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O antes e depois da Semana de Arte Moderna estão em série de exposições na Pinacoteca de SP

No edifício projetado por Ramos de Azevedo, no Jardim da Luz, no Centro, inaugurado no início do século passado, o culto à arte é palavra de ordem. A Pinacoteca de São Paulo, museu mais antigo do Estado, fundado em 1905, reúne um acervo de respeito que conta com 11 mil peças. Entre as inúmeras obras, há gêneros artísticos de diversas gerações, inclusive modernistas, como os icônicos quadros Bananal (1917), de Lasar Segall, Antropofagia (1929), de Tarsila do Amaral e  Fachada (1955), de Alfredo Volpi. Passear pelas suas galerias é uma verdadeira viagem na linha do tempo da história da arte. 

É essa sensação que o espaço quer oferecer, inclusive com mostras que celebram o centenário da Semana de Arte Moderna de 1922, como reforça o diretor do espaço, Jochen Volz, em entrevista à Agenda Tarsila. “O acervo, da forma como está montado, tem momentos modernos em todo percurso do museu, sempre provocando reflexões urgentes.” Desde o ano passado, o museu tem realizado seminários on-line – em parceria como o IMS (Instituto Moreira Salles) e o MAC/USP -, que refletem os ecos modernistas nas artes a partir da Semana de 1922, e também inaugurou exposições como a que lembra o legado do artista franco-suíço John Graz, radicado no Brasil, na Estação Pinacoteca, e a mostra Máquina do Mundo, em cartaz até março, que analisa os reflexos da industrialização na arte. 

Para este ano, entre as novidades, está uma exposição com a obra da artista carioca Adriana Varejão, uma das personalidades mais importantes da arte contemporânea brasileira, e a inauguração da Pinacoteca Contemporânea, prevista para novembro. Confira, a seguir, a entrevista completa:

Temos uma efeméride especial em fevereiro, mas a comemoração compreenderá o ano todo. E a Pinacoteca tem uma programação especial para o centenário da Semana de Arte Moderna de 1922 e eu queria que você adiantasse um pouco o que estão preparando. 

Na verdade, preparamos um grande conjunto de ações e reflexões sobre o legado da Semana de Arte Moderna de 1922. Essa programação traz o significado da Semana para os dias de hoje e como ela inspira na criação de ferramentas e reflexões para o futuro. O início das atividades foi em 2021, com uma série de conferências e seminários que fizemos conjuntamente com instituições parceiras, entre elas o IMS (Instituto Moreira Salles) e o MAC/USP. Ao todo, foram dez seminários que provocaram a reflexão sobre o legado da Semana de Arte Moderna, e também de outros movimentos modernos no Brasil que sucederam a Semana ou foram realizados em conjunto em São Paulo. A gente também já inaugurou outra atividade que faz parte da programação (da Agenda) Tarsila, a exposição Máquina do Mundo, que aborda a produção artística a partir da industrialização. Na virada do século 19 para o século 20, de repente, a industrialização mudou todo nosso jeito de pensar sobre trabalho, materiais, processos de criação, impactando diretamente no meio artístico. Na iconografia quanto também na forma de pensar e fazer arte. É a discussão sobre a ideia da máquina se tornando o produtor e objeto de estudos. Começa em 1901 e vai até 2021. São 120 anos de arte brasileira a partir desse olhar do legado da máquina. Uma outra exposição importante, que será inaugurada em março, é uma monografia de Adriana Varejão, uma artista contemporânea, que traz uma reflexão superinteressante sobre questões colocadas pelos modernistas sobre a arte à luz da história colonial brasileira. Embora não necessariamente fale sobre a Semana de 1922, mas prevê o impacto que ela teve na cultura brasileira e como ela alimenta a produção de uma artista como Adriana. Temos também mostra importante na Estação Pinacoteca, já em cartaz, sobre John Graz, um dos integrantes da Semana de Arte Moderna. A programação é bem ampla e ainda terão outras atividades neste ano. 

E a Pinacoteca tem um acervo importante com obras modernistas. Queria que você me falasse quais são essas obras.

