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MIS prepara grandes exposições para celebrar o centenário da Semana de Arte Moderna de 22

O MIS (Museu da Imagem e do Som) foi criado no auge da ditadura militar, no início da década de 1970. Nasceu por iniciativa do cineasta Rudá de Andrade – filho de Pagu e Oswald de Andrade -, do crítico de cinema Paulo Emílio e do jornalista Francisco Luís Almeida Sales. No ano seguinte, Tarsila do Amaral concedeu entrevista para a instituição, e a conversa teve como tema a Semana de 22. Estes são apenas alguns exemplos de como o ‘sangue modernista’  correu nas veias do espaço cultural desde o início.

Tanto que, para o próximo ano, o MIS, tanto o do Jardim Europa quanto o Experience, preparam duas grandes exposições que devem celebrar o centenário do evento no Theatro Municipal de São Paulo. Em entrevista exclusiva à Agenda Tarsila, o diretor geral das unidades, Marcos Mendonça, adianta o que está por vir a partir de fevereiro de 2022 – o Paço das Artes, no Shopping Higienópolis, gerenciado por ele, também abrigará mostra com a temática. 

A primeira, com previsão de abertura em fevereiro, é a Portinari para Todos, no Experience. “Portinari não participou da Semana de Arte Moderna, mas ele foi modernista dos mais importantes, ou o mais importante, aquele que pintou o Brasil”, justifica Mendonça. Peças icônicas do pintor, como os painéis Guerra e Paz, que estão na sede da ONU (Organização das Nações Unidas), nos Estados Unidos, poderão ser vistos pelos visitantes por meio da tecnologia. Já na unidade do Jardim Europa, com base no grandioso acervo do MIS sobre o modernismo, será realizada, provavelmente a partir de março, a exposição Cem Anos Modernos, que também usará de projeções para recontar este importante marco na cultura brasileira. Confira entrevista completa a seguir:

Você gerencia as duas unidades do MIS, tanto do Jardim Europa quanto do Experience. Sei que estão previstas duas grandes exposições, que gera bastante expectativa no público. Queria que você me falasse o que está previsto para comemoração do centenário da Semana de 22.

Na verdade são três equipamentos que nós administramos. O outro é o Paço das Artes, junto ao Shopping Higienópolis. E o Paço também terá uma exposição sobre a Semana de 22. Evidentemente que lá o espaço é mais reduzido, não terá a mesma dimensão tanto do MIS Europa quanto do Experience. Mas será também uma mostra alusiva à Semana. Mas, voltando aos dois equipamentos principais que administramos, o MIS Europa irá abrigar uma exposição denominada Cem Anos Modernos. O que nós vamos mostrar é o que aconteceu nestes 100 anos de modernismo no Brasil. Como isso influenciou na cultura brasileira e fez com que a marcasse. Qual foi o impacto disso na nossa cultura e o que influenciou aqueles que se seguiram à Semana de 22. É um grande trabalho de pesquisa que está sendo desenvolvido de tal forma a poder mostrar para o público em geral as influências que aconteceram nas mais diversas áreas. No geral, quando a gente fala da Semana de 22, ficamos muito restritos às artes visuais e, na verdade, essa exposição vai abranger outros segmentos da cultura, tanto na questão da literatura, da música, cinema, enfim, nós vamos buscar avaliação do impacto da transformação que ocorreu no Brasil a partir do evento. Primeiro: como se chegou a 1922? Depois, o que isso impactou e transformou na cultura brasileira de tal forma que a gente chegasse ao mundo de hoje? Na verdade é muito mais um trabalho de pesquisa, levantamento, de todas essas influências, que vai ser levado no MIS Europa. Estamos projetando inaugurar essa exposição entre março e abril do ano que vem. Por outro lado, o Experience, usando toda sua tecnologia e a característica de ser um lugar de inovação, experimentação, vai ter a maior exposição que já tivemos oportunidade de fazer no Brasil. Será sobre Portinari, o nome será Portinari para Todos. Usaremos a tecnologia de projeção, de interação, de modo a poder levar àquele espaço todas as obras do pintor. São mais de 5 mil. Isso, graças a tecnologia que nos permite projetar essas obras. E, por outro lado, Portinari tem uma característica muito peculiar. Ele foi um artista que tinha obras de grandes proporções, majestosas, e muitas delas são painéis fixos, murais, impossíveis de se locomover e outras que podem, mas é muito difícil a locomoção, quase que impossível. É o caso do Guerra e Paz (dois painéis de, aproximadamente, 14x10m cada), que está na sede da ONU (Organização das Nações Unidas, nos Estados Unidos). Ele saiu há alguns anos, para restaurar. O Projeto Portinari, capitaneado por João Cândido Portinari, filho do pintor, conseguiu autorização da ONU para retirar a obra, trazer ao Brasil e aqui fazer o restauro. Depois disso ela foi exibida no Rio de Janeiro, no Theatro Municipal. E, em São Paulo, no Memorial da América Latina. Depois ela retornou aos Estados Unidos, passando antes pela França, onde houve grande exposição. Mas, basicamente, esta foi a única vez que ela pode ser observada fora do seu local de instalação, que é o mais importante do mundo, exatamente no hall da ONU. As figuras mais importantes, os grandes líderes mundiais, têm oportunidade de observar esta obra que fala sobre a guerra e a paz, mostrando a importância da existência de um organismo como a ONU que visa celebrar acordos, negociar entendimentos entre as nações. Visa evitar que haja novas guerras. Essa obra tem esse impacto e ela poderá ser vista em uma condição excepcional (no Experience), em projeções onde de um lado poderá dar destaque para uma cena de ódio, desespero, de dor e, de repente, você passa para uma cena de alegria, de felicidade, de momento de descontração, de paz. O visitante poderá observar a obra melhor até do que se estivesse a vendo no local onde está instalado. Existe uma série de outros murais pelo Brasil e no mundo que estarão no Experience a partir de fevereiro do ano que vem. Portinari não participou da Semana de Arte Moderna, mas ele foi modernista dos mais importantes, ou o mais importante, aquele que pintou o Brasil. 

