à Agenda Tarsila: 

Quando Oswald lançou a antropofagia, em 1928, talvez não tenha sido muito entendido o que queria passar com essa ideia. Isso foi revisto um tempo depois, por muitos artistas, inclusive você foi influenciado por este ideário oswaldiano. Queria que me falasse como se deparou com a obra do Oswald e como ajudou a difundi-la na história da cultura brasileira. 

Não é um ideário a obra dele. A obra dele é de arte e uma obra política. Oswald tem vários livros publicados como artista, tem livros sensacionais, e como dramaturgo, enfim, como poeta. Mas a história de 22 foi realmente uma coisa importante. Que reuniu todas as insatisfações com aquele mundo velho que ainda existia em São Paulo, oligarquias que não eram  ainda nem quatrocentonas, e Oswald de Andrade tinha criado muito pouco (até a Semana de 22)… Enfim, a burguesia de São Paulo, tanto rural quanto industrial, mandaram os filhos para a Europa e eles todos chegaram lá exatamente no momento da explosão do modernismo, surrealismo, de Picasso, logo depois da revolução socialista internacional… Com isso tudo, ainda, ele (Oswald) voltou e não escreveu a grande obra dele, fez uma série de romances. Em 22 ele ainda estava caminhando. Tinha ido para Europa, tinha visto muita coisa, tinha conhecido a Deise (Maria de Lourdes Olzani), na garçoniére, onde ia todo o pessoal do modernismo, na Barão de Itapetininga. Lá tinha um livro maravilhoso em que deixavam comentários e foi onde ele conheceu a Deise. Eu tenho 84 anos, já vi várias gerações com aquela garota ‘que é estranha, que é livre, além da época’. Esta era Deise,  uma mulher do Brás, popular, mas sofisticada, muito livre no amor. Ele teve um caso com ela, talvez os outros caras também tiveram, mas ele se apaixonou e ela engravidou. Aí ele pediu para ela abortar. E no que ela abortou, foi agonizando. Daí ele pediu ela em casamento, casaram-se em extremis. E escreveu um livro muito lindo, Sob As Ordens da Mamãe, que tem essa cena muito comovente, dele com ela, nos últimos minutos, se casando… E ela morre. Deise era o próprio modernismo. Antes de todos. Ela já era melindrosa. (…) Quem chegou pronto na Semana de Arte Moderna foi Mário de Andrade, que já tinha feito poesias modernistas. Manoel Bandeira também tinha feito Os Sapos, mas Oswald tinha feito romances ainda com influência do século 19. Mas aí vem o modernismo, que cultivava uma coisa horrorosa, que eram os bandeirantes, hoje que estamos derrubando estátuas de bandeirantes, os grandes exploradores, assassinos, dos massacres dos índios, africanos, esses caras que têm monumentos, eles (modernistas) adoravam. Quero dizer, estavam bem atrasados, de certo sentido. Eles vinham de famílias que descendiam destes caras, deste colonizador. Mas a família os mandavam para Europa e voltaram totalmente pirados. A primeira que pirou foi Anita Malfatti, que tinha ido antes. Fez uns quadros, o Monteiro Lobato fez uma campanha enorme contra ela, ficou escandalizado. Mas Oswald, todo mundo, começou a defender ela. Começaram a ver, nesta mulher, brotar o modernismo. De qualquer maneira, o espetáculo datado do municipal foi muito bom, porque naquele teatro maravilhoso – antes da pandemia encenamos o Roda Viva lá -, reuniu todos escritores, poetas, músicos, juntou toda a geração que não sabiam exatamente como iam conseguir, mas não estavam aguentando mais aquele modo de vida, super careta. Estávamos em pleno século 19, era o parnasianismo… Só depois da gripe espanhola, o mundo começou a mexer e quando chegou no Brasil, foi quando voltaram da Europa Menotti del Picchia, Oswald. Mário não foi, talvez por isso ele já estivesse pronto, era um grande poeta. (…) O meu corpo hoje vê o modernismo como uma coisa extremamente importante, as três noites de Municipal, em que Villa-Lobos se apresenta – ele continua sendo um gênio internacional, maravilhoso. Nós tivemos várias encenações, cantamos, dançamos as músicas de Villa-Lobos, inspirou muito o Teatro Oficina, em toda essa jornada que chamamos de tragicomédia orgia. Oswald já era inquieto, mas ele não tinha chegado onde foi parar depois. Ele foi chegar em 1924, com a Tarsila, produzindo aquele livro maravilhoso, pequenininho, verde-amarelo e vermelho, Pau-Brasil. É deslumbrante, como objeto artístico, porque ele (Oswald) fez com Tarsila. É uma obra-prima este livro. 

E o que vem a partir daí?

