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‘Moderno é todo artista que hoje está atrás da mudança e de melhorar o mundo’, analisa curadora de exposição na FAAP, Laura Rodríguez

Uma análise do processo do movimento modernista no país tem sido construída no Museu de Arte Brasileira da FAAP, em São Paulo, com a exposição Modernos. Os antecedentes puderam ser vistos até meados de maio por lá e o que veio em consequência, o Depois de 1922,  estará exposto até novembro no espaço cultural, e tem curadoria de Laura Rodríguez. 

A especialista em artes e também curadora do acervo da instituição adianta o que o público encontrará na mostra, as ‘pérolas’, e também faz uma análise da representatividade da Semana de Arte Moderna durante toda essa trajetória do movimento. “O grupo de São Paulo não seria o start, é a parte de todo um processo. É um ponto de uma linha onde aconteceram muitas coisas e que São Paulo, justamente, foi um dos primeiros estados que isso aconteceu. Porque muitos artistas iam à Europa e tinham influência das vanguardas”, explica. 

E esse, para ela, é o papel do artista: buscar os elementos de seu tempo e transformá-los em grandes obras, que atravessam séculos. “A arte está muito ligada a pessoas que querem mudar as condições da nossa vida e, em geral, os artistas são pessoas especiais, iluminadas.” Confira, a seguir, a entrevista completa:

Vocês estão com a exposição Modernos, em cartaz até o fim do ano, que trata sobre o centenário da Semana de Arte Moderna. E ela conta um pouco da história do modernismo no país. De que forma, Laura?

Na verdade, a exposição Antes de 1922 era temporária e finalizou no final de maio. Agora é o Depois de 1922, que a gente focou nas agrupações de artistas que aconteceram depois da década de 1930, então ela parte do nosso acervo. Por isso começamos nesta década, mas realmente temos muitas coisas dos modernistas no acervo, então deu para fazer uma seleção de agrupações como da Associação Pró-Arte Moderna, o Grupo Santa Helena, o Grupo Guanabara. Fizemos toda uma pesquisa onde levantamos dados sobre cada grupo e a importância de cada um deles neste processo de expansão do modernismo no Brasil. Recentemente, quando saiu esse grupo que era temporário, acrescentamos o Grupo Frente, o Grupo Ruptura, e o Grupo Realismo Mágico, para falar dos que eram figurativos e surrealistas, que estavam em contraponto ao concretismo, e finalizamos com um grupo da FAAP, porque consideramos que ela foi fruto de todo esse processo, assim como outros museus que surgiram na cidade de São Paulo. Então, neste último núcleo, tem professores e alguns alunos da FAAP no começo dessa história, na década de 1960.

Você falou dessa formação de grupos a partir de 1922. Que força tiveram esses artistas que participaram da Semana, que se transformaram em tantas outras frentes na cultura brasileira?

Não sei se este grupo em si teve tanta força e foi o que provocou tudo isso. Acho que foi um processo que aconteceu mundialmente. Recentemente tivemos uma exposição na Alemanha que justamente analisava estes grupos que foram surgindo de diferentes pontos do planeta. Era um movimento que os artistas, por vontade própria, se organizavam, porque faltavam instituições, exposições para mostrar o trabalho e esse processo nas agrupações fortaleceu e o coletivo permitiu que pudessem fazer mostras, até dar frutos das organizações que foram surgindo a partir de lá. O grupo de São Paulo não seria o start, é a parte de todo um processo. É um ponto de uma linha onde aconteceram muitas coisas e que São Paulo, justamente, foi um dos primeiros estados que isso aconteceu. Porque muitos artistas iam à Europa e tinham influência das vanguardas. Por exemplo, no Recife também, os irmãos Rego Monteiro foram muito importantes já na década de 1920 e também estavam acontecendo coisas lá. Inclusive na década de 1930 eles trouxeram a primeira exposição de modernistas europeus para a América Latina, no Recife. Eram coisas que estavam acontecendo concomitante, em diferentes pontos, e claro, a Semana teve grande importância, mas curiosamente ela excluiu artes gráficas, design, fotografia, que já tinha algo acontecendo também. Tudo foi um processo. 

