Reprodução

‘O grito (modernista) que o Brasil inteiro ouviu partiu aqui de São Paulo’, diz o presidente da Academia Paulista de Letras, José Renato Nalini

A Academia Paulista de Letras nasceu em novembro de 1909 por iniciativa do médico Joaquim José de Carvalho. A mais do que centenária instituição, hoje com 40 integrantes, teve em sua lista de intelectuais diversos nomes importantes para a história da cultura brasileira, dentre os quais ilustres modernistas que participaram ativamente da realização da Semana de 22. Mário de Andrade, Menotti del Picchia, René Thiolier, Sérgio Milliet, Plínio Salgado eram alguns dos acadêmicos que ajudaram a engrenagem da academia a rodar no início do século passado. 

Atualmente, a Academia Paulista é presidida por José Renato Nalini, dono da cadeira 40 da entidade e ex-Secretário de Estado da Educação e ex-Presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo. Em entrevista exclusiva à Agenda Tarsila, ele ressalta a importância de se comemorar o centenário de um evento cujo grito, em suas palavras, ‘partiu de São Paulo e ecoou pelo resto do país’. 

O mais importante de tudo é que nós nos valhamos desta celebração para mostrar que São Paulo tem condições de dizer ao mundo, ao planeta, que nós não somos todos toscos, ignorantes, cultores do obscurantismo, da teoria conspiratória, anti-vacina. Nada disso. Nós somos um povo pioneiro. Não é demasia dizer isso: se nós conseguíssemos transplantar São Paulo e colocar nos Estados Unidos, nós estaríamos em uma situação privilegiada em relação à própria Califórnia”, analisa. Para ele, mais do que ensinamentos artísticos, os modernistas mostraram que é preciso ousar e lutar pelo que se acredita. “Nós precisamos de celebrações para mostrar para a juventude tão apática que ela tem condições de transformar o mundo e para melhor.” Confira, a seguir, a entrevista: 

Estava repassando a história da Semana de 22 e vi que muitos dos artistas da literatura tiveram uma passagem pela Academia Paulista de Letras, exceto Oswald de Andrade. Inicialmente gostaria de saber se vocês estão preparando algo para o ano que vem para comemoração da efeméride.

Sim. Nós tomamos várias providências. Uma delas foi a coleção Perfil Acadêmico, que é fruto de um convênio entre a Academia e o Imesp (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo). Teve agora um sobressalto pela incorporação da Imesp pela Prodesp (Companhia de Processamento de Dados do Estado de São Paulo). Mas já foram publicados oito exemplares, tem dez prontos aguardando na gráfica, e nós procuramos contemplar aqueles que tiveram protagonismo maior na Semana de 22. Vamos também fazer durante fevereiro, exatamente nos três dias que houve a celebração literária no municipal – porque os outros dias foram exposição de quadros, etc -, mas as três noites vamos fazer celebração para tentar reproduzir o que foi feito com o enfoque para 100 anos depois. O que significou 1922 para o Brasil. E acho que isso é muito importante porque está surgindo uma série de artigos comentando que ela não teve tanta importância, que em outros estados da federação também havia modernismo, etc. Mas o choque, o pontapé inicial, o grito (modernista) que o Brasil inteiro ouviu partiu aqui de São Paulo. 

Até porque era uma época em que as coisas não se difundiam tão rápido. Isso foi um trabalho feito depois da Semana de 22. Você acha que foi um evento municipal, que depois tomou a proporção devida, que era o que eles queriam? Ou não, você acha que já nasceu com essa ideia de ser nacional?

Nasceu até com uma dimensão internacional. Se você lembrar bem, São Paulo não era a capital. A capital da República era o Rio, que tinha todas as benesses, as instituições, porque ela herdou do império. Era evidente que havia uma infraestrutura. Então, aqui nós não tivemos um governo cuidando da cultura como no Rio. E os nossos mecenas, estou falando do Paulo Prado, da dona Olívia Guedes Penteado, eles quiseram suprir essa omissão do governo. Veja que coisa importante para São Paulo em 1922: cem anos depois nós estamos vivendo quase que algo análogo. O governo federal não considera a cultura com aquela relevância que ela tem. E São Paulo está assumindo esse papel. Então, os particulares eram ricos, tinham residências na Europa, principalmente em Paris, (de onde vinha) a grande inspiração brasileira, eles voltaram de lá com tudo aquilo que depois da primeira grande guerra havia uma esperança que o mundo entrasse em uma fase áurea, de iluminismo, renascimento das artes, da cultura, trouxeram isso. Encontraram aqui em São Paulo gente entusiasta, jovens como Mário de Andrade, Oswald de Andrade, este que só não foi acadêmico porque ele era anti-acadêmico. 

