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Museu Afro Brasil faz mergulho em obra e influências de Mário de Andrade

Mário de Andrade era negro? Há quem diga que ele andava com um embrulho de pó de arroz à tiracolo, para esconder a melanina existente em sua pele. Para o diretor e criador do Museu Afro Brasil, Emanoel Araújo, se hoje ainda existe preconceito em relação aos negros, imagine no início do século passado. “Acho que essa história de assumir uma cor nem era a coisa mais importante porque ele era, na realidade, um intelectual, um poeta, um homem da poética e um grande escritor. Toda sua obra, que está em 20 volumes, editada pela Martins, prova o quanto esse homem foi fundamental para a cultura brasileira e é isso que a gente quer mostrar”, diz em entrevista exclusiva à Agenda Tarsila.

Ele prepara uma mostra, a ser inaugurada no dia 25 de fevereiro – data da morte de Mário – para mostrar o modernista de maneira mais profunda. Mas quem quiser entrar já no clima, pode visitar exposições recém-abertas no espaço cultural, uma que mostra o lado ‘amoroso’ de São Paulo e a outra que expõe as obras do padre Jesuíno do Monte Carmelo, que foi descoberto por Mário e teve por ele dedicado um livro. Confira, a seguir, a entrevista completa:

Vai ter uma grande exposição sobre o Mário de Andrade no Museu Afro Brasil este ano. Queria que adiantasse o que o público pode esperar da exposição e quando ela deve começar?

Essa exposição começa dia 25 de fevereiro, que é exatamente a data da morte do Mário de Andrade. Ela irá se chamar Este Extraordinário Mário de Andrade e o que a gente quer com ela é tirar o foco da Semana, porque ela está mais do que cantada, falada, todo mundo vai falar sobre. A Semana foi um rap nos anos 1920 de gente rica, escravocrata, do café, que fez esse grito, essa ação contra os passadistas. A gente não quer fazer isso. Queremos centralizar a questão da Semana em Mário. Primeiro porque ele foi um grande personagem do evento, estava lá recitando no Theatro Municipal sob vaias A Escrava que Não é Isaura. É uma obra muito importante e a participação dele se tornou fundamental para a questão modernista porque ele é um grande personagem de São Paulo. Teve uma vida muito curta, morreu aos 51 anos, e a produção dele é extraordinária. Essa exposição do Mário retoma essa trajetória dele, com muitos altos e baixos, de um homem paulistano, que faz muitas coisas e algumas descobertas, como o padre Jesuíno do Monte Carmelo, em Itu, Aleijadinho… É um homem de uma grande visão e uma poética extraordinária. É esse personagem que a gente está querendo que seja revisto. Claro que a gente tem limitações porque, por exemplo, não temos muitas obras significativas neste momento. Não temos da Anita, que foi pioneira quando voltou da Europa e Estados Unidos, e foi rechaçada pelo Monteiro Lobato. Mas tem obras de um grupo de artistas, como Brecheret, e sobretudo de um personagem que acho fantástico, que eu convivi de perto, chamado Emiliano Di Cavalcanti. Ele foi muito importante porque estudava aqui na Faculdade de Direito, fazia ilustrações e depois se transformou em um grande artista brasileiro, talvez o maior deles todos. 

Você conheceu ele?

Conheci e fiz dois álbuns com ele: um chamado Lapa e outro chamado A Semana de Arte Moderna, com textos de Luiz Martins. Também conheci Tarsila, quando estava já na cadeira de rodas, com um lenço na cabeça. Eu ainda morava em Salvador quando fui convidado pelo governo, que ia inaugurar um espaço na Avenida Paulista do Paço das Artes. Isso era uma viagem que também inaugurava o voo da Vasp, São Paulo-Salvador, Salvador-São Paulo. Para minha surpresa, entre outros personagens, lá estava Tarsila. Ela sempre foi uma mulher extraordinária, com toda sua verve, sua coisa europeia, seus estudos. Era uma coisa tão interessante porque ela e todo o mito que era para um jovem como eu, que tinha vinte e poucos anos, era como se visse uma santa. Mas ela foi simpática, estava acompanhada de uma cuidadora. E convivi com outros artistas que também se tornaram importantes em São Paulo, como Aldo Bonadei, pessoal do grupo do Santa Helena, Volpi, o Francisco Rebolo. Estive ligado a estes artistas daquele período, quando vim para São Paulo em 1965. E foi muito interessante que esse pessoal todo me acolheu muito. E, por isso, fiquei aqui. Houve essa reciprocidade entre um jovem artista e os medalhões de São Paulo.

