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‘Ninguém fazia nada mais moderno do que Villa-Lobos em 1922’, afirma a biógrafa do compositor, a musicóloga e jornalista Camila Fresca

Três noites que viraram uma semana. O evento em fevereiro de 1922 no palco do Theatro Municipal, para além das repercussões negativas e positivas, teve um protagonista: o maestro Heitor Villa-Lobos. Com pompas de grande artista, após relutar um pouco, o carioca aceitou o convite de participar e desembarcou em São Paulo com sua equipe de músicos, ensaiou e foi o único a ganhar cachê para se apresentar durante as apresentações. 

O fato é que com ou sem o evento, segundo a sua biógrafa, a jornalista e musicóloga Camila Fresca, o músico alcançaria o status que ocupa hoje na história da cultura brasileira. Em análises futuras que fez sobre a Semana, Villa-Lobos afirmou que não precisou dela para ser moderno. “Disse que sempre foi moderno, muito antes do evento. Em parte ele tem razão, era um músico que seria Villa-Lobos com Semana ou sem.” E completa: “Ninguém fazia nada mais moderno do que ele em 1922.” O livro com essas e outras informações deve ser publicado ainda no fim deste ano. Confira, a seguir, a entrevista completa:

Você está preparando uma biografia sobre Heitor Villa-Lobos, um dos expoentes da Semana de Arte Moderna. Como surgiu a ideia do projeto e quando pretende lançá-lo?

A ideia surgiu de observar nosso meio de biografias, de livros para o grande público, não-especializados, e notar que não existe nenhuma biografia recente desse músico que é simplesmente o principal brasileiro. Da mesma forma que a gente tem de tantos personagens importantes como da Carmen Miranda ou do Getúlio Vargas, não tem uma do Villa-Lobos. E como a música é minha área de atuação e pesquisa, passei a desenvolver essa ideia de fazer um livro sobre ele, biográfico, para o grande público. Em 2019 acertei com a editora Todavia, que lança o livro provavelmente agora no final de 1922.

O Villa-Lobos foi o único que recebeu cachê para participar da Semana. Ele já era um artista consagrado, mas não era muito conhecido aqui em São Paulo. É isso mesmo?

Ele era um músico que estava batalhando, tinha 34 anos quando se apresentou na Semana. Quer dizer, já não era jovem. Mas estava longe de ser um músico líder da sua geração, consagrado. Era um artista independente, estava muito preocupado com a carreira dele, em organizar concertos. Também queria ir para Europa mostrar suas obras. Ele achava que todo grande compositor, para se afirmar de vez, precisava passar uma temporada lá, seja estudando ou já mostrando suas obras. Queria fazer uma carreira internacional. Era nesse momento da vida que estava em 1921 quando foi convidado para a Semana de Arte Moderna. Em princípio não tem muito interesse, falava para os amigos: ‘não quero participar de movimento que não dá em nada’. Mas ele foi convencido a participar e acredito que isso aconteceu por ele nunca ter se apresentado em São Paulo, então seria uma oportunidade de vir mostrar suas obras, e de outro lado vir com condições que nunca tinha tido no Rio de Janeiro. Porque sempre que organizava lá concertos só com obras dele, era ele quem arcava, então fazia um grande esforço, os amigos ajudavam, mas muitas vezes dava prejuízo. E aqui, pelo contrário. Então fez uma proposta de relação de obras de intérpretes, que também trazia do Rio, com orçamento aprovado pelo Paulo Prado, que incluía inclusive cachê. Veio numa condição vantajosa, profissional, por isso até hoje o mais fácil de saber que aconteceu na semana é a música, porque ela tinha um esquema mais completo. Foi programado com antecedência, os músicos chegaram para ensaiar antes e tudo aconteceu como previsto, e não da forma improvisada dos autores literários. São Paulo propiciou para Villa-Lobos condições profissionais que ele ainda não tinha tido no Rio. 

E a escolha de repertório para apresentação nas três noites, como você analisa?

Primeiro houve uma limitação de saída que não tinha uma orquestra. Provavelmente eles não tinham dinheiro para arregimentar e ensaiar uma orquestra para se apresentar na Semana. Teria de ser obras de música de câmara, já foi uma seleção natural. Agora, dentro disso, Villa-Lobos teve liberdade para escolher aquilo que queria e, ao meu ver, ele fez uma seleção do que de melhor havia escrito em música de câmara entre 1914, que é a peça mais antiga, até 1921. Ele se preocupou em se apresentar para o público paulista como um compositor que conhecia os códigos da música clássica, então vai trazer muitos gêneros consagrados: sonatas, trios, quartetos de cordas. Ele era considerado já no Rio um músico moderno, os colegas o vêem assim, e de fato ninguém fazia nada mais moderno do que Villa-Lobos em 1922. Mas não é uma música revolucionária, moderna, mas seguindo a tradição, traz os gêneros consagrados. Ele tem essa preocupação em se mostrar um compositor pertencente a uma tradição, mais do que alguém que chega para romper completamente padrões. 