Nem à Academia Brasileira de Letras ele quis se candidatar…

Ele era um outsider. O time dele era ele mesmo. Tanto que depois ele brigou com Mário. Mas nós tínhamos ali na Academia o René de Thiollier, que é um homem importante e precisa ser lembrado, tínhamos o Plínio Salgado, que era um jovem que nem pensava em integralismo, escrevia romances, poesia; tínhamos Menotti del Picchia, que já havia escrito Juca Mulato e foi extremamente reverenciado pela elite paulistana. Houve um almoço no Trianon em que ele recebeu o busto dele. Veja, um jovem já tinha um busto ali e já lançou um grito de modernismo. Então as coisas estavam se encaminhando desde 1917, data da célebre exposição da Anita Malfatti, que o Monteiro Lobato criticou, mas o artigo dele serviu para despertar. Quase ninguém havia ido à exposição dela. Assim que Lobato publicou Paranóia, as pessoas foram e começaram a ver que estava surgindo alguma coisa nova. Então surgiu nos salões de dona Olívia, de Paulo Prado, e de (José de) Freitas Valle, Villa Kyrial (espaço cultural de encontro de intelectuais). Essas reuniões eram verdadeiros saraus, todas as grandes figuras da intelectualidade brasileira, e até internacional, as pessoas que vinham visitar o Brasil, porque eram amigos deles, faziam conferências, encontros. Então isso foi brotando para que São Paulo desse um grito. E a Semana era para chocar, não era algo comportado, alguma coisa que obedecesse aos cânones da época, todo mundo muito contido. Não. Era um grito para mostrar ‘São Paulo existe’. E por que São Paulo estava assim agitado? Porque cresceu de uma forma estrondosa com a imigração. Houve em 1917 uma grande greve liderada pelos anarquistas italianos e aquilo já mostrou que São Paulo estava vivendo uma ebulição. De uma cidade provinciana, tranquila, estável, passou a fervilhar. Imagine estes italianos que vieram, não eram pessoas rudes, operários braçais, era gente muito politizada e isso tinha de fermentar e mostrar para aqueles jovens sempre inquietos que nós precisávamos fazer alguma coisa. ‘O mundo está mudando, por que São Paulo não?’ Veja aquela vocação bandeirante em São Paulo, de terrenos inexplorados, surgiu também na Semana. E o evento foi aquilo que a gente revisita. Cada ano ela tem novas tonalidades, novas descobertas e é interessante a gente lembrar que eles não quiseram excluir o Rio. Pelo contrário, foram buscar Graça Aranha. Ele era o mais idoso do grupo, já era alguém consagrado. Tinha sido diplomata, estava aposentado do Itamaraty e diz a lenda que ele se apaixonou pela irmã de Paulo Prado. Então começou a vir com muita frequência para conquistar sua amada e com isso se prontificou a liderar o grupo carioca. Ele era alguém que chocava também, tanto que na Academia Brasileira de Letras fez um discurso acabando com a academia, falando que eram sepulcros, que estavam todos mortos, etc. Depois ele se reconciliou, saiu carregado pela torcida. Mas ele trouxe aquele beneplácito da capital para São Paulo.

A Academia Paulista, naquele momento, era uma recém-nascida. De que maneira fez a sua história andar de mãos dadas com o modernismo e com aquele grupo que ali estava?