E nessa exposição que falávamos do Mário você disse que não existem muitas obras, até porque algumas estão  em outras exposições espalhadas por São Paulo neste momento. O que o público vai, de fato, ver nesta mostra?

A gente começou no 25 de janeiro a exposição Arqueologia Amorosa de São Paulo, que é uma visita à cidade do ponto de vista de uma arqueologia que digo amorosa, porque não é subterrânea, mas sim de fatos e histórias de São Paulo. Como a cidade se modificou aos olhos de Militão de Azevedo, que era um grande fotógrafo e acompanhou as mudanças no final do século 19. Vai constar a participação de historiadores como Carlos Lemos, por exemplo. Também abre a primeira grande exposição do Padre Jesuíno do Monte Carmelo, pintor de Itu, que fez várias igrejas e o Museu do Carmo de São Paulo. E que foi um trabalho do Mário de Andrade, foi ele que revelou, de uma certa forma, este grande pintor. A gente sempre tem de pensar que aqui era uma cidade espartana, pobre, que não teve o apogeu do ouro, nem do açúcar da Bahia ou Minas, sempre foi um caminho de tropeiros. Então o Jesuíno é um fato inédito deste pintor, que foi também um músico, tocador de órgão. E o Mário viu isso, pesquisou sua vida, e publicou esse livro. Só vamos mostrar o Mário de Andrade no dia da morte dele, que é 25 de fevereiro, e vamos trazer dois artistas pernambucanos, que eram amados por ele, Cícero Dias e Vicente do Rego Monteiro. Os dois são os que vão estar mais presentes, junto com Di Cavalcanti, e as facetas de caricaturas que ele fez. As primeiras são políticas, é uma série de 14 originais. Vamos mostrar um Mário de Andrade fotógrafo, da viagem do Turista Aprendiz, aquele que manda Luís Saia e Guarnieri recolher objetos do culto etnográfico na Bahia e no nordeste. É uma exposição muito profunda em relação a ele. Sai o Mário festejado, mas entra o das cartas a Manuel Bandeira, a Drummond, da sua vida no Rio de Janeiro, até a hora da sua morte, quando ele sobe a escada apressado para buscar alguma coisa e tem um infarto. E tem também um Mário que a gente pretende mostrar, que é o das caricaturas. Porque ele era tido como um homem feio, tanto que tem um artigo interessante de um escritor do Rio de Janeiro que fala da feiúra dele. E outras pessoas, mesmo Drummond, Manuel Bandeira, diziam que ele ‘era feio por fora e bonito por dentro’. Tem também o escritor decepcionado com a questão da sua expulsão do Departamento de Cultura de São Paulo, que ele criou e deu toda sua vida. Isso foi, para ele, irrecuperável. Essa marca ele nunca conseguiu deglutir e culmina com a morte dele. 

Existe uma verdade que muitos dizem, mas talvez na época o Mário não admitisse de que ele é mulato. Ele tinha vergonha de ser, disfarçava, ou ele assumia essa característica?

Olha, você pensa: se nós, hoje em dia, em pleno 2022, sofremos de questões de preconceito, racismo, imagina em 1920 um homem mulato… Tanto que usava um saquinho dobrado com pó de arroz para disfarçar sua moreneza. É muito interessante, sobretudo, porque os personagens que o Mário mais aborda, são todos eles mulatos. Aleijadinho, (José) Teófilo de Jesus, o escultor do Rio de Janeiro, e todos são mulatos. Acho que essa história de assumir uma cor nem era a coisa mais importante porque ele era, na realidade, um intelectual, um poeta, um homem da poética e um grande escritor. Toda sua obra, que está em 20 volumes, editada pela Martins, prova o quanto esse homem foi fundamental para a cultura brasileira e é isso que a gente quer mostrar. O grande intelectual brasileiro que, sendo paulista, mulato – não explícito -, sofreu e construiu todas as coisas que lhe são dedicadas. Portanto, o grande romancista que escreveu Macunaíma e vasculhou o Brasil de forma profunda. Isso é importantíssimo. 