Na sua opinião ele foi um músico modernista?

Foi, sem dúvida. Até mesmo no fato de que não só ele, mas muitos dos artistas que se apresentam na Semana, eles já têm um discurso que está muito à frente do que é a realização artística. O discurso é mais moderno, mais renovador, do que eles conseguem mostrar em obras. Mas todos eles, depois da Semana, é que vão realizar aquele ideal que já tinham, e isso acontece com Villa. A obra dele, ao longo da década de 20, vai mudar muito e aí sim, fica muito mais ousada. Ele não vai abandonar de todo os gêneros, mas vai apostar em novos, formações completamente inusitadas. Por exemplo, em 1923 ele está escrevendo uma suíte para soprano e violino extremamente moderna, que tem sons, fonemas, mas não tem texto com sentido. E outras experimentações várias. Quer dizer, ele foi sim um modernista e a gente tem de ver a Semana como um ponto de partida para estes artistas e o que iam realizar, principalmente ao longo da década de 1920 e 1930 também.

Qual era o cenário musical do Brasil na época?

A gente estava em um momento de transição na década de 1910 e em 1922, principalmente. Ou você faz música clássica, essa que o Villa trouxe, ou é a música folclórica, tradicional, que não tem autoria. Ou tem o gênero de salão, populares, que estão engatinhando. O Choro, que está nascendo no final do século 19. Temos também a modinha, que vem do século 18, mas a gente não tem neste momento uma música popular que logo depois vamos passar a ter, que é como essa que vemos hoje com toda sua riqueza e diversidade. Essa música está muito atrelada à fonografia, primeiro a gravação com fonógrafo, discos, e logo depois a transmissão dela por rádio, ao vivo. A música popular está ligada a estes meios de produção. Até 1922, a gravação já existe, mas o rádio ainda não, vai estrear no fim do ano, mas só se populariza tempos depois. Temos aí um ambiente em que quando Mário de Andrade vai falar da criação da música brasileira ele quer olhar para a música folclórica, tradicional, que é um material que eles estão acostumados a lidar por muito tempo. 

E qual é esse marco da música popular brasileira?

Não sei dizer se tem um, o pessoal costuma marcar o nascimento do samba com Pelo Telefone, a gravação dela, que é de 1917, mas a gente vai olhar para as raízes do samba ainda no século 19, o choro também. Em geral, os pesquisadores de música popular brasileira vão dizer que ela nasce no final do século 19, quando os gêneros de salão europeus  deixam de ser só reproduzidos pelos grupos, mas vão ser de certa forma apropriados e modificados. Então, a ideia do choro. O nome vem de um grupo de um flautista erudito, mas também boêmio, que é o Joaquim Calado. Ele tinha um conjunto chamado Choro Carioca. É com eles que começa Chiquinha Gonzaga ao piano, em atividade profissional. Qual era o repertório? Maxixe, polcas, mazurcas, e mesmo o maxixe, a dança popular de classes mais baixas, entra disfarçada de outros nomes, para não recair sobre ela um preconceito. Depois de certo tempo, até registros da época falam: ‘esse grupo toca a mazurca de um jeito chorado’ e esse jeito acaba dando origem ao gênero. É no final do século 19 que essas coisas estão florescendo e aparecendo, e aí vão se cristalizar no início do século 20, quando chegar primeiro a gravação e depois a transmissão da rádio. 

Você falou no início da nossa conversa que o Villa, quando recebeu o convite, achou que não ia dar em nada. Quais foram as reflexões dele depois do evento?

Ele foi uma pessoa vaidosa, um artista individual. De fato não é de movimentos, de equipe. O que ele disse no futuro é que não precisou da Semana para ser moderno, que sempre foi moderno, muito antes do evento. Em parte ele tem razão, era um músico que seria Villa-Lobos com Semana ou sem. Mas não é verdade que participar do evento e perceber toda aquela movimentação que estava em andamento não mexeu com a cabeça dele também. Era um homem pragmático e muito esperto, que também percebeu aquilo que queriam dele e como conseguiria se projetar, segundo as demandas sociais. Não é possível que não tenha havido um impacto sobre ele participar da Semana. 

Você deve ter descoberto fatos curiosos dele. O que dá para adiantar, sem dar spoiler do livro?