Houve uma série de coincidências. Costumo dizer como Jorge Bernadotte: ‘não é coincidência, coincidência é a lógica de Deus. Quando Ele quer trabalhar, a providência divina acontece’. Menotti del Picchia era o redator-chefe do Correio Paulistano. Era o órgão de divulgação do governo, PRP. O governador era Washington Luiz, que também era integrante da Academia Paulista de Letras, assim como Menotti. Monteiro Lobato também. Todos os que citamos. Então, para que o Theatro Municipal fosse cedido para um grupo de jovens, que seriam hoje os que estão fora do contexto, ‘jovens revoltados’, precisou que o presidente do Estado avalizasse o aluguel do espaço. Menotti acumulava as funções de assessor com a chefia de redação e fez chegar ao presidente que aquilo valia a pena, que apostasse naquilo porque seria um fato que poderia acarretar muito reconhecimento por parte da intelectualidade. O Washington Luiz fez com que o teatro fosse alugado. Houve uma subscrição pública para conseguir o dinheiro. Quem abriu a lista? Paulo Prado, Olívia Penteado, o senador Freitas Valle, que deram as quantias mais polpudas. No final da Semana, os promotores tiveram de amargar com um prejuízo que, àquela altura, era de 8.700 contos. Diz a lenda também que isso foi por causa do Graça Aranha. Ele trouxe o pessoal do Rio e os hospedou em hotel. Então havia jantares, almoços, passeios e todo pessoal não pagava ingresso. A conta ficou com São Paulo, para variar.

Queria que você me falasse, do ponto de vista literário, o que de fato mudou a partir de então. Eles fizeram mesmo uma ruptura?

Nós estávamos vivendo praticamente o século 19. Nesse século 21 a gente fala que até o ano 2020 ainda era século 20. A coisa começa a mudar depois de duas décadas… Ali, na literatura, ainda era muito fiel ao parnasianismo, ao romantismo, coisas muito bem comportadas. De repente vem o Mário escrevendo Pauliceia Desvairada, vem Oswald com suas loucuras, vem o Menotti com Juca Mulato, um herói muito diferente daquele índio bem comportado de José de Alencar, de Iracema, O Guarani, de Carlos Gomes. Juca Mulato era alguém tipicamente brasileiro sem nenhuma vinculação com os modelos europeus. O Monteiro Lobato lançou o Jeca Tatu. Veja que ao invés de edulcorar, fazer aquele jogo do contente, ‘esta terra tem maravilhas quem nasceu aqui… os pássaros que aqui gorgeiam não gorgeiam como lá, etc’. Ele falou do nosso caboclo, caipira. Então Jeca Tatu é alguém que é indolente porque está cheio de verme, não tem infraestrutura, saúde, educação, não tem apoio do governo para uma agricultura sustentável. A ideia era essa. Veja que estes personagens sinalizaram que nós precisaríamos contemplar temas nacionais, típicos, concretos e reais. E aí a Semana procurou trazer artistas plásticos também que ousassem, que quebrassem os esquemas da cópia praticamente idêntica da realidade. Os quadros clássicos eram uma reprodução exata, como se fosse uma fotografia e, de repente, vem quadros quase surreais. Isso mostrou que havia alguma coisa em movimento. E a Semana  não atraiu tanta gente, como até hoje as coisas culturais chamam muito pouca atenção. É uma pregação para convertido. ‘Vou fazer uma conferência sobre Monteiro Lobato’. Quem vai? Quem gosta de Monteiro Lobato, quem já o conhece. Nós não cultivamos esse culto à memória, aquilo que é profundo, tudo é um pouco superficial. A primeira noite foi muito morna. Foi a conferência com Graça Aranha, como ele já era uma figura lendária, muito respeitada, uma personalidade, as pessoas ficaram quietas. Depois houveram alguns números musicais. O Oswald falou: ‘se continuar assim, a Semana não vai atender os nossos objetivos’. Ele contratou os estudantes da (Faculdade) São Francisco para vaiarem. Eles começaram a vaiar e jogar ovo, tomate. O Mário de Andrade não conseguia falar, teve de ir para a escadaria do teatro. Isso fez com que os jornais no dia seguinte noticiassem e a terceira noite não havia lugar para ninguém. Aí o Villa-Lobos, que também era alguém muito diferente, das músicas clássicas, ousava, ele estava com gota, uma doença nas juntas, então estava de casaca e chinelo.  As pessoas pensaram que fosse uma agressão, também fizesse parte da coisa. Foi uma série de coincidências interessantes que depois foram analisadas, interpretadas, mas foi o pontapé inicial para uma grande revolução na literatura, nas artes plásticas, na música e  a gente fica muito feliz que a Academia Paulista de Letras tenha tido esse protagonismo. Nós precisamos lembrar cada vez mais esses integrantes, até aqueles que ficaram de certa forma ocultos, como Sérgio Milliet, por exemplo, mas foram artífices muito eficientes de uma Semana que a cada ano se torna mais potente. O mais importante de tudo é que nós nos valhamos desta celebração para mostrar que São Paulo tem condições de dizer ao mundo, ao planeta, que nós não somos todos toscos, ignorantes, cultores do obscurantismo, da teoria conspiratória, anti-vacina. Nada disso. Nós somos um povo pioneiro. Não é demasia dizer isso: se nós conseguíssemos transplantar São Paulo e colocar nos Estados Unidos, nós estaríamos em uma situação privilegiada em relação à própria Califórnia. Se transplantássemos São Paulo para a comunidade europeia estaríamos na mesma situação da Alemanha, França. O mundo tem todas as razões nestes anos de pensar que nós somos canibais, ignorantes. Recebemos a chancela de pária ambiental. Enquanto o mundo inteiro está preocupado com o aquecimento global, o que levamos para a COP 26 (Conferência do Clima)? A notícia de que em outubro tivemos a maior devastação da Amazônia. Adianta falar para o mundo que a Amazônia está do mesmo jeito de quando o Brasil foi descoberto em 1500? O mundo não é tonto, boçal. As pessoas sabem. E, por isso, corremos um grande risco do capital internacional do qual necessitamos tanto para alavancar a economia, e tínhamos tudo para receber esses trilhões disponíveis para descarbonização do mundo. O grande perigo do mundo é o aquecimento global. Nós desperdiçamos essa chance. É importante que São Paulo fale: ‘não, aqui nós cuidamos do ambiente, da cultura, da educação.’ A prova disso é que temos um centenário para celebrar, do qual nos orgulhamos e que precisa ser cada vez mais revisitado. 

