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‘O Mário nos ensinou a refletir sobre a alma’, diz o ator e intérprete do modernista, Pascoal da Conceição

Não fosse por um alerta do porteiro, o ator Pascoal da Conceição nem teria notado sua semelhança com o escritor modernista Mário de Andrade. ‘Estou saindo de casa um dia, desavisado, em 1993, o porteiro virou para mim e disse: ‘olha, o senhor está no jornal hoje, hein’. ‘Eu, no jornal?’ Não tinha feito nada para sair no jornal. Fui ver: era uma nota de 500 mil cruzeiros. (…) Olhei e falei: ‘engraçado, esse cara parece comigo’. Uma vez aceita a semelhança, o ator, que completa no próximo ano 50 anos de carreira, foi fazer um teste de publicidade, em que interpretaria o escritor, e passou. 

A partir de então, descobriu que nasceu no mesmo dia de Mário- 9 de outubro – aprofundou-se em sua história, fez inúmeros trabalhos ‘vestido com suas roupas’ e passou a difundir o que aprendeu a mergulhar na vida deste homem singular. Entre os aprendizados, está o ‘fazer o máximo possível para honrar sua função’, ter reflexões que vão além das aparências e acessem a alma e também a lutar, cada vez mais, para defender a cultura brasileira. Confira, a seguir, entrevista exclusiva à Agenda Tarsila:

No ano que vem você faz 50 anos de carreira. Quando foi que Mário de Andrade entrou nesta trajetória? Vi que você nasceu no mesmo dia que ele, o que já é uma coincidência…