Depois dele, Oswald vai escrever o Manifesto Antropófago. Antes ele faz Primeiro Caderno do Aluno de Poesia, muito bonitinho, porque ele escreve como se fosse um menino aprendendo poesia, decorado como se fosse um caderno de menino na escola, com o nome de todos os estados, mas nome errado. Depois ela (Tarsila) lança o Abaporu, aí começa realmente o movimento que em 1928 ele proclama: ‘Eu não sou mais modernista. Nã, nã, nã, nã, não. Eu sou o primeiro poeta pós-moderno mundial. Eu sou antropófago. Quero dizer: vejo o mundo do ponto de vista dos índios. Eu sou antropófago, os índios são antropófagos. Claro que não sei se vou comer gente, ou não. Mas eu vou comer toda essa colonização com a minha obra.’ E aí ele lança o romance obra-prima dele, que equiparo tão importante como Ulysses, de James Joyce: Serafim Ponte Grande. Parece um filme do (Jean-Luc) Godard. É um romance contado em mil formas, acho que ele vai além do livro do James Joyce. É muito engraçado, maravilhoso, um dos personagens chama Pinto Calçudo… Tem as histórias de amor, mas termina em um navio que nunca aporta, em continente nenhum. (…) Lá eles vivem uma revolução sexual no navio. Tinha outro, anterior, que também é maravilhoso, o Memórias Sentimentais de João Miramar. E ele (Oswald) era jornalista também. A grande influência dele, além dos índios, eram também os operários do Brás. Tanto que logo depois se juntou com a Pagu, uma grande artista que vinha do Brás. Enfim, foi evoluindo na carreira, então ele começa a falar (no jornal) do TBC (Teatro Brasileiro de Comédia). ‘Tenho prazer de ver Cacilda Becker, Sérgio Cardoso, mas o teatro tem de ter as grandes emoções do povo, tem de ser um teatro estádio’, escrevia. Ele faz todo um elogio do teatro para as multidões. Oswald de Andrade era assim. Ele vagava nas coisas que estavam acontecendo, era muito presente. Mas, ao mesmo tempo, era um grande poeta. Era da dimensão do Nelson Rodrigues, são os dois grandes poetas do teatro brasileiro. O Nelson é mais conhecido, mais lido, mas foi em 1967, com O Rei da Vela, época que Glauber Rocha fazia Terra em Transe, e que o Caetano Veloso tinha visto a estreia do Rei da Vela, ao mesmo tempo em que ele já compunha a Tropicália, então, praticamente, 1967 reuniu (a obra de Oswald), sem ninguém combinar com ninguém, não foi como a Semana de Arte Moderna… Mas de repente, do nada, sai uma geração que se liga totalmente numa visão de tropicália antropófaga. Uma visão que tem a consciência de estar no hemisfério sul e que foi colonizada pelo hemisfério norte. Vem este movimento que é a Tropicália, cujo grande inspirador, tanto dos músicos, quanto dos demais artistas, foi Oswald de Andrade. 

Que até então ele era um gênio desconhecido, né?

Totalmente. Minha geração não conhecia Oswald de Andrade. Mas quando o diretor de teatro italiano, Ruggero Jacobbi, foi expulso do TBC, porque ele colocou um poema muito subversivo do (João da) Cruz e Souza, no fim de uma peça inglesa, A Ronda dos Malandros, e foi um espetáculo muito violento, muito debochado em cima dos burgueses, o Franco Zampari, que era o empresário, mandou ele embora. Ele foi dar aula em Porto Alegre. E lá foi ler o que tinha no Brasil e quando ele viu, na literatura, Oswald de Andrade, ficou besta. Era uma coisa absolutamente diferente de todos. Aí ele pega O Rei da Vela e dá para Luiz Carlos Maciel, que era aluno dele e depois se tornou um grande crítico de teatro. Ele veio para o Rio e botou na roda. (…) E no momento que o Renato Borghi leu na casa de uma atriz, que era Germana de La Mare, uma jornalista, filha de uma grande pediatra, a gente ficou besta. Porque eu tinha lido e não tinha entendido nada. Pensei: ‘que peça chata, panfletária’. No que ele leu a revelou, porque trouxe a palavra shakesperiana brasileira de Oswald de Andrade. Aquela palavra gorda, cheia de vida, magra quando precisa. De uma eloquência tremenda. A eloquência do Nelson Rodrigues é mais do subúrbio, que é maravilhoso. Mas Oswald exibe isso luxuosamente quando a escreve em 33 e publica em 1937, o ano em que eu nasci. E ninguém quis fazer na época porque o Procópio era um ator das antigas, não entendeu nada. Eu fui ter conhecimento aprofundado dele (Oswald) em 1963, quando o arquivo dele estava na casa do seu primeiro filho (Nonê), eu caí de boca em um baú, li tudo. Fiz fundamentalmente meu corpo, que irradiou na minha cabeça, Oswald de Andrade, e eu pude fazer uma direção com uma equipe maravilhosa do Teatro Oficina, que vinha do teatro stanislavskiano, e que fazia realmente uma revolução teatral. Porque Oswald criou entidades, o personagem é como se fosse uma macumba. O Abelardo I é um homem do poder, inteligente, brilhante, sarcástico, cínico, além do bem e do mal. Muito bem feito por Renato Borghi.

