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Museu Casa de Portinari, em Brodowski, mostra universo particular do artista modernista

A obra de Candido Portinari tem sido exposta de diversas formas. É possível vê-la de maneira imersiva, em Portinari para Todos, exposição recém-aberta no MIS Experience, em São Paulo. Também existem releituras feitas por grafiteiros na Estação Sé do Metrô. Mas quem quiser saber como nasceu essa vertente artística do pintor, é essencial que visite Brodowski, cidade no Interior de São Paulo, onde ele passou toda sua infância.

É lá que fica o Museu Casa de Portinari, gerenciado por Cristiane Patrici. Com exposição de longa duração, o local, onde ele viveu até os 15 anos – e voltava sempre, para matar a saudade – tem diversos objetos pessoais do artista, pinturas deixadas nas paredes da casa, além de uma belíssima capela, que ele fez para sua Nonna inspirado nos rostos de familiares. Para conhecer a obra de Portinari é imprescindível vir a Brodowski e isso quem disse foi Pietro Maria Bardi (jornalista e colecionador de arte). Ele sempre reforçou muito isso, que as pessoas têm de passar por essa experiência. Muita gente sai do Brasil, vai para França conhecer Giverny, mas temos uma riqueza aqui no Brasil que é esse museu”, ressalta Cristiane. Confira a entrevista completa a seguir:

Você gerencia um espaço muito importante para a cidade de Brodowski, que é o Museu Casa de Portinari, um local onde o pintor viveu. Queria que me falasse um pouco sobre a instituição e a relação que ela tem com a cidade do Interior de São Paulo. 

Portinari nasceu aqui em Brodowski no dia 30 de dezembro de 1903. Foi em uma fazenda de café próxima da cidade. Os pais dele eram imigrantes italianos e eram colonos na fazenda. Com o passar do tempo a família saiu de lá e veio morar nesta casa. Na época era bem pequena, eram bastante humildes e conforme Portinari foi tendo condições, aos poucos ajudou a ampliarem a casa. Aqui ele viveu até os 15 anos, depois foi para o Rio de Janeiro estudar na Escola Nacional de Belas Artes, mas religiosamente sempre voltava a Brodowski. Chegava depois do Natal e permanecia até depois do Carnaval. Ele dizia que aqui era o lugar onde vinha buscar sua inspiração, onde renovava suas forças e também matava a saudade de amigos e familiares. A casa, a relação do artista com sua terra natal, sempre foi de amor profundo. Ele evidencia muito isso na sua obra, porque grande parte da produção plástica e poética demonstra esse amor que tinha pelas coisas da terra, pelos trabalhadores, todas as pessoas e paisagens que fizeram parte da sua infância, do seu imaginário, que depois foram transformadas em arte.

A cidade de Brodowski respira Portinari ainda hoje?

Ainda hoje. É muito bacana porque olhando uma obra dele, a gente se reconhece dentro da paisagem. A casa dele fica em frente a uma praça  sempre aparece, como também o circo, as crianças jogando futebol, o casamento, a igrejinha, do cemitério ao fundo. A gente ainda se reconhece na paisagem que inspirou o artista. Nos poemas ele fala muito do céu azul, das noites estreladas. As pessoas têm de passar por essa experiência, vir até aqui, conhecer a casa do artista, a paisagem que o inspirou e observar aquilo que realmente o encantou, que foi esse céu, colorido, estrelas, que tantas vezes aparecem na obra dele. 

E do ponto de vista expositivo, o que o museu oferece para o visitante?

Nós temos uma exposição de longa duração que tem um tema: narrativa de uma vida, um pintor, um tempo e um lugar. O pintor é Portinari, o tempo começa com o nascimento dele e permanece até os dias de hoje, o lugar é Brodowski. Além dessa exposição que a gente traz as narrativas dele falando da sua experiência na cidade, temos também a casa que consideramos como objeto museológico, porque além de ser um exemplar único na cidade, também abriga as pinturas que ele fazia diretamente na parede. Aqui temos as primeiras experiências do artista em pinturas murais nas técnicas de afresco, pinturas murais de técnica têmpera, onde ele utiliza junto com argamassa pigmentos naturais. A casa era um ateliê, porque ele fez várias experiências. Pintou uma capelinha especialmente para a avó. Nela retrata parentes, amigos e a casa é rodeada pelos jardins. Também temos móveis, objetos de trabalho, de uso pessoal. Para conhecer a obra de Portinari é imprescindível vir a Brodowski e isso quem disse foi Pietro Maria Bardi. Ele sempre reforçou muito isso, que as pessoas têm de passar por essa experiência. Muita gente sai do Brasil, vai para França conhecer Giverny, mas temos uma riqueza aqui no Brasil que é esse museu e a capela que ele pintou para a avó. 