Em meio a tantos artistas modernistas, por que o recorte de Portinari, por que a escolha dele?

Portinari é o mais importante artista brasileiro, uma figura que tem obras espalhadas pelo mundo todo. E, na verdade, foi o pintor do Brasil. Ele pintou o brasileiro. Colocou a força do povo brasileiro, do trabalhador, das classes sociais estampadas em suas pinturas e isso tudo vai estar nesta exposição. 

Vocês chegaram a fazer também cursos de História da Arte Moderna, interativos. Tem algum outro tipo de programação neste sentido, de formação?

Na verdade temos tido uma programação intensa na área de cursos e, evidentemente, a questão da Semana de Arte Moderna ganha destaque e estamos permanentemente fazendo cursos em que as pessoas podem se inscrever e vão ter oportunidade de obter e ganhar conhecimento. Quero dizer também que a exposição do Portinari tanto quanto dos Cem Anos Modernos, as duas vão usar tecnologia, não vai estar exposta a obra lá, a original. Estará através de projeções, que nos permite observar a obra, um detalhamento que, às vezes, quando presente à frente da original não consegue ver. 

E é isso que o Experience proporciona, ver além da obra que está ali. Como fazer essa retomada, porque o MIS teve de fechar, seguindo os termos protocolares, para que não tenha uma aglomeração?

Felizmente as coisas, graças à vacina, evoluíram extremamente favoráveis, o que já permite que a gente possa estar com a exposição onde será possível você ter uma presença maior de público. Talvez até lá nem precise mais do uso das máscaras, vai depender da evolução (da pandemia). Mas nós temos tido hoje exposições, por exemplo, no MIS Europa, com enorme sucesso que é a da Rita Lee (Samsung Rock Exhibition – Rita Lee). Ali a gente segue todos os padrões. Inicialmente ela seguiu uma restrição muito grande com relação a presença do público e, aos poucos, graças a melhoria da situação sanitária no país isso permitiu que fosse evoluindo e temos possibilidade de receber ali um público como em épocas normais. Quase igual à lotação. Mas vamos seguir, evidentemente, todas as regras de segurança adequadas para fazer com que o público se sinta seguro e confortável.

O MIS surgiu no auge da ditadura militar com a iniciativa de um filho de modernista, o Rudá, filho da Pagu e de Oswald. Dá para dizer que o museu teve um dedo modernista?

Na verdade o que ocorre é que o MIS foi formado e fundado com esse intuito, de que naquela ocasião iríamos fazer 50 anos da Semana de 22. Naquela ocasião foi pensado de se criar um museu exatamente para iniciarmos todo um trabalho não só de expor o que teve em 1922, mas também recolher material a respeito. O MIS tem hoje um acervo grandioso a respeito de 1922 em termos de fotografias, depoimentos, e tudo isso estará disponível não só nas exposições que iremos fazer, na cidade de São Paulo, mas também circulando o Interior, com mostras itinerantes. Hoje estamos trabalhando outras questões do acervo e temos dez exposições circulando pelo Estado. Iremos ter uma quantidade grande de mostras que poderão percorrer as mais diversas regiões. É uma possibilidade que o MIS tem, de poder desenvolver cópias das fotos, e podemos montar mais do que uma exposição, com o mesmo nível de qualidade de exibição de forma simultânea. E estamos nos preparando para o ano que vem desenvolver isso em grande escala. 

E o que de fato, na sua opinião, o modernismo mudou em termos de imagem e som no país?

O modernismo foi um movimento que, à época, não teve grande repercussão, recebeu pouca atenção do público e muitas críticas, mas foi o canonizador de uma transformação brutal. Onde o Brasil passou a mostrar a cultura brasileira. A partir daí isso ganhou uma dimensão extremamente importante. A nossa arte, não só as visuais, ganharam outra dimensão, como as demais. Você teve ali, na Semana, a presença do Villa-Lobos, que influenciou toda música brasileira. Se tivemos um Tom Jobim foi graças a existência anterior de Villa-Lobos. Se tivemos Villa-Lobos foi graças a existência de Carlos Gomes. Na verdade, isso é um processo de transformação e evolução em que gerações vão recebendo aquele legado do passado, colocando sua visão sobre aquilo e vamos levando isso. Chegamos a esse momento no Brasil, de uma riqueza cultural imensa, graças, efetivamente, a esse marco transformador que foi a Semana de Arte Moderna de 22. 

(Miriam Gimenes/Agenda Tarsila)

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