E para você qual a maior lição do legado modernista?

A abertura de mente, você conseguir se libertar de esquemas pré-estabelecidos que eram considerados estáveis e imutáveis. Você tem de ter sempre uma janela aberta para o inesperado, para o sonho, para aquilo que parece impossível. Nada é impossível em termos de criação intelectual, artística, de produção literária, musical, das artes plásticas. Por que não ousar? Nós temos um período muito curto de vida, ela é efêmera e frágil. Então neste período que nos é dado para estar aqui na Terra temos de fazer valer a nossa vida, mostrar para o mundo que ele é um pouco melhor porque estamos aqui. Isso é um convite para que você se renove, se reavalie e enfrente aquilo que você pensou que aparentemente nunca fosse acontecer. Se eles não tivessem coragem, ousadia, audácia, um pouco até de teimosia, de querer afrontar, chocar, nós não teríamos tido a Semana de 22. A minha formação é jurídica, fiquei 50 anos na área e continuo trabalhando. Vejo com tristeza que os estudantes de Direito eram aqueles que lideravam os grandes movimentos. Eles lutavam contra ditadura, fascismo, saíam às ruas. Nós tivemos no Brasil o milagre da multiplicação das escolas de Direito. A nossa república tem mais faculdades de Direito do que a soma de todas as outras existentes no restante do mundo. Isso fez do Brasil um país mais justo, harmônico, que faz com que a lei seja cumprida a partir da Constituição? Não. Nós precisamos de celebrações para mostrar para a juventude tão apática que ela tem condições de transformar o mundo e para melhor. Lembrar, principalmente aos governantes, que ele é um servidor da população. O único titular da soberania é o povo. É o que está escrito na Constituição. O governante, o detentor de cargo público é alguém que existe e é pago para servir. Nós invertemos muito isso. Aparentemente nós servimos ao poder ao invés de fazer com que ele nos sirva. A Semana de 22 tem uma porção de reflexões que ela permite, de visões, e tem muita coisa escrita. Fui reler o que os próprios acadêmicos escreveram. Tenho o relato do Menotti del Picchia, que é delicioso, está em um dos livros de memória dele. Depois tenho um livro de um acadêmico que detonou a Semana de 22, o Yan de Almeida Prado. No final da existência dele, se destacou por manter a chamada Pensão Humaitá, que eram encontros gastronômicos, de personalidades e pessoas importantes. Cada encontro dele era uma ‘festa de Babette’, um almoço magnífico, receitas benfeitas, vinho de safras prestigiadas, ele ficou célebre por isso. Mas, escreveu um livro chamado A Grande Semana de 1922 e dedicou a dona Olívia Guedes Penteado, mas ele detona. Não sei o que aconteceu e a gente nunca mais vai saber, porque eles estão todos mortos, mas Yan fala que o Oswald era alguém irresponsável, que o Mário era ingênuo. Ele tinha tanta implicância com os dois que ele os chama de’ Marioswald’, junta os dois nomes. Mas o próprio Menotti faz uma defesa da semana e, muito diplomaticamente, fala assim: ‘nós ficamos trabalhando tanto tempo para programar e o Yan não estava lá. Fomos coletar o dinheiro e o Yan não estava lá…’ Dizendo assim: ‘como você critica alguma coisa que você talvez, premeditadamente, não quisesse participar?’ Deve ter sido alguma picuinha pessoal. Existe muito isso, os intelectuais também são egos muito sensíveis. De qualquer forma, para programar a Semana, para fazer a Semana, para criticá-la, a Academia Paulista de Letras está nela. 