Estou saindo de casa um dia, desavisado, em 1993, o porteiro virou para mim e disse: ‘olha, o senhor está no jornal hoje, hein’. ‘Eu, no jornal?’ Não tinha feito nada para sair no jornal. Fui ver: era uma nota de 500 mil cruzeiros. O Brasil vinha sofrendo uma inflação, às vezes de 15% ao mês, às vezes até de 100%, galopante, e vinha emitindo nota. Quem estava na nota? O Mário de Andrade. Olhei e falei: ‘engraçado, esse cara parece comigo’. A gente sabe o que é modernismo, estudamos na escola, mas daquele jeito… Logo depois recebi um convite para fazer um teste de comercial, em que Mário de Andrade saía da nota de 500 mil e dizia (muda a voz): ‘o imposto de renda é importante para a gente fazer isso, fazer aquilo… O Brasil precisa que você contribua…’ (esse foi o momento da implantação da declaração do imposto de renda no país). Quando fui fazer o teste o cara falou: ‘nossa, não precisa gastar maquiagem com ele. Ele é a cara do Mário de Andrade’. Depois foram aparecendo trabalhos. Teve o 25 de janeiro de 94, uma festa no centro da cidade, no Solar da Marquesa. E o ator, o que acontece? Você vai fazer um personagem, desde o dr. Abobrinha (Castelo Ra-Tim-Bum) até o Mário de Andrade, você vai estudar o personagem. Daí fui. É um escritor, paulistano, nasceu em São Paulo, no dia 9 de outubro de 1893 (nossa, nasceu no mesmo dia que eu!). Ele era um afro-descendente, tem um ramo da família dele, do pai dele, que são negros, e tem um lado de gente branca, tem essa mistura. O Mário é chamado de uma maneira depreciativa, ‘aquele cara que tem uma cor duvidosa’, até ele se refere a isso. ‘Aqui no brasil, de certa forma, quando querem depreciar o escritor falam, ele é preto.’ Mário de Andrade teve de aprender a combater esse racismo, foi amigo da Frente Negra Brasileira, teve grandes amigos. Organizou o Departamento de Cultura. Você pega o poema dele: Pauliceia Desvairada, de onde vem este título? Estou gravando uma peça, Mário de Andrade Desce aos infernos, um monólogo que escrevi um pouco traduzindo estes anos todos de trabalho, vou gravar e vamos contar com o apoio da divulgação, vai ao ar no dia 9 de outubro (em seu canal do YouTube). Mário de Andrade não era só um conselheiro, era também um avaliador. Porque o crítico ele enxerga, vislumbra, é um guia no inferno, é tão cego quanto o Dante no inferno. Ele vai desvendar a partir da sua crítica possibilidades de caminho, como era o poeta que desce com Dante no inferno. Por onde vai? O crítico traz a coisa reflexiva. O Mário nos ensinou a refletir sobre a obra da Anita Malfatti, da Tarsila do Amaral. Se você ler os escritos envolvem não só ‘ah, é bonito, é feio’… Ele é amoroso, político, brasileiro, de localização, que cores, onde você está indo. Ele convidou Blaise Cendrars, Tarsila, Oswald de Andrade, para fazer um passeio que na vida deles foi fundamental, uma viagem pelas cidades históricas de Minas em 1920 e pouco. Tarsila, Oswald, Blaise são pessoas acostumadas com a França, com a Holanda, com a Inglaterra, com grande mundo, onde tem os Picassos. Mas o Mário vai os levar para ver Aleijadinho, para conhecer Alphonsus de Guimaraens, os chãos de Ouro Preto feitos pedra por pedra, por mãos escravizadas, para conhecer um órgão de uma igreja transportado do litoral até o átrio de uma igreja em lombo de gente. Assombroso. Foi neste encontro que o Mário já estava trabalhando os seus pensamentos de patrimônio histórico, quem é o patrimônio, porque essa viagem desvenda que existe algo no Brasil que é de um valor imaterial, não tem o que pague, que é gente, aquelas pessoas, o povo. São os quilombolas, os indígenas, os cantadores, ele vai descobrir e vai escrever que o Patrimônio do Brasil é esse, que tem de ser cuidado, preservado, mantido, alimentado. Tanto que vai escrever depois Macunaíma, o herói sem nenhum caráter, um índio, preto, que vem do Amazonas, desce para São Paulo buscando seu Muiraquitã. Ele é um escritor que se obriga a ser representativo, exemplar melhor dizendo. Sabe esse tipo de conduta que você tem de ter não só para você, mas para a sociedade? Uma conduta, um jeito de agir. Ele fala que foi ser secretário de cultura de São Paulo, ele vai ter de ficar fazendo contas, dia e noite. E ele fala “eu sou um departamento de cultura”, que é assim que a gente mete as mãos no nosso trabalho. Esse é Mário de Andrade. 

Se deparando com essa obra toda, você mudou sua visão de Brasil, sua visão pessoal? O que mais te encantou em toda essa história do Mário de Andrade?