Você citou a relação da FAAP com o modernismo. Conta mais sobre essa história?

No levantamento do Antes de 1922, que a curadoria era do Felipe Chaimovich, ele contou como a família Prado foi importante na organização da Semana de Arte Moderna e que junto com eles estava Armando Álvares Penteado, eram parentes. Ele era do conselho que organizou a Semana no Theatro Municipal e teve diversas carreiras, engenharia, era artista também, desenhava. Tinha muito interesse e neste momento já tinha uma coleção de arte europeia e acho que por isso se interessou que o modernismo chegasse no Brasil também – ele passava seis meses em Paris e outros seis aqui. Esteve envolvido na Semana e isso influenciou no interesse dele em criar uma instituição para ensino de arte e um museu. Porque basicamente a FAAP nasceu assim: no testamento ele colocou que queria uma instituição com curso de arte e uma pinacoteca de obras originais. Realmente acho que tem toda essa relação com o processo modernista e tudo que aconteceu para a FAAP ser fundada em 1948 e começar a funcionar em 1958 e 1960. 

E ela tem um acervo riquíssimo, do qual você também é curadora. Quais são as pérolas?

Temos uma coleção bem importante do Flávio de Carvalho, pintura e reproduções de uma peça de teatro que ele escreveu em 1933. No nosso arquivo ficaram reproduções, realmente importantes, muitas instituições nos pedem emprestado. Dos modernistas  temos O Homem das Sete Cores, de Anita Malfatti, que participou da exposição no Theatro Municipal e está no centro da sala. Da Tarsila temos uma obra bem importante da fase que o Abaporu faz parte, que é o O Sapo, que já foi para muitos países e é uma das nossas estrelas da coleção. E é bem legal que essa exposição, quase metade dela, é de artistas de outros estados, não tão conhecidos aqui. E que na época que a FAAP foi fundada foram muito corretos porque criaram um conselho com pessoas de diferentes estados que foram sugerindo artistas para serem adquiridos e hoje em dia eles são muito importantes. Temos muitos desses artistas com obras incríveis, que mostram a diversidade do Brasil, tanto estilística, quanto de conteúdo, de tema, de forma. A mostra tem essa riqueza, porque não tem só São Paulo. 

A FAAP já fez inúmeras atividades, inclusive on-line, a respeito do modernismo. Daqui para frente está programada outra atividade além da exposição?

Durante esse ano vai ter algumas conversas que costumamos fazer com o educativo. No segundo semestre haverá uma exposição que não é modernismo, mas trata um pouco de São Paulo, de um grafiteiro que fala sobre a cidade. Vou deixar em suspense porque é uma surpresa e vai ocupar o salão cultural em meados de agosto. 

E para você qual o real papel que estes artistas modernistas tiveram para cultura brasileira?

Acho muito importante porque até esse momento a arte era muito desconhecida no Brasil. Só tinham alguns artistas autodidatas e a elite tinha acesso à arte. Todo esse movimento e agrupações fizeram com que ela se democratizasse e chegasse a mais pessoas, tanto que hoje em dia todo mundo vê exposições, as instituições estão cheias, tem filas, enfim, foi todo esse processo no século que possibilitou essa situação atual. Todos eles são muito importantes.

O que é ser moderno para você?

É um conceito bem dúbio, mas acho que buscar o que tem de ser dito no momento certo. O artista sempre busca, quando se sente incomodado com alguma situação no seu entorno, se expressar por meio da arte. Acho que moderno é todo artista que hoje está atrás da mudança e de melhorar o mundo. A arte está muito ligada a pessoas que querem mudar as condições da nossa vida e, em geral, os artistas são pessoas especiais, iluminadas.

(Miriam Gimenes/Agenda Tarsila)

Publicada em 25 de julho de 2022

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