Músico Meno Del Picchia analisa atuação cultural e política de seu bisavô, um dos principais articuladores da Semana de 22

Ele foi o ‘mestre de cerimônias’ da Semana de Arte Moderna. Também escreveu diversos textos na imprensa sobre o evento no Municipal sob o codinome ‘Hélios’. Menotti Del Picchia, de sangue italiano e nacionalidade brasileira, foi um dos mais importantes articuladores do evento no Theatro Municipal, tanto que passou a integrar o famoso Grupo dos 5, formado por Tarsila do Amaral, Anita Malfatti, Oswald e Mário de Andrade.

E a Agenda Tarsila conversou com o seu bisneto, o músico e antropólogo Meno Del Picchia – sim, além do sangue herdou o nome -, que analisou a trajetória do escritor na arte, suas escolhas políticas e falou sobre uma obra póstuma que assina com ele, parte do poema Juca Mulato musicado.Menotti foi para essa esfera da direita, mais conservadora, que acho completamente equivocada. É um momento bem errado esse da aproximação dele com Plínio Salgado, com os integralistas, com o fascismo. Porque muitos descendentes de italiano nessa época eram pró-Mussolini. A gente está falando do final dos anos 1920, que foi quando teve essa separação. Mário e Oswald foram para o Manifesto Pau-Brasil e Menotti para o Movimento Verde-Amarelo e depois para o Movimento Bandeira. O Pau-Brasil é identificado com a esquerda e os outros com a direita. Sim, isso prejudicou Menotti esteticamente até porque ele se afastou das mentes mais inventivas na literatura, que na minha opinião foram Oswald e Mário.” Confira, a seguir, a entrevista completa:

São 100 anos de um evento que fez história na cultura brasileira. Como a mensagem daqueles modernistas, grupo que seu bisavô integrou e foi um dos grandes articuladores, chega hoje?

Naquele momento existia uma preocupação de inventar uma cultura, ou uma arte genuinamente brasileira, e era uma época em que o paradigma do nacionalismo estava em voga. Estava na moda falar disso e buscar por uma identidade nacional. Não só no Brasil, em vários países estava acontecendo isso. E acho que a geração de 1922 enfrentou um dilema duplo que era de por um lado inventar um lugar de Brasil na arte e na cultura que precisava ser ocupado. Era uma república muito recente, independência – na época, há 100 anos. Então precisavam inventar um Brasil e por outro lado se descolar das influências europeias. E como vai inventar uma nação tendo sido colonizada pelos portugueses, que fosse genuinamente brasileira e diferente dos padrões europeus? Influência que chegava através de Portugal, mas também naquele início de século 20 a francesa também era muito forte, especialmente entre as elites da economia do café. Elas frequentavam muito Paris. O impressionismo francês era a referência artística. Uma das mais importantes dessa geração. Então acho que hoje muita coisa mudou. A mensagem precisa ser reconfigurada. Na minha opinião, por exemplo, o nacionalismo já é um paradigma velho, desgastado e que não faz tanto sentido por vários motivos. Primeiro que a gente viu que essa coisa de inventar uma nação é extremamente violenta e autoritária na maioria das vezes, tem governos autoritários, sistemas políticos unificadores e que passam por cima das diferenças étnicas, raciais, culturais, artísticas, regionais. No caso do Brasil, como é um país continental, a ideia de um Brasil vai inevitavelmente atravessar as diferenças e isso, naquele momento, foi feito de formas violentas, que apagavam a diversidade da nossa constituição. O paradigma do nacionalismo envelheceu. Por isso e também porque a gente vive hoje um mundo totalmente interconectado. É interessante pensar no oposto que é a diluição das fronteiras e entender cada vez mais que todos somos habitantes de um mesmo planeta. O que uma pessoa faz na Europa afeta o que outra está fazendo na Ásia, na América e a destruição do meio ambiente afeta a todos. Então a ideia de fronteira nacional está desgastada, até porque nos conectamos hoje online com qualquer parte do mundo. As fronteiras estão se diluindo. E por outro lado sabemos que não existe uma arte brasileira, existem várias artes brasileiras. O paradigma é a diluição das fronteiras por um lado e por outro a pluralidade, diversidade estética e artística. 