Você falou dessa soberania do povo. Li um texto que você escreveu para o Estadão que fala que a marca em comum entre o centenário da independência, em 1922, e a Semana, foi não ter tido a participação do povo. Seria agora a hora de rever este erro histórico?

Talvez o fato de termos uma outra celebração, não tão emblemática, mas são os 90 anos de 1932, da Revolução Constitucionalista, e um outro fato que vai chamar mais atenção da população que são as eleições presidenciais, governamentais, talvez isso crie um clima mais propenso à participação. O que seria interessante é que nós não deixássemos ficar só na polarização eleitoral, ‘se você está com ele é contra mim, meu inimigo’. Que nós tivéssemos uma análise de 1922 com todos esses componentes: os 200 anos da independência, os 100 anos da Semana de Arte Moderna, os 90 da Revolução Constitucionalista de 1932, esta importantíssima para redemocratizar o país e ele continua necessitando de uma redemocratização. É muita coisa acontecendo e choca os cânones do que deve ser uma democracia, tão bem definida: governo do povo, pelo povo e para o povo. Nós temos os ingredientes. Será que os influencers, pessoas com milhões de seguidores, vão abraçar essa ideia de fazer com que 2022, no ano da redenção brasileira, do povo lembrando que o constituinte em 1988 prometeu uma democracia participativa. Até agora temos essa democracia representativa que para muita gente falhou. Quem são aqueles que se sentem realmente representados? Temos de fazer as pessoas assumirem as suas responsabilidades. A Constituição de 1988 foi muito pródiga em outorgar direitos. Mas, aparentemente, esquece-se dos deveres, responsabilidades e obrigações. A democracia é uma plantinha frágil que precisa de cuidados permanentes. Ela está em uma estufa quase morrendo. Nós precisamos injetar fertilizante, adubo, regar e ter muito carinho. Porque as plantas entendem quem gosta delas e quem não. E nós dizemos que somos democratas, vamos provar que somos. 

De que maneira a cultura contribui para a democracia?

A cultura faz com que as pessoas pensem. O próprio Lobato dizia ‘quem não lê não pensa, não enxerga.” Há tantas tentativas de fazer o Brasil um país de leitores. Digo que não é só ler, mas escrever também. Precisamos fazer com que as crianças escrevam, que elas transmitam aquilo que passa pela mente delas. ‘O que você pensa que o mundo vai ser quando você for adulto?’ ‘O que você vai fazer para tornar o mundo melhor?’ ‘Quais são as deficiências da nossa convivência?’ A Constituição fala, logo no preâmbulo, que a nossa missão é edificar uma pátria justa, fraterna, solidária com eliminação da miséria, redução das desigualdades, extinção do preconceito. Estamos longe disso. Então a cultura é você disseminar ideias muito singelas, o que entende por governo, Estado, o que é uma sociedade civil, qual responsabilidade e direitos. É um dilema e você não pode ficar omisso. Ou você está ajudando a melhorar, ou está fazendo parte do peso que lança a nação em uma situação que não deveríamos estar em pleno século 21.

(Miriam Gimenes/Agenda Tarsila)

Veja também
+Programação