Você me falando tudo isso parece que seu encontro com a obra do Oswald foi um divisor de águas na sua carreira. É isso mesmo?

Totalmente, existe um antes e um depois. Atualmente eu sou antropófago, porque descobri minha descendência indígena da minha avó paterna, minha bisavó que morava na chácara, ela era completamente doida, ria sem parar e ficava fazendo cambalhota, aquilo me marcou para o resto da vida. E a descoberta da antropofagia fez com que hoje, inclusive, esta seja uma das culturas mais fortes no Brasil, a indígena. O livro do Davi Kopenawa, ditado pelo yanomami ao um etnólogo francês, só chegou no Brasil quatro anos depois, A Queda do Céu. É um livro maravilhoso, onde você revela a perspectiva do índio. Porque tem muita gente que não sabe o que o índio pensa, mas tem uma cultura maravilhosa. Tem uma maneira de viver na floresta, tem uma história, no mundo inteiro, foram os povoadores iniciais do mundo. Os humanos que começaram o mundo e se meteram nas florestas. São próprias entidades da floresta. Hoje eles são nossos grandes faróis. O índio, apesar de massacrado, são inteligentes, fortes, trazem a cultura para onde devemos caminhar. A gente não deve depois dessa praga que recebemos e estamos recebendo outra, a variante delta, tudo isso pegou o mundo que estava armado e globalizado. Foi a primeira comunhão internacional através do vírus. Isso tudo nos leva cada vez mais a refletir sobre a importância de reconstruir a natureza, a vida a partir da nossa própria natureza que é o nosso corpo. 

Como vê o legado dos modernistas sendo revisitado?

Importantíssimo. A Semana de Arte Moderna foi reformista, porque tinha bandeirantes nas costas, ela não chegou a ser uma revolução. Ela reformou e trouxe o modernismo para o Brasil realmente, a arte. Agora, politicamente tinha Plínio Salgado, que depois criou o integralismo (movimento partidário, de extrema-direita com inspiração fascista). Mas, em 1928, com a antropofagia, o modernismo se descoloniza totalmente, porque não passa a ser só a influência de Paris, do Picasso, essa coisa toda, passa a ser o contrário, a devolução do que nos botaram, do que fizeram aos índios e a nós. 

Se surgisse hoje um Oswald, como ele revolucionaria a cultura brasileira?

Não existe isso. Ele já deixou seu legado. Caetano Veloso tem o legado dele, Gilberto Gil tem, Helio Oiticica tem. Toda essa obra que veio depois da tropicália antropófoga é oswaldiana. O Augusto Campos, o Haroldo Campos, foram quem redescobriram na época do Rei da Vela. Eles escreviam sobre Oswald. Ele (Oswald) virou best-seller, a peça fez um sucesso tremendo, não só em São Paulo como no Brasil todo. Fomos até para um festival na Itália, da Democracia Cristã, em um teatro enorme, lotado. (…) Refizemos a peça em 2019. No Rio lotado, São Paulo lotado, no teatro Sérgio Cardoso. Sempre sucesso.

Existe o plano de remontá-la?

Tanto O Rei da Vela quanto Roda Viva (Chico Buarque) é repertório da Oficina, pode ser remontado sempre. 

E quais são os planos do Teatro Oficina?

Nós filmamos este ano, com a Monique Gardenbeg, no Teatro Oficina, em um gelo, um frio, porque tem de abrir tudo por causa do coronavírus. Logo que puder, a gente vai entrar com Esperando Godot, uma peça muito importante porque Godot é Deus. E no fim da peça ele não vem. Mas nós fizemos uma versão anti-messiânica, porque a gente não é messiânico, não podemos esperar nada, o teatro é uma arte da urgência, do aqui agora. Fizemos uma operação plástica no segundo ato da peça que é uma surpresa, em que nos libertamos do messianismo. Digam o que quiserem os agentes do (Samuel) Beckett, que ficam policiando a interpretação muito forte e boa. ‘Desesperando Godot’, acho que vou dar esse nome… é uma grande comédia. 

Daqui 100 anos, como você quer ser lembrado?

Eu quero ser deslembrado. Quero que o teatro no Brasil continue. Porque ele tem um sêmen muito forte, antes do (Padre José de) Anchieta, os índios faziam muito teatro. Todos os povos primitivos faziam exatamente o que foi na Grécia.

(Miriam Gimenes/Agenda Tarsila)

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