Menotti, depois de 1922, ingressou mais no ramo político, até fez parte do grupo Verde-amarelo. A entrada dele nesse campo o atrapalhou de alguma forma até no aspecto cultural?

Acho que sim. Menotti foi para essa esfera da direita, mais conservadora, que acho completamente equivocada. É um momento bem errado esse da aproximação dele com Plínio Salgado, com os integralistas, com o fascismo. Porque muitos descendentes de italiano nessa época eram pró-Mussolini. A gente está falando do final dos anos 1920, que foi quando teve essa separação. Mário e Oswald foram para o Manifesto Pau-Brasil e Menotti para o Movimento Verde-Amarelo e depois para o Movimento Bandeira. O Pau-Brasil é identificado com a esquerda e os outros com a direita. Sim, isso prejudicou Menotti esteticamente até porque ele se afastou das mentes mais inventivas na literatura, que na minha opinião foram Oswald e Mário. Acho que no campo literário eles foram os mais transgressores, mais libertários, que conseguiram construir uma linguagem artística talvez mais brasileira e mais ousada. O Menotti, mesmo na escrita artística, é um pouco mais conservador. Talvez ainda com traços estéticos parnasianos anteriores e acho que essa guinada dele para direita o afastou do que havia de mais interessante no movimento de 1922, então imagino que tenha prejudicado. Eu, como herdeiro desse nome, acho totalmente equivocada essa guinada para o autoritarismo de direita. Mas, ao mesmo tempo, entendo que naquela época ninguém sabia direito o que ia dar tanto para o lado quanto para o outro, e nós fomos ver anos depois que na direita a gente teve nazismo e fascismo, holocausto e coisas horríveis que aconteceram a partir da reflexão de um estado autoritário. E vemos também que no campo da esquerda também violências foram cometidas. Houve muita morte também no campo sovíético, no nome da construção da União Soviética também os comunistas mataram muita gente. Foi um momento histórico muito difícil e acho que ninguém naquele momento pré-anos 1930 podia imaginar o que ia acontecer na Segunda Guerra Mundial, pelo menos quero acreditar nisso. 

Muito se fala da personalidade do Mário, de Oswald, mas pouco ouvi falar sobre a de Menotti. Queria que você me dissesse quem era ele?

Para mim é difícil falar, porque já sou a geração bisneta. Convivi muito pouco com ele. A lembrança que tenho era de algumas festas de família que ele estava. Quando faleceu eu tinha 10 anos, então não tive uma convivência íntima. Agora, o que meu pai, minha avó falavam, era de uma figura interessante de conversar, que ele gostava muito de falar, tinha muitas histórias. Minha mãe disse que ele tinha uma oratória muito boa e que ficava fascinada de conversar com ele. Nunca pude perguntar: ‘e aí, Menotti, por que não continuou no Pau-Brasil?’ (risos). Era uma pergunta que faria para ele: ‘não acha que foi meio equivocado esse momento seu?’ A impressão que tenho é que ele tinha uma mentalidade mais conservadora, tanto em aspectos políticos quanto estéticos. E carregava no corpo essa herança italiana. Era um italiano no Brasil tentando inventar o país, é meio estranho também. Ele foi o primeiro filho do pai dele que nasceu no Brasil, os irmãos eram todos italianos. Vem de um núcleo italiano e, de repente, está ali fabricando o que é o país, é meio ambíguo. Acho que a geração dele teve dificuldade, o que acontece até hoje, de incorporar no nosso imaginário sobre o que é o Brasil da diversidade. O racismo é um exemplo disso, o Brasil é extremamente racista. Estava ouvindo um podcast, o Mano a Mano, do Mano Brown, e tem uma entrevista dele icônica com a Sueli Carneiro, que é uma intelectual e ativista negra, e fica claro que o projeto ali com o final da abolição – que foi tirar o escravizado das fazendas e jogar para lugar nenhum, não havia projeto social e político para incorporar essas pessoas. E, de repente, havia um projeto para incorporar essa massa de imigrantes italianos e alemães. No sul, a galera que é contra cota, se for retroceder, no começo do século 20, muitos imigrantes italianos e alemães receberam cotas de terras para começarem suas vidas, serem agricultores no Brasil. E essa mesma gente hoje é contra cota racial. O projeto era excludente e de tentar embranquecer uma sociedade que não era e não é branca. O Menotti representa um pouco esse projeto equivocado de tentar fazer do país um pouco do que era a Itália, Alemanha, Portugal e não o que era o país de fato, indígena, muitiétnico, negro, afrodescendente. A bandeira que faz sentido hoje para todos nós artistas, políticos, intelectuais, jornalistas, é a da diversidade. Está mais do que na hora de a gente assumi-la.