Vocês fizeram uma série de atividades comemorativas relacionadas à Semana de Arte Moderna. O que está por vir na programação?

O Portinari, na verdade, não participou diretamente na Semana de 1922. Na época ele estava no Rio de Janeiro, mas veio logo na sequência, com toda essa força do movimento modernista. Então ele é considerado um dos principais pintores modernistas do Brasil e traz muitas questões sociais, do Brasil e do povo. Quando ele conseguiu fazer a primeira viagem para Europa, em 1928, ele escreveu uma carta para uma amiga dizendo: ‘Quando voltar vou pintar aquela gente. Vou pintar aquela gente com aquela roupa e com aquela cor’. Ele consegue descobrir o país quando se afasta e dá realmente importância a tudo aquilo que é relevante para gente, que é o nosso povo, nossa terra. Ele traz isso de forma forte na obra. Por isso é considerado o maior artista plástico brasileiro de todos os tempos. Para além disso, Portinari também conviveu com as pessoas mais importantes da sua época. Foi amigo pessoal de Mário de Andrade, Oswald, vários músicos e escultores, então fez parte de todo esse contexto histórico, cultural e conseguiu colocar isso tudo na sua produção. O museu tem esse compromisso e missão de preservar, divulgar o legado do artista, mas também temos compromisso com o fazer artístico. Então sempre promovemos atividades educativas e culturais para que as crianças, jovens, adultos e pessoas impossibilitadas de usufruir a instituição em sua totalidade possam de alguma forma ter contato com a arte. A gente acredita muito que o poder dela é transformador. Então propomos várias atividades, cursos, oficinas, palestras, workshops. Algumas no ambiente virtual, outras presencialmente, mas sempre pensando em levar a arte para a maior quantidade de pessoas possíveis, inclusive as privadas de liberdade. 

A obra de Portinari tem bastante apelo com as crianças. Por que ele fazia esse trabalho cheio de pipas, pião, temáticas infantis?

Isso tudo foi de brincadeiras da infância dele. Tudo o que ficou registrado em sua memória, suas reminiscências, transformou em pintura e poesia. Tem uma frase que ele diz assim: ‘Sabe por que pinto tanto crianças em gangorras e balanços? Para botá-los no ar, feito anjos’. Ele tinha sempre este olhar para coisas que a gente vê todos os dias e não enxerga. O olhar dele era de dar importância à criança, ao trabalhador. E a sua grande obra, Guerra e Paz, onde retrata toda essa necessidade que o homem como um ser racional e pensante tem esse compromisso também, de criarmos uma cultura de paz. 

Nada mais atual…

Exatamente. No painel Guerra e Paz pinta os cavaleiros do apocalipse, a dor e o sofrimento. Não coloca nenhuma arma porque tinha certeza de que elas ficariam ultrapassadas. Então ele pinta a fera que existe dentro do homem, além da dor e do sofrimento. Das pessoas que vivem esse momento de guerra.

A obra dele tem ganhado diversas nuances. Tem a exposição imersiva no MIS, os grafiteiros têm feito releituras. Como você vê essa repercussão em diferentes formatos dessa obra tão grandiosa?

A gente acredita muito na importância que isso tudo tem para divulgar o legado do artista. Portinari tem cerca de 5 mil obras e 95% delas ficam em coleções particulares. Então o público não tem acesso. Por meio dessas iniciativas, isso tudo faz com que o público tenha contato, conheça a obra dele, e valorize ainda mais a nossa cultura. A obra dele sempre nos inspira. 

Como você acha que a mensagem modernista chega para a gente hoje, 100 anos depois?

É muito atual porque a maioria das preocupações daquela época ainda são as mesmas. A desigualdade social ainda é muito grande. O Portinari dizia: ‘Há várias ferramentas, a minha é a pintura.’ Por meio dela ele conseguia mostrar um pouco do sofrimento do povo brasileiro, quando pinta os retirantes, pessoas que saiam de suas terras sem saber para onde ir. Ele também é filho de imigrantes italianos, que vieram fugidos da guerra, é sempre muito pujante essas questões sociais na obra dele e isso tudo, infelizmente, a gente ainda vive até hoje. Ainda estamos bem longe de vivermos tempos de paz. 

(Miriam Gimenes/Agenda Tarsila)

Publicada em 6 de abril de 2022

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