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‘O legado modernista nunca morreu, ele foi se reformulando’, diz o promotor e articulador das Fábricas de Cultura da Zona Leste, Renato Barreiros

Fazer uma releitura do quadro de Anita Malfatti, de Tarsila do Amaral ou Zina Aita, mas em formato de grafitti, é uma das propostas das Fábricas de Cultura gerenciadas pela Catavento Cultural e Educacional. Ao todo, 12 pinturas feitas por artistas nos últimos meses poderão ser vistas na exposição Abaporu Periférico, que será aberta dia 24 de novembro, no Museu Catavento. A ideia é que depois a mostra seja itinerante, principalmente no ano que vem.

Esta é apenas uma das atividades gerenciadas pelo superintendente de promoção e articulação das Fábricas de Cultura da Zona Leste,  Renato Barreiros, que em entrevista exclusiva à Agenda Tarsila mostra, pela sua impressão, como as premissas estéticas e ousadas criadas pelos modernistas seguiram dando frutos ao longo dos últimos 100 anos. “Estamos comemorando agora o início, que foi a Semana de 22. Ela nunca morreu e se renova sempre.”

À exemplo, cita o evento Villa-Lobos e Cordas, Rap e Funk, que será realizado no dia 19, às 19h, no teatro da Fábrica de Cultura de Sapopemba, que une música erudita com a contemporânea, ao melhor estilo modernista, e que tem atraído os jovens. “Você está deixando o jovem pegar a cultura dele do momento, atual, e de alguma maneira intervir, conversar com uma cultura que ocorreu naquela época. Então é um diálogo. Sempre quando existe o diálogo e o jovem consegue não só ficar como ouvinte, mas consegue participar, colocar um pouco do dele, ser criador, a coisa muda.” Confira, a seguir, a entrevista completa. 

Estamos falando sobre o centenário da Semana de Arte Moderna e as Fábricas da Zona estão com diversas programações comemorativas neste sentido. Você poderia falar um pouco sobre elas?

Sou da área de promoção e articulação e (a Fábrica também tem) a área de formação cultural. Então fizemos uma agenda conjunta para poder trazer algumas coisas bem legais. Estamos com São Bernardo do Campo, Itaim Paulista, Vila Curuçá, Cidade Tiradentes, Sapopemba e Belém, unidades que a Catavento Cultural administra. Algumas coisas já estão sendo feitas. Começamos com o grafitti, o Abaporu Periférico. Todo mês dois artistas que já frequentam as Fábricas, que são da periferia, fazem releituras de quadros modernistas importantes. Depois de terminado vai gerar uma exposição, que vai circular pelas Fábricas, as escolas. A ideia é que isso seja visto não só na periferia, como também no centro. Estamos com o Villa-Lobos em Cordas e Funk, orquestra de cordas da Fábrica, com vinte aprendizes de violino, viola e violoncelo, em todos os instrumentos, que vão fazer uma intersecção com os meninos de funk. Isso estava para setembro, não conseguimos fazer por conta dos ensaios – não dá para aglomerar por conta da Covid -, será feito agora em novembro (dia 19, às 19h) e vamos repetir no próximo ano. 

E o que mais está previsto, Renato?

Tem as Contações de 22, que estão sendo feitas e exploram os autores e personalidades modernistas. Já vêm ocorrendo desde julho e vão até fevereiro de 2022. Eram de modo on-line, mas agora são presenciais. Quem quiser pode visitar os sites (das Fábricas) para ver onde estão ocorrendo. E vamos fazer uma coisa muito bacana em fevereiro de 2022, que é importante falar, que vai ser uma série de atividades. Vamos juntar as contações de histórias, as apresentações de funk com a orquestra, a exposição, eventos da biblioteca, e vai rolar uma coisa muito bacana. Vai ser o grande evento das Fábricas de Cultura, todas terão grandes eventos com estas atividades. 

Vai ser um grande festival que chega às periferias. Uma das críticas que a Semana teve foi de que ela era direcionada à elite e as Fábricas de Cultura têm essa característica, de levar toda essa programação e entretenimento para as periferias. Como você enxerga isso e como o público tem recebido?

Esse evento se chama Festival de 22 Longe do Municipal, para a gente mostrar que hoje em dia você tem espaços de cultura para a cidade inteira. Não tem mais ‘o teatro de São Paulo’. São vários teatros, você tem os CEUs (Centros Educacionais Unificados), a gente já tem feito alguns grafittis, temos sido super bem recebidos, obras lindas, artistas se revelando, se interessando. Os funkeiros estão animados para fazer intervenções com a orquestra com a obra de Villa-Lobos. Conhecendo quem foi ele… O legal disso que a secretaria propõe é exatamente fazer uma coisa descentralizada. Então você pegar a ideia principal de fazer coisas ligadas ao modernismo, característica da cultura de São Paulo, que influenciou e permeou todo o Brasil, mas que elas não se limitam ao Centro e ao Theatro Municipal. Mostrar a arte da cidade inteira de São Paulo. Isso é o mais legal e a gente, na Fábrica, está dentro dessa ideia, muito animado, e a turma está gostando e aderindo.

E as Fábricas têm também um público mais jovem, que teoricamente não estaria tão interessado por essas programações. Você tem visto isso, que os jovens podem ser entregues à história de São Paulo por essa arte?

Acho que é meio mito essa ideia de que eles não se interessam. Acho que o jovem se interessa sim, depende da forma como você aborda. Por exemplo, estas intervenções de Villa-Lobos com funk. Você está deixando o jovem pegar a cultura dele do momento atual e, de alguma maneira, intervir, conversar com uma cultura que ocorreu naquela época. Então é um diálogo. Sempre quando existe o diálogo e o jovem consegue não só ficar como ouvinte, mas consegue participar, colocar um pouco dele, ser criador, a coisa muda. Os grafiteiros têm sido muito bacanas, (fizeram) obras muito bonitas e têm se interessado, ido atrás de informações, explicam por que a releitura foi daquela maneira, está muito bacana. 

Como você vê o legado modernista chegando e se espalhando cem anos depois aqui em São Paulo?

O legado modernista nunca morreu, ele vai se reformulando. A gente tem essa coisa do funk de São Paulo, há uns anos atrás, teve um movimento forte da periferia do ‘funk ostentação’, que nasceu aqui e era um pouco misturado com rap, maneira de cantar mais dura, sem tanto molejo. São Paulo nunca parou de produzir uma cultura nova. Tem também agora muitos jovens no movimento do grafitti, posso citar OSGEMEOS, mas tem diversos que são referências mundiais e nasceram aqui. Nunca morreu, estamos comemorando agora o início, que foi a Semana de 22. Ela nunca morreu e se renova sempre. 

(Miriam Gimenes/Agenda Tarsila)

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