Você é músico e antropólogo. Como a herança cultural que ele deixou te influenciou na carreira?

Existe uma influência, porque cresci sabendo da trajetória do Menotti, da importância dele em 1922 e meu pai pintava, meu avô, filho dele, tocava piano. Cresci com estímulos artísticos. Muito novo falei para meus pais que eu queria estudar música e eles me estimularam. A antropologia foi uma coisa meio minha, fui parar nas Ciências Sociais da USP. Mas minha casa sempre foi cheia de livros. Meu pai herdou uma parte da biblioteca do Menotti, foi uma influência meio inconsciente de crescer cercado por livros e instrumentos. Estou aqui inclusive com o piano do filho do Menotti, meu avô, que virou o núcleo da minha casa. Rolou uma influência e me facilitou a seguir essa trajetória. Em 2016 musiquei um pedaço do poema Juca Mulato (pode ser ouvido aqui (4354) Pigarço – YouTube), que acho muito bonito, apesar de não ser moderno no sentido pleno, e talvez tenha sido o grande momento dele como escritor. É um trecho chamado Pigarço, uma conversa do Juca com o cavalo dele. Está em um disco chamado Barriga de 7 Janta e convido quem tiver assistindo para conferir essa parceria, que é póstuma, minha com Menotti. Misturei minha arte com a dele. 

Você fez algumas ações relacionadas ao centenário?

Recebi alguns convites, justamente por essa trajetória artística, para falar sobre a minha conexão sanguínea com ele – trago o mesmo nome dele – e ao mesmo tempo falar da minha experiência enquanto artista antropólogo. Então dei uma aula na Universidade São Judas, intitulada Arte e Ação – Os Ecos do Modernismo na Música Brasileira, está disponível (aqui), onde falo sobre música e modernismo. E escrevi um texto para Elastica, um portal de notícias (aqui), falando justamente dessa tensão entre o meu pensamento político e o dele e tentando problematizar a guinada dele para o verde-amarelismo, integralismo. E dei uma aula na FGV falando sobre modernismo e música. 

Acredita que o trabalho dele em prol da cultura brasileira seja reconhecido como ele merece? 

Ele foi mais reconhecido em vida do que é hoje e acho que está tudo certo. Menotti atuou mais no campo literário, pintava às vezes, mas a grande vertente artística foi a escrita. Em vida teve um reconhecimento bem bacana especialmente com Juca Mulato, um best-seller. Foi lançado em 1917, tanto que em 1922 ele era um dos escritores mais famosos do grupo justamente por conta do livro. Ele teve um reconhecimento na época dele, mas ele não é um nome para posteridade, como Mário e Oswald, e depois futuramente Manoel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, enfim, grandes nomes da literatura que vão  ficar. Não é o caso do Menotti e não vejo isso como problema, a arte dele teve um alcance ali limitado temporalmente. 

Qual lição que você aprendeu com ele que leva para a vida?

De que a arte vale a pena, que é importante para o mundo. Vale a pena criar e pensar sobre o Brasil, por mais que nossos pensamentos não convirjam, não estejam na mesma frequência, vale a pena refletir sobre o país ainda hoje e criar artisticamente também. 

(Miriam Gimenes/Agenda Tarsila)

Publicada em 18 de julho de 2022

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