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Museu de Arte Sacra faz exposição com peças modernistas do acervo

Um dos prédios mais antigos de São Paulo, o Museu de Arte Sacra abriu há pouco a exposição É Sacro, É Moderno – Arte Sacra dos Modernistas, com curadoria de Beatriz Cruz e Di Bonetti. Tendo como base a ideia do sacro, que quer dizer sagrado, foram selecionadas obras de artistas que participaram da Semana de Arte Moderna, mas também podem ser vistos trabalhos de quem foi modernista mas não esteve no Theatro Municipal.

A curadora Beatriz Cruz disse em entrevista exclusiva à Agenda Tarsila que a ideia é mostrar o real significado da arte que dá nome ao museu. “É um pouco para que o público em geral tome contato da amplitude que significa o termo arte sacra. Uma coisa que nós falamos muito aqui no museu é que o nome dá a ideia que as pessoas vão visitar um lugar, por exemplo, e vão encontrar um monte de santinhos e como não são religiosas esse museu não é um lugar para elas. E o que a gente quis mostrar é que não, a arte sacra permeia toda história da humanidade e a sacra também, e não significa necessariamente religiosidade, ela mostra um pouco da nossa história.” 

Entre as peças que podem ser vistas pelo público, estão obras de Anita Malfatti, Victor Brecheret, Antônio Gomide, Candido Portinari, Clóvis Graciano, Di Cavalcanti, Djanira, Georg Przyrembel, Heitor Villa-Lobos, Gino Bruno, Mário de Andrade, Paulo Rossi Osir, Samson Flexor, Sylvio Alves, Thomaz Ianelli, entre outros. Confira, a seguir, a conversa completa. 

Vocês acabam de abrir a exposição Arte Sacra dos Modernistas. Gostaria que me falasse o que o visitante pode esperar da mostra.

Dentro das comemorações do centenário da Semana de 1922 procuramos fazer alguma coisa que tivesse proximidade entre o público e o acervo e temática do museu. Porque não teria sentido fazermos alguma coisa simplesmente por ser sobre a Semana. Juntamente com a outra curadora, a Di Bonetti, procuramos levantar, dentro de todo trabalho desenvolvido pelos modernistas durante o movimento, se existia algum viés de religiosidade dentro do que produziam. Até porque dentro da nossa história brasileira não temos como desvincular a questão da religiosidade. A história colonial brasileira é marcada pela influência da igreja, particularmente a católica. E nós levantamos dentro das possibilidades do museu artistas que tinham obras dessa temática, buscando, primeiramente, o que possuíamos. Então foi em torno das obras do museu que construímos a exposição, e não o contrário. Selecionamos obras do Brecheret, Anita Malfatti, Aldo Bonadei, Samson Flexor e Fulvio Pennacchi. Temos esse núcleo de modernistas na exposição. Então buscamos outros que trabalhavam com essa temática, fugindo um pouquinho do lugar comum. Por exemplo, não temos na exposição uma obra da Tarsila. Procuramos alguns artistas que desenvolveram obras fosse por uma encomenda da igreja ou particulares, ou aspectos da sua própria religiosidade, ou a temática presente na vida do brasileiro. Então trouxemos obras do Clóvis Graciano, do Rego Monteiro, do grupo Santa Helena e complementamos com trabalho do Portinari, com obras do Museu Casa de Portinari, que possui pinturas murais. Fizemos as reproduções das pinturas religiosas dele, no tamanho original, para compor a exposição. E utilizamos obras do Volpi pouco conhecidas, que ele fez para a capela da Fazenda Monte Alegre, em Piracicaba, que pouca gente conhece. E complementamos a exposição, porque estamos falando da arte sacra dos modernistas, e as pessoas sempre pensam em artes plásticas, mas nós tínhamos também a literatura, música e arquitetura. Estamos usando uma poesia do Mário, chamada Religiosidade, colocamos uma trilha das músicas do Villa-Lobos, um Pai Nosso e Ave-Maria, e na arquitetura trouxemos uma coisa inédita. Dentro da Semana de 1922 só participaram dois arquitetos: um foi o (Antonio Garcia) Moya, e o outro (Georg) Przyrembel, que era polonês e ao que tudo indica foi convidado pelo próprio Mário, que na década de 1920 já tinha feito elogios ao trabalho dele porque estava desenvolvendo projetos de um neocolonial brasileiro. Esse arquiteto veio para o Brasil para gerenciar as obras do Mosteiro de São Bento, e acabou se radicando aqui. Visita às regiões de Minas Gerais antes da Semana de 1922, tem contato com a nossa arquitetura colonial e começa a desenvolver o neocolonial brasileiro. No evento, Przyrembel expõe um projeto que nunca chegou a executar que era uma casa da família onde hoje seria a Praia Grande, chamada de Taperinha. Estes desenhos foram expostos uma única vez na Semana e depois nunca mais ninguém teve notícia. Ele construiu grandes igrejas em São Paulo, a mais conhecida é a do Carmo, na rua Martiniano de Carvalho, a de São Geraldo, no final do Minhocão. Mas os desenhos da Taperinha que só foram exibidos em  1922 nunca mais foram vistos. Entramos em contato com a família, que concordou em emprestar novamente os desenhos. Cem anos depois eles podem ser vistos novamente e junto com eles estamos expondo os croquis que ele fez para Basílica do Carmo que foi o projeto de mais notoriedade dentro da carreira dele. 