Qual a importância de revisitar a obra dele agora, 100 anos depois, para a cultura negra? Porque embora ele não assumisse, trouxe a negritude à tona e incorporou isso à arte brasileira, que era, na verdade, o mote da Semana de 1922.

Na realidade essa questão afro-brasileira só vai surgir em 1931, na Bahia, com o Congresso Afro-brasileiro, em Salvador, e depois em 1940, em Pernambuco, com Gilberto Freyre. Na realidade eu não sei o quanto que toca na questão negra o Mário de Andrade, porque na realidade ele está falando de personagens históricos, o maior escultor do século 18 brasileiro, o Aleijadinho, do padre jesuíno do Monte Carmelo, principal pintor do final do século 18 e começo do 19, está falando de lundu, de música popular brasileira, coisas extraordinárias que são a visão muito dele profunda de Brasil. 

Na ocasião da Semana de 1922 uma das críticas é essa, que nem a periferia nem os negros foram levados para o Municipal para participar do movimetno. Olhando hoje, isso é entendível pelo contexto que existia ali na época?

Sim. Veja só: você tem vários olhares sobre isso. Na realidade São Paulo em 1920 era uma coisa pequena, devia ter 20 mil habitantes. As carruagens nem conseguiam chegar no Theatro Municipal que atolavam na lama. O Theatro inaugurado em 1911 é fruto de uma burguesia aristocrática, do café, de pessoas que tiveram ao alcance disso e financiaram. Claro que existe uma coisa amorosa em relação aos negros, por exemplo, nas obras de Tarsila e Segall. Muito embora eu ache que são obras preconceituosas também, porque retratam a questão da escravidão. Não tinha porque ter negros naquela época no Theatro Municipal. Além do mais, vendo uma série de fotografias que estão na exposição sobre São Paulo, de Militão Azevedo, ele fotografa negros que já são de um começo de classe média que surge ali. O Militão tem essa descoberta da população assim como ele viu a cidade e suas transformações. Por outro lado, na periferia de São Paulo existia o carnaval. A situação social do Brasil sempre foi a mesma, a escravidão continua até hoje. Não mudou. Quem frequenta o Theatro Municipal hoje? Aliás, tem uma história de um momento em que o Mário está no Departamento de Cultura e falam que ele está fazendo espetáculos no Theatro para operários. A burguesia diz: ‘eles vão acabar com o teatro, com as poltronas’. O espetáculo se dá e nada foi mexido. O povo todo foi lá, entrou, viu o espetáculo e não danificou nada. Toda essa coisa que a burguesia tem de destruição, isso nunca alcançou o povo brasileiro. Então a gente sofre de tentativa de diminuição quando, na realidade, essas chances nunca estiveram em pauta. Essa mudança social difere magistralmente dos Estados Unidos, onde a abolição da escravidão é 1835 e Lincoln cria uma universidade para negros e escravos no sul. E lá teve 500 mil africanos. Aqui teve 7 milhões de africanos de norte a sul, de leste a oeste. Acho que essa questão sempre será uma discussão sobretudo de involução social do Brasil, que é um país perverso. A sociedade brasileira é indiferente, a burguesia é indiferente aos processos de evolução e de melhoria social das pessoas. Cada dia que passa o Brasil fica mais miserável, mais pobre, cada vez as ruas mais habitadas por pobres e negros, que são os mais pobres mesmo. 

Existe alguma outra programação referente ao modernismo para este ano?

No final de fevereiro, vamos inaugurar uma outra ligada à Semana, que é do Baile do SPAM (Sociedade Pró-Arte Moderna), fundada por Lasar Segall. Ele repete os bailes da Alemanha, e nós vamos reproduzir essa questão dessas obras criadas para este baile. Foram dois, em 1933 e 1935, e eles vão trazer essa participação verdadeiramente interessante de Segall à sociedade de São Paulo e criando a SPAM.  

(Miriam Gimenes/Agenda Tarsila)

Publicada em 2/2/2022

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