Sobre a Semana tem o episódio que todo mundo fala, que ele entrou de chinelo. De fato estava em um pé só, se não me engano no esquerdo, e de guarda-chuva, como bengala, as pessoas achavam que ele estava provocando, de fraque e chinelo, mas na verdade ele tinha gota, ácido úrico, que atacava nos pés quando ele ficava nervoso. E provavelmente estava ansioso com sua estreia. Quando veio do Rio já estava com gota. Agora, uma coisa que trago para biografia é um pouco a personalidade do Villa-Lobos, além da música, é claro, mas quero que as pessoas entendam quem era esse homem, suas preferências. Ele gostava de tomar café muito forte, café tinta, principalmente quando estava compondo, ficava o dia inteiro com seu café. É um homem que adorava amigos, ter gente por perto e que, ao mesmo tempo, trabalha sem parar. Tem muitos relatos: ‘nossa, ele está sempre trabalhando, mas sempre com gente por perto.  Ele gosta do barulho e é capaz de escrever mesmo circundado de rádio ligado, outros ensaiando, conversando, e ele ali trabalhando.’ Outra coisa é que ele é um homem que nunca teve filhos e amava as crianças. O fato de ter tantas obras inspiradas no universo infantil, começa na década de 10 A Prole do Bebê, o Carnaval das Crianças, ele amava crianças. Tem muitos relatos que quando ele via uma mudava até o comportamento, ficava mais doce, mais gentil, brincava. Mas, ao mesmo tempo, quando ele ensaiava, na década de 1930, com os corais de canto, que se espalham nas escolas, era extremamente rígido. A gente tem áudio dele gritando, batendo na mesa, as crianças ficavam amedrontadas. Tem um amigo que diz: ‘era o jeito que ele achava que tinha de impor a sua presença era sendo um homem muito bravo’. Mas na lida individual era muito doce com as crianças. Provavelmente gostaria de ter tido filhos. 

E para você qual foi a principal contribuição que ele deu para cultura brasileira?

Ele era um músico absolutamente fora de série, talvez faça uma síntese da música brasileira. Porque era um homem que bebia na música folclórica, tradicional, mas também amava e praticava a música popular. Aprendeu violão, de fato, na noite, com os chorões. Usa isso: os choros nada mais são do que se basear em uma forma da música popular para fazer música erudita. Nas Bachianas brasileiras isso também está presente, embora esteja dialogando com Bach. Toda obra dele é um diálogo da tradição seja da música popular urbana, do Rio, seja com a tradicional folclórica, e ao mesmo tempo é essa que chamamos de erudita, que vem das formas europeias. Ele pegou tudo isso, jogou em um caldeirão e traz como resultado obras extremamente originais, ousadas, e que dialogam com amplo espectro. Se a gente olhar, o Villa-Lobos é um músico erudito sem dúvida que mais gravado, ou reinterpretado, por músicos populares. Tem canções dele que já foram gravadas muitas vezes, as da Floresta da Amazônia, Ney Matogrosso já gravou, Elizeth Cardoso, Zizi Possi. Tom Jobim sempre disse que uma das maiores inspirações dele era o Villa-Lobos, Glauber Rocha no cinema vai usar a música dele. Foi um músico da tradição erudita que rompeu as fronteiras absolutamente da música popular e da arte. Ele é uma das maiores figuras da nossa cultura até hoje. 

E você também participou do projeto Toda Semana do Selo Sesc. Me fala um pouco sobre ele.

Foi uma coisa maravilhosa de poder fazer justamente porque a gente fala tanto da Semana, é tão famosa, mas, na verdade, não está tão disponível o que aconteceu de fato naqueles três dias e eventos. Partindo da minha área, que é a música, e junto com a Flávia (Toni) e Claudia (Toni), resolvemos pensar em gravar, reunir, pela primeira vez, tudo que foi tocado na Semana. E reunir isso é falar de Villa-Lobos, porque ele foi o único compositor da Semana, 90% do que foi tocado era dele, então pudemos reunir essas obras. Daí tem o diretor musical do projeto, que é o Cláudio Cruz, regente e violinista, e a gente pode então gravar tudo com ótimos intérpretes e colocar dentro do contexto da Semana, porque o projeto não é simplesmente a música. Ele traz o texto, os programas de cada dia, inclusive a gente tem a palestra do Graça Aranha que abriu o evento, uma palestra de Menotti del Picchia, com poemas. Quem olhar para o projeto vai ter a ideia geral do que foi e no caso da música vai poder escutar todas reunidas pela primeira vez. É a coisa mais legal desse projeto que, ao meu ver, tem uma proposta didática muito grande. Esse box com conteúdo de texto e de música pode ser usado em salas de aula. Não tem melhor jeito de ensinar as crianças o que foi a Semana do que mostrando tudo que teve presente. 

É disponibilizado em formato on-line?

Tem o formato físico, em forma de livro, com quatro CDs encartados, mas também gratuitamente, está disponibilizado no Sesc Digital (aqui). Basta acessar a página e procurar Toda Semana, que não só os áudios, mas também os textos, estão todos disponíveis. 

(Miriam Gimenes/Agenda Tarsila)

Publicada em 28 de março de 2022

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