A arte sacra conta séculos de história da igreja. Como é feito esse recorte modernista, quais são as características?

Na verdade, o que a gente define como arte sacra é a própria temática. Algumas obras, por exemplo, as do Volpi, foram feitas para o culto, é a decoração da capela da fazenda. Ou, no caso do Portinari, os desenhos que ele fez para Capela da Nonna, para a avó, mas que não tinha o caráter de ser só para ela, havia celebrações nela, tinha missa, o padre ia até lá, porque a avó do pintor não podia mais se locomover. A arte sacra é o uso, mas não necessariamente. Há uma grande discussão porque há quem entenda que a arte sacra é aquilo que tem o uso estritamente dentro das celebrações religiosas, da liturgia. Os demais poderiam ser classificados como arte religiosa por causa da temática. A caracterização é a partir disso. No caso dos modernistas, dentro do próprio estilo do que caracterizou o movimento, com cores brasileiras, figuras também, em contraponto com a arte europeia. 

Um dos quadros que está na exposição é  A Ressurreição de Lázaro, de Anita Malfatti. Ela passou por um restauro há pouco tempo. Qual a história dele e como foi feito o trabalho.

Anita o faz logo após seu retorno do período de estudos na Europa, é uma das primeiras telas que faz. O próprio professor (Percival) Tirapeli, no catálogo (veja aqui), ele significava um momento de ressurreição na carreira da Anita. O quadro estava em exposição, fica permanentemente, mas precisava de pontos de restauro por conta de pontos de desprendimento da policromia. Na verdade, a intervenção feita na obra se prendeu à consolidação de algumas partes da camada pictórica que estavam se descolando. A mesma coisa foi o processo do Bonadei, que estava com algumas perdas, e foi feito uma consolidação para que os dois estivessem na exposição.

Você falou desse texto do Mário de Andrade, ele era um homem extremamente religioso. E esses outros artistas, eram também?

A Anita com certeza. Nós sabemos que ela tinha esse vínculo com a religiosidade, o Aldo Bonadei também. A história desses artistas modernistas todos, com exceção dos mais conhecidos, não foram suficientemente estudados em termos de biografia para que possamos afirmar. Partimos de alguns relatos conhecidos. Um que sabemos que era religioso era Samson Flexor, que se converteu ao catolicismo a partir de uma experiência pessoal que foi a perda do filho. Alguns artistas têm esse vínculo com a religião. Um que não está na nossa exposição, mas tem todo vínculo com a religiosidade é o Carybé, com as religiões de matriz africana. O Portinari sabemos que não era religioso, era ateu, mas dizia que ‘trazia Deus consigo no coração’. Não posso dizer que as obras que fez de caráter religioso fossem resultado da sua própria religiosidade. Não necessariamente era a expressão da religiosidade individual deles. 

Qual a importância de trazer esse recorte da obra modernista na ocasião do centenário?

É um pouco para que o público em geral tome contato da amplitude que significa o termo arte sacra. Uma coisa que nós falamos muito aqui no museu é que o nome dá a ideia que as pessoas vão visitar um lugar, por exemplo, e vão encontrar um monte de santinhos e como não são religiosas esse museu não é um lugar para elas. E o que a gente quis mostrar é que não, a arte sacra permeia toda história da humanidade e a sacra também, e não significa necessariamente religiosidade, ela mostra um pouco da nossa história. O acervo do Museu de Arte Sacra é em grande parte a história do Brasil, então deve ser visitado por conta disso. Não é parte da religiosidade, mas da história. Essas obras não têm caráter devocional, hoje têm um outro caráter porque toda e qualquer peça que vá para um museu perde sua função original e é isso que guardamos aqui. A ideia foi também mostrar que MAS é lugar para comemoração do centenário do modernismo, não estamos à parte de um movimento que foi tão importante para o Brasil. 

E vocês têm algum curso previsto para falar da exposição em específico?

Não. Temos atividades que o nosso educativo vai desenvolver, como com os professores, por exemplo, que por conta da pandemia tivemos todo um trabalho feito com eles suspensos e agora estamos retomando. Também aos guias de turismo. E, evidentemente, o atendimento que daremos ao público em geral que visitar a exposição. 

(Miriam Gimenes/Agenda Bonifácio)

Publicada em 4 de maio de 2022

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