Nosso acervo de modernistas brasileiros inclui, por exemplo, a Tarsila do Amaral, representada por seis obras bem variadas. Isso quer dizer que quem quer estudar Tarsila tem de ir à Pinacoteca; assim como Anita Malfatti, Candido Portinari, entre outros artistas considerados desse movimento. E achamos importante pensar que o acervo está sempre em diálogo com produções contemporâneas. É interessante olhar o quadro Tropical (1917), de Anita Malfatti, enxergando isso em diálogo com representações de brasileiros mais contemporâneos. Este é o grande legado que o acervo da Pinacoteca e do Estado de São Paulo pode trazer para o público, sobre a representatividade, a ideia da figura do brasileiro, críticas sociais, é um conjunto muito rico. E o acervo, da forma como está montado, tem momentos modernos em todo percurso do museu, sempre provocando reflexões urgentes.

Estas obras estão disponíveis? As pessoas que forem à Pinacoteca conseguem ver, independentemente da exposição que tiver em cartaz?

Sim. Elas fazem parte da exposição do acervo, que permanecerá disponível para visitação neste ano inteiro…

A Pinacoteca acaba de inaugurar também um espaço audiovisual. Queria que você me falasse um pouco sobre esse local.

A obra, iniciada recentemente, resultará em um novo espaço, a Pinacoteca Contemporânea. Trata-se de um grande investimento do Estado de São Paulo em parceria com a iniciativa privada. O novo equipamento permite a visualização de novas formas de produção artísticas, inclusive trabalhos audiovisuais e multimídias. Este novo espaço, com previsão de inauguração para final de 2022,  trará essas novas possibilidades, além de uma série de outros recursos importantes para aproximar a população cada vez mais da produção e reflexão sobre a arte.  A gente também vai trazer a biblioteca, que é uma das maiores da arte brasileira do país, para o novo espaço diretamente ligado ao Parque da Luz. Isso traz para a população, para quem quer apreciar a história da arte brasileira e a produção atual e futura, um equipamento importante. 

A gente passou por um período caótico na história da humanidade que é a pandemia, que ainda não acabou. Como está sendo esta retomada na Pinacoteca?

O mais importante são as exigências protocolares, principalmente distanciamento e  lotação, porque é necessário que a movimentação nesses espaços seja cautelosa. Além do uso de máscaras e álcool gel. Mesmo com esses detalhes, o que tem sido uma experiência muito bonita de ver é como o público está a procura da arte.

Ia te falar isso, que está tendo muita exposição e está difícil de conseguir ingresso. As pessoas estão procurando muito, sentiram falta deste tempo que ficaram em casa. Vocês tiveram essa percepção também?

Sim, tivemos. Neste momento que estamos vivendo é importante ter contato com a imaginação, é bonito ver essa busca das pessoas. Os artistas trazem para nós algo além da realidade. Eles imaginam em várias linguagens, mas sempre há uma interpretação que vai além do que conhecemos. E esta busca do desconhecido é algo que sinto por parte dos visitantes. A fantasia, a imaginação, são necessárias para este momento, no qual estamos precisando ter a perspectiva de outros caminhos para o futuro. 

E qual é o principal legado que os modernistas deixaram para a cultura brasileira?

O principal é a reflexão sobre o que é uma cultura brasileira. E obviamente ela é movimento, precisa se reinventar. Ela foi exclusiva para muitos artistas, porque a maioria não fazia parte de uma certa elite e não tiveram acesso, mas acho que essa reflexão, as perguntas que eles fizeram, como ‘o que é a arte brasileira?’, ‘o que pode ser a arte brasileira?’, além de querer se distinguir de uma arte europeia, criar uma própria linguagem. Esses legados são muito fortes, estão presentes até hoje, desde as artes visuais à música, à poesia, ao teatro, em todas as frentes. É uma questão que constantemente precisa ser trabalhada, refletida, criticada inclusive. É um grande legado.

Para você o que é a arte brasileira?

É uma boa pergunta. Podendo reduzir para as artes visuais, a arte brasileira se destaca pela capacidade de fazer uma reflexão teórica, filosófica, mas sempre a partir dos objetos. Ela sempre é material, física, inclusive ela quer diálogo, se ancora nos materiais e objetos do cotidiano, se alimenta disso, seja de forma escultórica, pictórica, filmes. Tem outra questão que sempre vai além: a urgência filosófica que ela pergunta. É uma característica reconhecida internacionalmente. 

(Miriam Gimenes/Agenda Tarsila)

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