Boa pergunta, porque é verdade. Eu mudei muito, me transformei muito. Mudei porque é o seguinte: Quando você pensa o pensamento de uma pessoa tão às vezes adiantada, tão à tua frente, ele dá uma acelerada no teu raciocínio lento. Ele dá uma azeitada no teu pensamento emperrado por ideias fora do tempo. O negacionismo, por exemplo, a Terra é redonda. Imagina, um cara uma vez viu uma maçã cair na casa dele, disse, ‘as coisas não caem, são atraídas. É de baixo para cima’. Tem de inverter o raciocínio, exige agilidade, pulos. No ano que vem serão os 100 anos da Semana de Arte Moderna. Os primeiros anos do século vinte são anos em que toda sociedade está muito esperançosa. As expectativas são grandes. Por que? Tivemos avanços da ciência, descobriram micróbios, vacinas, tivemos avanços na política, então a expectativa do mundo no começo do século passado é muito grande. Imediatamente, na contra-revolução disso, a gente tem a primeira guerra mundial. Quando morrem 20 milhões de jovens, gente com 15 a 27 anos. Há um refluxo do otimismo geral muito grande. E neste mesmo momento temos uma pandemia de gripe que mata muita gente. Mas, na contrapartida disso, tem um movimento modernista que está nas artes, música, o primeiro samba do brasil é gravado, Pelo Telefone, composto na Tia Ciata, a gente tem a revolução socialista e temos, principalmente na física, o conceito absolutamente novo, que o tempo não é esse: você não fica velho acabou sua vida, não é assim. Einstein nos explica isso. Tudo é ponto de vista, fez a teoria da relatividade – para você ver onde me leva Mário de Andrade -, e Einstein vai explicar que tem dois observadores: o cara no trem e o parado. O parado vai olhar o trem e vai se mexendo, para o cara do trem é o contrário. Dependendo do lugar que você está, isso mexe na filosofia do mundo. Tem um romance chamado Ulysses, do James Joyce, que acontece em um único dia. Só que para você ler você precisa de quatro meses, se for muito bom. Porque depende do ponto de observação da pessoa. Essa é uma chave para entender, conseguir ler, o livro do James Joyce. O Mário de Andrade escreve um prefácio, de Paulicéia Desvairada, dizendo que para conseguir ler e entender os poemas tem de saber urrar, se não souber não vai entender esse poema. (Recita) ‘Horríveis cidades, estes homens de São Paulo, sempre iguaaaaaaaais. Quando passam pelos meus olhos parecem uns macacos.’ Poemas que começam a trazer o sarcasmo, a ironia. A Tarsila não estava neste momento. Porque ela, como muita gente, foi à Europa porque, claro, você vive em um Brasil retrógrado, atrasado. Difícil, ficamos sufocados. Nós mesmos estamos fazendo muito esforço para ficarmos animados. Os poemas da Semana de Arte Moderna são de animação, de ânimo, de levante. ‘Ódio vermelho, ódio fecundo’. 

E você acha que ele foi um gênio compreendido? Todo legado que ele deixou é reconhecido hoje, passados 100 anos da Semana de Arte moderna?

Da parte dele ele me diz: ‘não me chama de nada disso, não sou gênio. Sou um poeta, um artista, um trabalhador’. Ele se reitera, muitas vezes, essa utilidade. Ele morreu em 1945, em São Paulo, subitamente de ataque no coração. Fez uma conferência em 1942, três anos antes, no ministério das relações exteriores, no Itamaraty. Na época a Capital Federal brasileira era o Rio de Janeiro e nesta conferência, para as mais ilustres cabeças políticas e intelectuais, ele diz o seguinte: ‘quando estava compondo este poema, que é o poema falado no Municipal e abre a Semana de Arte Moderna, e está na história da literatura como um grande poema…’ Ele muitas vezes andava a pé, porque não tinha dinheiro para condução. Uma conferência chique, ele leva a coisa na carne. ‘É assim, andando a pé porque não tinha dinheiro para condução. Brigando em casa, com a família. Levei para eles uma estátua do Brecheret e falaram: o que é isso? Me alucinou, aquilo me bateu, virou um poema, Pauliceia Desvairada.’ Ele vai traduzir, como todo artista faz sempre, da melhor forma possível a realidade em seu poema. Como faz para ser ator? Estou fazendo lives, toda terça, até 7 de setembro (entrevista foi concedida em agosto), falando disso. Porque o Mário de Andrade se reporta a este tipo de condição, grana, dificuldade. Ele não foge disso, da questão do dinheiro. Uma hora ele fala: ‘gostaria tanto de ir para praias, mar, mas não posso, por causa desse país (grita), tenho de voltar, discutir isso de novo, negacionista, meu Deus!’. Ele reclamava disso.

Passou 100 anos e está igual…

Não é que está igual, é mais grave. Porque é um combate. Existe sim gente que é nazista, que tem de exterminar o outro. O (Bertold) Brecht diz que o nazismo é uma cadela no cio, tem cio eterno, está pronta para imediatamente se juntar a tudo que pode ser o facismo. Um general, o batalhão. O general dizia que o batalhão dele estava toda a alegria, ‘viva la ‘, imagina gente que acha viva a morte, elogia torturador. Na verdade verdadeira, isso que estamos fazendo é um trabalho constante. A tendência é, às vezes, nos vitimizar, ou a gente mesmo achar que está igual. Não é igual. É a farsa da situação se repetindo e contando com a nossa imobilidade. hoje, olha que está acontecendo, 17 de agosto, é o primeiro dia de nossa cidade aberta com nossos teatros, estamos com máscaras, com distanciamento social e loucos de vontade de entrar neste novo momento, mas a gente vai devagar nele. estamos entrando magicamente nisso.

Você citou as lives e também o espetáculo que vai estrear no dia 9 de outubro. Fala um pouco sobre isso.

O espetáculo chama-se Mário de Andrade desce aos Infernos por conta de um poema do Drummond. Esse modernista era amicíssimo dele, estava escrevendo A Rosa do Povo, Mário já tinha lido o poema, mandado cartas falando maravilhas, estava no prelo, pronto para imprimir. Mas Mário subitamente morreu em 25 de fevereiro de 1945, em pleno momento da quase última cena da segunda grande Guerra Mundial. Ele morreu no domingo às 10h da noite. Naquele tempo não saía jornal de segunda-feira. A notícia da morte só vai sair na terça-feira, depois do enterro já ter sido realizado no cemitério da Consolação. Então, o Drummond e muita gente do Brasil inteiro é surpreendido pela sua morte depois dele ter sido enterrado. Aí o Dummond escreve um poema, o penúltimo do livro, se chama Mário de Andrade desce aos Infernos, provavelmente inspirado ou pirado na história da descida de Orpheu aos infernos para buscar sua musa, sua inspiração, seu muiraquitã. No  caso do ator descer aos infernos é descer aos baixos. Tirar da cabeça e colocar nos corpos, nos infernos, onde moram nossos infernos, as dores, os amores, os desarranjos, as angústias. O ator tira da cabeça e coloca no corpo, desce aos infernos, isso que chama trabalho de mesas que são estas conversas que estou tendo. Os infernos são aqueles lugares quentes. 

Para o ano que vem, do centenário, existem outros projetos relacionados ao Mário?

Posso dizer o seguinte, a gente, do teatro, a gente tem saído nas manifestações, nas ruas, temos postado, querem vender o Capanema, queimar a Cinemateca, então, quer dizer, (temos) esse trabalho… Ano que vem tem  eleições. Esse trabalho desse Brasil se interpôs. Seiscentas mil pessoas morrendo, gente ganhando dinheiro com a vacina, fome, miséria, racismo, homofobia, questão de gênero, estas coisas estão acontecendo… Os projetos do ano que vem, a gente está neste negócio, estamos ao vivo no Brasil. Sem dinheiro para cultura. Estamos como está o povo brasileiro, o nosso trabalho foi uberizado, a cultura foi vilipendiada, massacrada, os atores estão sem trabalho. A gente está se reconstituindo como povo brasileiro. Tem de perguntar para um pai de família, com oito filhos, como são seus planos para o ano que vem… É de chorar. Mas não gosto que termine assim, por isso tem a gente, a arte, como diz o samba, ‘alegria, ao cantar a batucada, as morenas vão sambar, quem samba tem alegria…’

Queria que você me definisse o Mário em uma palavra e recitasse um trecho de um poema que você goste muito.

‘Não prego a guerra, nem a paz. Eu peço amor. Eu peço amor em todos os seus beijos, beijos de ódio, beijos de cólera, ou de fraternidade, ou de cópula. eu peço amor. Não prego a paz universal e eterna. Sempre contei com a imbecilidade….É por amor que Deus nos deu a vida. O amor não é uma paz.’ Definiria (Mário) pela palavra amor.

(Miriam Gimenes/Agenda Tarsila)

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